A convergir para zero (conto de ficção)

“Tanta gente,
tantos enredos
até ficarmos para sempre
quedos!
Para sempre? Não!
Que outros (mínimos) seres
já trabalham na nossa remoção.”

Alexandre O’Neill, De ombro na ombreira

De tudo o que se dissera e não dissera, pouco restava. “Pouco” era aliás, de todas as palavras que ali se acotovelavam, a que mais se ouvia. Todos toleravam os sopros de todos os outros, de insonoros que eram, e a mudez, pactuada sobre sangue de ninguém, não era capaz de mais que isto: o pouco crescia.

À saída, houve aqueles para quem a resposta mais natural foi acender um cigarro e gostar de fumá-lo. Os que não fumavam, tiveram pena. E a primeira baforada teve o efeito vaporizante que outro alguém ainda tentou obter de um rebuçado de mentol e eucalipto. Depois, quando o chuvisco quase tão inócuo como os poucos pensamentos conseguidos resolveu dar uma de toró, os sete ou oito pontos incandescentes – que a cada movimento dos braços ou das mãos iam ensaiando passos de dança – pareciam formar a única equipa suficientemente corajosa para fazer face às bátegas. Há algo de quixotesco em fumar à chuva no fim de um velório.

Nunca largando a mão pequena e desenhada cujos dedos frios a rapariga friccionava nos seus, foi impossível à noite evitar-lhe aquela interpelação.

– Manel…

– Então, meninos, onde é que se vai?

Esta frase de Manel teve mais expressão do que qualquer outra até aí, embora não fosse necessariamente dita com o ar de quem pergunta “então, meninos, onde é que se vai?”. O sucedâneo de sorriso que se instalou nos lábios dela não descurou isso, e o que tinha falado primeiro puxou longamente o fumo ao cigarro, que tinha a particularidade de ser dos de enrolar, e retomou:

– Manel, falta a…

– Meteu-se num táxi e foi para casa. Tudo em ordem.

Nova passa. Cofiou a barba, apertou com mais força a mão da outra, que por tentativas ia estreitando o gesto, e fixou-a brevemente porque sabia que ao fazê-lo reporia forças. Mas Manel também não o deixou descalço.

– Pode não parecer normal, mesmo nela, mas é assim mesmo. Além disso, a casa para onde ela foi é a minha. Para onde eu, de resto, irei quando voltarmos. Claro que não ia deixá-la sozinha a noite toda, mas agora teve que ser. A sério, ela fica bem.

Ainda a ponderar uma insistência, o outro soprou mais uma nuvem, como se fizesse bolas de sabão. Quando fazia isto, o contorno da cara tornava-se-lhe confortavelmente difuso, como bem percebeu Manel.

– Ao Zero?

Ela abriu a boca para produzir um “vamos?” que a rapidez com que se meteram no carro faria supor bem mais lapidar. Apenas o tempo de Manel tirar mais um Halls do bolso enquanto os dois centímetros de um cigarro enrolado que já dera o que tinha a dar iam a sepultar na alturazinha de água que cobria o passeio. Rest in peace.

Mas nem por isso o Zero lhes pareceu um sítio pior. Suspensão coloidal, dissera um deles noutro dia, com uma ou outra menção de olá emergindo da matriz e a nossa mesa, como sempre, daquele lado. Era quase possível, no desencontro das conversas, da música e dos diversos vapores exalados, deslindar-se um padrão repetido, uma cadência ou ritmo que teorizassem o que em termos empíricos ninguém ousaria contestar: a mistura de tudo aquilo não era desprovida de um significado.

A uma cara diferente do barman, Manel, que de uma forma ou de outra já tinha decidido levantar-se, empreendeu o trajecto. Quando chegou ao balcão, um toque do telefone adiou-lhe a breve troca de palavras, pelo que foi espreitar a rua.

O panorama mantinha-se. Só que agora a chuva a percutir no toldo fazia esforços por se integrar na métrica do barulho de fundo. Não o conseguindo, dava a volta por cima, alongando-se numa celebração em tudo primordial e incausada: a fúria da água a cair. Encostado à porta, de ombro na ombreira, o espectador não sabia bem se aquilo era um espectáculo digno de aplauso. Pois que a questão nem sequer era essa – digno de aplauso seria sempre. A dúvida que ali se lhe pôs foi se não seria melhor descrever a chuvada como imagem de uma plateia, um balcão, um coliseu inteiro que se põe de pé em ovação à mais bela das récitas. E lembrou-se da noite do concerto, que tinham vindo, todos então, acabar no Zero. Ele aflito com o prazo do artigo, o primo da outra com o avião para apanhar às oito e meia, os outros mais stressados ainda, caramba!, mas fiéis ao conluio com os brasileiros, numa de prolongar ao máximo o estar… nisto, contudo, a magnífica peça de jazz para chuva e orquestra até então tapeteada no toldo do Zero sofreu uma mudança brusca: desacelerou e pôs-se um molha-tolos mortiço. A alegoria algo tribal que havia em tudo aquilo deu lugar a um desses momentos em que, tendo levado a adrenalina do Cosmos ao rubro, o intérprete falha o apogeu da obra. “Deus acobardou-se ao piano”, pensou, “e logo hoje que o Nuno até merecia uma canção”. Foi aqui que Manel voltou a ficar triste.

– Desculpe lá o mau jeito – o barman, com quem só lhe faltou chocar, já desligara -, mas olhe, soube há bocado. Ainda não apanhei o queixo…

– Hã, soube? Como é que…

– Ah, olhe, ela mandou dizer para não se preocupar. E para não ter pressa, que está à sua espera. E olhe, hoje a noite fica por nossa conta, está bem?

– Não estão cá os brasileiros – ao regressar à base, a constatação dela, ainda mais branca debaixo do R grande do letreiro, convergia para uma mesma ausência que o fumo do cigarro que o outro voltara a acender -, mas olha, Manel, a tua miúda é impossível. Lembras-te do que ela fez naquela primeira noite em que falámos com eles?

– Estava apostada, sabes como ela é. E ele também não é…ra muito diferente.

– E o brasuca, morto de gozo, quando percebeu que ela estava a olhar para eles: “escuta, moça, você está a divagar? É que a gente prefere dipressa!”

O riso que se seguiu a esta saída do da barba não tinha aspirações a igualar antecessores. E mesmo estes últimos tinham-no sido sem ter de o querer, não seria bonito da parte de Manel esconder aos olhos pretos que o sabia. Foi este um pouco o turning point que os fez, a 180 graus na mesa, pousar o tabaco de enrolar:

– Manel, estava a pensar. Tens mesmo a certeza que ficou tudo bem com ela?

Aqueles olhos podiam ter a cor da noite, mas eram de todos os mais inadaptados. A ponto de obterem alívio da impressão ácida com que o fumo turva a vista. Eram momentos pouco propícios a quem, por detrás da barba e da voz cava, esconde o jogo da solidão inverosímil mas realíssima que se segue a um silenciamento. Quando a fé escasseia para expurgá-lo, como de resto em todos os momentos de rara beleza – e tenha-se aqui a atenção de distingui-la da alegria -, é duro o “mai’nada”. O pior é que, não obstante o quão diferente a angústia dos outros, a coisa pega-se. Por esta altura Manel já aprendera que há males que não vêm por bem, e que não vão a bem. Por muito que. Pelo que só pôde abanar a cabeça enquanto ela acabava à pressa o tríplice-seco.

O carro, outra vez, mas sem chover. Os néons do Zero no retrovisor, só vestigiais, e nem uma palavra. Depois de o irem pôr a casa, unânimes num “até amanhã” que se adivinhava uma provação, semáforos consecutivos tiveram a consideração ou a imensa piedade de ir abrindo o caminho. Até à porta dela, onde ambos saíram do carro para um aveludado de cacimba.

– Bueno, cá estamos. Vá, despacha-te que não se deixa uma senhora à espera – ensaiou ela, embora Manel já estivesse fora do carro.

– E o que isto não deve ter sido para ela. Não a consigo ver sem o irmão.

– Nem eu. Não faço ideia de como é que as coisas vão ser.

– Ouve, estava a pensar, se quiseres ir lá para casa, arranja-se o sofá-cama…

– Obrigado, Manel, mas não. Eu fico bem. Não me digas que já estás como o outro, coitado! Veio-me dizer que estava ali para o que eu precisasse.

– Ainda bem que tomaste conta dele. És mesmo um espanto, miúda.

– Não sou, não. Ainda não caí foi em mim, e não quero estar por perto quando isso acontecer. É este medo, sabes? É que…

– Sei – com que veemência três letras passam uma mensagem – sei. E eras mesmo tu, miúda. Para o Nuno, eras mesmo tu.

Agarrar-lhe a mão pequena e desenhada que tremia, foi preâmbulo para o abraço em que desejou ser capaz de a envolver e resguardar. Choraram os dois. E era a mesma amargura, o mesmo vazio, a mesma anulação ao entregarem-se ao calor um do outro. O mesmo zero. Ao desaparecer pela porta, o rosto dela levava esculpido esse sentimento, e Manel só rodou a chave na ignição quando viu que a luz do quarto se apagara. Depois, depois guiou e sentiu um pequeno mas enorme alívio por saber que ao enfiar-se na cama ia ter quem tomasse conta de si.

Lisboa, Dezembro de 1997 e umas vezes em 1999

Autor: André Rodrigues

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