A Verdade da Cigana (conto de ficção)

Rapaz bonito, bem apessoado, Jorge apareceu na faculdade fazendo charme para todas as garotas. E qual delas não se interessava por ele? Logo primeira semana ficou com a menina mais bonita do lugar. Mas ele não queria saber de relacionamentos sérios. Como o próprio Jorge dizia, “para que ter uma quando se pode ter várias”? E assim Jorge foi aumentando a sua lista de telefones femininos na agenda do celular.

Certo dia ele conheceu Marta, um moça dotada de muita paciência. E ela, como era de se esperar, apaixonou-se. Jorge, achando a moça bonita, aproveitou para tirar uma casquinha. Mas Marta era esperta. Só ficaria com ele quando tivesse a certeza de que a relação dos dois caminharia para o namoro.

Marta esperou pacientemente que Jorge resolvesse tomar jeito até que finalmente ele pareceu sossegar. Depois de ficar falado pela faculdade inteira, ele percebeu que sua fama já não era das melhores e achou que era hora de namorar alguém legal. E Marta foi a escolhida.

Todas as outras meninas, quando não sentiam inveja, sentiam pena. Afirmavam de pé junto que não haveria um fim de semana em que Marta não aumentasse um chifre na sua coleção.

Mas para o espanto de todos Jorge estava calmo. Não aparecia mais nas festas. Era encontrado nos barzinhos do Dragão do Mar namorando e ouvindo MPB. E nunca voltava para casa muito tarde. Alguns diziam que era milagre. Outros alegavam que ele devia ter uma “filial” e por isso não podia se expor. Se uma namorada já pegava no pé, imagine duas. Ou mais quem sabe.

Só que Jorge sabia que Marta era a única mulher da sua vida. E Marta também tinha plena certeza disso. Mas sempre existiram e sempre irão existir as tentações da vida. Uma mulher mais velha e muito sensual começou a investir em paqueras com Jorge. E ironicamente, Júlia era sua professora de anatomia.

Jorge era o exemplo preferido da professora. Todo mundo percebia que ela estava interessada nele, pois não cansava de soltar indiretas, Mas Jorge não cedia nunca. Ele até pensou em processá-la por assédio sexual! Coisa que antes jamais passaria pela sua cabeça.

Seus amigos diziam que ele já não era o mesmo. O Jorge que eles conheciam já teria traçado a professorinha. Ninguém podia acreditar que Jorge agora era um rapaz sério e fiel. E as pessoas comentavam: “o que o amor não faz!”.

O namoro de Jorge e Marta ia muito bem até que num sábado, quando eles estavam na praia, tomando uma água de coco debaixo da barraca, uma cigana apareceu. Marta, que era louca por coisas esotéricas, não piscou duas vezes e estendeu as mãos para a cigana perguntando:

– O Jorge já me traiu ou vai me trair com o outra mulher?

A cigana prontamente respondeu que não e Marta se deu por satisfeita. Jorge não gostou muito da pergunta. Não acreditava que depois de tantos sacrifícios Marta ainda duvidasse dele. Ficou extremamente magoado e resolveu ir para casa após de uma pequena discussão.

Marta sabia que Jorge só ligaria para pedir desculpas no dia seguinte e, como não era boba, aproveitou para sair com suas amigas. Janete, sua melhor amiga, sugeriu que elas deveriam ir na nova boate da cidade. Chegando lá se decepcionaram. A boate era GLS. As duas não tinham nada contra os homossexuais, bissexuais, pansexuais ou seja lá que outra definição as pessoas de gostos sexuais alternativos tivessem. Só que aquele não era o tipo de lugar que elas esperavam encontrar. Principalmente Janete, que estava louca para arrumar um namorado.

Elas já estavam pensando em voltar para casa quando Janete encontrou Carlos, um amigo seu que era gay. Ele ficou surpreso e acabou perguntando se as duas também tinham “virado para o lado de lá”. Janete e Marta explicaram o que havia acontecido e Carlos, que era muito divertido, não deixou que elas perdessem a noite.

Algumas horas depois, os três já cansados, resolveram procurar um lugar para sentar. Foi difícil, mas encontraram. E tamanha foi a surpresa de Janete e Marta (principalmente de Marta, diga-se de passagem) quando as duas viram Jorge parado, sozinho no bar. As duas se entreolharam como se uma lesse o pensamento da outra e se encolheram completamente para não serem vistas. Foi quando se perguntaram o que ele estaria fazendo ali sozinho. As hipóteses foram começando a surgir até que um acontecimento dissipou todas as suas dúvidas. Um homem desconhecido, alto e musculoso, passou a mão pelo ombro de Jorge e saíram os dois, bem abraçadinhos, rumo ao banheiro da boate.

Marta, que até então estava com medo que o namorado a visse num ambiente nada familiar, ficou decepcionada com Jorge. Injuriada! Indignada! Principalmente com aquela cigana mentirosa. Mas a cigana não havia mentido. Realmente Jorge não a traiu com outra mulher.

Autor: Alinne Facundo

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