A Biblioteca (conto de ficção)

“Biblioteca Luís de Camões. Oferta de um grupo de patriotas de Lisboa. 1908” O orgulho da inscrição ia-se apagando, caindo como caía a caliça pobre, mas as portas de madeira aguentavam há quase um século a abertura às nove e o fecho ao meio-dia e meia, a abertura às duas e o fecho às cinco e meia. A sala de leitura ficava a seguir ao depósito dos livros. Realmente um depósito: ninguém os lia. Que livros ali haveria? Os mesmos de 1908? Teria entrado algum livro depois? E os espaços vazios nas prateleiras, esperariam eles sem esperança alguma obra recente ou seriam antes lembranças de roubos e de devoluções por fazer para sempre? Coisas de antigamente. Agora já nem mesmo se roubavam livros desta biblioteca.

No depósito a limpeza era sumária e ao nível das prateleiras mais baixas. Para cima ninguém olhava e as aranhas guarda-livros impediam com as suas teias antigas que os volumes encadernados partissem sem chamada de atenção. Ao lado esquerdo, a única janela iluminava o armário do arquivo das obras catalogadas. Numa das gavetas de madeira faltava o puxador metálico. A ordem alfabética fora substituída pela ordem do uso do tempo à medida que as fichas manuscritas se soltavam ou eram arrancadas do tubo metálico e recolocadas depois noutro lugar. Tal desordem não constituía para a biblioteca qualquer problema; já ninguém consultava o ficheiro e muito menos havia quem se preocupasse como antigamente em escrever nas fichas sebosas algum comentário independente sobre o livro folheado: “Monárquico, mas documentado.” Ou generoso: “Muito bom, recomendo a outros leitores.” Ou explicativo: “Poema de amor intenso, fervor do amor físico, páginas 23 a 26. Atenção que ‘lírio’ simboliza o pito da miúda.” Ou violento: “O que é que este gajo quere, afinal?” Várias fichas tinham comentários sobrepostos. Um leitor escreveu num dos cartões: “É belo, mas não percebi nada.” Por baixo, noutra letra, noutra cor, alguém escreveu depois: “Não percebi nada, mas é belo.” No fundo de todas as gavetinhas estreitas e compridas havia fichas soltas de obras esquecidas nas prateleiras.

Dali se passava para a sala de leitura. As sua grandes janelas davam também para o logradouro dum quarteirão antigo. O sossego dos livros repetia-se no rectângulo enorme de antigos talhões de cada prédio, agora reunidos pelas ervas altas e tombados que estavam os murinhos de tijolo burro como em ruínas de antigos impérios.

Ao fundo da sala iluminada de luz velha que se espalhava por abóbadas envergonhadas ficavam uma secretária simples, quase uma mesa de refeição, e a sua cadeira sóbria estofada com uma almofadinha baixa e um encosto para as costas que compensasse as longas horas de vigília. Era nessa cadeira por trás dessa secretária que muitas vezes se sentava a menina Julieta.

Chamavam-lhe menina precisamente desde o tempo em que deixara de ser menina, quando cresceu – não de repente, mas sem se dar por isso, como uma florzinha que desabrocha suavemente, entre a primeira réstea da madrugada e o primeiro raio forte do sol – e cresceu até usar sapatos de saltos altos. Antes de ser menina Julieta ela era para todos a Julieta, a filha da Jeropiga, a Jeropiga que limpava a biblioteca com o mesmo encanto e empenho que punha em todo o seu trabalho: nenhum. Limpava só até à hora do almoço, porque depois era uma tristeza, um calicezinho bastava para soltar o génio do seu corpo forte e toda ela transbordava em coisas que não se deviam fazer e ela fazia e em coisas que não se deviam dizer e ela dizia em altas vozes. Uma desgraçada. Nada que se adivinhasse de manhã, com as canções controladas a marcarem o vaivém do pano do pó e da esfregona molhada. Quando a tranca da porta da biblioteca soava no logradouro no intervalo para o comer, todos sabiam que a Dona Jeropiga já não voltava, nem mesmo a buscar a filha. Outra desgraçada. “Não há livros que contem estórias destas”, dizia um velho que se sentava no resto do muro que separava do logradouro abandonado o claustro republicano do edifício da biblioteca. “Então não há?!”, dizia outro, que lia livros. E discutiam o assunto com pouco entusiasmo e mesmo algum incómodo até voltarem às doenças e ao futebol.

A Dona Jeropiga, cuja graça já ninguém recordava e por isso tinha o Dona legitimador colado à alcunha, trazia a miúda pela mão e deixava-a a brincar no logradouro ou na biblioteca, chovesse ou não. Nem tinha mal: os poucos que lá entravam achavam a miúda engraçada. Ela aprendeu a ler na escola, e na biblioteca brincava com a boneca. A Julieta ia fazendo parte dos dias e do lugar. A Senhora Clotilde, que se lembrava de também ter sido Julieta num dia longínquo e de ter visto o ministro da Instrução da República na única visita de Estado à Biblioteca (foi na Festa da Árvore, e plantaram uma no logradouro, que morreu dois invernos depois), pedia à miúda, por causa do reumático e de outras mil doenças de que nem os livros falavam, que fosse buscar e entregar coisinhas, fosse ele livros ou fichas, jornais ou uma merenda, revistas encadernadas ou um lavor de uma vizinha.

Assim cresceu a Julieta até desabrochar a menina Julieta. Já ela era da casa. Se a mãe entrava mais cedo na taberna, a Julieta vinha limpar o pó por ela. Os velhotes gostavam de ver a Julieta a limpar o pó em cima dum banco. Foi então que descobriram que ela já era menina. E que bela menina! Parecia uma estampa, a Julieta. O velho que lia coisas dizia que ela parecia as mulheres que o Stuart desenhava, mas os outros não visualisavam. Viam o mesmo à sua maneira, porém: umas pernas realmente desenhadas por mão de artista, um peito de República, uns cabelos de deusa romana, uns lábios de artista de cinema. Não viam com estas palavras, mas o ver bastava-lhes.

A Dona Clotilde pigarreava como no tempo em que as pessoas pigarreavam. Morreu primeiro que a mãe da menina Julieta. Mas com pouca diferença. Parecia combinado. Da Dona Clotilde ninguém sentiu realmente falta, mas sentiram sim da tossezinha educada com que marcava o fluir do tempo pois o novo silêncio punha a morte atrás da orelha dos poucos que faziam do espaço da biblioteca um muro que a enganasse. Caso diferente foi a morte da Jeropiga. O bairro não chorou, mas foi mais a pena da menina que da mãe – e estava encontrada, com a naturalidade das coisas simples, a herdeira das funções da Dona Clotilde e da Dona Jeropiga. O Estado estava em tempo de poupanças. Duas em uma. A menina Julieta limpava o pó aos livros e sentava-se na cadeira da, chamemos-lhe assim, bibliotecária. Os velhotes passaram a usar a biblioteca com uma regularidade antes interrompida pelas maleitas, servicitos, afazares, idas à Caixa, enterros, jogatina no jardim público. Não queriam perder a limpeza dos livros. A menina Julieta tirava os sapatos altos, ficava em pontas de pés um momento, tendo um delicioso arrepio por causa da pedra gelada do chão irregular do depósito, juntava os sapatos, punha-os numa das prateleiras onde o tempo deixara espaços vagos, e subia o escadote com gentil firmeza. Quando se aplicava a limpar o pó, com um certo entusiasmo de juventude, percebia-se que sabia como limpar o pó em livros velhos. A menina Julieta parecia aos velhotes a Julieta do balcão de Verona mesmo que nunca tivessem sabido que havia um balcão em Verona. Era linda, a menina Julieta. E quando se sentava na sua cadeira sóbria, toda direita, sem se envergonhar do peito alevantado, do seu peito 5 de Outubro, olhando a janela, fechando os olhos se o sol entrava sem medo? Melhor que uma santa no altar duma igreja quando a luz apanha a jeito os rasgos na pedra e atravessa os vidrinhos transparentes colocados no lugar de antigos vitrais. Os velhotes deixaram os bancos do falso claustro e passaram a sentar-se nas mesas de leitura, viradas para o lugar institucional da menina Julieta. Com livro ou sem livro, os velhos admiravam a Julieta ao sol, virando a face para a janela, fechando os olhos, às vezes inclinando a cadeira mais para a sua direita, para receber o calor no regaço, nas pernas, no corpo todo.

Um dia entrou na biblioteca um rapaz e viu o mesmo que viam os velhos. A diferença é que era rapaz. Porque teria ele lá entrado? Um dos velhos dizia que andava à procura duma morada para entregas e foi ali ao engano; outro que o moço já a devia ter visto na rua muitas vezes e sabia muito bem quem ela era; outro, ainda, aventou que ele ia à procura dum livro, mas os outros riram-se da ideia e ele calou-se. Certo é que o rapaz quando a viu sentiu qualquer coisa; como que parou, congelado, ou a ferver por dentro; sem saber o que sentia, sabia o que via e o que via era o que sentia e o que sentia era uma atracção por olhá-la, vê-la, mirá-la, fitá-la, observá-la, sentada, em pé, parada, em movimento.

A menina Julieta não era de gestos delicados, mas naquela idade os gestos têm o cheiro do amor. Fazem tremer os rapazes por dentro. O rapaz que lá entrou, que não entrou à procura de nenhum livro porque não sabia sequer que ali havia livros e não lhes tinha gosto, ficou a tremer por dentro e com a borracha da sola dos ténis agarrada ao chão, a derreter-se como ele. A menina Julieta deu por ele ali especado, entre o depósito e a sala de leitura e sorriu bom-dia como era costume a quem ali entrasse, mas o bom-dia arrastou-se e ela também se sentiu agarrada pelo meio do ar aos olhos do rapaz e quase se podiam ver as setas do olhar da menina Julieta a seguirem em sentido contrário, dos seus olhos cor de castanha para os olhos esverdeados do rapaz. Em breve (foi uma questão de segundos) as setas dos olhares, duas em cada sentido, começaram a tremer também.

A menina Julieta foi a primeira a despertar do ataque que o seu próprio corpo lhe fazia, uma coisa interna em que ela não pensou propriamente, nem precisava, pois dela tinha milenar conhecimento. Pegou ao calhar numa revista qualquer que nem era da biblioteca, tinha-a trazido dum consultório para ver nas horas vagas, e disse ao rapaz para se sentar numa das mesinhas mais próximas dela. Ele obedeceu sem dizer palavra e seguindo a menina Julieta com os olhos, seguindo o que quer que ela fizesse ou não fizesse, foi folheando a revista uma, duas, três vezes, as vezes que foram precisas até que se aproximasse a hora do almoço da biblioteca.

Os velhotes saíram um a um da sala e do portal e foram para as suas casas, os seus quartos, os seus lares, os seus pratos de sopa, os seus caldos e uma peça de fruta. O rapaz ficou-se pela menina Julieta e a menina Julieta ficou-se pelo rapaz. A menina Julieta fechou a porta como era hábito, mas fechou-a consigo dentro da biblioteca, ela e o rapaz.

Perguntou-lhe o nome, porque ela não era dessas que nem sabia o nome dos rapazes com quem andava, repetiu o nome Armindo e agarrou-se-lhe ao pescoço arrastando-o para o depósito, para um dos corredores escuros, afastado da janela do móvel do arquivo. Ali, encostada ela à prateleira das letras A, B e C e ele de costas para o J, o L e o M, pois a biblioteca não tinha livros de autores começados por K, o rapaz e a menina Julieta possuíram-se um ao outro em igualdade republicana, ais mudos e bafos quentes quantificando e qualificando a intensidade do encontro.

O rapaz queria mais, o que era compreensível dada a perfeição da troca dos corpos um no outro. Ela, com um sorriso a chamar-lhe maroto e a si mesma marota, levou a mão atrás da cabeça, pegou num livro (eram os sonetos de Camões) e deu-lhe com ele ao de leve no cocuruto, enquanto o puxava para cima da mesa de apoio do depósito, onde apenas uma Lírica de Garrett esperava que a menina Julieta a devolvesse à prateleira do A, de Almeida. Ali, deitada na mesa, de pernas ao alto apoiadas no BA início do B e a Lírica a servir-lhe de almofada para a cabeça, o rapaz penetrou a menina Julieta e a menina Julieta penetrou o rapaz, se é que a imagem se pode usar só para que conste que aqueles dois tentavam com igual empenho, naquela alegria breve, ser apenas um. Assim terminaram a hora de almoço, comendo-se um ao outro, consumindo as energias mútuas com toda a seriedade que há nas coisas do amor mais perfeito que há, que é o que não tem amor consciente nem pensado.

Recompuseram-se. A menina Julieta abriu-lhe a porta para ele se ir, e ele só se apercebeu disso com ela dentro e ele fora, e ele a querer vir outra vez e ela a sorrir que não e a fechar a porta da biblioteca onde ele tinha aprendido tantas coisas de uma só vez naquele fim de manhã.

O rapaz, trabalhador como poucos, não voltou lá no dia seguinte nem no outro. Passados uns dez dias, entrou de novo na biblioteca e a entrada anunciava que se estava quase na pausa do almoço. A menina Julieta sorriu-lhe e, à parte as setas dos olhares cruzados, repetiu todos os gestos pela mesma ordem, pois os hábitos de bibliotecária diligente implicavam disciplina nos actos quotidianos. E, assim, sentou-o na mesma mesa, deu-lhe uma revista recente, fechou-se com ele lá dentro, encostou-se à prateleira do D, do E e do F e lá foram eles aprender a ler o amor em cada centímetro de pele, em cada linha do rosto, em cada mistério do corpo. Desta vez falaram mais, mas a menina Julieta não queria muitas conversas. Como saberia ela que quanto mais se fala mais o amor se complica? Punha-lhe o dedo indicador nos lábios e impedia-o de falar. Ela sabia que ele estava a tentar apaixonar-se.

De duas em duas semanas lá voltou o Armindo, toda a primavera e meio verão. Depois falou que emigrava e chorou. Queria levá-la. Ela disse: “só se levares a biblioteca”. Ele não entendeu, mas parou de chorar porque sabia que tinham ambos falado de mais. Já não havia setas imaginárias ligando o olho esquerdo dele ao olho direito dela e o olho direito dele ao olho esquerdo dela. Estavam as coisas neste pé: ela ficava, ele partia e o que houvera entre eles sobreviveria ainda como memória às primeiras chuvas. Ele disse que já estava a passar a pasta a um colega e que passaria a dizer-lhe adeus uma última vez antes de abalar para a América. Ela, com o mesmo sorriso de sempre (apenas com uma ligeira sugestão de que era um sorriso segurado numa linha do canto da boca) disse que sim, que passasse.

Ele passou. Trazia o colega. A menina Julieta, sempre atarefada com as suas coisinhas, olhou-o e olhou o colega. Disse-lhe adeus, um adeus sentido mas já resignado, enquanto sentia, de novo, as setas nos olhos ligando-se aos olhos pretos do colega do rapaz.

De duas em duas semanas, o colega do rapaz passava na biblioteca à hora de almoço e a menina Julieta fechava-se por dentro com ele. Correram as prateleiras todas. A coisa tornou-se um hábito. Mas, desta vez, em chegando ao Z, a menina Julieta hesitou antes de regressar ao A.

E, já depois de esquecidas as primeiras chuvas, a menina Julieta dava por si a pensar se haveria na América alguma biblioteca como aquela.

Autor:Eduardo Cintra Torres
Estoril, 2002-3

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