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Gianni Celati
"Avisos à navegação"
Tradução de
José
Lima
Esta história fala de um médico
que todos os domingos ia andar de barco à vela
com um amigo e a quem aconteceu a aventura de
ser possuído por vozes. Certa noite, há alguns
anos, voltava ele de um passeio de barco à vela
com o amigo e as respectivas mulheres, quando
lhe tocou ficar no convés para o seu turno ao
leme, enquanto os outros dormiam nos beliches em
baixo. A lua brilhava, o mar estava calmo, havia
o vento do costume que soprava de terra, e na
escuridão o médico ouviu vozes que lhe falavam
distintamente ao ouvido. Como não estava ninguém
com ele, pode imaginar-se o espanto, de o deixar
suspenso à escuta, contendo a respiração, sem
perceber o que se estava a passar.
Eram vozes de mulher que lhe chegavam muito
claras, como se falassem atrás dele. Vinham de
terra, de uma distância de pelo menos dez
quilómetros, trazidas pelo vento num canal de ar
que tornava possível tal fenómeno. Passados os
primeiros momentos de surpresa, o médico
compreendeu que se tratava de uma conversa entre
duas mulheres ao longe. Distinguia bem a voz de
uma mulher idosa e a de uma mais nova, talvez
filha dela. Provavelmente falavam as duas ao ar
livre. Durante o breve tempo em que o canal de
ar que trazia aqueles sons permaneceu aberto, no
meio das correntes ventosas que se encontravam e
se misturavam dali até à costa, conseguiu
apreender ou imaginar muitíssimas coisas. As
palavras vindas de longe deram-lhe a entender
que as duas mulheres estavam sem recursos, que a
filha tinha de fazer uma operação porque sofria
de cálculos renais, e que a operação iria
deixá-las em dificuldades pois não tinham
nenhuma assistência.
Pode parecer estranho que tenha sido capaz de
compreender tudo isto, mas dá-se o caso de o
nosso médico se ocupar todos os dias de questões
do género, tendo-se especializado no tratamento
de doenças renais. Só, ao luar, conseguiu traçar
um quadro da situação, e inclusive formular um
diagnóstico para a mulher mais nova.
Desaparecidas as vozes, ficara incapaz de pensar
noutra coisa, imóvel ao leme, mesmo depois de
ter terminado o turno dele. Diz que se sentia
fascinado pela voz da mulher mais nova, uma voz
de mulher muito decidida, que lhe dava vontade
de a ajudar. Como? Dava-se o caso de ter acabado
de chegar ao hospital dele um novo tratamento,
que não era caro, que se estava a experimentar,
com o qual os cálculos renais se dissolviam
dispensando a operação, e de o tratamento ser
gratuito por se estarem a estudar os seus
efeitos secundários.
É um homem que sempre quis ajudar os outros, e é
esse o seu defeito, diz ele. Terminado o turno
ao leme ficara ali a reflectir, e veio-lhe a
ideia de procurar a mulher mais nova, ainda que
não soubesse onde nem como. Queria procurá-la,
queria explicar-lhe o tratamento, oferecer-lhe a
solução gratuita para os problemas dela. As duas
mulheres deviam morar na costa em frente, e
devia ser possível encontrá-las num sítio ou
noutro, segundo ele. Diz que de um momento para
o outro o cérebro desatara a funcionar a grande
velocidade, abrindo-se a ideias que de outro
modo lhe teriam parecido estranhas, embaraçosas.
De resto, tudo na vida lhe servia para evitar
que lhe surgissem ideias do género, incluindo o
amigo, a mulher e o barco à vela. Um mundo sem
ar, diz, no qual sofria de enxaquecas e de
ligeiros estados confusionais. Não valia a pena
contar a história das vozes ao amigo, que só
pensava no barco à vela, nem à mulher, que muito
facilmente se enciumava. Não falou naquilo a
ninguém. O passeio concluiu-se na habitual
indolência do regresso, e no dia seguinte o
médico voltou ao trabalho no hospital como de
costume.
Passam algumas semanas. Uma tarde, sem dar por
isso, meteu-se no carro e foi até *** à procura
do ponto de onde lhe tinham chegado as vozes
nocturnas. No litoral já despovoado naquela
estação, pôs-se a vaguear sem saber a quem se
dirigir. Cafés meio vazios, blocos de casas que
pareciam ao abandono, painéis comerciais postos
ali por ninguém, e umas lojecas que expunham
colchões pneumáticos e bóias em forma de cisne,
com vendedores de ar enfastiado pela ausência de
clientes. Toda esta melancolia do mundo levou-o
a mudar de direcção. De resto, as duas mulheres
deviam ser pobres, não podiam morar em zonas
turísticas como aquelas. Deviam morar nas
aldeias do interior, mais despovoadas e
rústicas. Por isso decidiu continuar as buscas
para o interior, começando pelos velhos casarões
que despontavam ao longo das estradas de terra.
Casarões velhos e derrocados, perdidos no meio
dos campos, até ao horizonte que sobe até ao
perfil de colinas. No horizonte ao longe, vazio
a perder de vista, via-se um ou outro charco
onde floresciam nenúfares, junquilhos, caniços.
Andava de quinta em quinta, batendo porta a
porta, para perguntar por uma certa Milena que
sofria de cálculos renais. Isso de a mulher mais
nova se chamar Milena foi uma coisa que lhe veio
à ideia de repente, ao remoer sobre as vozes que
ouvira naquela noite. Mas sabia bem que era um
nome muito duvidoso, parecia-lhe tê-lo ouvido no
ar, só isso. Ou então tinha sonhado com ele nas
visões nocturnas que acompanhavam a sua busca de
casa em casa. Eram visões de quintas, de casais
abandonados, de cães a ladrar, de velhas de
bengala em antros escuros como os da Sibila.
Agora sonhava muito à noite, uma novidade para o
nosso médico. Tudo estava suspenso no ar, não
tinha outros indícios além do nome, e os
moradores das casas quinteiras não percebiam o
que procurava ele.
“Quem procura?” – “Uma tal Milena.” – “Milena
quê?” – “Não sei, uma que sofre de pedras nos
rins.” – “Aqui não há ninguém assim.” – “E por
aí? Não ouviu falar nada?” – “Mas que procura o
senhor, pode-se saber?” Acabavam por suspeitar
dele. Tomavam-no por alguém que andasse a
estudar os locais para ir roubar as casas, ou
por algum vendedor ambulante que lhes queria
vender alguma coisa. A cara que os moradores dos
casarões lhe faziam era demasiado dura para ele,
homem baixo, delicado, gorducho, com um
princípio de úlcera até. Diz que se via obrigado
a voltar para o carro a toda a pressa, com a
inquietação, o embaraço. Os velhos pareciam-lhe
ressequidos, e não se viam jovens por ali. As
mulheres vestidas de preto agitavam de maneira
estranha os braços para afastar as moscas, para
afastar os pensamentos, ou para mostrarem que
não tinham tempo para estar a falar com ele. Os
cães ladravam dos pátios, por toda a parte.
Afastava-se com passos cambaleantes, vinham-lhe
à ideia visões da vida naqueles sítios. Por
exemplo, a ideia de ali em redor haver antros
escuros habitados por bruxas, como os da Sibila.
Ou então via-se nas cozinhas enormes daqueles
casarões, e a apalpar uma daquelas mulheres
vestidas de preto. Apalpava-a por baixo das
saias. apalpava-lhe as mamas, arrastava-a para
cima de uma cama para a montar à pressa e depois
fugia. Eram assim as visões que lhe vinham à
cabeça certos dias enquanto rodava pelo campo,
diz o médico, e certos dias sentia-se possuído,
e começava a sentir-se cansado da sua pena. Mas
ao vaguear de carro de um lado para o outro mal
tinha meio dia livre, acontecia que se sentia
cada vez mais afeiçoado àquele nome, Milena. Diz
que quanto mais pensava nele mais lhe parecia o
nome certo, porque soava bem ao ouvido. Mal o
pronunciava para si mesmo, ouvia a voz decidida
da mulher que buscava. Parecia-lhe ouvi-la de
perto, como quando lhe tinha chegado de um ponto
ignoto da costa. Bastava parar numa estrada no
meio dos campos, sentado no carro com a cabeça
entre as mãos para se concentrar e tinha a
impressão de ouvir nitidamente aquela voz da
terra como se a ouvisse no rádio.
Procurou a ignota Milena pelas aldeias o Outono
todo, rodando de carro dois ou três tardes por
semana, sem nunca falar disso a ninguém. Mas no
princípio do Inverno tinha parado porque a sua
busca era realmente demasiado insensata, diz
ele. Tinha até apanhado uma bronquite, a juntar
a um lumbago que o fazia coxear um pouco. Só
que, quando regressou a Primavera, juntamente
com a febre dos fenos, voltou-lhe a mesma
fantasia e sentiu-se novamente possuído,
divagando muito sobre a voz que tinha ouvido no
barco. “Estou possuído, estou possuído”, dizia
de si para si, enganando-se no caminho a cada
cruzamento, espirrando a cada momento. E agora
no hospital metia baixas por doença para andar à
procura da ignota Milena, recomeçando a partir
do litoral turístico.
Estava-se em plena Primavera, mas vagueando ao
longo do litoral o nosso médico via tudo
cinzento à volta dele, entre os chalés de férias
que desfilavam, hotéis de férias, lojas para
veraneantes, instalações balneares e lugares
públicos apenas frequentados no Verão. Parecia
um planeta desabitado, com tabuletas de lojas
que nos olhavam a cada esquina, candeeiros
inúteis que se acendem ao crepúsculo, avenidas
geométricas com fachadas angulosas e umas pobres
árvores sufocadas no meio de um deserto de
asfalto. Escutava as conversas nos cafés e ouvia
falar de fortunas na lotaria, de novas marcas de
automóvel, de jogos de futebol, de pessoas ricas
e famosas. Um mundo sem ar, diz ele. Mas agora
também as suas voltas lhe pareciam desesperadas,
como alguém surpreendido por uma tempestade
muito longe de qualquer abrigo. Desesperada a
convivência com a mulher a quem não tinha nada
para dizer, nem aos filhos pouco simpáticos, com
más notas na escola, nem ao amigo que só falava
de barcos à vela, nem ao enfatuado do seu
director clínico que queria comprar uma aldeia
numa encosta. Sim, uma aldeia só para ele,
apanhado pelo delírio dos novos ricos que
grassava entre todos os médicos do serviço.
O médico andava de carro e ia
contando a si próprio a sua vida, como
indubitavelmente todos fazem – contam a si
mesmos a própria vida para confirmar terem
razão. Mas para ter razão até ao fim tinha
absolutamente de encontrar a ignota Milena, ou
então outra mulher com aquela voz decidida que
julgava ainda ouvir junto ao ouvido. Era aquela
a voz da mulher que devia mudar a vida dele,
segundo a quiromante Egle. Porque um dia era
isso que deveria acontecer, mudar de vida e
partir estrada fora, como se tudo estivesse já
escrito na ordem das coisas. Era esse mesmo o
parecer da quiromante Egle e ele ia vê-la uma
vez por semana, quarta-feira à tarde, numa sala
empoeirada cheia de flores secas, entrando pelas
ruínas de um palacete rodeado de ervas daninhas,
no bairro antigo da cidade.
Também por causa das enxaquecas que o
atormentavam e o princípio de úlcera que não
conseguia curar, não tinha já forças para andar
à toa em busca de uma mulher desconhecida. Agora
procurava-a com método. A quiromante Egle
orientava-o para pontos localizados no mapa
graças ao seu pêndulo mágico. E no início da
Primavera tinha já circunscrito uma zona dos
arredores, onde procurar o rasto da ignota
Milena. Mas onde quer que fosse o médico parava
e punha-se à escuta, esperando ouvir vozes como
as que ouvira no barco à noite. Precisava de
ouvir vozes da terra. Uma outra vidente, ou
antes uma cartomante, de nome Marilù,
confirmou-lhe que aquelas vozes eram o destino.
Era um homem baixo, gorducho, de olhar assustado
e claramente possuído por alguma coisa.
Tornara-se impaciente com os colegas de hospital
e na vida familiar, pela mudança que o destino
parecia prometer-lhe, tornava-se brusco e
intratável. Havia noites em que ao sair do
hospital ia dar uma volta de carro pelo litoral,
apenas para deitar a cabeça de fora da janela e
gritar ao vento: “Quero vozes de terra, vozes de
terra! Meu Deus, por favor, peço-te!” E depois
sentia-se completamente insensato, de tal modo
insensato que lhe chegava a parecer inútil
continuar no mundo.
Não sabia o que procurava, nem se interrogava
sobre o assunto, e nem falava nele a ninguém,
tirando a quiromante Egle que ia ver todas as
quartas-feiras à tarde. As buscas com o pêndulo
sobre o mapa eram a única maneira de descobrir
onde poderia morar a ignota Milena, que segundo
a cartomante Marilù devia estar doente e
precisar de ajuda. Diziam-no as cartas, nas
quais a ignota Milena aparecia frequentemente
como a papisa, ainda segundo a senhora Marilù.
“Está a ver aqui?” – “O quê?” – A papisa. Vê o
que está ao lado?” – “Não, o que é?” – “Esta é a
carta das desgraças dela.” – “De quem?” – “Da
mulher de quem anda à procura. Vê o dois de
espadas?” – “Vejo.” – “Esse é você que a vai
ajudar a escapar.”
Tento imaginar estes diálogos com a cartomante,
uma mulher loira oxigenada de meia idade, gorda
e expansiva, com muito bâton nos lábios, que lhe
fazia sempre profecias favoráveis. Tão
favoráveis que ele quase só pensava naquilo, diz
ele, esquecendo todo o resto, sem já se importar
com os contornos das coisas. Esquecia os locais
por onde passava e as horas do dia, descobrindo
com surpresa estar no hospital enquanto visitava
os doentes, ou então quando guiava pelos campos
desertos, ou em família à mesa comendo a sopa em
silêncio. Encontrava-se num sítio ou noutro,
fazendo tudo mecanicamente, imerso nos seus
pensamentos e pressentimentos. Mas diz que
ninguém se apercebia, pois que em contrapartida
se mostrava mais eficiente e preciso do que
nunca no trabalho, e parecia até mais sério e
responsável em casa, graças àquele estado de
sonâmbulo.
Chegamos agora a um momento importante da
história, de novo no Outono. Nos campos
desertos, a poucos quilómetros do litoral,
existe uma zona para onde desde há algum tempo a
quiromante encaminhava o nosso médico, graças ao
pêndulo oscilante por cima do mapa. Antes da
subida que dá para os montes e a serra, ao longo
de uma estrada rural, avista-se um descampado
com pedaços de asfalto arrancados, rodeado de
uma barreira de arame farpado. Para lá da
barreira e no fundo do descampado vêem-se umas
ruínas de cimento. É uma antiga fábrica de
cimento, abandonada há muito tempo. Na parte de
cima dos muros despontam os suportes de ferro
enferrujados, como furúnculos nos restos de
betão. Uma velha ruína sem nome, exposta aos
ventos e às chuvas. As ervas daninhas crescem
altas nos buracos do asfalto e por cima dos
blocos de cimento. Mas porque será que o médico
meteu na ideia que as vozes que ouviu no barco à
vela deviam ter vindo destas ruínas? Não
exactamente das ruínas, diz, mas de detrás das
ruínas.
Num café na aldeia vizinha, o dono zarolho,
ouvindo dizer que ele andava à procura de uma
tal Milena, parece que lhe respondeu: “Milena
quê? Milena, a gigante?” – “Não sei, deve ser
uma que sofre dos rins.” – “Bem, a Milena é
doente, mas de quê não sei.” – “E onde mora?” –
“Onde era a antiga fábrica, mas atrás, junto ao
canal”. É isso que conta o nosso doutor, que
aqui imagino quando andava às voltas com um
impermeável fora de moda, os ombros descaídos, o
ar cansado. Nessa altura tinha-lhe aparecido
também um pouco de asma, com frequentes faltas
de respiração. No entanto, o lugar sugerido pelo
dono do café coincidia com a área localizada
pela quiromante Egle por meio do pêndulo, e
também com a ideia com que ele ficara na noite
do barco à vela. Quer dizer que ficava no raio
de cerca de vinte quilómetros, de onde se podiam
ouvir vozes de terra. E durante uma tarde
inteira tentou chegar à parte de trás das ruínas
da fábrica, seguindo as indicações do dono do
café, mas sem perceber onde poderia estar a
estradinha de serviço que devia tomar, no meio
daquele dédalo de estradas de terra batida.
No entardecer outonal viu-se junto ao arame
farpado, diante das ruínas da fábrica, enquanto
a noite ia caindo e deu-lhe a impressão de ouvir
vozes vindas de terra. Ou julgou ouvi-las, pois
que muitas vezes provocava tais alucinações
quando queria. O ar estava completamente parado,
nem morno nem frio. Estava para chover, caíam
umas gotas. Então baixou-se e encostou o ouvido
ao chão, no asfalto. Veio-lhe o suor à testa,
diz ele, ao pensar que a famosa Milena estava
ali a dois passos e que ele ia finalmente
encontrá-la. Com uma lanterna, passou por baixo
do arame farpado, passou os maciços de ervas
daninhas, as ruínas da fábrica abandonada. Atrás
das ruínas surgiu um daqueles casebres do campo,
com uma chaminé exterior de tijolos
escalavrados. Um velho casebre baixo, junto ao
canal imerso nas trevas, e era ali que
desembocava a estradita de serviço de que tinha
andado à procura.
O que se terá passado aquela noite, não sei.
Parece-me que o médico teve uma falha de
memória, ou talvez não tenha querido falar
nisso. Mas enfim, adiante. Passaram alguns meses
e na Primavera o nosso médico pôs-se a escrever
a história do que lhe tinha acontecido no ano
anterior. Contava como uma noite tinha ouvido
vozes de terra no barco à vela e as suas buscas
para descobrir a pista da ignota Milena, e os
pensamentos que lhe tinham ocorrido enquanto
andava nessa procura pelos campos. Quando ficava
de serviço no hospital fechava-se no gabinete e
passava a noite a escrever, muito satisfeito,
diz. Em parte para desabafar e falar daquilo que
não podia contar a ninguém, enclausurado numa
vida que parecia sem esperança, com a mulher
infeliz com as ausências dele, os filhos cada
vez mais embrutecidos em frente da televisão , o
director clínico cada vez mais no delírio de
novo rico.
Todas as noites, depois do trabalho no hospital,
fazia muitos quilómetros para ir ao casebre na
margem do canal, com a chaminé exterior e as
paredes escalavradas. Ao chegar pela estradinha
de serviço via a mãe da tal Milena a espreitar
da janela. Era uma daquelas mulheres do campo
vestidas de preto, e mal ele saía do carro
encontrava-a imóvel à porta, fitando-o e
saudando-o com um aceno da cabeça. Diz ele que
tinha de apressar o passo com o embaraço que
aqueles olhares lhe criavam. A mulher ficava na
penumbra a fixá-lo com o olhar fixo, como se ele
fosse um animal que é preciso ter de olho por
ser de esperar alguma surpresa. Pesada, cheia,
vestida de preto até aos joelhos, com meias
pretas a chegar ao joelho. Não se percebia se
andava de luto ou se tinha andado de luto a vida
toda, diz o médico.
Quando ele se sentava a beber um café à mesa da
cozinha, via-a afastar-se movendo pesadamente as
ancas e os flancos, sempre sem lhe falar e
voltando os olhos para outro lado se se
apercebia que a observava. Depois entregava-lhe
os papéis onde tinha escrito todas as compras
que fizera e o preço da carne, do pão, das
revistas, dos medicamentos e dos biscoitos para
a filha, com o total do dia a pagar. O médico
punha o dinheiro em cima da mesa, enquanto
acabava o café e antes de ir visitar a filha. A
filha era uma gigante de mais de dois metros,
que raramente saía da cama por ser muito doente,
muito fraca, gorda e indolente. O médico
raramente a via levantada, e quando a visitava
ela olhava-o com as pálpebras semi-cerradas,
voltando depois os olhos preguiçosamente para o
lado. Parecia que as duas mulheres o olhavam
como um intruso, diz ele, apesar dos esforços
dele para as ajudar a tratar a filha e responder
às necessidades delas. Porque é uma pessoa que
sempre quis ajudar os outros, e é esse o seu
defeito, diz, ou antes a sua desgraça.
O médico tratava a filha das sequelas de uma
operação à vesícula biliar e visitava-a todos os
dias fazendo-lhe perguntas a que ela apenas
respondia com uns balbucios. Balbuciava com ar
cansado, como se ele a viesse incomodar
inutilmente, e não queria que ele lhe tocasse
nem sequer o pulso para sentir as pulsações. Se
ele estendia sequer uma mão, reagia assanhada,
com repelões violentos para que não lhe tocasse.
O médico tinha de recorrer à mãe para ter
indicações sobre os sintomas da filha e então
ouvia as duas mulheres trocarem entre si frases
em dialecto, de que não distinguia uma única
palavra. Cansava-se de perguntar e não fazia
mais perguntas, diz, cansava-se de estar sempre
a querer ajudar os outros.
Depois da operação à vesícula a gigante não
conseguia comer quase nada. Vivia de biscoitos
desfeitos no chá ou em água quente com açúcar, e
passava o dia vestida com uma velho fato de
treino azul, a desfolhar revistas ilustradas ou
a ver televisão. O médico nunca a ouviu dizer
duas frases seguidas, a não ser quando falava em
dialecto com a mãe. Diz que lhe parecia
indiferente a tudo, mergulhada numa indolência
de rapariga gorda e obtusa. Não devia ter trinta
anos, mas sendo assim tão gigantesca aparentava
uma idade indefinida, tirando a cara que estava
já apagada. Quando o médico a visitava, ficava
deitada de lado continuando de olhos pregados na
televisão, balbuciando à pressa as respostas ou
bufando como se ele não passasse de um
importuno. Até que por fim ele saía humilhado,
sem sequer uma palavra de despedida dela.
Em volta da casa à noite ouviam-se os gritos dos
pássaros, o ramalhar dos arbustos, por vezes o
marulhar da água no canal e muitas vezes antes
de entrar no carro o médico sentia vontade de
dar uma volta no escuro, até à fábrica em
ruínas, até ao asfalto e ao arame farpado. Ao
regressar espiava na sombra as duas mulheres no
quarto, encantado por alguma coisa, diz, sempre
possuído e sob a influência dos outros. No
quarto a filha estava estendida na cama diante
da televisão, imóvel, inerte, grande e pesada,
com os cabelos compridos e emaranhados, uma
gigante com uma cara que começava a murchar,
ainda que jovem e rosada. Por seu lado, a mãe
ajoelhada na cama fazia estranhos exercícios com
os braços esticados ao alto, como se invocasse a
ajuda do céu, e só muito tempo depois o médico
percebeu que aqueles exercícios deviam ser uma
espécie de ginástica.
Aqui vejo o médico muito titubeante, com um
impermeável deformado, a calvície agora
pronunciada, quando voltava para o carro e
recomeçava a fazer a si próprio as mesmas
perguntas de todas as noites. Perguntava-se se
aquela Milena que tinha encontrado seria mesmo a
mulher que tinha procurado tanto. É certo que se
chamava Milena, mas esta não sofria de cálculos
renais, mas sim de cálculos na vesícula. E a voz
dela seria a mesma que ouviu naquela noite?
Talvez, mas esta balbuciava e falava
pouquíssimo, era difícil comparar. Ainda por
cima a cartomante Marilù mudara a sua
interpretação dos factos, e segundo ela as
cartas diziam que não era aquela a mulher certa
do destino. O médico não conseguia compreender o
seu próprio destino e pedia explicações. “Olhe
para aqui, vê esta carta?” – “Vejo. Que quer
dizer?” – “Cuidado com as mulheres que lhe dão a
entender uma coisa em vez de outra.” – “Por
exemplo quem?” – “Por exemplo essa Egle, que o
mandou para aquelas duas.” – “Mas porquê? Anda a
enganar-me?” – “Faz tudo para o ter ligado a ela
como um súcubo e extorquir-lhe dinheiro,
juntamente com aquelas duas.”
Sem deixar de dar razão à senhora Marilù, que
visitava às sextas-feiras à noite, ele fazia
questão em continuar as consultas das quartas
com a quiromante Egle, porque agora era a única
que lhe dava razão. Assegurava-lhe que aquela
Milena era mesmo a pessoa que procurava, até
porque o pêndulo voltava sempre àquele ponto sem
nunca se enganar. Depois, todas as noites, a
altas horas, ao regressar a casa, recomeçavam as
discussões com a mulher. Os filhos olhavam-no
como um estranho, um bêbado talvez. Mas porque
não conseguia cortar com aquilo? Porque estava
possuído, diz, sob a influência dos outros a
quem não se pode escapar. E também porque ele é
uma daquelas pessoas que sempre quis ajudar os
outros, mesmo com prejuízo próprio, diz ele.
Possuído como estava, um belo dia decidiu que a
vida podia seguir como quisesse, não lhe
interessava. Por ele, a partir dessa altura
faria o que calhasse, dia a dia, sob a
influência dos outros ou levado pelos
acontecimentos. Se os outros pensam que dominam
a vida, melhor para eles, ele já não acredita
nisso. Há-de deixar-se andar, fará tudo o que o
seu destino quiser, ainda que não compreenda
realmente que vem a ser isso de ter um destino.
Entre outras coisas, o médico agora não
conseguia ouvir as vozes de terra que trazia no
ouvido quando andava em busca da ignota Milena.
Muitas vezes no hospital o telefone tocava e
chegavam-lhe ao ouvido vozes desencorajantes,
vozes abstractas e rígidas, como se se pusessem
em pose a cada frase. Voltava-lhe então o desejo
de ouvir vozes de terra, vozes de terra! Rezava
a Deus para que lhe mandasse de novo vozes de
terra, e não sempre e apenas vozes do alto,
vozes da televisão, vozes de poderosos, ou então
vozes de apáticos que citam apenas dados seguros
para não serem contestados, ou vozes de gente
que quer ser alguém e então imitam as vozes de
outros.
A gigante estava sempre na cama, diáfana e
obesa, e também carrancuda mal ele entrava no
quarto. Exactamente por se sentir repelido, diz
o médico, é que cada vez tinha mais vontade de
entrar na vida dela, de casar com ela talvez, de
se tornar num criado dela. Levava-lhe presentes,
caixas de chocolates, vestidos até para que ela
se mudasse e não ficasse sempre na cama com o
fato de treino. Entrava no quarto com o
presente, mostrava-lho sem dizer nada, ela com o
dedo fazia-lhe sinal para que o deixasse em cima
da cadeira, e voltava de imediato a olhar para a
televisão em cima da cómoda. No quarto reinava
um cheiro a fechado, a suor, a carne, a lençóis
sujos, a flores murchas, mas não o incomodava.
Pelo contrário, diz que aquele cheiro lhe dava a
única sensação que chegava a sentir de
intimidade com a gigante. A mãe vestida de preto
vigiava sempre a cena, como se temesse algum
ataque à filha. O médico tinha de se voltar para
ela: “Como está a Milena?”. A mãe respondia
apenas: “Hoje estava enjoada, não consegue comer
nada”. Naturalmente os chocolates não eram
indicados, faziam mal à doente. Comia-os a mãe.
O médico agora apenas fingia tratar da gigante,
como os médicos fazem muitas vezes no hospital,
diz ele.
É também estranho que, desde o primeiro dia,
nenhuma das duas mulheres lhe tenha perguntado
porque se interessava por elas. Não lhe tinham
perguntado porque se tinha oferecido para levar
a gigante ao hospital para ela ser operada à
vesícula, nem porque vinha visitá-la todos os
dias, porque lhes pagava as contas, porque tinha
pago as reparações no telhado. Era como se tudo
isso fosse normal. Nunca lhe tinham perguntado
quem era, que queria delas, nem lhe tinham
agradecido uma única vez. A mãe vigiava-o a
todos os momentos, sem voltar a cabeça, pelo
canto do olho. Depois da visita à doente, por
duas ou três vezes, o médico tentou falar com
ela na cozinha, para perceber se eram aquelas as
mulheres que tinha ouvido no barco à vela.
Conversas impossíveis, porque a mãe respondia a
contragosto, com suspiros de enfado. Havia
momentos em que o deixava a falar sozinho,
levantava-se mexendo as ancas pesadas, os
quadris largos, como para mostrar a carne toda
que trazia debaixo da roupa. Era a impressão que
lhe dava, e diz que ficava excitado a
observá-la. Depois ela voltava a sentar-se,
olhando para outro lado, como se estivesse
aborrecida com a insistência dele. Não
compreendia o que ele queria saber. “Que vozes?”
– “As vozes que ouvi uma noite.” – “Onde?” – “Ao
largo, eu estava num barco.” – “E daí?” –
“Queria saber se eram as vossas vozes.” –
“Quando?” – “Há dois anos.” – “Não sei.”
No dia seguinte voltava à quiromante Egle, para
receber nova confirmação. Mas a certa altura
pareceu-lhe que também a quiromante Egle estava
farta dele, farta de ter de lhe repetir sempre
as mesmas coisas. Além disso, apercebeu-se de
que não se parecia nada com uma Sibila, pois se
vestia a bem dizer como uma bailadeira, com
pulseiras e véus, perfumes e aromas que o
envolviam na sala decrépita, com o tecto que
metia água. Com a cartomante Marilù não havia
tanta encenação, mas não mudava a interpretação
dos factos. Repetia-lhe que aquela não era a
Milena que procurava. Um dia o médico
perguntou-lhe: “Mas o meu destino onde está?” –
“Qual destino?” – “O que estava nas cartas.” –
“Deixe lá as cartas, Oiça o que lhe digo, que o
andam a enganar”. Agora não lhe falava como
vidente, mas como alguém que faz questão em lhe
mostrar a sua honestidade profissional e em não
trair os clientes. Não se lembrava sequer que
lhe tinha prometido um destino, por isso deixou
de ir vê-la nas noites de sexta-feira. De resto,
também ela não se parecia nada com uma Sibila,
ou pelo menos com as Sibilas que vira nas suas
visões nocturnas, nos tempos em que andava pelos
arredores.
Tinham-lhe dito que nas montanhas havia
verdadeiramente uma velha Sibila, que morava num
antro escuro, curava as pessoas, e lia o destino
no chumbo derretido dentro de uma bacia. Vivia
nas montanhas que se viam a aparecer da casa das
duas mulheres, para lá das colinas. Um dia
deixou o hospital ao fim da manhã, porque queria
ir à procura da velha Sibila e ter um veredicto
insuspeito. Por volta da uma hora chegou às
ruínas da fábrica de cimento, que parecia cada
vez mais derribada, as partes em betão com ar de
murcharem ao sol. Aí chegado, decidiu fazer uma
paragem e pedir informações à mãe da gigante,
para não se perder nas montanhas que não
conhecia. Quando chegou em frente da casa,
apercebeu-se de que a mãe não devia lá estar,
porque não se via a bicicleta dela. A porta
estava entreaberta, o resto parecia normal, sem
nenhum ruído em redor.
Entra na cozinha, tudo em silêncio. Vê a porta
do quarto entreaberta. Vai espreitar da
ombreira, e vê a gigante na cama a dormir. Nunca
a tinha visto dormir, e também nunca a tinha
visto com roupas diferentes do fato de treino.
Agora tinha um vestido às flores que ele lhe
tinha dado, ou antes tinha-lhe dado o tecido e a
mãe dela tinha-o feito. Estava deitada de lado,
encolhida, com os joelhos quase junto à cara e
as coxas grossas todas descobertas naquela
posição. Também a fenda no meio das nádegas
estava destapada, entre aqueles dois montes de
carne flácida e diáfana. Tinha o polegar junto à
boca, como se tivesse acabado de o chupar.
Muitas vezes, durante as visitas, o médico
tinha-a visto meter o polegar na boca,
prendendo-o entre os lábios entreabertos sem o
chupar. Agora, deitada encolhida de lado, tinha
o polegar junto aos lábios. Mas estava tão
distendida e pacífica no seu corpo enorme, tão
leve a respiração no sono, que não conseguia
deixar de ficar ali a espreitar. Entrou no
quarto, onde havia aquele cheiro de flores
murchas, de lençóis, o cheiro a roupa suja, a
suor. Na cama à volta dela estavam espalhados
alfinetes de peito, bonecas, colares, pulseiras,
anéis. A rapariga monumental tinha junto ao
ventre vários anéis, como se tivesse estado a
experimentá-los ainda há pouco.
Deixou-se ficar a contemplá-la sentado numa
cadeira, sem que ela se mexesse. Tudo o que
havia em torno, todo o mundo em torno da casa e
até ao céu, se tinha acalmado ou parado. Diz ele
que tudo estava em ordem naquele momento, apesar
da confusão no quarto, com meias pelo chão, uma
colher suja, restos de biscoitos esfarelados em
cima da cama, revistas abandonadas na cadeira.
Bastava apenas estar quieto e tudo ficava calmo
e sem desejos, sem ter de se perguntar se a vida
vai bem ou mal. Diz que lhe apetecia adormecer,
não pensar mais na Sibila das montanhas. Tinha
até a impressão de estar já no antro da Sibila
que devia dizer-lhe o destino. São coisas que
não se podem explicar, diz ele, e eu aqui dou-as
como me vêm à ideia. O médico sentia uma grande
vontade de dormir, contemplando a rapariga
gigantesca que dormia tão sossegada na cama, com
uma cara que agora reconhecia, e também ela sem
desejos. Uma cara de boneca de celulóide, oval,
com uma boca pequena como a das bonecas. Uma
cara de rapariga pequena, que nunca cresceu, mas
cheio de rugas, com se tivesse uma pele que
debaixo da superfície rósea fosse a de uma
velha.
Mas no próprio momento em que estava a pensar
que talvez fosse ela a Sibila, apercebeu-se que
a mãe dela o observava da porta com um ar
severo. Recompôs-se e dirigiu-se embaraçado para
a saída. Não sabia o que devia fazer. A mãe
continuava a tê-lo de olho como se ele tivesse
tramado alguma maroteira. Diz ele que naqueles
olhares havia a insinuação de que ele tinha
querido violentar a gigante, ou tocá-la ou coisa
do género, mas de qualquer modo uma censura por
o ter apanhado no quarto da filha. A mãe fechou
a porta do quarto, devagar, e depois pôs dois
pratos na mesa, sempre com os olhos postos nele.
Ele não sabia se devia ir-se embora ou ficar,
embaraçadíssimo com aqueles olhares. Então a
mulher convidou-o a comer a sopa, deitando-a num
prato e apontando-lho com um gesto decidido. O
médico não tinha fome, mas comeu na mesma.
Depois a mãe da rapariga disse-lhe para ir
rachar lenha, como uma ordem que não se discute.
E durante a tarde toda esteve a rachar lenha no
terreiro atrás da casa, vendo-se à noite com
dores nas costas, os ossos moídos, além da
enxaqueca. Tinha trabalhado tanto com o machado,
que caminhava cambaleante e pediu que o deixasse
estender-se.
A mãe apontou-lhe o velho divã com as molas a
sair do tecido, onde se deixou cair num sono
profundo. Acordou era já noite e em cima da mesa
havia um prato de sopa fria, evidentemente
deixado ali para ele. As duas mulheres estavam
no quarto, de onde lhe chegava o som da
televisão. O médico comeu, mas sentia-se tão
cansado, com dores de cabeça, que não lhe
apetecia voltar para casa. Foi buscar uma manta
ao carro e dormiu naquele divã incómodo.
No dia seguinte era domingo, não tinha de ir ao
hospital, e desde que acordou a mãe começou a
dar-lhe ordens, umas a seguir às outras, sem o
olhar de frente, mas vigiando-o pelo rabo do
olho, com gestos e palavras que o intimidavam.
Para começar, mandou-o acender o lume, depois
mandou-o à aldeia fazer as compras, depois acima
do telhado ajustar as telhas, e depois tirar um
antigo ninho de pássaro na boca da chaminé. À
tarde mostrou-lhe um monte de lençóis para levar
para a arrecadação, onde estava uma tina cheia
de água fumegante e ele ficou a remexer a roupa
na tina e depois foi estendê-la nos arames em
frente da casa.
Diz ele que estava a ficar com o fígado inchado,
com enjoos, além da enxaqueca e de um dente que
lhe doía. À noite não lhe apetecia nada comer,
mas comia a sopa do costume, e só queria fugir,
mas estava completamente exausto. Nos dias que
se seguiram, a mãe dava-lhe ordens
continuamente, como quem falasse a um criado.
Não lhe dava sequer tempo de visitar a filha e
mal ele entrava em casa punha-o a trabalhar. Mas
porque voltava àquela casa? Não se sabe. E assim
teve de levar a lenha rachada para a cozinha,
tirar todos os garrafões e lavá-los, andar nas
traseiras da casa a destruir as tocas das
toupeiras, deitar insecticida para os
escaravelhos na arrecadação, cavar a horta,
descascar batatas, limpar a chaminé e fazer
muitos outros trabalhos de que não me lembro.
Mal acabava uma tarefa, a mulher dava-lhe outras
ordens com alguma palavra seca, e ele obedecia
sem saber por quê. De cada vez ficava especado,
depois olhava-a a afastar-se remexendo o
traseiro enorme no vestido preto, meneando os
quadris com todo o seu peso. Mas acontecia
sempre que ela se voltava para surpreender
aqueles seus olhares desajeitados. Parecia que
lhe lia os pensamentos, que o dominava mesmo
quando estava virada para outro lado. Cada vez
mais incomodado, com a enxaqueca e as dores de
dentes, o médico lembrava-se que a cartomante
Marilù lhe tinha previsto que viria a tornar-se
escravo das duas mulheres.
Mas depois mesmo ao voltar a casa dele sentia-se
dominado pela mãe vestida de preto, e
parecia-lhe que continuava a receber ordens
dela, que tinha de fazer tudo depressa no
hospital para ir a correr receber novas ordens à
casa junto ao canal. Entretanto sentia que os
braços lhe ficavam frouxos, a calvície ganhava
terreno no cimo da cabeça e não tinha tempo para
ir ao dentista tratar os dentes. Com os colegas
do hospital não trocava já nenhuma palavra, a
não ser por imperativa necessidade e eles
olhavam-no como um falhado, um desgraçado que
nunca faria carreira. Quando voltava a casa a
mulher ficava amuada durante horas e depois de
repente punha-se a suspirar: “Mas onde vais tu?
Onde passas a noite? Tens uma amante? Diz-me,
que ao menos fico com o coração tranquilo”. E a
ele dava-lhe para responder apenas: “Porque não
morro eu? Porque não morro?”.
Não lhe apetecia continuar em casa e anunciou à
mulher que tinha uma amante e que ia para casa
dela. Mas disse-lho ao telefone, para não ficar
também á mercê das lágrimas dela, porque os
outros tinham o poder de o dominar
completamente. Na casa junto do canal não lhe
agradava muito dormir no incómodo divã de molas,
que lhe furavam as costas. Falou nisso à mãe da
gigante e ela uma noite pegou num candeeiro a
petróleo e foi com ele às ruínas da fábrica,
onde havia no primeiro andar um grande hangar de
cimento cheio de escombros, com uma tarimba a um
canto. Alguém devia ter dormido ou morado ali,
porque se viam cinzas de uma fogueira, lenha
queimada, as janelas tapadas com plásticos.
Enquanto estavam ali, com o candeeiro de
petróleo no chão espalhando uma luz fraca no
meio das sombras, diz o médico que compreendeu
que era um escravo. Não apenas súcubo, mas
escravo da situação que tinha criado com a sua
mania de ajudar os outros. Não podia voltar para
casa, porque seria escravo da outra situação que
tinha criado em família.
A mãe vestida de preto punha um cobertor na
tarimba e ele fixava-a de trás, num estado de
perturbação. As grandes nádegas dela, com a
carne tremulante debaixo da roupa, em certos
momentos excitavam-no. Quando lhe passou perto,
estendeu a mão para a tocar, aflorou-lhe o
flanco. Ela não disse nada, voltou-se a fixá-lo
com um olhar severo, à espera dos movimentos
dele. Então diz o médico que o assaltou a ideia
de inverter a situação, de a comprar, de a
prender pela trela, apoiando-se na ganância
dela. Sacou da carteira algumas notas das
maiores e pô-las em cima da tarimba. Tremia
todo, diz ele, mas queria dominá-la, submetê-la
à sua vontade, e compreender finalmente qual era
o seu destino. Nem ele sabe como conseguiu
recuperar o sangue frio, embaraçado com a
situação, para fazer um sinal com a cabeça a
indicar a cama. Ela percebeu, pegou no dinheiro
e enfiou-o no seio, depois começou a tirar o
vestido sempre de olho nele e depois deixou-se
montar em silêncio em cima da tarimba. Fez tudo
sem um suspiro ou um arquejo, tornando-o ainda
mais súcubo com o seu mutismo, ainda mais
escravo, depois voltou a vestir-se
tranquilamente e foi-se embora sem se despedir.
A coisa repetiu-se duas vezes, depois ele deixou
de ter vontade. Quando certas noites ela o
olhava com ar de quem espera, o médico
limitava-se a dar-lhe o dinheiro. Depois também
ela deixou de o olhar daquela maneira, pois o
médico dava-lhe todo o dinheiro que ganhava no
hospital, retirando o que tinha de pagar à
mulher como pensão alimentar. Na casa do canal
ele e a mãe tinham-se tornado como marido e
mulher, diz ele, tirando a variante de não
dormirem juntos e de nunca se falarem. Ele
continuava a dormir na tarimba na fábrica em
ruínas e obedecia a todas as ordens que recebia
da mãe vestida de preto. Agora a gigante parecia
tratá-lo como a um pai ou a um tio e embora
nunca falasse com ele deixara de bufar quando
ele estava por perto. Ele porém tinha medo de
ficar parado a olhar para ela, como gostaria, a
estudar aquela indolência sem desejos, porque a
mãe haveria de espetar nele os seus olhos duros
que o deixavam logo confuso. De qualquer modo
tinha já compreendido o seu destino, já não
precisava de ir consultar a Sibila.
Naqueles campos não há consolações, não há nada
a esperar. Do seu bunker poderiam ver-se as
estrelas e talvez também as luzes das casas pela
montanha se as janelas não tivessem sido tapadas
com plásticos. Naquele hangar enorme cheio de
escombros, com cinzas espalhadas e uma fogueira
acesa no chão, ouvem-se os gritos de uma ave
nocturna no silêncio da noite. Estamos na noite
de Inverno em que o amigo dele o foi lá buscar e
o encontrou febril. Sentados à fogueira os dois
homens projectam sombras que tremulam juntamente
com as chamas devido às correntes de ar vindas
de baixo. Naquela pouca luz, o médico, vestido
com roupas gastas, parece um velho barbudo
macilento. No hospital já só continua graças à
bondade do director clínico enfatuado, como o
amigo do médico sabe. O médico acabou de
escrever o relato de toda esta história e quer
que o amigo o leia ali, junto à fogueira. Então
o outro põe-se a ler sentado numa caixa de
fruta, enquanto lá fora cai a neve e o médico
treme de febre, com a perna esquerda a doer-lhe
com o reumatismo. Ainda não há muito a gigante
mandou a mãe chamá-lo, porque não se sente bem.
Mas o médico quer ficar no hangar junto à
fogueira, até o amigo acabar de ler o relato e
por isso mandou embora a mulher vestida de preto
com dois berros de histérico.
Está frio, o lume não aquece. Enquanto o amigo
lê o relato, o médico revê aqueles homens no
molhe, operários, grevistas, vagabundos, não
sabe, que naquela manhã estavam ali, recortados
contra o céu, contra as nuvens, contra as vagas
do mar que se erguem em ondas altíssimas. O
amigo não compreende de que é que ele está a
falar. Talvez esteja a falar de alguma coisa que
viu na televisão, quando à noite vai aquecer-se
um pouco a casa das duas mulheres. O médico diz
que eles ainda devem estar lá no molhe no meio
das ondas, à espera. “À espera de quê?” Não
responde. Diz que já não há lugar no mundo para
gente como ele, para aquilo que pensava ser ele,
para aquilo que ele pensava. E acrescenta:
“Pensávamos estar acima de tudo, mas somos como
os outros, como os animais, como os pássaros,
como as vacas numa mangedoura”. E o amigo dele
repara que também estas palavras parecem saídas
de uma televisão, não são vozes de terra.
Agora não há mais do que o frio do Inverno, que
o nosso médico sente ainda mais porque come
pouco e está sempre a espirrar, ali fechado
naquele hangar de cimento. A tarimba é um montão
de lençóis sujos e amarrotados, a única manta
que existe tem-na pelas costas. A mãe traz-lhe
todos os dias alguma coisa para comer, mas
pouco, só um prato de sopa, um pouco de pão com
alguma coisa. E quanto menos comer mais frio
terá, como se compreende, enquanto ali as ondas
se erguem contra o quebra-mar e a fúria do mar
continua por todo o litoral, dizem as notícias
da rádio desde há alguns dias. Uma parte do
litoral foi invadida pelas águas, mas agora toda
a costa está dominada pelo mar, diz o médico,
trinta ou quarenta quilómetros são um puro
deserto sem abrigo.
O amigo acabou de ler o relato. O médico diz que
não quer ouvir comentários, odeia comentários.
Mas gostaria que o relato fosse publicado,
porque então alguém o poderia ler e escrever-lhe
para lhe dar a pista certa, caso a famosa Milena
seja realmente uma pessoa viva e não apenas uma
ideia fixa do seu espírito. Espera ainda vir a
conseguir saber se a mulher de voz decidida que
o tinha fascinado é a gigante indolente ou uma
outra pessoa ou mesmo uma quimera. Mas para
compreender tudo isso é preciso muito tempo, diz
o médico, o tempo de se deixar andar e de se
perder por completo e o tempo de subir de novo a
encosta em busca de outra coisa. Sim, e é
preciso saber seguir em frente sem nenhuma meta,
sem nenhum desejo que nos leve sempre atrás de
sempre novas quimeras. É este o sentido do
destino, segundo ele. Nesta altura acrescenta:
“Estou tão fraco que já não posso decidir nada”.
Pela manhã, o amigo leva-o de carro de volta a
casa, envolto numa manta, pálido como um morto,
com estremecimentos de febre tão fortes que o
abanam todo. Chovem gotas enormes, tudo é
cinzento na paisagem. Naqueles campos quando
chove muito os terrenos ribeirinhos ficam
imediatamente alagados e então vêem-se em volta
pessoas de guarda-chuva a pescar nos canais que
se cruzam no meio dos campos. Vêem-se
bicicletas, alguns raros carros que desaparecem
no nevoeiro e casas quinteiras a despontar de
uma bruma cinzenta. Toda aquela escuridão e
aquele cinzento da bruma sobre os canais parece
um encantamento, onde as pessoas vivem
protegidas dos clamores do mundo. Mas pode
também produzir delírios melancólicos, ou outros
delírios que é inútil definir. Talvez tenha sido
essa atmosfera a influenciar o nosso médico,
bloqueando-o na fábrica de cimento abandonada,
no meio das ervas daninhas que invadiram todo o
terreno circundante, por trás do casebre junto
ao canal onde moram as duas mulheres. Quando
saiu de casa era o fim da Primavera, agora
estamos no Inverno. Nevou durante a noite, no
seu bunker gelava-se mesmo junto à fogueira.
O médico acorda quando chegam ao litoral. Treme,
depois endireita-se na cadeira: “Olha, olha!”
Aponta para os homens no molhe junto ao
quebra-mar, enquanto as vagas se erguem acima
deles, altas e brancas. Também o amigo os vê. À
distância parecem refugiados, talvez
desempregados, talvez só vagabundos desocupados.
Todo o mar em fundo é plúmbeo, tirando as ondas
brancas e espumejantes contra o quebra-mar.
Vê-se o molhe comprido como uma fita que entra
pelo meio do mar, pelo meio da fúria das ondas,
e ali alinhados em fila aqueles homens. De longe
têm ar de pessoas mal vestidas, com
guarda-chuvas, lonas na cabeça, jornais na
cabeça, ou envoltos nos impermeáveis, de mãos
nos bolsos, mas calmos, imóveis, indistintos.
Não se percebe o que estão a fazer, ali reunidos
no meio da borrasca. Parece que esperam o fim de
tudo, pacientemente, sem se moverem, no meio dos
salpicos das ondas, expostos à tempestade que
não pára de se enfurecer.
O médico tosse, deve ter uma pneumonia, além de
todos os outros males e achaques. O amigo terá
de o levar ao hospital, onde ficará entregue aos
seus colegas com o delírio de novos ricos. É
esta a melhor solução, diz o amigo, porque o
médico ficará muito mal com aquela gente. Mas eu
não sei o que será melhor, talvez seja um erro
como tantos outros, como as outras quimeras que
se perseguem. A rádio, que o amigo acaba de
acender, anuncia marés fortíssimas ao longo da
costa. Ouve-se o vento uivar com força, abanando
os postes dos candeeiros, enquanto se espera um
furacão vindo do oceano ou sabe-se lá de onde,
pouco importa. Em volta é como um deserto, mas
um deserto cinzento de asfalto, entre o desfilar
de chalés de férias, hotéis de férias, lojas
para veraneantes, instalações balneares e
lugares públicos apenas frequentados no Verão.
Dá a impressão de um planeta desabitado, com
tabuletas de lojas que nos vêem passar,
sacudidas pelo vento. Na rádio ouve-se uma voz,
que parece a última voz da terra, transmitindo
avisos aos navegantes.
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