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Eduardo Cintra Torres,
"A Biblioteca"
"Biblioteca Luís de Camões. Oferta de um grupo de patriotas de Lisboa. 1908" O
orgulho da inscrição ia-se apagando, caindo como caía a caliça pobre, mas as
portas de madeira aguentavam há quase um século a abertura às nove e o fecho ao
meio-dia e meia, a abertura às duas e o fecho às cinco e meia. A sala de leitura
ficava a seguir ao depósito dos livros. Realmente um depósito: ninguém os lia.
Que livros ali haveria? Os mesmos de 1908? Teria entrado algum livro depois? E
os espaços vazios nas prateleiras, esperariam eles sem esperança alguma obra
recente ou seriam antes lembranças de roubos e de devoluções por fazer para
sempre? Coisas de antigamente. Agora já nem mesmo se roubavam livros desta
biblioteca...Ler
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Mande-os para nós! através do
e-mail do Portal.
João Medeiros,
"Daqui Só Saio
Quando Morrer"
O cão gemia tanto que miava. Pendurou-o debaixo do braço, pegou-lhe pela cauda
pendular, volteou uma corda de ponto cruzado na sua ponta e uma lata destapada
de querosene na outra, e soltou-o no chão. Balançou a perna bruscamente de um
lado até ao rabo do cão, que ganiu num salto e solto fugiu regando óleo pela
lata. Araújo soltou então um fósforo aceso no riacho de combustível. Num só
fôlego, o fogo galopou até ao cão, perseguindo-o através da floresta. Os
pinheiros e os eucaliptos acenderam-se como lâmpadas...Ler
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Nuno Berkeley Cotter,
"Plume"
No balcão do bar as garrafas dançavam com os
respectivos copos compassadamente. De vez em quando o barman - neurótico e
magrinho - puxava do bastão de baseball e partia tudo só para poder limpar.
Tentava fazê-lo o mais silenciosamente possível. Não gostava de incomodar a
clientela. O sítio era engraçado e acolhedor. Chamava-se Plume porque não havia
nome melhor....Ler
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Leila S. Terlinchamp,"Nervos"
Súbito uma revolução no céu. Meus carneirinhos foram varridos com
fúria e covardia. Contemplava essa transformação quando mamãe chegou e
perguntou-me: O que há, meu querido? Nada, estava assistindo à performance das
nuvens. Respondi. Esta bela performance está a nos dizer que mais tarde haverá
chuva em abundância. Disse ela. A chuva é boa, mãe. Respondi....Ler
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Bruno Horta,"Se Te Toco é Porque
Gosto de Ti"
Houve um tempo em que tínhamos dezassete anos.
Oh, que belo tempo, o nosso, as saudades dele! O que não nos permitimos hoje,
fazíamos então, sem razão. Assusta a ligeireza daquilo tudo, agora que, por cima
do ombro, vemos com olhos em lágrimas o que fazíamos no nosso tempo. Não há
agora margem para qualquer manobra desviante, mas então havia. Aquilo era de dia
e de noite. No Verão, então! O desnudar com intentos belos, somente. Na praia,
quantas e quantas vezes não nos despíamos todos e nus, como anjos, nos fazíamos
ao mar. Tão inocentes. Tão felizes, os corpos uns nos outros. Tocavam-se os
corpos e nós éramos livres. Hoje, estamos votados ao exílio da vergonha....
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