A Faca da Ximinha do Balão (conto de ficção)

– Deixa de mania de elegância, menina, só porque esse tal do Martins Guimarães te deu troco no outro dia aí no beco quando tu lhe perguntou as hora. Ele falou só para mostrar tinha relógio no pulso, não foi porque visse agrado em ti. Ele tem mulher e filha candengue, Domingas, e tem muito em que pensar. Só quis mesmo foi que tu visse o relógio lhe deu o doutor e até já não faz tiquetaque nem nada. O Martins tem ele no pulso mas não sabe mesmo para onde aponta os ponteiro, nem sei até se o relógio o doutor lhe deu tem ponteiro ou não. Ele disse a hora certa, sim, mas ele viu mesmo foi na torre onde a gente vê se amanhã chove, ali mesmo ao lado de vocês na rua, o Martins sabia aquela era a hora de o balão da torre descer. Pensavas ele estava te dar conversa, eu vi bem tu andar de peito arrebitado sempre vê ele e de kinhonga bem apertadinha na cinta te ofereceu a dona para esconder o dikovo te fizeram com mau jeito na Samba Grande quando tu nasceu, minha sobrinha, pensavas eu nem dava por isso, logo eu, aka, a Chica do Balão que já vem do tempo do pai-de-umbanda Miguel Kandimba, tu ainda precisa aprender muito, Minguinha. Mas, xê, olha só, eu não falei para zangar contigo, não precisa entornar o borrifador assim na tábua, menina, tu ainda vai queimar essa camisa ou apanhar choque no ferro que nem eu uma vez já faz tempo. Não, Minguinha, eu só falei porque eu conheço esses muadié que nem o Martins Guimarães, que anda por aí de tardinha de fato cinzento lhe deu o patrão, relógio sem ponteiro e óculos que até vidro já nem tem com livro debaixo do braço só para mostrar que anda nos estudo, que vai na escola depois do serviço aprender as letra, tudo porque quer deixar de ser criado de limpar a casa e servir à mesa para passar a ser contínuo lá do banco na baixa, julga só por isso já é doutor mesmo, aiuê, até lembra o outro eu conheci. Sabes quem é, Domingas, esse que anda aí ainda a servir na casa lá de baixo, aquela onde fica o governador quando vem da metrópole, esse cambuta, como chamam a ele, o Mateus, o que põe nome nos bichos, ele mesmo, que chamou Vitória na tartaruga vendeu na dona por cinquenta mil réis, tu sabe porquê, Minguinha, porque é ele chama Vitória nas tartaruga e Ximinha tudo o que é cobra das barroca, sabe? Eu conto para ti a maka dele, a gente tem tempo, tu inda tem para passar toda essas camisa e eu um bué de lençol branco, minha sobrinha, e até é bom eu contar para tu aprender não deve deitar olho em cima de homem casado ou amigado.

“Sempre tu vir um desses como o Martins Guimarães mostrar relógio sem ponteiro tu já sabe, lembra da faca-de-Ximinha. Tu sabe o que é faca-de-Ximinha, não sabe? Tu costuma ir na dissaquela do Cruzeiro, não vai mesmo? Pois então, mâma Chica Aniceto já passou muita vez faca-de-Ximinha na tua língua, de certeza, mas tu não sabe mesmo eu conheci a Ximinha que pôs o nome na faca de kimbanda. Crescemos juntas no Belela e fomos morar na Samba Grande depois que a calema grande engoliu as nossas cubata. Nossos pais continuaram pescadores, embora de pescar muito menos, porque perderam as chatas e, da Samba, os dongos não podem ir tão longe, as nossas mães deixaram as quitandas de peixe e foram fazer serviço de lavadeiras nas casas da praia da Corimba. Mas nós, a Conceição e eu, nós era rapariguinha, nós pôde ir trabalhar na cidade, então a gente veio de lavadeira aqui para estas casas do Balão, que eram novinhas. Ainda não morava aqui este doutor, era aquele conde eu te falei usava um vidro só num olho e no outro nada, ele era bom para a gente, só não dava o vidro do olho para o Mateus que nem o doutor dá os óculos para o Martins, aiuê, a gente até ri destas coisas, mas era bom, dava muita roupa ao Mateus, que era criado da casa. O Mateus contava tudo para nós de tardinha, quando nós subia a rua do Palácio na mesma hora a gente costuma ir agora, a hora de o balão descer da torre onde a gente vê se amanhã chove. Ele ia com a gente até no maximbombo, falava mais com a Conceição, até já chamava ela pelo nome de bairro, Ximinha. Nós apanhava o maximbombo, ele ia embora de livro debaixo do braço, dizia ia estudar mas não ia, ia mesmo era no Hospital ver a moça dele, a Vitória, que trabalhava lá.

“A gente ia muita vez na dissaquela do Cruzeiro, assim como tu vai, só que nesse tempo o kimbanda era o Miguel Kandimba, não era ainda a Chica Aniceto, essa só xinguilava, como a Ximinha. Eu ainda não xinguilava, ficava só a ver, Pai Kandimba punha alfinete no meu cabelo para o calundu não entrar em mim. Depois punha na dicanga tudo o que tu sabe, a benzedura com pemba e ucusso, e recebia o mazaco. Lembro Ximinha era dumbe de Samba Nzundu e o Manuel Cadete xinguilava o espírito de Mutakalombo, que foi seu esposo. No mais nós era todas mulher, não havia tanto xinguilador homem como agora, mas os ilundu, como tu sabe, eram homens e mulheres. A Ximinha era Samba Nzundu, Pai Kandimba passava a faquinha na língua na hora do pelo, ela não gritava nem nada, depois ela dançava na dicanga, xinguilava mesmo, eu via tudo sentada no luando, e então eu via na minha frente todo o musendu de Samba Nzundu.

“Samba Nzundu era uma filha o Ngola Kiluanji kya Samba fez em uma de suas esposas quando reinava na Kissama. Ali perto havia um branco. Chamavam ele de Mutakalombo porque escapou de um jacaré comer ele e diziam até jacaré era cão de guarda dele e fazia tudo ele mandava. O Mutakalombo tinha muito poder, mandava mesmo em alguns jisoba da Kissama. O Mutakalombo quis casar com a princesa Samba Nzundu e foi pedir ao Ngola Kiluanji, mas o rei não deixou. O Ngola Kiluanji kya Samba queria ser amigo dos brancos, mas não daquele, ele queria mandar chamar os padre do Kongo. Foi o conselho lhe deu o ngola-mbole, que era o Mwana Kalunga, e também o kimbanda Muhaidi. Eles até mandaram vir da Ilha de Luanda um menino que falava com as yanda e fizeram dele o Kilamba Kiaxi no lugar de um outro que pensava diferente. Envenenaram o kilamba de antes e ouviram a consulta o Nsanda Kabasa fez às yanda. Os espíritos não queriam o casamento de Samba Nzundu com o Mutakalombo. O Mutakalombo nunca perdoou e mandou o cão atacar a coitadinha. Samba Nzundu foi com as outras no Kwanza encher a sanga de água e aí o jacaré pôs de fora a bocaça e levou ela para o fundo do rio. O povo veio a correr, pediu pela vida da filha do Ngola, teve homem e mulher de calundu que xinguilou Mutakalombo, xinguilaram bué, até o mais-velho Muhaidi xinguilou. Só quando o kilamba Nsanda Kabasa xinguilou também, o ngandu apareceu. Trazia nos dente a menina adormecida do susto, com muito sangue no corpo, mas com vida. Os kimbanda levaram ela para o dilombe, não deixaram ninguém ver as ferida dela. Mas teve gente viu ela de perto, mais-velhos juraram jacaré só mordeu Samba Nzundu no peito e no ana a sonhi porque o Mutakalombo não lhe queria mal, só queria era ter ela para ele.

“O Nsanda Kabasa ficou toda noite com a Samba Nzundu no dilombe, convocou dissaquela e os espíritos visitaram a vítima. Manhãzinha o Nsanda Kabasa se mostrou no povo e disse, a dissaquela acabou, mandou trazerem a Samba Nzundu. Ela veio, nuazinha, ituxi mesmo, Domingas, naquele tempo a nossa gente não andava tão vestida que nem anda agora tu julga o quê, o povo viu ela vinha com as mamas inteirinha e tudo o mais muito perfeito. Aquilo foi obra do Nsanda Kabasa, que era um grande kilamba, e todo mundo ficou contente e quis a Samba Nzundu casasse com o Nsanda Kabasa. O Ngola Kiluanji kya Samba concordou.

“Quando kilamba casa, minha sobrinha, tu não sabe, tu nunca saiu aqui da cidade mas no Kwanza é assim mesmo, quando o kilamba casa no primeiro casamento a noiva não pode ser donzela, tem que saber daquelas coisa melhor que o homem para fazer ele ter prazer. A Samba Nzundu foi do Mutakalombo, depois do milagre do Nsanda Kabasa era como kilumba mesmo. Devia ser primeiro de outro kilamba ou de um kimbanda, depois do soba e só depois do noivo. Ali não havia soba mas o ngola-mbole fazia as vezes. Foram buscar a Samba Nzundu para levar ela ao Mwana Kalunga em um lugar escondido, mas ela gritou, não queria, só gostava mesmo era do Nsanda Kabasa. Primeiro se deitou com ela o kimbanda Muhaidi, ela teve que suportar calada o mais-velho, depois veio o ngola-mbole.

“A moça estava preparada para o casamento com o Nsanda Kabasa, meteram ela na dibata com uma mais-velha. A Samba Nzundu pediu mukolo de mateba, queria morrer enforcada, já não queria casar com aquele ela gostava, agora depois que o Mwana Kalunga e o velho Muhaidi tiveram ela. A mais-velha não deixou, a Samba Nzundu empurrou ela, bazou dali até no Kwanza.

“Manhãzinha cedo as água do Kwanza estava vermelha, vermelha de sangue, com muito jacaré de roda. Uns pensam o ngandu comeu a Samba Nzundu, tem outros dizem não era ela, era outra, porque a Samba Nzundu se juntou com o Mutakalombo e foi viver com ele para sempre. E é verdade, na dissaquela de Pai Kandimba, Ximinha do Balão xinguilava Samba Nzundu e o Manuel Cadete, que era o Mutakalombo, se punha de quatro patas e, quando ele fazia isso, a Ximinha imitava ele e deixava ele fosse para cima dela, eu via tudo, Minguinha, eu não xinguilava naquele tempo, tu sabe, Pai Kandimba e todos nós tinha que separar eles na força.

“A Ximinha do Balão xinguilava bem o espírito da Samba Nzundu. Mas depois que ela deu conversa para esse tal do Mateus começou de aparecer pouco na dissaquela, eu não via ela nunca, Minguinha, mesmo aqui no beco do Balão, porque ela foi de lavadeira para a casa de baixo quando chegou o governador da metrópole. Só depois eu percebi ela foi porque o Mateus era criado lá, como ainda é agora. Ela queria estar perto do Mateus para ter conversa com ele. Saíam juntos sem mim na hora que desce o balão da torre onde a gente vê se amanhã chove. Lá na Samba corria mujimbo ela visitava o Mateus onde ele morava. No Prenda todo o mundo sabia a Vitória estava doente, deu nela febre muito de repente, mas o namorado só pensava na Ximinha do Balão.

“Passou tempo, minha sobrinha, eu já nem conversava mais com a Ximinha aqui no beco, ela vinha em maximbombo que não era o meu e ia sempre para a casa lá de baixo. Até que veio um dia ela entrou aqui mesmo, na casa de engomados, aka, eu nem estava à espera nem nada, aí ela chorou muito e contou tudo para mim. A Vitória morreu da febre e o Mateus queria se amigar com a Ximinha.

Mas a Ximinha chorava, ela tinha medo de os calundus castigar ela porque ela já vivia amigada com o Mateus quando a Vitória estava doente. Então aí foi que eu disse, mana Xima, conta o que aconteceu, porque eu sabia, Minguinha, havia coisa ela não tinha contado.

A Ximinha sentou aí nesse banco onde tu põe as camisa e contou. Ela não foi mais na dissaquela, mas pai Kandimba procurou ela e perguntou porquê. A Ximinha disse ao pai Kandimba o coração dela estava tomado por homem amigado com outra e ela queria muito esse homem, não podia viver sem ele. Pai Kandimba disse podia fazer uanga contra a moça dele, jurou a Ximinha para mim, mas só se ela se amigasse por um tempo com ele, que aquilo era trabalho de mulôji e kimbanda só vira mulôji se mulher amigar com ele, tu já viu, Minguinha?, aí então ele ia nas barrocas buscar erva para fazer uanga contra a Vitória. A Ximinha contou fez tudo com o kimbanda e depois chorou muito outra vez, gritou bué aqui na casa de engomados. Então foi que eu vi já quase tarde, a Ximinha começou de bonzar muito as mãos com esse borrifador aí, Minguinha, ela queria mesmo tocar com as mãos molhada no ferro e no fio que liga na electricidade, queria ter choque que nem eu tive uma vez que até quase que eu morri, a Ximinha queria morrer mesmo, ela queria fazer o que fez no antigamente a muculo dela, a Samba Nzundu, queria se matar por vergonha de o kimbanda se ter deitado com ela.

“Eu não deixei, eu peguei ela e levei ela para a Samba antes da hora de o Mateus sair, a gente passou a torre onde vê se amanhã chove e o balão não tinha descido ainda.

“Veio a noite, teve dissaquela no Cruzeiro, na casa de pai Kandimba. A Ximinha foi lá e eu também, de alfinete no cabelo. A Ximinha ia xinguilar e Manuel Cadete também, Samba Nzundu e o Mutakalombo ia ser chamado. A música dos goma e das dicanza começou de tocar, a Ximinha dançou e pai Kandimba foi passar a faquinha do pelo na língua dela. A Ximinha aí gritou, nunca tinha acontecido xinguilar falso. Pai Kandimba levou ela para o quarto de quozar. Ficaram lá muito tempo. O Manuel Cadete correu a sala no xinguilamento do espírito do Mutakalombo, procurou ela e não viu. A Ximinha saiu do quarto de quozar e dançou até junto do Mutakalombo. Mas o chão ficou estrada de sangue. Quando o Mutakalombo foi para cima dela, a Ximinha caiu e estava morta.

“Foi então a gente viu, a Ximinha tinha a faca do pelo espetada na barriga. Nós foi todos ver no dentro do quarto. Pai Kandimba estava morto também, com muito sangue. A gente entendeu então, a Ximinha matou o Kimbanda com a faquinha do pelo e depois espetou a faquinha nela mesma.

“Tu já acabou as camisa, minha sobrinha? Não esquece, não olha para homem amigado senão acontece como à Ximinha do Balão.

Chega de lençol branco, aka, agora a gente vai apanhar o maximbombo, está na hora o balão desce da torre onde a gente vê se amanhã chove.

Autor: Alberto Oliveira Pinto

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