Arquivos

Ansiedade

ansiedade-doençaO que é ansiedade ?

A ansiedade é um sinal de alerta, que permite ao indivíduo ficar atento a um perigo iminente e tomar as medidas necessárias para lidar com a ameaça. Portanto é um sentimento útil. Sem ela estaríamos vulneráveis aos perigos e ao desconhecido. É algo que está presente no desenvolvimento normal do ser humano, nas mudanças e nas experiências novas e inéditas. A ansiedade permite a um ator que estreará uma nova peça, ensaiar o suficiente para ter maior segurança e, consequentemente, menor ansiedade; ou então que um jovem se prepare demoradamente e até com vários detalhes irrelevantes para um encontro amoroso. Após algum tempo, a preparação para o encontro com uma antiga namorada se torna quase desnecessária, já que não há mais ansiedade.

Como surge a ansiedade?

A ansiedade pode surgir repentinamente, como no pânico, ou gradualmente, ao longo do tempo, que pode variar de minutos a dias. A duração da ansiedade pode variar de alguns segundos a anos e sua intensidade pode variar do muito leve ao gravíssimo. A ansiedade pode ser aumentada por um sentimento de vergonha: “Os outros notaram que estou nervoso”. Alguns ficam surpresos ao notarem que os outros não perceberam sua ansiedade ou não notaram a sua intensidade.

Como é a ansiedade normal?

A ansiedade normal é uma sensação difusa, desagradável, de apreensão, acompanhada por várias sensações físicas: mal estar epigástrico, aperto no tórax, palpitações, sudorese excessiva, cefaleia, súbita necessidade de evacuar, inquietação etc. Os padrões individuais físicos de ansiedade variam amplamente. Alguns indivíduos apresentam apenas sintomas cardiovasculares, outros apenas sintomas gastrintestinais, há aqueles que apresentam apenas sudorese excessiva. A sensação de ansiedade pode ser dividida em dois componentes:

  1. a consciência de sensações físicas, e
  2. a consciência de estar nervoso ou amedrontado.

Quando a ansiedade é anormal?

A ansiedade anormal ou patológica é uma resposta inadequada a determinado estímulo, em virtude de sua intensidade ou duração. Diferentemente da ansiedade normal, a patológica paralisa o indivíduo, traz prejuízo ao seu bem estar e ao seu desempenho e não permite que ele se prepare e enfrente as situações ameaçadoras.

Qual a diferença entre medo e ansiedade?

A diferença entre medo e ansiedade é questão teórica. Como citado anteriormente, a ansiedade é uma sensação vaga e difusa que nos leva a enfrentar com sucesso as situações agradáveis ou não. Já o medo, que também é uma reação normal, difere da ansiedade porque é ligado a uma situação ou objeto específico que apresenta perigo, real ou imaginário, e nos leva a evitá-lo. Um exemplo é o medo de assalto. Todos evitamos as situações que possam nos deixar mais vulneráveis.

O que é a fobia?

A fobia envolve uma ansiedade persistente, intensa e irrealística, em resposta a uma situação específica, como por exemplo altura. A pessoa fóbica evita a situação que desencadeie a sua ansiedade ou suporta-a com grande sofrimento. Entretanto, ela reconhece que sua ansiedade é excessiva e consciente que tem um problema. Uma fobia é caracterizada por:

  1. Medo excessivo, imensurável de um objeto ou situação;
  2. Comportamento de esquiva em relação ao objeto temido;
  3. Grande ansiedade antecipatória quando próximo do objeto em questão; e
  4. Ausência de sintomas ansiosos quando longe da situação fóbica.

O que causa uma fobia ?

Existem diversas teorias para o aparecimento de uma fobia como a psicanalítica, a comportamental, a existencial e a biológica.

Segundo as teorias psicanalíticas, a fobia é um sinal para o ego de que um instinto inaceitável está exigindo representação e descargas conscientes (sintomas de ansiedade ou fobias). A ansiedade desperta o ego para que tome medidas defensivas contra as pressões interiores. Se a repressão não for bem sucedida, outros mecanismos psicológicos de defesa podem resultar em formação de sintomas.

Segundo as teorias comportamentais, a fobia é uma resposta condicionada a estímulos ambientais específicos. Uma pessoa pode aprender a ter uma resposta interna de ansiedade após uma experiência negativa ou imitando respostas ansiosas de seu meio social. A teoria cognitiva da fobia sugere que padrões de pensamentos incorretos, distorcidos, incapacitantes ou contra-producentes acompanham ou precedem os comportamentos desadaptados. Os pacientes que sofrem de fobia tendem a superestimar o grau e a probabilidade de perigo em uma determinada situação e a subestimar suas capacidades para lidar com ameaças percebidas ao seu bem-estar físico ou psicológico.

De acordo com as teorias existenciais, as pessoas ficam fóbicas ao se tornarem conscientes de um profundo vazio em suas vidas. A ansiedade é a resposta a este imenso vazio de existência e significado.

Pelas teorias biológicas, a fobia é definida como uma função mental e essas teorias criam hipóteses para sua representação cerebral. Essas teorias são baseadas em medições objetivas que comparam a função cerebral de pessoas normais com indivíduos com fobias, principalmente através do uso de medicamentos ansiolíticos (tranquilizantes). É possível que certas pessoas sejam mais suscetíveis ao desenvolvimento de um transtorno de ansiedade, com base em uma sensibilidade biológica. Os três principais neurotransmissores associados às fobias são a noradrenalina, o ácido gama-aminobutírico (GABA) e a serotonina.

Quais são os principais distúrbios de ansiedade?

Os principais distúrbios de ansiedade são: ansiedade generalizada, ansiedade induzida por drogas ou problemas médicos, ataque de pânico, distúrbio do pânico, distúrbios fóbicos (agorafobia, fobia social, fobia generalizada etc.), transtorno obsessivo-compulsivo.

O que é o distúrbio de ansiedade generalizada?

O distúrbio de ansiedade generalizada é a ansiedade e preocupação excessiva, quase que diária, sobre uma série de atividades ou eventos, e que dura 6 meses ou mais. A ansiedade e a preocupação são intensas e de difícil controle, desproporcionais à situação e podem ser sobre as mais diversas questões como dinheiro, saúde etc. Nesse distúrbio, pelo menos três dos seguintes sintomas estão presentes: inquietação, fatiga, dificuldade de concentração, irritabilidade, tensão muscular e sono de má qualidade. O tratamento é realizado com a a associação de medicamentos (antidepressivos ou benzodiazepínicos) e psicoterapia comportamental.

O que é a ansiedade induzida por drogas ou doenças?

Neste distúrbio, a ansiedade é decorrente de problemas médicos ou uso de drogas lícitas ou ilícitas. As doenças que podem causar ansiedade são: infecções cerebrais, doenças do labirinto, distúrbios cardiovasculares (insuficiência cardíaca, arritmias), distúrbios endócrinos (hiper-atividade das glândulas tireoide ou supra-renal) e distúrbios respiratórios (asma, doença obstrutiva crônica do pulmão). Entre as drogas que podem causar ansiedade têm-se: álcool, cafeína, cocaína e diversas drogas medicamentosas. A ansiedade também pode ser causada quando se para de tomar determinados medicamentos ou drogas ilícitas.

Quais são os principais distúrbios fóbicos?

Os principias distúrbios fóbicos são agorafobia, transtorno do estresse pós traumático, fobia social, fobias específicas.

O que é a agorafobia?

O termo “agorafobia” significa medo de lugares abertos. Na prática clínica designa medo de sair de casa ou de situações onde o socorro imediato não é possível. O termo, portanto, refere-se a um grupamento inter-relacionado e frequentemente sobreposto de fobias que abrangem o medo de sair de casa, medo de entrar em lugares fechados (aviões, elevadores, cinemas etc.) multidões, lugares públicos, permanecer em uma fila, viajar de ônibus, trem ou automóvel, de se distanciar de casa e de estar só em uma destas situações. A agorafobia é uma complicação frequente no transtorno de pânico, onde todas as situações temidas têm em comum o medo de passar mal e não ter socorro fácil ou imediato.

O que é a fobia social ou transtorno de ansiedade social?

A fobia social é o medo patológico de comer, beber, tremer, enrubescer, falar, escrever, enfim, de agir de forma ridícula na presença de outras pessoas. Uma característica importante da fobia social é a ansiedade antecipatória e o sofrimento durante a exposição.

O que são fobias específicas?

São fobias restritas a situações altamente específicas, como determinados animais, altura, trovão, escuro, espaços fechados, visão de sangue ou medo de exposição a doenças específicas. Apesar de a situação temida ser limitada, a iminência ou o contato com ela pode provocar um ataque de ansiedade aguda. Fobias específicas surgem na infância e podem persistir por toda a vida se permanecerem sem tratamento, como ocorre na maioria dos casos. O tratamento indicado é a terapia comportamental, com uso de técnicas como a dessensibilização ou “flooding”, associadas a técnicas de relaxamento. Em alguns casos, o uso de benzodiazepínicos, por período limitado, pode ser útil.

O que é o Transtorno de Estresse Pós-Traumático?

É um distúrbio de ansiedade que se desenvolve em pessoas que experimentaram estresse físico ou emocional de magnitude suficientemente traumática para um ser humano comum.

As principais características deste distúrbio são:

  1. a re-experiência do trauma através de sonhos e pensamentos em vigília (“flash back”);
  2. torpor emocional para outras experiências relacionadas; e
  3. sintomas físicos de ansiedade, depressão e dificuldades cognitivas.

A ansiedade e depressão estão comumente associadas e a ideação suicida pode ocorrer. Como exemplo, há as experiências de guerra, catástrofes naturais, estupro, acidentes sérios etc. Fatores predisponentes, como traços de personalidade ou presença de outros transtornos mentais, podem facilitar o aparecimento do transtorno ou agravar o seu curso, mas não são necessários nem suficientes para explicar a sua ocorrência. O início do quadro segue o trauma com um período de latência que pode variar de poucas semanas a meses, raramente excedendo a 6 meses. O curso é flutuante e a recuperação ocorre na maioria dos casos. O tratamento com psicoterapia de orientação psicanalítica, terapia cognitiva e a associação a psicofármacos, ansiolíticos ou antidepressivos, conforme a síndrome predominante, parecem trazer bons resultados.

O que é o transtorno-obsessivo compulsivo?

O Transtorno Obsessivo Compulsivo, ou simplesmente TOC, é uma doença crônica caracterizada pela presença involuntária e intrusiva de obsessões e/ou compulsões. Obsessões são pensamentos, sentimentos, idéias, impulsos ou representações mentais vividos como intrusos e sem significado particular para o indivíduo. As obsessões mais comuns são as de limpeza e contaminação (por sujeira e doenças), verificação, escrupulosidade (moralidade), religiosas e sexuais.

De maneira geral, ainda cuidamos mais do corpo do que das emoções. “A ansiedade é um dos nossos exageros. Todos esses obstáculos que a vida nos dá podem ser vistos como um impedimento que tem que ser tirado do caminho ou como um impulso para o seu crescimento. Mas a cultura muitas vezes quer vender o fim do sofrimento como um produto! Eu vejo que o maior problema é a ansiedade em ter ansiedade, ou seja: a impotência em lidar consigo mesmo. Esse é um grande problema”, diz a filósofa Viviane Mosé.

Por isso mesmo, Viviane defende que não se medicalize em excesso as características humanas que nos ajudam a sobreviver, principalmente se levarmos em consideração que um traço marcante da sociedade atual é querer “evitar a qualquer custo lidar com suas angústias”. Só assim, lembra ela, a ansiedade pode cumprir um pouco seu propósito transformador.

Da mesma maneira que pessoas desatentas podem potencializar a habilidade de serem, por exemplo, multitarefa, ansiosos também podem se beneficiar da ansiedade moderada se precavendo de situações desgastantes.

Mas então, qual a fórmula do equilíbrio? Ninguém sabe ao certo. Pedir a um ansioso que ele simplesmente controle seus sentimentos ou que se acalme é tarefa ingrata e ainda pode agravar o estresse. Quem sofre demais precisa procurar ajuda: tratar ansiedade em grau alto é tarefa para um médico, sem dúvida. “Muita gente ainda não admite buscar tratamento e, no caso da ansiedade, é muito mais comum a pessoa chegar ao nível mais grave antes de se tratar”, diz o psiquiatra Wilson Joaquim. Para quem está no grau leve, um certo trabalho de “conformação da ansiedade” pode ser benéfico, lembra Frederico Mattos.

Para quem nasceu numa época cada vez mais parceira – para o bem e para o mal – de toda essa ansiedade, talvez valha como estratégia adotar o “primeiro passo” mais universal já inventado: pense em um problema de cada vez. Pensou e chegou a uma solução? Aplique a solução. Resolvido? Vá para o próximo problema. E leve a vida, ansiosa ou não, em frente.

Fonte: Dr. Antonio Egidio Nardi/Maria Beatriz Gonçalves

Esta entrada foi publicada em 17/02/2016, em Ciência.

Por que sonhamos?

Flávio Alóe é médico neurofisiologista clínico, membro do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas.
hand drawn, cartoon, sketch illustration of sleeping woman

Há pessoas que dizem sonhar muito; outras, que não sonham nada. Na verdade, os seres humanos sonham todas as noites, lembrem-se ou não dos sonhos que tiveram. Aliás, há trabalhos demonstrando que todos os mamíferos sonham.

Para o cérebro não faz diferença se é sonho ou realidade. Por isso as recordações das experiências que registramos dormindo são tão vivas. Se analisarmos as ondas cerebrais provocadas pelo sonho, veremos que suas características são semelhantes às dos momentos de vigília. Às vezes, porém, sua intensidade é tanta que para evitar uma reação que nos torne capazes de desferir um soco num inimigo hipotético, no exato instante em que começamos a sonhar, o tronco cerebral é desligado a fim de impedir que os neurônios conduzam estímulos motores. Dessa forma, na fase onírica, a atividade cerebral é máxima e a motora é mínima. Com exceção dos olhos que se movimentam com rapidez, praticamente ficamos imóveis. Isso ocorre durante o sono REM (Rapid Eyes Movement). Se despertarmos nesse período, é provável que nos recordemos com detalhes do sonho que estávamos tendo.

TODOS OS MAMÍFEROS SONHAM

Drauzio – Você poderia começar explicando o que é o sonho?

Flávio Alóe – O sonho é uma atividade mental ligada a uma série de ocorrências que se sucedem durante a fase de sono REM dos mamíferos. Obviamente, é um pouco mais difícil estudar o fenômeno nos outros mamíferos que não o homem, porque eles não têm como contar sua experiência. Todavia, existem marcadores neurofisiológicos indiretos que tornam possível perceber que o animal está sonhando. Gatos, por exemplo, viram o olhar para o lado como se estivessem vendo uma presa ou algo que desejassem comer. Suas reações, nesse momento, são bem semelhantes às do modelo humano.

FASE REM DO SONO E DO SONHO

Drauzio – Qual é a relação existente entre a fase REM do sono e o sonho?

Flávio Alóe – Entende-se como sono REM um estado comportamental diferente do estado de vigília e do sono profundo. É uma fase em que o cérebro está ativo e o corpo ativamente paralisado para que a pessoa não saia fazendo o que está sonhando.
Nos seres humanos, o primeiro estágio do sono é superficial. Nos 30 ou 40 minutos seguintes, paulatinamente, ele atinge sua fase mais profunda. Duas horas depois de terem adormecido, as pessoas entram no sono REM, fase em que ocorre o desligamento da musculatura corporal e aparecem os movimentos oculares rápidos, marcadores fáceis de serem percebidos com monitorização laboratorial pelo perfil de atividade das ondas cerebrais. Se acordadas nesse período, 95% das pessoas dirão que estavam sonhando.

Drauzio – Existem pessoas que não sonham?

Flávio Alóe – A não ser que estejam sob medicação ou tenham alguma doença orgânica, todas as pessoas sonham de quatro a seis vezes numa noite normal de sono. Os antidepressivos podem inibir o sono REM no início do tratamento, mas aos poucos ele vai sendo recuperado.

Os sonhos concentram-se na fase REM do sono, mais para o final da noite. Por isso, muitas vezes quando o despertador toca, acordamos lembrando do sonho que estávamos tendo.

Drauzio – De fato, quando nosso sono é interrompido pelo alarme do despertador, é mais fácil lembrar do que estávamos sonhando. Muitas vezes, porém, antes de chegarmos no banheiro, já esquecemos do sonho que tivemos. 

Flávio Alóe – Raramente conseguimos lembrar um sonho por inteiro. O primeiro motivo é porque os sonhos são muito bizarros, não têm trama nem lógica. Uma hora estamos nas Cataratas do Iguaçu, noutra no Canadá e existe uma pessoa voando por perto. A outra razão para o esquecimento é que a circuitaria neuronal usada para produzir o sonho é diferente da utilizada para a memorização do aprendizado diário. É como se escolhêssemos um caminho diferente todos os dias para chegar ao destino. Três ou quatro semanas depois, se quiséssemos lembrar o percurso adotado numa determinada ocasião, jamais conseguiríamos. Parece mesmo que o sonho foi feito para ser esquecido. Não se sabe bem por que, mas é como se ele existisse para fazer uma limpeza neuronal, retirando as informações em excesso ou inúteis. Só permanecem aquelas que representam um evento traumático, de caráter repetitivo e que acaba transformando-se num transtorno do sonho.

FUNÇÃO DO SONHO

Drauzio – Na Antiguidade, os sonhos eram considerados premonitórios. Essa fase do sonho mágico foi derrubada por Freud, quando estabeleceu sua ligação com o inconsciente. Na década de 1950, quando se conheceu melhor a fisiologia do sonho, passou-se a entendê-lo como simples descarga de informação inútil, uma forma de o sistema nervoso livrar-se do que não lhe interessa. Mais tarde, as experiências realizadas com outros mamíferos mostraram o sonho funcionando como uma estratégia de sobrevivência. Como a Neurofisiologia moderna encara essas teorias?

Flávio Alóe – O lado simbólico dos sonhos envolve um mecanismo psicológico que os freudianos interpretam à sua maneira. Do ponto de vista neurofisiológico, o sonho desempenha uma série de funções. Uma é descarregar o excesso de informações, de resíduos que deixaram de ser interessantes. Outra vem sendo estudada desde 1988 e indica que o sonho é importante para fazer a reverberação, ou seja, a reativação de determinados circuitos. Parece que ele tem a função de proporcionar um aprendizado indispensável para a perpetuação da espécie, pois facilita a transferência de elementos apreendidos durante a vigília de uma memória de curto prazo para outra de prazo mais longo. É como passar repetidas vezes uma fita de vídeo para que a pessoa assimile o que nela está contido.
Uma experiência feita com ratos demonstrou que a circuitaria neuronal ativada durante o processo de aprendizagem de uma tarefa nova, estava ativa durante o sonho e, depois de um tempo, era reativada automaticamente toda a vez que o animalzinho refazia a tarefa que tinha aprendido.

Drauzio  Para quem não sabe como isso acontece, existe um exame chamado PET que mostra as áreas do cérebro que estão funcionando em determinado momento. Experiências com ratinhos soltos num labirinto demonstraram que durante o sonho são ativadas as mesmas áreas cerebrais estimuladas enquanto o animal percorre o local. Nossos problemas são muito mais complexos do que os desses ratinhos, pois envolvem relações pessoais, familiares, afetivas e de trabalho.

Flávio Alóe – Existem outros experimentos interessantes. Está provado que ratos privados do sono REM apresentam menor capacidade de aprendizagem.
Já os seres humanos possuem dois tipos de memória: a memória declarativa que permite decorar, por exemplo, uma lista de palavras ou de números, e a memória de procedimentos por meio da qual se aprende a fazer alguma coisa. Comparando dois grupos de pessoas, as que são privadas do sono REM manifestam desempenho de aprendizado significativamente pior do que as que dormem sem interferência.
Tais evidências atestam que o sono REM é importante para o aprendizado desde a escala biológica mais primitiva.

CONTEÚDO DOS SONHOS – OS PESADELOS

Drauzio – Nós sempre sonhamos com acontecimentos ligados ao nosso dia a dia?

Flávio Alóe – Não necessariamente. Uma pessoa submetida a um trauma, a estresse, a um assalto ou perda violenta de um ente querido pode reverberar esse acontecimento sob forma de sonho durante meses ou anos a ponto até de ele tornar-se um transtorno de ansiedade, ou pode não sonhar nada que se refira a esse acontecimento específico. De qualquer maneira, quanto mais robusta e traumática a informação, maior probabilidade de ser incorporada ao universo dos sonhos por determinado período.

Drauzio – Qual a explicação para acordamos assustados no meio de um pesadelo?

Flávio Alóe – O pesadelo pressupõe a ativação do sistema nervoso autonômico simultaneamente com o conteúdo de um sonho desagradável para aquela pessoa em particular, porque o que é considerado pesadelo para uns deixa de sê-lo para outros. Não é o sistema nervoso atuante, mas a carga emocional que faz acordar.

O pesadelo pode surgir de um estímulo neutro sem a menor relação com o que aconteceu durante o dia ou pode ser recorrência de um fato traumático já vivido. Normalmente, a pessoa que tem um pesadelo desperta suando, com frequência cardíaca acelerada e sensação de angústia.

Drauzio – Por que a pessoa acorda quando tem um pesadelo e não acorda quando o sonho é tranquilo?

Flávio Alóe – Se a pessoa sonhar que está sendo assaltada, a carga de emoção negativa é exatamente igual à que sentiria se o fato estivesse acontecendo realmente naquele momento. Como consequência, o sistema nervoso autonômico sofre certo nível de ativação que provoca alterações orgânicas responsáveis pelo despertar no meio do pesadelo.

Drauzio – As crianças têm mais pesadelos do que os adultos?

Flávio Alóe – Os pesadelos são mais comuns nas meninas, nas mulheres em idade adulta, seguidas das mulheres de terceira idade e menos prevalentes nos idosos do sexo masculino. Não existem estudos a respeito dessa distribuição. Talvez haja alguma intercorrência da personalidade feminina ou de seu perfil hormonal.
Crianças talvez tenham mais pesadelos, porque sua capacidade de absorver acontecimentos negativos é limitada pela falta de experiência e maleabilidade de comportamento.

Drauzio – Você sonha com a morte dos outros e pode até acordar chorando por causa disso, mas nunca conheci alguém que tivesse sonhado com a própria morte. Por que isso acontece?

Flávio Alóe – Não sei dizer. Realmente, nunca ouvi falar de alguém que tenha sonhado com a própria morte. Acredito que não haja circuitaria neuronal com memória para esse tipo de experiência, porque se morre uma única vez. Não existe esse bit de memória no nosso cérebro.

Drauzio – Existe um sonho frequente em que a pessoa se vê numa situação de perigo, quer gritar e pedir socorro, mas sua voz não sai de jeito nenhum? Por quê?

Flávio Alóe – Não tenho uma explicação clara para esse fenômeno. Sei que existe um transtorno do sono chamado transtorno comportamental do sono REM que provoca uma reação completamente diferente dessa que foi descrita. Ao contrário da fisiologia normal que prevê o corpo paralisado e a musculatura ativamente inibida durante o sono, as pessoas com esse distúrbio, em geral homens na terceira idade, fazem exatamente o que estão sonhando e passam por períodos alternados de imobilidade e movimento. Estão ativas, se no sonho lutam contra um inimigo, e absolutamente paralisadas, se caíram na água gelada ou na areia movediça. Provavelmente, no caso que você citou, exista um comando para a pessoa movimentar-se e fugir da situação de perigo, mas a musculatura ativamente inibida não reage. Nesse caso, o sonho pode refletir o que está acontecendo com seu sistema motor naquele momento.

DISTÚRBIO COMPORTAMENTAL DO SONO REM

Drauzio – O que ocorre com as pessoas sonâmbulas que se levantam durante a noite e no dia seguinte não se lembram do que fizeram.

Flávio Alóe – Essa é uma área fascinante. O mais interessante nesses transtornos de sonambulismo é o distúrbio comportamental do sono REM que acontece com os idosos do sexo masculino, que têm uma atividade motora exuberante, quase teatral, durante o sono. São idosos pacatos, estáveis, psicologicamente equilibrados, velhinhos aposentados que amam suas esposas. Em geral, as mulheres se queixam que durante a noite eles viram bicho, levantam da cama, gritam, brigam, batem nelas. Há relatos bizarros na maioria dos casos registrados pela literatura norte-americana. No sonho, esses pacientes lutam contra inimigos virtuais, ursos ferozes, soldados ameaçadores e agem como se o desafio fosse real. Suas esposas acabam sendo as maiores vítimas desse combate e, às vezes, chegam ao consultório de olho roxo ou dentes quebrados. Outros destroem móveis ou pertences pessoais dentro do quarto. Há o episódio de um americano que, fugindo de um inimigo, pulou da janela do segundo andar de sua casa, caiu na grama do jardim e sofreu várias fraturas. São quadros dramáticos de indivíduos perfeitamente normais durante a vigília, que se transformam em feras durante o sono.
Felizmente, eles respondem bem à medicação. É impressionante a desproporcionalidade entre o quadro clínico e a resposta ao tratamento com um diazepínico que já está no mercado há mais de 40 anos. Trata-se de um medicamento que aumenta a circuitaria inibitória dentro do sistema nervoso.

SÍNDROME ALIMENTAR NOTURNA

Drauzio – E aquelas pessoas que se levantam durante a noite e assaltam a geladeira?

Flávio Alóe – Trata-se de outro tipo de parassônia descrito na literatura como síndrome alimentar noturna. Acontece geralmente com mulheres de meia idade. Algumas manifestam um comportamento absolutamente inconsciente, não se lembram de nada do que fizeram durante a noite. Muitas comem coisas impalatáveis, como feijão frio, carne crua, grandes quantidades de gordura, bebem óleo. No dia seguinte, quando se levantam e encontram a cozinha toda suja e desarrumada, não sabem o que aconteceu. Diante dessa situação, os maridos costumam trancar a porta da cozinha e esconder a chave. Já vi casos de pessoas que colocaram cadeado na geladeira para conseguir controlar esse impulso.

REAÇÃO DOS PACIENTES

Drauzio – Existe uma crença popular que não se pode acordar uma pessoa durante a crise de sonambulismo. Isso é verdade?

Flavio Alóe – Não é verdade. Aconselha-se a não acordar as crianças para evitar um desconforto maior, pois podem ficar irritadas e confusas se forem acordadas durante um episódio de sonambulismo. O certo é levá-las tranquilamente de volta para a cama e deixá-las continuar dormindo.
Outra crença improcedente é que os sonâmbulos andem de braços esticados, olhos fechados e saiam de casa como registram os contos infantis. O máximo que pode acontecer é a pessoa sentar-se na cama, falar alguma coisa, mexer no pijama, ficar um pouco de pé e depois voltar a deitar.

Drauzio  Todos esses casos são medicados ou a prescrição depende da gravidade de cada um?

Flávio Alóe – O distúrbio do sono REM apresenta alto risco de violência, de danos pessoais e para o patrimônio. Por isso, os pacientes devem ser medicados. Por outro lado, a qualidade do sono também fica prejudicada. Os pacientes se queixam de cansaço e sonolência durante o dia, mas há medicamentos que ajudam a melhorar o quadro.
Nos casos de sonambulismo infantil, se os episódios apresentarem baixa frequência, as famílias são orientadas para tratar do problema comportamentalmente. Já no que se refere ao transtorno alimentar noturno, a medicação é importante para evitar a ingesta excessiva de calorias e o risco de acidentes.

Drauzio – É difícil explicar como alguém se levanta de olhos abertos, abre a geladeira, pega os alimentos, come e não acorda.

Flávio Alóe – Alguns desses pacientes comem uma barbaridade e adquirem um sobrepeso considerável. Não conseguem emagrecer, porque abusam da alimentação durante a noite. Alguns se lembram vagamente do que fizeram. Outros se lembram bem, mas afirmam não conseguirem controlar-se na vigência da crise. Uma parte age absolutamente inconsciente.
Há ainda quadros que merecem ser destacados. Todo nosso repertório de comportamentos diurnos pode ser representado durante o sono REM e o sono não REM. Nos últimos anos, têm sido relatados casos de atividade sexual durante o sono em que as pessoas estão semiconscientes ou inconscientes. Algumas acabam parando nos tribunais porque chegam a praticar abuso sexual contra menores.
No Laboratório do Sono do Hospital das Clínicas, apareceu um rapaz por volta de 30 anos de idade cuja esposa sabia distinguir claramente quando ele a procurava acordado ou dormindo a partir do dia em que lhe perguntou o que haviam feito no meio da madrugada. Ele não se lembrava de nada. Esse rapaz era portador de um transtorno sexual que se manifestava durante o sono conhecido como parassônia sexual.

SONO E ÁLCOOL

Drauzio – Como o álcool interfere no sono? Tem gente que diz sonhar mais quando bebe?

Flávio Alóe – Depois de uma refeição pesada, o desconforto gástrico provoca maior dificuldade para dormir. O estômago cheio obriga a pessoa a dormir de barriga para cima, o que proporciona mais despertares e, consequentemente, recordação de número maior de sonhos.
Já o álcool, na primeira metade da noite, atuando sobre o sistema nervoso, inibe o sono REM. Lá pelas três ou quatro horas da manhã, eliminado do organismo, vem o rebote. O que foi inibido na primeira metade da noite, cerca de 40% de sono REM, vai manifestar-se na segunda metade, entre quatro e sete horas da manhã. No final da ação residual do álcool, o sono torna-se mais superficial, o que facilita a interrupção do sono. Por isso, a pessoa se lembra mais dos sonhos quando bebe.

“OS SONHOS, SONHOS SÃO”

Drauzio – Existe alguma base científica que permita explicar as teorias que as pessoas elaboram a respeito dos sonhos como fonte de revelação dos desejos íntimos ou de características da personalidade?

Flávio Alóe – A tarefa de interpretar os sonhos cabe ao pessoal que trabalha com psicanálise. Na visão neurofisiológica do sono com sonhos, os sonhos representam simplesmente uma manifestação elétrica do cérebro, usando o material do passado recente ou remoto para construir histórias bizarras e sem nexo, mas que desempenham múltiplas funções: memória, plasticidade neuronal, ou seja, reconstrução das ligações entre os neurônios, e desenvolvimento cerebral. Por causa disso, crianças pequenas e lactentes na fase de amamentação sonham mais que os adultos.
Acho difícil usar essa janela do nosso comportamento, que é o sonho, para definir a personalidade de uma pessoa, especialmente se considerarmos que, às vezes, elas sonham com coisas que nada têm a ver com seu dia a dia.

Drauzio – Seguindo essa linha de raciocínio, já que todos os mamíferos sonham, fica complicado imaginar a personalidade de um coelho com base nos sonhos do animal.

Flávio Alóe – Se usarmos determinados tipos de medicação antidepressiva, estaremos suprimindo o sono REM durante semanas e nem por isso haverá alterações na personalidade das pessoa ou afloramento de tendências positivas ou negativas. Ao contrário, quando indicado adequadamente, o antidepressivo melhora os transtornos de melancolia e tristeza.

Esta entrada foi publicada em 16/02/2016, em Ciência.

Até onde a mente humana pode chegar?

CerebroNos últimos mil anos, a humanidade apresentou mais evoluções do que se comparada a outros períodos históricos maiores. A cada dia que passa, novas descobertas fazem com que o ser humano explore ainda mais os limites da memória, da inteligência e da atenção.

Entretanto, o que talvez não tenhamos percebido, é que os limites impostos pela mente humana podem ser uma espécie de mecanismo de defesa para o nosso organismo. Assim, estimular continuamente o cérebro até um ponto acima do esperado pode fazer com que, em algum momento, a humanidade encontre um limite fatal.

Essa é a tese defendida por um novo trabalho publicado no Current Directions in Psychological Science, jornal da Association for Psychological Science. Os autores são Thomas Hills, da Universidade de Warwick, e Ralph Hertwig, da Universidade de Basel.

Para chegar a essa conclusão, os pesquisadores analisaram o desenvolvimento do ser humano ao longo dos anos. Se seguíssemos uma escala progressiva contínua, em tese já deveríamos estar mais avançados em muitos outros campos do conhecimento e no desenvolvimento de nossas habilidades.

Contudo, é possível que talvez nunca cheguemos a atingir a capacidade plena do cérebro justamente porque isso seria prejudicial ao nosso sistema nervoso. A dupla toma como exemplo o funcionamento do cérebro de algumas pessoas superdotadas. Índices elevadíssimos de QI podem estar ligados a doenças no sistema nervoso.

“Além disso, o uso de drogas estimulantes, como cafeína e Ritalina, pode trazer consequências nocivas para organismo”, explica Hills. Como resultado desse processo, problemas como insônia, stress e hiperatividade passam a ser muito mais prováveis.

Fonte: TECMUNDO