Maria Petronilho
Lisboa, 9/9/2004
A Rosa e o Ser
A rosa abriu os olhos aos
primeiros raios de sol.
Espreguiçou as pétalas e bebeu gotas de orvalho.
O ser pequenino acordou também e nele a esperança de ver o botão cerrado
que cuidava. Correu ao jardim e sorriu de alegria ao ver que o sonho
acontecera.
Estendeu as mãos pequeninas e, docemente, aconchegou no côncavo as
pétalas frescas e macias.
- Como é bom que tenhas nascido... murmurou. E ia mergulhar o rosto na
corola, para beijá-la e aspirar-lhe o perfume, quando uma vozinha
murmurou:
- Tem cuidado!
O ser pequenino assustou-se, mas depois pensou ser a voz da sua
imaginação.
Num ímpeto apaixonado, abraçou a rosa.
- Ai ! - Gritaram um e outro.
Um espinho acerado, perfurara a inocência do seu coração.
As pétalas ainda meio descerradas ficaram machucadas, e foram caindo.
Mas do âmago da rosa uma aura doirada se soltou e a ferida cobriu.
A gota de sangue, nele se envolvendo, na terra se embebeu.
O ser pequenino, elevou-se e pousou no coração da flor o seu coração
ferido.
Reflectiram juntos acerca da angústia de amar-se demasiado.
A rosa sentiu o calor de uma lágrima e murmurou:
- Não chores, porque nem me destruíste nem o teu sangue se derramou em
vão...
o pólen de soltaste, não se perdeu, fecundou o gineceu que esperava este
momento. E o teu sangue derramado alimentará a nova roseira por que vim.
Juntos seremos eternos, pois o amor além da brevidade nos guiou.
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