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A Santíssima Trindade e o Espírito Santo

Por trás de toda dualidade existe uma unidade oculta, a trindade. (Rodolf Steiner)

Uma das questões mais complicadas entre os dogmas cristãos proclamados pelos bispos em seus concílios é a da Santíssima Trindade. De uma coisa universal tão simples, fizeram uma tremenda confusão. Mas não vamos condenar a Igreja por isso, pois que tal fato se deve também à mentalidade atrasada da época, quando, como já vimos, os bispos eram pessoas simples e até semi-analfabetas, e quando pouco se conhecia da Bíblia, salvo raras exceções.

Mas é justamente por isso, que somos também de opinião de que a Igreja, deixando de lado seu orgulho, revise os seus dogmas criados em épocas de uma certa ingenuidade teológica influenciada pela mitologia, e mesmo de ignorância geral, reconhecendo, mais uma vez, como ela já reconheceu, que ela foi vítima de erros, erros esses, geralmente, oriundos do ego, orgulho e arrogância dos seus bispos do passado, que eram seres humanos como nós mesmos e, por isso mesmo, cheios de deficiências e imperfeições morais. Na verdade, o que mais impede a Igreja de reconhecer seus erros é o ego dos bispos, pois querem eles se considerar infalíveis nos concílios. E, eles reconhecerem que seus colegas do passado erraram, eles têm que reconhecer que eles também podem hoje errar, o que eles, por orgulho, não querem admitir.

Entretanto, mesmo sabendo que a Santíssima Trindade tem erros, nós a respeitamos. Isso porque é longo o período em que ela vem sendo aceita dessa forma em que foi criada, sendo, pois, fortes as energias mentais acumuladas em cima desse modo de pensar de milhões ou bilhões de pessoas. Essas energias assim acumuladas criam uma atmosfera daquilo que os esotéricos, teósofos e ocultistas chamam de egrégora, o que representa uma grande força energética sagrada que merece respeito. É como disse Jesus: Seja te dado conforme tu creste.” E muitos creram e crêem nela assim como ela foi criada e vem sendo aceita ao longo dos séculos.

A Trindade, como vimos acima, é universal. Ela está presente na própria natureza: pai, mãe e filho. Igualmente, ela está presente na energia: eletricidade positiva, negativa e lâmpada, rádio, TV, motores etc. Nós mesmos somos uma trindade: espírito, alma e corpo, trindade essa que nos é apresentada por São Paulo.

E eis alguns exemplos da Trindade nas principais relligiões do mundo: Pai, Filho e Espírito Santo (Cristianismo): Kether, Chekmah e Binah (Cabala e Judaísmo); Buda, Darma e Sanga (Budismo do Sul); Amithaba, Avalokiteshvara e Mandjusri (Budismo do Norte); Tulac, Fan e Mollac (Druidas); Anu, Ea e Bel (Caldeus); Odim, Freva e Thor (Mitologia Escandinava); Osíris, Ísis e Hórus (Egito Antigo; e Brama, Vixnu e Shiva (Hinduísmo).

Mas, afinal de contas, o que é que está errado na Trindade Cristã?

Deus é um só, isto é, o Pai, como nos ensinou Jesus, ou o Brâman, segundo os orientais, e que não pode ser confundido com o Brama, um aspecto da Trindade Hindu.

Deus é um só, mas Ele tem atributos ou aspectos. E é aqui que aparece a falha do Cristianismo, pois esses aspectos foram transformados em pessoas e, por isso, outros deuses. pelos bispos da Igreja em alguns concílios ecumênicos, às vezes muito polêmicos, como já vimos. Por exemplo, os teólogos dizem que há um Deus só em três pessoas distintas: Pai, Filho e Espírito Santo. Mas, isoladamente, cada um é Deus Todo-Poderoso, como o é o Pai. E, então, na verdade, eles estão ensinando que há três deuses.

No Concílio Ecumênico de Nicéia (325), eles divinizaram Jesus, derrotando Ário e seus partidários que, como já vimos, não aceitavam que Jesus Cristo fosse também Deus igual ao Pai.

Como Jesus era uma pessoa, transformaram essa sua pessoa humana em Pessoa Divina única, dogmatizando que a pessoa humana Dele não existia, quando nós temos certeza de que Ele, Jesus, existiu como pessoa em nosso Planeta Terra, aonde Ele veio cumprir uma importante missão, qual seja, a de ser Enviado do Pai para nos trazer a Boa Nova ou o Evangelho.

Esse é um dos dogmas da Trindade que se chocam com a nossa razão, e que é uma verdadeira fábrica de ateus no Ocidente, que é de cultura cristã. E já vimos qual é a explicação dos teólogos: “trata-se de um mistério de Deus”. Mas, na verdade, isso é mistério dos teólogos e não de Deus. Usando de uma expressão popular, essa resposta deles é “conversa para boi dormir!”

O Cristo ou Verbo de Deus encarnado no homem Jesus de Nazaré, na realidade, representa um dos aspectos de Deus. E, como esse aspecto foi transformado numa pessoa, transformaram também em pessoas o Pai e o Espírito Santo. E o Espírito Santo, instituído no Concílio de Constantinopla (381), ganhou também o título de Deus. O Pai todos nós sabemos que Ele é Deus, aliás, o único Deus verdadeiro. Mas, além de ser transformado também em pessoa, passou a ter, ao lado Dele, mais dois Deuses, ou seja, Jesus e o Espírito Santo, formando, assim, a confusa Santíssima Trindade.

Sem querer agredir a Igreja, mas querendo apenas dizer a verdade, os dogmas foram criados justamente para consagrarem como sendo verdades inquestionáveis certos princípios doutrinários que, qualquer pessoa honesta e sincera consigo mesma não aceita. E eles não eram apenas expostos, mas impostos à força. Mas mesmo assim, surgiram os hereges ou rebeldes contra os dogmas, que, geralmente, eram pessoas inteligentes e comprometidas com a verdade, pelo que se tornaram vítimas de perseguições por parte da Igreja, e mais tarde, eles morriam nas fogueiras da Inquisição.

Os próprios teólogos dizem que não podem entender essas questões do Dogma da Trindade. Então nos perguntamos: como aceitar como sendo certa uma questão doutrinária que não entendemos, se das que entendemos, nos enganamos, às vezes, nas interpretações delas? E, se nem sempre é fácil acreditarmos em coisas que entendemos, é praticamente impossível crermos em coisas que não entendemos.

Vejamos o que nos diz Santo Tomás de Aquino, o “Doutor Angélico”, em sua Suma Teológica, quandoa trata da Santíssima Trindade, o qual, segundo o professor e teólogo Dr. Carlos Torres Pastorino, teve dificuldades em tratar do assunto, já que a Doutrina da Santíssima Trindade tivera seus três aspectos invertidos, os quais deveriam ser Espírito-Pai-Filho”, e não Pai-Filho-Espírito Santo.

Para reforçarmos o que estamos dizendo aqui, não podemos deixar de destacar que o Dr. Pastorino é diplomado em Filosofia e Teologia pelo Colégio Internacional S. A. M. Zaccaria, em Roma, Catedrático de Latim e Grego da Universidade Nacional de Brasília, DF, autor de Minutos de Sabedoria e Sabedoria do Evangelho, uma obra monumental teológico-bíblica, de 8 volumes, e grandemente enriquecida com os aspectos histórico-doutrinários de todas as épocas do Cristianismo. Essa obra destaca-se também pelo grande número de palavras e textos em Grego que são traduzidos por Pastorino, ele que foi um dos maiores conhecedores de Grego da América Latina.

Passemos, agora, a palavra a Santo Tomás de Aquino, na tradução de Pastorino da Suma Teológica: “Diz-se que o Espírito Santo é a união entre o Pai e o Filho, já que é o Amor; porque como o Pai ama num único amor a si e ao Filho, e vice-versa, é  expressada no Espírito Santo, como Amor, a relação do Pai ao Filho e vice-versa, como do Amante ao Amado.

Mas pelo fato mesmo de que o Pai e o Filho se amam reciprocamente, é necessário que o amor mútuo, que é o Espírito Santo, proceda de um e de outro.”

Porém, sabemos ser o amor algo abstrato. E o Espírito Santo, Deus, Amor é concreto, ou em outros termos, Deus é Amor, e esse Amor é um substantivo concreto em toda a acepção da palavra. Portanto, tudo é gerado Dele, tudo vem Dele, sendo Ele a causa primeira de tudo. Assim, Dele procedem também os Aspectos de Pai e de Filoho, não sendo, pois, Ele só o Amor que procede Dele e do Filho. O pensamento de Pastorino é também esse, embora a sua exposição seja um pouco diferente dessa nossa.

No Evangelho de João 1,1, lemos: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.”

Sabemos pela Bíblia que Deus é Espírito (um Espírito Santo em toda a acepção desta expressão) e é Verbo – “E o Verbo era Deus.”

E, no mesmo Evangelho de João 1,14, lê-se: “E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós”. Esta expressão entre nós não é fiel ao original, que é em nós (do Grego em hemin; e do Latim in nobis, como está na Vulgata). E por que se encarnou o Verbo em nós? Porque se encarnou em nossa espécie humana e, de um modo especial, em Jesus. “Nele habitou plenamente toda a Divindade”, como afirma São Paulo, Divindade essa que habita em nós, também, pois somos templos do Espírito Santo (dum Espírito Santo no original grego), segundo ainda São Paulo.

De fato, o nosso espírito é uma centelha divina encarnada.  Em outros termos, é o Cristo ou Verbo encarnado, como parte do Aspecto Filho de Deus-Pai-Espírito, Espírito Santo. Mas em nós o verbo não habita plenamente como em Jesus, porque essa nossa centelha divina está ainda muita atrasada em relação à Dele. Por isso São Paulo usa a expressão: “Até que todos cheguemos à estatura mediana de Cristo”, o que ainda vai demorar um longo tempo ou várias reencarnações. E Jesus é o nosso instrutor e modelo, justamente porque Ele está bem à nossa frente como ser humano.

Mas também nós vamos chegar lá. Para isso temos nossos espíritos imortais com uma eternidade pela frente, para que possa continua a sua caminhada evolucional. O próprio Jesus disse que poderemos fazer tudo que Ele fez e até obras maiores do que as que Ele fez, poderemos fazer.E São Paulo, sempre confirmando a nossa evolução, diz: “Continuarei sentindo as dores do parto, enquanto eu não vir o Cristo manifesto em vós.” E numa outra parte, ele afirma: “A cada dia eu sou um homem novo.”

Segundo a Física Moderna, tudo no universo é vibração. E toda energia se transforma. Figuradamente, é óbvio, quando a Bíblia diz que Deus, num primeiro ímpeto de criar o mundo, proferiu a frase “Faça-se a luz”, simultaneamente, duas energias se criaram: a energia sonora de sua frase ou som e a da luz, o que poderíamos chamar de Big Bang.

O Verbo de Deus, do Espírito – “O Verbo era Deus”, pois faz parte de Deus -, em seu Aspecto de Pai-Criador, entrou em ação, criou o Aspecto-Filho, também Verbo –“E o Verbo se encarnou em nós -, sendo daí para a frente tudo criado, com as energias do Verbo, som, transformando-se em luz, primeiramente, e depois em tudo , ou seja, o Universo: “Deus, por Ele e Nele”.

Às vezes, somos repetitivos em algumas questões mais profundas, de propósito, para as deixarmos claras para os leitores. E sempre continuaremos com esse nosso propósito de tornar as coisas mais claras para o leitor.

A ordem da Santíssima Trindade, de acordo com Santo Tomás de Aquino, deve ser, repetimos, Espírito Santo, Pai e Filho ou Espírito (Deus), Pai (em seu Aspecto de Pai) e Filho (em seu Aspecto de Filho).

Quando os teólogos criaram a Santíssima Trindade e transformaram os aspectos de pessoa de Deus em três pessoas e estas no próprio Deus, formando três Deuses, eles agiram de boa fé. Com isso, eles quiseram engrandecer a Deus e a nós seres humanos, que somos pessoas. E, assim, apesar da grande confusão teológica que criaram, eles quiseram fazer com que ficássemos mais semelhantes a Deus. Mas Deus não é pessoa, é espírito, que transcende pessoa. E, como vimos, não são Deuses as pessoas atribuídas aos aspectos pessoais de Pai-Criador, de Filho-Criado e de Amor mútuo entre os dois, a que deram o nome de Espírito Santo. Jesus não nos ensinou isso. Somente a partir do Concílio Ecumênico de Constantinopla (381), os teólogos começaram a criar essas idéias confusas e transformando-as em dogmas. Valeu a sua boa intenção, mas não podemos concordar com os seus erros.

Para a Teologia da Igreja, como mostramos acima, o Espírito Santo é o Amor mútuo entre o Pai e o Filho. Mas esse Amor consiste no amor entre amante e amado, ou do sujeito amante para com o objeto amado, e deste para aquele, quando Deus é Amor em toda a acepção da palavra. Esse Amor, então, que deu origem ao próprio Filho e ao Espírito Santo não pode ser só um amor entre dois seres que se amam reciprocamente – argumento esse defendido também por Pastorino -, pois esse Amor entre dois seres é abstrato, acidental, enquanto Deus é o próprio Amor concreto.

E lembra-nos Santo Tomás de Aquino do que disse Santo Agostinho: “Não se deve compreender confusamente o que diz o Apóstolo: Dele, por Ele e Nele. Diz Dele por causa do Pai; por Ele por causa do Filho; e Nele por causa do Espírito Santo.”

Mas Santo Tomás adverte-nos contra a colocação de Santo Agostinho: “Mas parece que incorretamente, porque nele parece implicar a relação de causa final, mas esta é a primeira das causas.” Santo Tomás está certo, com o que também concorda Pastorino, pois o Espírito Santo é a Causa Primeira, já que Deus, antes de mais nada, é Espírito. Daí a ordem certa da Santíssima Trindade, de que já falamos antes: Espírito-Pai-Filho. Santo Tomás, como vimos, pressentiu isso, mas não se envolveu muito com a questão, ficando reservado em sua posição, talvez por medo da Inquisição. Talvez, também, por isso e outras coisas, ele tenha dito, pouco antes de passar para o Mundo Espiritual: “Tudo o que escrevi é palha.”

Há uma lenda que diz que apareceu a Santo Agostinho um anjo (sempre que apareceu um espírito para um santo, a Igreja diz que é um anjo!), no caso, um espírito materializado, carregando em uma folha de uma planta água do mar, e colocando-a num buraquinho. E o médium Santo Agostinho perguntou-lhe o que a “criança” queria fazer com aquele sua estranha ação. E, respondendo a Santo Agostinho, o “anjo” lhe respondeu que era mais fácil ele colocar toda a água do mar naquele buraquinho, e daquele jeito, do que a gente compreender o mistério da Santíssima Trindade. Essa história é contada pelos teólogos como sendo um exemplo vindo de um gênio, como era Santo Agostinho, de que nós nunca não poderemos entender o mistério da Santíssima Trindade.

Mas não poderia essa lenda ser também uma crítica ou uma ironia contra as idéias contraditórias e confusas dos teólogos que imaginaram a doutrina da Santíssima Trindade, que seria uma coisa mais absurda do que o episódio da aparição que ele teve?

Sabemos que essas questões chocam muitas pessoas. Mas nosso compromisso é com a verdade que liberta. “Entendereis a verdade, e a verdade vos libertará.” E é esse interesse em defender a verdade que nos move e nos encoraja a tratarmos desses assuntos, de um modo racional e lógico, numa tentativa de trazer alguma luz para essas questões centenárias que, muitas vezes, ao invés de propagarem o Rei de Deus sobre a Terra, como o desejou Jesus, elas vêm, na verdade, é favorecendo o crescimento de incrédulos e mesmo de ateus.

Mas, se muitas pessoas vão estranhar essas questões que estamos abordando, outras mais esclarecidas vão entendê-las. E é para esse tipo de pessoas que estamos escrevendo, pois elas gostam de pensar e decidir as coisas por si mesmas, não deixando outras pensarem e decidirem por elas o que elas devem aceitar como sendo certo ou como sendo errado. Trata-se, pois, de pessoas mais evoluídas e, portanto, mais facilmente abertas a críticas sobre o que elas aprenderam sobre religião, filosofia e teologia.

E, em matéria de religião, repetimos que há pessoas que estão dez, vinte, cinqüenta, cem e até mil anos à frente de outras, mesmo dentro de uma mesma religião.

O Espírito Santo

Foi o Concílio Ecumênico de Constantinopla (381) – primeiro desta cidade – que estabeleceu as bases do que hoje se pensa sobre o Espírito Santo, ou seja, que Ele é uma Pessoa Divina como o é o Pai e o Filho.

Também o Concílio Ecumênico de Constantinopla (869 a 870) estabeleceu mais algumas coisas sobre o Espírito Sano, isto é, o princípio, ainda elementar naquela época, de que Ele procede do Pai, como Jesus Cristo, mas que procede também de Jesus Cristo, instituindo, assim, a base inicial da doutrina do Filioque (e do Filho), com o que não concordou a Igreja Ortodoxa Oriental, que, mais tarde, a saber, em 1054, por causa, principalmente, dessa divergência teológica, mas também por causa de questões políticas, decretou a separação da Igreja Católica Apostólica Romana. Com isso, a nova igreja foi excomungada pela Igreja de Roma, enquanto que esta, por sua vez, excomungou-a também.

Cerca de dois séculos depois, e oito séculos depois de instituídos o Espírito Santo e a Santíssima Trindade, o Concílio Ecumênico de Lion (1274), determinou quanto ao Espírito Santo, a presença Dele “como de único princípio” e “também a do Filho” – numa reafirmação da doutrina do Filioque, que se tornou um dogma.

Recomendamos aqui ao leitor se reporte ao capítulo 4º, em que mostramos que a Santíssima Trindade estava anotada apenas na margem de algumas Bíblias, para, posteriormente, passar a figurar no texto bíblico.

Todas as decisões conciliares a respeito do Espírito Santo e da Santíssima Trindade são dogmáticas, ou seja, inquestionáveis para os católicos. Os que não as aceitam são considerados hereges e, portanto, excomungados, e até a uns 180 anos atrás, aproximadamente, os hereges eram queimados na fogueira da Inquisição. Porém com o decorrer dos séculos, alguns desses dogmas estão caindo no esvaziamento, não sendo aceitos, na prática, até por alguns padres e bispos, que, todavia, evitam sempre falar nesse assunto com os fiéis, principalmente em público e por escrito. E a Igreja nem que ouvir falar mais em excomunhão, pois ela está muito ligada ao período obscuro da Igreja, ou seja, o da Inquisição.

E uma curiosidade: Até o Concílio Ecumênico de Lion (1274), o indivíduo poderia ser rebatizado, se tivesse incorrido em pecado mortal. E esse concílio estabeleceu as normas para os cardeais em conclave que elegem um novo papa. Uma delas é que o cardeal que está participando da eleição de um novo papa não pode receber nem enviar carta, sob pena de excomunhão.Será que ainda é assim? Certamente hoje deve ser proibido atender telefonemas, principalmente por celulares. Outra curiosidade desse concílio, que foi presidido por São Boaventura, é que dele iria participar Santo Tomás de Aquino, o que não aconteceu, por ele ter morrido durante a viagem para Lion.

E, retomando o assunto do Espírito Santo, vamos ver agora a origem e o significado dessa palavra. No original grego do Novo Testamento espírito é pneuma, que São Jerônimo traduziu para o Latim da Vulgata como spiritus. E santo, em Grego, é hagion, que São Jerônimo verteu para a Vulgata com o termo latino sanctus. Acontece que Espírito Santo ou Santo Espírito não existia no Velho Testamento nem nas primeiras gerações cristãs, pois só existia (e só existe, é óbvio) um Deus, o Javé do Velho Testamento. E como vimos, o Espírito Santo só foi instituído mais tarde, no Concílio Ecumênico de Constantinopla (381).

Destarte, na Septuaginta (“Versão Alexandrina” ou “Versão dos Setenta”), ou o Velho Testamento traduzido para o Grego, em cerca de 250 a. C., e nos textos gregos do Novo Testamento, quando temos a expressão “Espírito Santo” ou “Santo Espírito”, não se trata do Espírito Santo da Santíssima Trindade, mas do Espírito Santo ou alma de uma pessoa, o que nos lembra a frase de São Paulo: “Nosso corpo é santuário do (dum no original grego) Espírito Santo” (1 Coríntios 6,19). Um exemplo disso é o Espírito Santo de Daniel, como está neste texto: “Deus suscitou o espírito santo de um homem muito jovem chamado Daniel” (13,45, da Bíblia Católica, pois a Protestante só vai até o capítulo 12).

Como cada pessoa tinha e tem um Espírito Santo ou alma, no original grego do Novo Testamento, sempre que aparece essa expressão “Espírito Santo”, não se encontra o artigo definido grego “ho” (“o”), pois quando esse original foi escrito, os teólogos ainda não tinham instituído o Espírito Santo e a Santíssima Trindade, à qual Ele pertence. Por isso, não se dizia “o Espírito Santo”, referindo-se àquele definido e único da Santíssima Trindade, já que Ele não existia naquela época. Como vimos, só mais tarde o Espírito Santo e a Santíssima Trindade foram criados.

Destarte, quando na Bíblia, em Português, temos essa expressão Espírito Santo, o artigo Dele deve ser o indefinido “um” e não o definido “o”, para que a tradução seja fiel ao original grego: “um Espírito Santo de alguém”. Mas, infelizmente, todas as traduções foram adaptadas à nova doutrina do Espírito Santo da Santíssima Trindade, e passaram a usar, erroneamente, a expressão “o Espírito Santo”, quando o certo é “um Espírito Santo”, a que a Bíblia se referia antes da instituição do Espírito Santo da Santíssima Trindade, e como está no original grego.

Fui repetitivo na explicação desse assunto, propositalmente, para que as pessoas de menos instrução possam também entendê-lo bem. E procurei ser também simples e claro o mais possível na exposição do assunto. E é por isso que deixei também para explicar, somente agora, uma outra faceta desse assunto.

No Grego não há o artigo indefinido “um”. Já o artigo definido “o” (“ho”) existe, e ele aparece normalmente. E, destarte,  se no texto original grego se dissesse “o Espírito Santo”, essa expressão ficaria assim: “ho Pneuma Hagion” ou  “ho Hagion Pneuma” (o Espírito Santo ou o Santo Espírito”). Acontece que os textos originais gregos vêm sempre sem o artigo definido “ho”, a saber: Pneuma Hagion, pelo que nunca podemos colocar nas traduções para o Português o artigo definido “o”, mas o indefinido “um”, que não aparece em Grego porque, como dissemos, ele não existe em Grego. Mas, como no Português, ele existe, temos que colocá-lo quando aparece a expressão Espírito Santo, ficando, pois, assim: “um Espírito Santo”, e não “o Espírito Santo”.

Para complicar ainda mais as coisas, o Latim já não tem nem o artigo definido “o” nem o indefinido “um”. Por isso, na Vulgata, só aparece a expressão Espírito Santo assim: Sanctus Spiritus ou Spiritus Sanctus, mas no Português eles existem, e, portanto, temos que colocá-los, quando for o caso.

Sintetizando essa questão, dizemos que a expressão em Grego Pneuma Hagion deve ser traduzida corretamente para o Português assim: “um Espírito Santo”, e não “o Espírito Santo”, tradução que só estaria certa, se nos textos gregos originais bíblicos ela fosse assim: “ho Pneuma Hagion”. E a Vulgata complicou mais as coisas, pois, como foi dito, o Latim não tem nenhum tipo de artigo, nem o definido nem o indefinido. Mas em Português eles existem. E temos que ser fiéis ao original grego, cujo sentido “um Espírito Santo” e não “o Espírito Santo”.

E sobre o João Batista, temos um texto do anjo anunciador do seu nascimento:  “…já desde o ventre de sua mãe, será cheio de um Espírito Santo”(Lucas 1,15). Esse Espírito Santo é o próprio espírito de João Batista. Portanto a tradução “do Espírito Santo” está errada. Aliás, como já vimos, segundo uma corrente de teólogos europeus, quando a Bíblia fala em anjo, ela se refere a espíritos iluminados de pessoas falecidas (padre François Brune, “Os Mortos nos Falam”).

E sobre Zacarias, pai de João Batista, lê-se: “Zacarias ficou cheio de um ou dum Espírito Santo” (e não do Espírito Santo), pois o original grego não tem o artigo indefinido, mas, como ele existe em Português, temos que usá-lo. Se no texto original grego houvesse o artigo definido “ho” (“o”), estaria certa a tradução: “cheio do Espírito Santo” (Lucas 1,67). Mas como não há, está errada.

E, na verdade, quer se refira à expressão “o Espírito Santo da Trindade”, ao “um Espírito Santo de alguém” ou ao “o Espírito Santo de determinada pessoa definida, por exemplo:“o Espírito Santo de Daniel”, a expressão “Espírito Santo” representa o conjunto de todos os espíritos, estejam eles no Mundo Espiritual ou no Mundo Físico.

Mais um exemplo: “Onde está o que pôs nele o seu Espírito Santo?” (Isaias 63,11). Aqui está certo o artigo definido “o”, porque está definindo uma pessoa, isto é, Moisés. Mas, como se vê, não se trata também do Espírito Santo da Trindade.

Mas nós podemos contornar as coisas, eliminando ou suavizando, pelo menos, o nosso carma negativo. É o que lemos na Bíblia: “O amor e boas ações encobrem uma multidão de pecados” (1 Pedro 4,8; Tiago 5,20; e Provérbios 10,12).

E quando Jesus fala que o pecado contra o Espírito Santo não tem perdão (Marcos 3,28 e 29; e Mateus 12,31 e 32), Ele queria dizer que o pecado contra a voz da consciência do indivíduo, ou seja, contra o seu próprio Espírito Santo, é muito grave, e que, portanto, não tem perdão, e deve ser pago nesta vida (a vida das pessoas daquele tempo e a nossa de hoje) ou em outra vida futura (no porvir, como diz o texto evangélico). De fato, a lei de causa e efeito ou carma é inexorável. Colhemos o que plantamos. Porém, como dissemos, nós podemos suavizar o nosso carma negativo, como podemos complicar também o nosso carma positivo.

Sabemos que o Consolador, denominado também de Espírito Santo, Espírito de Verdade ou Espírito Verdade, Paráclito e Advogado, prometido por Jesus, só viria depois que Jesus deixasse este nosso mundo. Mas fala-se também em Espírito Santo no Velho Testamento, de que vimos exemplos, como sendo um espírito santo (evoluído) de uma pessoa. E isso nos prova que o Espírito Santo na Bíblia não é mesmo de Deus, e não se refere àquele da Santíssima Trindade, que, como já dissemos, várias vezes, só foi instituído mais tarde, no século 4º. Uns acham que se trata do próprio Jesus. E de fato o é. Só que nem sempre é Ele que se manifesta, mas um espírito iluminado de sua equipe. E o Espiritismo teve a Revelação de um espírito que se denominou esse Espírito Verdade, que coordenou os espíritos da Codificação Espírita. Por isso, a Doutrina Espírita é considerada como sendo o Espírito Verdade ou o Consolador prometido pelo Mestre Jesus.

E Jesus afirmou que o espírito a ser enviado não falaria por si mesmo, mas diria tudo que tivesse ouvido. E aqui, mais uma vez, fica evidente que não se trata do Espírito Santo, tido como sendo também Deus ou Terceira Pessoa da Santíssima Trindade, pois, se o fosse, de duas uma: ou Ele não é o Espírito Santo da Trindade, ou então, é, mas Ele não é Deus, pois não falará por si mesmo, mas o que tiver ouvido. E, se tanto o Pai pode enviar o Espírito Consolador (São João 14,16), como o próprio Jesus pode também enviar esse Espírito Consolador (São João 16,7), é porque, de fato, nem sempre é Jesus o Consolador, pois quem envia não pode ser, ao mesmo tempo, o enviado. Mas aqui fica provado que Jesus chefia a equipe dos espíritos enviados.

Não sou dono da verdade. E apenas estou mostrando a ponta de um iceberg.

Deus é Espírito, Luz, Inteligência Suprema, Causa Primária, o Único, o Único Ser Incontingente e Amor. Mas os teólogos complicaram as coisas, fazendo de Deus um verdadeiro imbrólio, que eles mesmos não entendem.

Espírito-Pai-Filho. Deus (Espírito) com seus Aspectos de Pai (Criador) e de Filho (Criado, representado por Cristo e por todos nós também filhos de Deus).

E o Verbo era Deus, mas é também o Filho, porque se encarnou no Filho e nos demais filhos de Deus, em forma de centelhas ou extensões do Verbo. E somos até deuses, segundo Jesus (São João 10,34), como o afirma também o Velho Testamento (Salmo 82,6): “Vós sois deuses”. Mas não confundamos as coisas. Nós somos deuses, sim, mas relativos. Já Deus propriamente dito, o Brâman, o Único dos Orientais, o Ser Incontingente, de Santo Tomás de Aquino, é Deus absoluto, ao qual Jesus se referiu, chamando-O de “Meu Pai, meu Deus e vosso Deus” (São João 20,17).

São Paulo nos traz luz sobre o assunto. “Mas o que profetiza, fala aos homens, edificando, exortando e consolando” (1 Coríntios 14,3). Jesus disse que o Consolador consolaria. E no exemplo paulino, temos um exemplo de um espírito que está consolando através de alguém que profetiza, no caso um médium que recebe espíritos bons, santos. Na Vulgata, como já sabemos, para representar um espírito santo, bom, São Jerônimo usou estes termos: spiritus bonus (espírito bom), que consola, pois um espírito atrasado jamais poderia consolar alguém. Por isso São João nos manda examinar os espíritos: “Amados, não deis crédito a qualquer espírito: antes provai os espíritos s procedem de Deus, porque muitos falsos profetas têm saído pelo mundo afora” (Primeira Carta de São João 4,1). Os espíritas fazem justamente esse trabalho. E vejam os nossos irmãos católicos e evangélicos que os espíritas não estão entrando em contato só com demônios (espíritos humanos impuros), como eles pensam, pois há também os bons espíritos consoladores. E veja-se que São João demonstra no seu texto citado que há também profecias de espíritos. E, como já vimos, o profeta (médium) que recebe espíritos é do tipo Nabi ou Navi.

E vejamos outro exemplo de São Paulo, da atuação do Consolador ou um espírito bom, santo, iluminado, através de uma pessoa que tem o dom espiritual ou mediúnico de receber espíritos: “Porque todos vós podereis profetizar, um após outro, para todos aprenderem e serem consolados”(1 Coríntios 14,31).

Fonte: A Face Oculta das Religiões

O que é mediunidade?

O que é mediunidade?

Mediunidade é a faculdade humana pela qual se estabelecem as relações entre homens e espíritos. É uma faculdade natural, inerente a todo ser humano, por isso, não é privilégio de ninguém. Em diferentes graus e tipos, todos a possuimos. O que ocorre é que, em certos indivíduos mais sensíveis à influência espiritual, a mediunidade se apresenta de forma mais ostensiva, enquanto que, em outros, ela se manifesta em níveis mais sutis.

A mediunidade é, pois, a faculdade natural que permite sentir e transmitir a influência dos espíritos, ensejando o intercâmbio e a comunicação entre o mundo físico e o espiritual. Trata-se de uma sintonia entre os encarnados (vivos) e os desencarnados (mortos), permitindo uma percepção de pensamentos, vontades e sentimentos. O Espiritismo vê a mediunidade como uma oportunidade de servir, de praticar a caridade, sendo uma benção de Deus que faculta manter o contato com a vida espiritual. Graças ao intercâmbio, podemos ter aqui não apenas a certeza da sobrevivência da vida após a morte, mas também o equilíbrio para resgatarmos com proficiência os “débitos”, ou seja, desajustes adquiridos em encarnações anteriores.

É graças à mediunidade que o homem tem a antevisão de seu futuro espiritual e, ao mesmo tempo, o relato daqueles que o precederam na viagem de volta à erraticidade, trazendo informes de segurança, diretrizes de equilíbrio e a oportunidade de refazer o caminho pelas lições que absorve do contato mantido com os desencarnados. Assim, possui uma finalidade de alta importância, porque é graças a ela que o homem se conscientiza de suas responsabilidades de espírito imortal.

Sendo inerente ao ser humano, a mediunidade pode aparecer em qualquer pessoa, independentemente da doutrina religiosa que abrace. A história revela grandes médiuns em todas as épocas e todos os credos. Além disso, a mediunidade não depende de lugar, idade, sexo ou condição social e moral.

A ação dos espíritos

Diz a questão 459 de O Livro dos Espíritos, de Allan Kardec: “Os espíritos influem sobre nossos pensamentos e ações? A este respeito, sua influência é maior do que podeis imaginar. Muitas vezes, são eles que vos dirigem”.

A idéia da ação dos espíritos não nasceu com o Espiritismo, já que sempre existiu desde as épocas mais remotas da vida humana na Terra. Todas as religiões pregam sobre a ação dos espíritos de forma direta ou indireta e nenhuma nega completamente estas intervenções. Inclusive, criaram dogmas e cerimônias relativas a elas, como promessas (pedir alguma forma de ajuda para um espírito em troca de um sacrifício) e exorcismos (cerimônia religiosa para afastar o “demônio” ou os espíritos maus).

A ação mediúnica não está limitada às sessões, vivemos mediunicamente entre dois mundos e em relação permanente com entidades espirituais. Isto se dá porque muitos espíritos povoam os mesmos espaços em que vivemos, muitas vezes nos acompanhando em nossas atividades e ocupações, indo conosco aos lugares que freqüentamos, seguindo-nos ou evitando-nos conforme os atraimos ou repelimos.

Estamos cercados por espíritos e sua influência oculta sobre os nossos pensamentos e atos se faz sentir pelo grau de afinidade que mantivermos com eles. Inúmeros espíritos benfeitores também se comunicam conosco, por via inspirativa ou intuitiva, todas as vezes em que nos dispomos a ser úteis aos nossos irmãos em nossa vida social. Quantas vezes um conselho sensato e oportuno que damos sob a intuição de um benfeitor espiritual consegue mudar o rumo de uma vida e até, em certos casos, salvar ou evitar que uma família inteira seja precipitada no abismo de uma desgraça? O amor verdadeiro e desinteressado não requer lugar nem hora especial para ser praticado, pois o nosso mundo, com o sofrimento da humanidade torturada, é igualmente um vasto campo de serviço redentor.

Entretanto, não julguemos que a mediunidade nos foi concedida para um simples passatempo ou para a satisfação de nossos caprichos. Ela é coisa séria e, possuindo-a, devemos procurar suavizar os sofrimentos alheios. Ao desenvolvermos a mediunidade, lembremo-nos de que ela nos é dada como um arrimo para conseguirmos mais facilmente a perfeição, para liquidarmos mais suavemente os pesados “débitos” que contraímos em existências passadas e para servirmos de guia aos irmãos que se encontram mais desajustados espiritualmente.

Mediunidade em desarmonia

Existem alguns sinais mais freqüentes do aparecimento da mediunidade em desarmonia, que são: cérebro perturbado, sensação de peso na cabeça e ombros, nervosismo (ficamos irritados por motivos sem importância), desassossego, insônia, arrepios (como se percebêssemos passar alguma coisa fria), sensação de cansaço geral, calor (como se encostássemos em algo quente), falta de ânimo para o trabalho e profunda tristeza. Precisamos usar nosso bom senso para percebermos com clareza se os sintomas acima citados são frutos de uma obsessão espiritual, indicando uma mediunidade desequilibrada, ou o resultado de uma auto-obsessão, um desequilíbrio nosso mesmo, gerando neuroses e outros tipos de distúrbios. Muitas vezes, a ajuda de um psicólogo, de preferência espírita ou espiritualista, é necessária.

Mas o que o médium deve fazer nestes momentos de alterações emocionais? Todo iniciante, a fim de evitar inconvenientes na prática mediúnica, primeiramente deve se dedicar ao indispensável estudo prévio da teoria e jamais se considerar dispensado de qualquer instrução, já que poderá ser vítima de mil ciladas que os espíritos mentirosos preparam para lhe explorar a presunção.

Junto com o conhecimento teórico, o médium deve procurar desdobrar a percepção psíquica sem qualquer receio ou temor. Na orientação do desenvolvimento mediúnico, é importante que ele procure as instruções espíritas, para evitar percalços e dissabores. É aconselhável o desenvolvimento mediúnico em grupos especialmente formados para isto, pois pessoas bem orientadas, que se reúnem com uma intenção comum, formam um ambiente coletivo bem favorável ao intercâmbio. É importante também que o médium jamais abuse da mediunidade, empregando-a para a satisfação da curiosidade.

Reforma Íntima – o fundamental

Educar e desenvolver a mediunidade é aprender a usá-la. Para que sejamos bem-sucedidos, devemos cultivar virtudes como a bondade, a paciência, a perseverança, a boa vontade, a humildade e a sinceridade. A mediunidade não se desenvolve de um dia para o outro, por isso, devemos ter muita paciência. Sem perseverança, nada se alcança, pois o desenvolvimento exige que sejamos sempre persistentes. Ter boa vontade é comparecer às sessões espíritas com alegria e muita satisfação. A humildade é a virtude pela qual reconhecemos que tudo vem de Deus e, se faltarmos com a sinceridade no desempenho de nossas funções mediúnicas, mais cedo ou mais tarde sofreremos decepções.

Ensinamentos é que não faltam em todas as circunstâncias de manifestações da vida. A faculdade mediúnica em harmonia pode fazer grandes coisas. A educação pode começar no simples modo de falar aos outros, transmitindo brandura, alegria, amor e caridade em todos os atos da vida.

A mediunidade se desenvolve naturalmente nas pessoas de maior sensibilidade para a captação mental e sensorial de coisas e fatos do mundo espiritual que nos cerca, o qual nos afeta com suas vibrações psíquicas e afetivas. Da mesma forma que a inteligência e as demais faculdades humanas, a mediunidade se desenvolve no processo de relação.

Quando a mediunidade aflorar sem um preparo prévio do médium, é preciso orientá-lo para que os fenômenos se disciplinem e ele empregue acertadamente sua faculdade. Não se deve colocar em trabalho mediúnico aqueles que apresentam perturbações ou que possuam desconhecimento sobre o assunto. Primeiramente, é preciso ajudar a pessoa a se equilibrar no aspecto psíquico, através de passes, vibrações e esclarecimentos doutrinários.

É fundamental que o médium busque sua reforma íntima com sinceridade. Através de uma compreensão maior acerca da vida, despertando sentimentos como compaixão, respeito, humildade etc, e da prática da caridade, seremos, com certeza, instrumentos do Amor Universal. O médium também precisa ser amigo do estudo e da boa leitura, além de moderado. Por fim, deve sempre cultivar a oração diária, pois ela é um poderoso fortificante espiritual e um benéfico exercício de higiene mental.

Fonte: Revista Espiritismo

Pai Nosso Umbandista

Pai nosso que estais nos céus, nas matas, nos mares e em todos os mundos habitados. Santificado seja o teu nome, pelos teus filhos, pela natureza, pelas águas, pela luz e pelo ar que respiramos.

Que o teu reino, reino do bem, do amor e da fraternidade, nos una à todos e a tudo que criastes, em torno da sagrada Cruz, aos pés do divino salvador e redentor.

Que a tua vontade nos conduza sempre para o culto do amor e da caridade.

Dai-nos hoje e sempre a vontade firme para sermos virtuosos e úteis aos nossos semelhantes.

Dai-nos hoje o pão do corpo, o fruto das matas e a água das fontes para o nosso sustento material e espiritual.
Perdoa, se merecermos, as nossas faltas e dá o sublime sentimento do perdão para os que nos ofendam.

Não nos deixeis sucumbir, ante a luta, dissabores, ingratidões, tentações dos maus espíritos e ilusões pecaminosas da matéria. Enviai-nos, pai, um raio de tua divina complacência, luz e misericórdia para os teus filhos pecadores que aqui habitam, pelo bem da humanidade, nossa irmã.

Assim Seja !

Fonte: Genuína Umbanda

A Evolução da Umbanda

A manifestação de espíritos de negros e de índios, tão comuns na Umbanda, já ocorria espontaneamente nos rituais da macumba desde meados do século XVIII. Longe de ser um culto organizado, a macumba era um agregado de elementos da cabula bantu, do Candomblé jeje-nagô, das tradições indígenas e do Catolicismo popular, sem o suporte de uma doutrina capaz de integrar os diversos pedaços que lhe davam forma. É desse conjunto heterogêneo,acrescida de elementos egressos do Kardecismo, que nascerá a nova religião.

Mas de onde vem a Umbanda? Acredita-se que o vocábulo “umbanda” designasse,entre os africanos, sacerdote que trabalha para a cura. Na macumba, o vocábulo “embanda”ou “umbanda” também designava o chefe do terreiro ou, simplesmente, sacerdote. Nunca uma modalidade religiosa. O umbandista Matta e Silva relata no livro Umbanda e o Poder da mediunidade que o vocábulo “umbanda”, como bandeira religiosa, não aparece antes de 1904.

Entretanto, no depoimento deste mesmo autor, encontra-se o registro de que, em 1935, conhecera um médium com 61 anos de idade, de nome de Nicanor, que praticava a Umbanda desde os 16 anos, ou seja, desde 1890, incorporando o Caboclo Cobra Coral.

Outro autor umbandista, Diamantino Trindade,reproduziu no livro Umbanda e Sua História parte de uma entrevista do jornalista Leal de Souza – publicada no Jornal de Umbanda, em Outubro de 1952 – na qual afirmava que o “precursor da Linha Branca fora o Caboclo Curuguçu , que trabalhou até o advento do Caboclo das Sete Encruzilhadas”

Misto de lenda e de realidade, a “anunciação” da Umbanda sofre algumas variações de narrador para narrador, mas a estrutura básica se mantém inalterada. Zélio de Moraes, aos 17 anos, começou apresentar alguns distúrbios os quais a família acreditou que fossem de ordem mental e encaminhou o rapaz para um hospital psiquiátrico.

Dias depois, não encontrando os seus sintomas em nenhuma literatura médica, foi sugerida à família que lhe encaminhasse a um padre para um ritual de exorcismo. O padre, por sua vez, não conseguiu nenhum resultado.

Tempos depois Zélio foi levado a uma benzedeira conhecida na região onde morava que lhe diagnosticou o dom da mediunidade e lhe recomendou que “trabalhasse” para a caridade.

Em obra surgida no início dos anos cinqüenta, Aluizio Fontenelle profetizava o futuro da Umbanda como religião predominante no Brasil, mas fazia questão de afirmar que estava referindo-se:

…”não a essa Umbanda mistificada e misturada com os diversos credos fetichistas hoje conhecida no Brasil inteiro. Será uma Umbanda codificada, uma Umbanda pura, na qual se aproveitará de todas as religiões existentes na terra somente aquilo que for sublime e perfeito(…)Quanto aos praticantes dos candomblés e aos que praticam a magia negra, estes serão devidamente orientados e instruídos em novas práticas, abandonando por completo os rituais bárbaros que os identificam. O Espiritismo na Lei de Umbanda em sua nova fase, surgirá com o progresso do mundo; novos horizontes nos serão apresentados e o mundo marchará de fronte erguida na direção do aperfeiçoamento universal.”5

A nova religião era apresentada como totalmente inserida em um modo de vida urbano e civilizado. A Umbanda, na ótica desses intelectuais, aparecia como uma religião que incorporava os códigos simbólicos da modernidade. Portanto, lançavam seu interdito às práticas “em completo contraste com a evolução moral, material e espiritual” da vida moderna, que misturavam “rituais bárbaros provindos do africanismo, com práticas católicas e concepções kardecistas”6. A Umbanda, através de seu esforço racionalizador, de seu substrato doutrinário, deveria banir as práticas do africanismo. Estas, segundo João de Freitas mostravam-se totalmente “impraticáveis entre nós porque não se coadunavam com nossos foros de civilização”7. Apresentando a discrepância entre as práticas rituais de matriz africana e a vida urbana, assim refere-se Emanuel Zespo:

“…suas práticas de religião primitiva estão incompatíveis com o mundo atual; e, sua subistência em nosso meio só seria possível mediante uma modernização e adaptação no ritual externo. Não estamos mais em condições de sacrificar galos vermelhos a Exu e largá-los na primeira encruzilhada de um centro urbano. Tal rito, no mato, não estaria fora de ambiente, mas em plena Avenida Rio Branco… isto não é mais exeqüível. Os próprios orixás não aceitam estas violências de rito primitivo.”

Fontes: Revista de Umbanda