A Espada de Cristal (conto de ficção)

De um só golpe matou dois homens selvagens, grandes e peludos como todos os das tribos dos mares quentes. Ela desferira o golpe com força demasiada, se esquecendo que acabara de colocar uma lâmina nova em seu bastão. Naquele mundo os metais oxidavam muito rápido e as lâminas eram quase descartáveis. Sua melhor amiga, SINIEM, acabava de chegar ofegante e gritando. – KILA! Tudo bem!? Estes foram os últimos? 

 – Sim. – Respondeu a guerreira, ainda impressionada com a potência do ataque que desferira, finalizando uma luta que ela pensara que seria árdua, e completou. – Acho que descobri um golpe novo.

Em torno delas dezenas de corpos jaziam mortos, muitas de suas colegas, guerreiras de várias idades, pereceram naquele confronto insano promovido por hordas de homens brutais das tribos inimigas. Mas não fora apenas pelo número superior que eles quase arrasaram o exército das LIANS, guerreiras das tribos matriarcais que promoviam uma revolução feminista em toda extensão conhecida daquele mundo. O massacre se devera aos Astrais, que invadiam os corpos de guerreiros medianos e os tornavam combatentes terríveis, ou mesmo possuíam inocentes e os forçavam a lutar, e por vezes conseguiam dominar até mesmo as guerreiras menos treinadas voltando-as contra suas próprias companheiras. Matava-se a vítima da possessão, e de nada adiantava, o Astral migrava para outro corpo.

 Finalmente as feiticeiras do grupo acabaram de eliminar os últimos Astrais, só elas podiam faze-lo com seus poderes mentais, e a batalha pode prosseguir no justo corpo a corpo, e a superioridade técnica das LIANS pôde se revelar. Elas eram muito bem treinadas, normalmente maiores que os homens das tribos inimigas embora esses em geral fossem mais fortes e violentos, o que elas podiam compensar com maior destreza e agilidade de seus corpos aperfeiçoados pela Magia Sexual que vinha revolucionando suas tribos e permitindo que as mulheres ficassem cada vez mais poderosas, resistentes, inteligentes e fortes.

 Era esse o pomo da discórdia. Com a Magia Sexual ensinada pelos “Emissários de Além do Céu” as mulheres vinham assumindo o poder cada vez mais rápido nas tribos mais próximas das terras frias, suas sociedades prosperavam, as doenças desapareciam, a ordem social se aperfeiçoava sob o comando das feiticeiras. Os homens destes grupos em ascensão longe de lamentar suas gradativas perdas de autoridade na verdade comemoravam, não só pela beleza crescente que acompanhava o aperfeiçoamento corpóreo de suas mulheres, e também deles próprios, mas porque também não resistiam às sedutoras feiticeiras, cuja famosa beleza percorreu o mundo atraindo a cobiça de tribos bárbaras ainda acostumadas a guerras de extermínio, pilhagens, saques e estupros das mulheres das tribos derrotadas.

 Havia também feiticeiros, muitos dos quais se aliaram às tribos feministas, mas os das tribos mais próximas às terras quentes não estavam dispostos a abrir mão de suas sociedades androcentristas segundo eles determinadas pelos deuses. De potencial inferior e cada vez mais acuados pelas feiticeiras, pelas LIANS e pelos guerreiros e feiticeiros homens aliados a estas, os bruxos das terras quentes apelaram para uma tática terrível, um feitiço que fazia com que os espíritos de certos guerreiros ao serem mortos não descessem ao interior da terra, e sim ficassem vagando como Astrais e possuindo corpos de outras pessoas vivas, controlando-as e continuando a lutar através delas.

Com esse recurso eles saíram de uma posição de recuo e estavam prestes a virar a guerra a seu favor, pois os Astrais só podiam ser destruídos pelas feiticeiras, que eram poucas, e as guerreiras nada podiam fazer.

 SINIEM e KILA eram amigas de infância, nascidas quase no mesmo dia já sob os benefícios da Magia Sexual que as fez crescer fortes e saudáveis, e mais rápido que as crianças de antigamente. Após vencerem a última batalha voltaram à sua tribo, que crescia tanto que as construções de pedra branca já se perdiam de vista, colorida pela luz da imensa lua esverdeada que tornava a noite muito mais clara que o luar mais forte de nosso planeta Terra. 

 Aquele mundo, que elas chamavam de SAMTAM, e que também significa algo como terra mas com uma conotação ainda mais feminina, possuía 3 grandes astros celestes. O sol era chamado por um nome muito parecido com a palavra que usavam para se referir a “pai”, e além da lua verde havia uma minúscula lua negra que porém refletia a luz solar como se fosse uma esfera de metal. Talvez por ser menor que a nossa Terra e ter uma curvatura mais acentuada, seus habitantes de algum modo sempre souberam que seu mundo era curvo, e sabiam que conheciam pouco de sua extensão. 

 As guerreiras tiveram tempo para descansar e se encontrar com suas famílias. Os homens em sua tribo e várias outras vizinhas já começavam a ficar para trás em estatura e força física, mas ainda lideravam grande parte da sociedade inclusive exércitos. KILA e SINIEM foram homenageadas mais uma vez pelo bom desempenho em luta. Em parte por realmente terem se aperfeiçoado, e parte porque mais de 3/4 dos guerreiros da região terem perecido em combate, elas passaram a integrar o mais respeitado grupo de guerra e foram convocadas para uma importante reunião com as feiticeiras. Uma delas, a líder do local falou para uma ampla platéia da qual muitos ainda mal entendiam os fatos. 

 – A nossa situação é crítica. Em menos de uma estação (o que equivaleria a 115 dias terrestres) perdemos nossa hegemonia e nossa vantagem, e se antes nada parecia ser capaz de deter nossa revolução e a chegada de uma nova era de paz e justiça, agora nossas expectativas começam a dar lugar ao desespero. Os feiticeiros das terras quentes violaram todas as leis divinas e criaram essa aberração mística que nos ameaça. Cada guerreiro selvagem enfeitiçado, ao morrer, deixa seu Astro Corpo na dimensão dos vivos, se recusando a voltar ao Espírito de SAMTAM, e com esse Astral pode continuar lutando, tendo a vantagem de ser insensível a qualquer arma, e usando vidas alheias para seus objetivos. Não sabem que com isso estão arruinando suas vidas futuras, e nem os feiticeiros parecem se preocupar do mal que estão causando ao Espírito de SAMTAM, e que serão punidos por isso. Mas até lá, já podem ter destruído todos os nossos exércitos e conquistado todas as nossas nações. 

 – Não podemos fazer nada! – Disse um dos velhos generais.
– O que pode uma lança contra um Astral!? – Afirmou uma guerreira mais jovem.
– Um deles me possuiu uma vez, só mesmo uma feiticeira pôde removê-lo de mim e destruí-lo. – Afirmou outro relatando sua amarga experiência.

SINIEM olhou com discreta decepção. Um já tentara possuí-la também, mas seu autocontrole frustrou-lhe o intento e o Astral migrou para o corpo de um de seus colegas, uma rapaz que ela gostava, e com muito sofrimento ela foi obrigada a ferir-lhe gravemente para detê-lo, mas o guerreiro Astro Corpóreo migrou novamente, e ela acabou tendo que matar companheiras até que uma feiticeira o eliminasse. Ela achava que todas as guerreiras já deviam ser capazes de resistir às incorporações.

 – Convocamos uma reunião de emergência com feiticeiras de várias nações e estamos estudando uma solução para o problema. Deverei ir pessoalmente até a grande tribo de BIEMARLIA, e por isso precisamos montar uma escolta pequena e apenas de guerreiras que comprovadamente resistam aos ataques astro corporais de nossos inimigos. – Concluiu a feiticeira olhando diretamente para SINIEM assim como para outras guerreiras que também não cediam às investidas dos Astrais, e que posteriormente foram obrigadas a lutar contra suas própria companheiras. 

 KILA nunca tinha tido a experiência, mas por ser muito parecida com sua amiga, integrou o restante do pequeno grupo de 11 guerreiras mais um jovem guia que acompanharam a feiticeira na missão que partiu ao anoitecer do outro dia. Era mais seguro viajar a noite ainda que esta não fosse tão escura, além do que era bem menos quente.

 A maioria ia a pé, enquanto a feiticeira e mais um grupo de 4, que se revezava com outros grupos, iam a bordo da carruagem totalmente coberta de lona branca e puxada por um forte mas lento animal quadrúpede. Nada havia equivalente a cavalos naquele mundo, embora eficientes os animais de tração não serviam para deslocamentos rápidos e muito menos para batalhas. 

 Foram 3 dias até alcançarem BIEMARLIA, uma nação tão extensa que SINIEM e KILA não acreditavam no que viam, mais de 150 mil habitantes! A reunião durara dois dias inteiros contando com a presença de dezenas de feiticeiras e alguns feiticeiros, ao fim dos quais a pequena comitiva retornou para a casa, mais uma vez partindo no início da noite. 

 KILA olhou para o céu e viu os XINGS, grandes animais voadores, e ficou invejosa das distâncias que eles podiam cobrir em menos de um dia enquanto elas caminhavam lentamente em torno de uma carruagem ainda mais encoberta do que antes. 

 – Será que um dia poderemos voar com esses animais. – Perguntou à colega. Uma outra guerreira disse. – Um rapaz de uma tribo perto das montanhas diz que certa vez viajou agarrado na perna de um GRIL. – Comentou sobre um boato pouco creditado a respeito dos imensos animais alados, dezenas de vezes maiores que os XINGS. 

 Foi sorte que elas estivessem olhando para o céu e divagando sobre as selvagens criaturas aladas, pois com isso avistaram rapidamente os silenciosos e velozes bumerangues que cortavam o ar em sua direção assim que a feiticeira deu o grito de alarme.

 Uma das lâminas partiu uma pedra ao meio ao atingir ao chão e outra inutilizou a lança de uma das guerreiras. Duas atingiram a lona da carruagem e outra causou o maior prejuízo, ferindo o animal de tração. Mas logo uma chuva de bumerangues surgiu de trás de uma colina, acompanhado por um grupo de homens selvagens. 

 Eles eram bem mais numerosos, ainda mais depois que os bumerangues atingiram em cheio uma das LIANS, matando-a instantaneamente, e outras duas foram feridas. KILA e SINIEM porém, assim como suas companheiras, logo demonstraram porque eram respeitadas como guerreiras.

KILA rolou no chão catando dois bumerangues e os usando para matar dois oponentes antes que eles sequer se aproximassem para usar as lanças, e isso porque as lâminas giratórias eram bem mais difíceis de serem usadas na horizontal. SINIEM assustou os adversários ao matar rapidamente 3 oponentes que mal se aproximaram dela. 

 As outras guerreiras não fizeram por menos e até o guia se revelou um hábil atirador de pedras com uma lançadeira que produzia um tiro mortífero. Não demorou para que os homens selvagens vissem que mesmo estando em número bem maior não seria fácil dominarem as LIANS e capturarem a feiticeira, o que geralmente tentavam. 

 Mesmo assim, 3 das guerreiras tombaram, e mais homens selvagens chegavam quando finalmente a feiticeira saiu da carruagem e erguendo os braços para o céu fez uma luz ofuscar os agressores e logo em seguida fez lanças e bumerangues caídos flutuarem e se lançarem contra os oponentes. Em segundos ela matou vários deles, o que os forçou a recuar, até que então um dos guerreiros, por sinal o que se destacava no grupo pela ferocidade, caiu morto. 

 Um minuto depois o jovem guia subitamente se virou contra a feiticeira e disparou uma pedra. A hábil mulher, que era bem mais idosa do que aparentava, deteve o ataque, no momento exato em que uma das LIANS nocauteou o rapaz, mas de pouco adiantou, pois logo em seguida uma guerreira foi atacada pelo Astral. Ela resistiu, tentando impedir a incorporação, mas estava muito mais difícil que na ocasião anterior em que sofrera ataque semelhante, o vulto luminoso do Astral se infiltrava mais e mais.

 – Esse é muito mais poderoso. Chega a ser visível! – Comentou a feiticeira, e completou. – Para trás! – Lançando-se em frente à guerreira que lutava para não ceder o controle. A feiticeira se concentrou e visualizou o Astral que tentava se sincronizar com a aura da vítima, sintonizava a vibração do astro corpo hostil quando de repente este fez a guerreira atacar. Mas a feiticeira, tão ágil quanto as guerreiras, se desviou do golpe e uma outra LIAN conseguiu desarmar a colega. 

 A feiticeira então se preparava para deflagrar a energia mental que destruiria o Astral quando um bumerangue a atingiu entre os seios, num raro momento onde a concentração a prejudicava a percepção do ambiente a sua volta. Ela caiu ao chão no mesmo momento em que o Astral abandonou o corpo da guerreira e imediatamente possuiu a outra, que num momento de distração com o que acontecia, não conseguiu evitar que seu braço se movesse e atingisse em cheio com a lança à colega que acabava de voltar a si. 

 A guerreira tentou se controlar, mas o Astral era muito mais poderoso que o normal, e ao ver a feiticeira caída, os homens selvagens restantes voltaram a atacar. O jovem guia ao se recobrar impediu que KILA fosse morta pela guerreira possuída, ao atingi-la na cabeça com uma pedra. Mas como era de se esperar o vulto luminoso migrou para outra guerreira, que desta vez mostrou-se mais resistente à investida, fazendo-o desistir e entrar no corpo de KILA. 

 SINIEM acabava de matar o último homem selvagem que restava de pé, mas o estrago fora grande. Além dela apenas 3 outras guerreiras estavam em condições de lutar, além de KILA que não conseguia mais resistir ao controle do Astral, e finalmente cedeu quando o vulto luminoso mergulhou completamente no corpo da guerreira tornando-se invisível. 

 KILA era muito hábil, tinha pernas compridas e poderosas e seus golpes eram amplos e certeiros. Ela rebateu duas pedras que o rapaz tentou acertar nela, e a segunda foi direto de volta a cabeça dele causando desmaio instantâneo. SINIEM e suas companheiras evidentemente não queriam ferir a amiga, e tentavam de toda a forma possível contê-la sem machucá-la, na esperança de que o Astral se cansasse e desistisse, ou que outra feiticeira viesse no pequeno grupo aliado que surgia no horizonte, ao mesmo tempo que outro grupo hostil surgia no horizonte oposto. 

 – SINIEM… – Chamou a voz debilitada da feiticeira. – SINIEM… Venha cá. – Insistiu a mulher que já dava sinais de agonia. Com muita relutância SINIEM correu e se agachou junto à feiticeira, no mesmo momento que suas companheiras puseram KILA a nocaute, mas como era de se esperar, o Astral migrou para outra LIAN, que embora tentasse resistir ainda conseguiu ferir gravemente uma colega, e agora apenas uma guerreira tentava conter a companheira sob controle do inimigo Astro Corpóreo. 

 – SINIEM… Ele é muito poderoso… Vo…Você precisa pegar a… Arma. – Disse a feiticeira, que apesar da voz baixa e relutante dava à guerreira explicações necessárias. Enquanto as duas LIANS lutavam entre si o grupo de homens selvagens e um outro grupo de LIANS se encontraram e iniciaram novo e feroz combate. Mais uma vez as guerreiras, mas rápidas e mais hábeis, levavam vantagem, até que outra delas foi possuída.

 Dois Astrais brilhantes agora começavam a virar o combate contra as guerreiras, uma deles possuía uma jovem que não ofereceu a menor resistência ao controle, e nesses casos o dano costumava ser permanente, mesmo que o Astral se ausentasse, a guerreira não mais sobreviveria.

Não obstante ela lutava com uma ferocidade assustadora, em segundos matou duas LIANS e atacava outra que fazia de tudo para resistir à investida sem nem tentar se conter, tinha que lutar de qualquer jeito, mas caiu ao chão ferida e o corpo dominado da colega se preparava para desferir-lhe o golpe fatal quando de repente outra guerreira pareceu atingi-la pelas costas. A pobre LIAN dominada estremeceu e tombou, mas algo diferente aconteceu. 

 Normalmente “olhos” não treinados não viam os Astrais, eles não eram fisicamente visíveis mas sim perceptíveis ao supra sentidos que nas LIANS era cada vez mais desenvolvido. Mas esses tinham tanta energia que qualquer pessoa com um mínimo de terceira visão podia ver, a guerreira caída viu quando o Astral parecia agonizar como se sentisse o golpe que derrubara sua vítima, e então viu ele se desfazer numa nuvem de luz como se tivesse sido atingido por uma raio mental das feiticeiras. Mas não havia feiticeiras. De pé, havia apenas SINIEM, empunhando uma estranha arma. 

 Tinha uma punho curto em comparação com a lanças, cabia as mãos juntas, e uma comprida lâmina transparente ligeiramente brilhante. Era uma arma nunca vista. Só então SINIEM realmente acreditou no que a feiticeira dissera. 

 – “No cristal… Estão armazenadas energias mentais desintegradoras de Astro Plasma… Que se liberam em contato com Astro Corpos… Pelo simples movimento.” – Lembrou a LIAN e logo teve que se defender de um homem selvagem, impressionada com o a resistência da lâmina de aparência frágil, e sobre a qual ela questionara a feiticeira. 

 – “Mas senhora! Cristal não é páreo para…” 

 – “O cristal é frágil SINIEM… Mas a magia nele… O torna mais resistente que qualquer metal.” – E com um só golpe SINIEM seccionou o tronco do oponente que caiu em duas metades. 

 – “Você tem uma habilidade… Bem desenvolvida SINIEM… Pode ver… Sabe sentir e é forte… Use a arma… É nossa única chance.”

 Ao defender um golpe de lança esta se partiu e no contra ataque SINIEM matou outro homem selvagem. Agora ela avançava contra o Astral que ainda dominava sua companheira. – Deixe comigo! – Gritou para as outras que tentavam deter a colega possuída. 

 – “A arma corta com muita precisão… Mas a energia mental liberada alcança um pouco além da lâmina.” – E lembrando disso SINIEM deu um golpe superficial que cortou e arrancou a armadura da LIAN, mas imediatamente o vulto luminoso saiu de seu corpo e numa expressão de pânico o Astral se desintegrou. 

 As LIANS já recuperavam a vantagem e logo os homens selvagens sobreviventes estavam fugindo, mas quando KILA começava a se recuperar, outro vulto, desta vez ainda mais luminoso, invadiu seu corpo. 

 As guerreiras olharam impressionadas, nunca viram uma Astral tão brilhante. KILA se levantou com uma aura em torno do corpo e sem armas derrubou 3 LIANS com ferocidade incomparável. 

 – Você não vai escapar… LIAN! – Disse numa voz irreconhecível e ameaçadora. E se movendo como um raio partiu para cima de SINIEM que por pouco não foi atingida por um golpe mortal. E então percebeu. Aquele era o Astral de um feiticeiro! 

 Ela tentou vários golpes mas o corpo de sua amiga mais o poder do bruxo combinavam-se num oponente terrível, que em movimentos extremamente rápidos já matara 3 guerreiras, e agora num salto estava no ar, descendo sobre SINIEM que caíra no chão desnorteada. 

 Num movimento quase desesperado ela ergueu a espada como se fosse proteger-se, mas assim que o inimigo se aproximou ela girou a lâmina de cristal num amplo círculo que criou um anel de energia, o Astral tentou desviar o corpo mas era tarde, parte da energia o atingiu expulsando-o imediatamente, e deixando-o desorientado. 

 SINIEM tocou o corpo de KILA, que tremia e tinha convulsões, e parecia agonizar, então ouviu a “voz” do Astral. – “Não pode nos deter.” – E com ódio, ela se ergueu e o desafiou. – Tente me pegar seu maldito! – E apontou-lhe a espada. O Astral mergulhou em sua direção, mas é óbvio que já havia percebido o poder do cristal energético, e numa manobra inusitada mergulhou no solo, e repentinamente surgiu por baixo de SINIEM entrando em seu corpo, causando-lhe um choque e fazendo largar a espada. 

 Ela sentiu o fortíssimo assédio espiritual, muito mais intenso do que das tentativas anteriores que sofrera. Resistiu enquanto suas companheiras se afastavam dela temendo que se possuída, e com aquela arma a seus pés, fosse invencível, e dezenas de LIANS faziam um círculo em torno dela, pois quase não mais restava homens selvagem em combate. 

 Para SINIEM o mundo porém sumia, só restava ela e uma escuridão a sua volta. O Astro Corpo já lhe usurpava os sentidos, isolando sua mente da realidade exterior e agora tentava controlar seus músculos, mas SINIEM lembrou das palavras da feiticeira. – “Você é forte SINIEM… Concentre-se, e ninguém poderá dominar você.” – Lembrando disso, num esforço mental e físico intenso exorcizou o Astral de seu corpo com um grito ensurdecedor. 

 Caiu de joelhos ao chão quando o mundo voltou a lhe ser perceptível. Nem precisou olhar para o Astral para saber onde ele estava, era como se o contato lhe tivesse criado uma sintonia com o mesmo. Ele voou para o alto, se para fugir ou para possuir outra guerreira, SINIEM não estava disposta a saber. Pegou a espada e arremessou no ar como um bumerangue. 

 Sua percepção ainda distorcida, lhe fazia ver a cena como que em câmera lenta, a arma girando com sua lâmina cristalina deixando um rastro luminoso e atingindo o astro corpo em cheio fazendo-o brilhar e entrar em colapso, e explodir num onda brilhante. 

 A espada caiu com a lâmina fincada na terra, instantes depois que as LIANS aniquilaram os últimos componentes que se recusavam a bater em retirada.

 Vacilante, SINIEM caminhou lentamente até a arma, hesitou um pouco e então a retirou da terra. A lâmina saiu limpa, uma força repulsora afastou a sujeira. 

 Então a guerreiras recém chegadas abriram caminho para sua feiticeira líder, que se aproximou de SINIEM e já entendia a situação. Cumprimentou suas colegas, requisitou a espada, a LIAN a atendeu prontamente, examinou-a e disse: 

 – Bem… A arma deveria ser guardada em segredo até passar por uma série de testes. Mas parece que este teste já ocorreu.

 Subiu então na carruagem trazendo SINIEM consigo, e lá em cima anunciou: 

 – LIANS! Recuperem suas esperanças! Há pouco estivemos a beira de retroceder, e nosso sonho de uma SAMTAM harmônica e sublime esteve ameaçada. Mas agora tudo irá mudar! Neste momento já estão sendo produzidas centenas destas armas e com elas qualquer guerreira poderá destruir os maléficos Astrais que ameaçam o Espírito da Terra! Agora nada poderá nos deter! Nossa revolução marchará até os confins do mundo! 

 Então SINIEM, intuitivamente, ergueu a espada ao alto, contra o céu já azul escuro, e todos puderam ver quando a lâmina pareceu brilhar ainda mais, e por um instante, tiveram a visão de um brilhante e magnífico futuro.

Autor: Marcos Valério XR

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