A História do Golfinho e do Tubarão (conto de ficção)

“Mãe, porque somos diferentes?” perguntou um dia um golfinho à sua mãe que o seguia com ternura pelos corredores do oceano.

“Filho, nós somos mamíferos, sabes? Respiramos o oxigénio do ar, não da água, assim como os homens e…”
“Como as garças?” Interrompeu o golfinho.
“Sim, também, mas..”

Distraído em seguir um cardume de peixes, o golfinho já não prestou a atenção à explicação. Não se importava.

Eram lindas as águas. Passavam como rosários com contas de cristal. Como sabia brincar entre elas, deslizar, correr, subir, descer, trepar entre cortinas de luz vindas do alto. Não havia melhor que isso. A terra era seca e ardia na pele. O mar sim, era maravilhoso.

Assim pensando, desviou-seo golfinho de onde a sua mãe havia parado para descansar. Nadou para cima e para baixo em guinadas divertidas como se estivesse numa montanha russa ou carroucel. De súbito parou. Silencioso e ilustre, deparou com um tubarão – o principe dos mares, atravessando a extensão iluminada pelo sol do meio dia. Que belo! Sim, gostaria de ser como ele; assim senhor de si, nobre, elegante, fino, distinto, perfeito, respeitado por todos os peixes. O golfinho parou para apreciar essa membro da raça fina e senhor dos mares.

Seguiu-o. Como o invejava. Tinha uns movimentos seguros e captivantes. Ao seu passar, todos os peixes se desviavam com respeito, como se ele fosse um Deus, um peixe de ouro. Como gostaria de trocar com ele de lugar e ser também um tubarão – —ser invejado por todos, ser rico, belo, chamar a atenção, conseguir tudo que quisesse, encantar todos os peixes do mar com a sua beleza.

Quando o tubarão subiu à tona, subiu ele também. Para lhe chamar a atenção, deu umas cambalhotas e até uns saltos fora da água. Que bom seria tornar-se seu amigo, ser seu igual, pertencer à mesma raça e mesma classe.

Nos seus saltos, então, deparou com uma traineira não muito longe de onde estavam. Lá estavam as criaturas de que sua mãe tanto falava, cobertos de algas coloridas sobre o rosto e fazendo sons como o vento sobre a água ou como o mar na praia.

De súbito, algo acontecia. De longe viu um dos seres debater-se nas ondas e apercebeu-se da sua angustia e aflição. Viu também, como da traineira um outro ser humano se atirava à água. Ao mesmo tempo viu surgir do fundo aquele que era o seu ídolo. Viu como ele se havia transfigurado, transformado numa fera hedionda, uma besta de dentes arreganhados, cego, furioso, mau – um demónio. Ele podia ouvir o rugir bestial e pavoroso. Como movido a eléctrico, chapinhava a superfície com uma raiva louca, espalhando terror à sua volta. Como é que um ser tão belo, podia esconder tal ferocidade, produzir tal terror?

O golfinho viu como os homens lutavam com todo o esforço e como um deles, uma criança ainda, desfalecia e sangrava. Ele viu toda a bestialidade daquele que ele havia julgado tão puro, tão nobre, e ficou cheio de revolta. Não havia nada nobre agora naquele peixe cruel , quase satânico, feito um monstro horrível de se olhar.

De um momento para o outro, sem saber como, o golfinho viu-se deslizar na água com uma força estranha, que ele próprio desconhecia nos seus tenros anos. Primeiro desceu para tomar força e depois vertiginosamente subiu, vindo a embater contra o tubarão num impeto fenomenal. Atordoado, o principe dos mares, cobarde e apressadamente se desviou do lugar. O golfinho ainda o seguiu e o atacou mais duas vezes. Depois já mais calmo, deixou descer ao abismo esse peixe formoso, mas mau. Deixou-o silenciosamente ondular no silêncio terrível e na dignidade assassínea, assim desaparecer de vista e do seu coração.

Voltando à tona, o golfinho a seguir, percebeu que os homens também estavam alegres. Viu um deles abanar os seus membros e lhe atirar alguns peixes com carinho. Tinham trazido para bordo a criança e estavam à sua roda. O perigo já tinha passado.

“Que era isso?” Sentia-se tão bem entre esses seres. Eles, sim, pareciam ter o Sol dentro de si quando sorriam. Um dos que tinha estado na água até o acarinhou. Davam-lhe alegria e amor! Sim, gostaria de ser como esses pescadores um dia.

Por uns instantes os seguiu cambalhotando e saltando cheio de alegria e emoção. Ah… se pudesse viver com eles! Mas depois lembrou-se da mãe. Tinha que lhe contar esta aventura de terror e de glória, e lá voltou aos bancos onde ela esperava ansiosa. Amanhã haveria de procurar o mundo dos homens e haveria de ficar com eles, haveria, Amanhã …

Autor: Silvério Gabriel de Melo – Vogelbach, Alemanha

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