Aconteceu no Trem (conto de ficção)

Meu sonho sempre foi um dia poder sentir a fragrância de uma só noite às margens do mar Tirreno, banhar-me nas águas mediterrâneas desse mar. Mergulhar dentro d’água, da noite e banhar-me na luz pálida do luar.

No verão de 1994, eu peguei um trem que liga Roma a todo o Norte da Itália, parando em diferentes cidades e vilas do pitoresco interior italiano. Eu comprei o bilhete até a estação de Viareggio-Lucca na toscana, quando comprei o bilhete pedi ao senhor que me desse um lugar ao lado da janela do trem, porque queria ver, e, apreciar toda a beleza da paisagem do interior italiano. Essa foi a razão porque eu pedi, não só pedi, porém quase implorei para que o bilheteiro me vendesse um lugar na janela.

Em vez de ficar em Roma fazendo nada, depois de uma estada de duas semanas, já tinha feito e visto bastante. Decidi pegar o trem e descobrir toda a maravilha das montanhas e colinas do Lácio e da Toscana. Eu parti de Roma pela tardinha, quando o trem saiu da estação, pude ver e sentir toda a beleza da Cidade Eterna, com suas sete colinas, seus monumentos suntuosos e sua história grandiosa. O verão este ano na Itália era muito quente, sentia-se um calor infernal dentro do vagão do trem mesmo como o ar condicionado ligado. Eu usava bermuda e uma camiseta bem leve com a estampa da bandeira italiana, um traje perfeito para dias quentes de verão. Não era difícil para comunicar-me na língua italiana, porque meus conhecimentos de italiano eram melhores que eu pensava.

Enquanto eu apreciava a paisagem lá fora, alguém sentou-se ao meu lado, quase não percebi a sua presença humana na poltrona, se não fosse o leve toque de seu braço no meu quando este se apoiou no apoio central da poltrona do trem. Sem sentir, essa pessoa olhou nos meus olhos e conseqüentemente eu também mergulhei profundo dentro dos seus.

Alguém sentado junto a mim, me olhando com olhos marcantes, na verdade esse alguém me marcava também. Finalmente era uma troca mútua de olhares.

Depois de algum tempo, mesmo sem saber meu nome, essa pessoa sensualmente linda olhou para mim, com seus olhos brilhantes e disse com uma voz forte porém sensual.
– “È caldo oggi, vero?”*

Eu respondi com a garganta seca de emoção, paralisado pela música de sua voz.
– “Vero è troppo caldo questa sera?…”*

Pensava que eu fosse um italiano, de fato eu poderia ser um italiano, tinha todas as características de um italiano, e algumas palavras que falasse não daria para perceber meu sotaque brasileiro.

Depois de algum tempo nossos olhos se olharam mais uma vez, buscávamos qualquer coisa escondida dentro de nossos olhares. O bilheteiro passou por nós sem nada perceber, só pediu para ver nossos bilhetes, depois de examiná-los, seguiu examinando os dos passageiros da frente.

Enquanto isso o trem movimentava, aumentando ainda mais o fogo da minha paixão. Da janela do trem se via a terra firme e também se via bem próximo da estrada de ferro, todo o azul índigo das águas do mar Tirreno. Eu me encontrava perdido entre a beleza desses olhos castanhos e a natureza lá fora. Um homem sensível como eu, tem muita facilidade de se entregar a um olhar profundamente cativante, mesmo que esse olhar seja de uma pessoa estranha. De um lado, a beleza do mar e, do outro, o brilho cativante de seus olhos a me olhar discretamente, um privilégio raríssimo que eu deveria aproveitar o máximo possível. Pensei comigo mesmo, tudo poderia terminar na próxima estação.

Quando chegamos à estação de Civitavecchia ainda na província do Lácio, já estava escuro lá fora e a Lua começava subir no horizonte, já não se podia mais ver a paisagem, somente luzes acesas e o brilho da Lua refletido nas águas do mar Tirreno. Através da noite o trem avançava, dentro da noite meus olhos procuravam dormir e esquecer esta paixão que se sentava ao meu lado. Eu sentia seu braço a tocar-me. Sentia todo o seu perfume no ar, silenciosamente nos buscávamos telepaticamente. Uma paixão telepática certamente acontecia entre nós, não pronunciávamos palavras, no entanto trocávamos energia e olhares.

A noite avançava e nós continuávamos buscando um ao outro intensamente dentro da noite. Por um instante dormi e sonhei… Quando acordei ao meu lado a poltrona estava vazia, minha paixão telepática sumiu dentro da noite, desceu na estação de Grosseto já na Toscana, deixando-me vazio e com o sabor amargo da perda dentro d’alma.

Acendi a luz para poder ler um livro, e, tentar apagar o fogo dessa paixão telepática que ainda queimava dentro de mim, foi então que percebi que na poltrona onde se sentava essa minha paixão, encontrava-se um papel com algumas palavras escritas em italiano. Sem hesitar, peguei o papel e li cheio de emoção.

Ciao bello, sono certo que tu hai sentito la mia passione!… Un bacio.“*

Um bilhete sem nome matou o que ainda não tinha nascido completamente. Nesse trem morreu uma paixão que apenas começou, um sentimento espiritual que, por um momento, fez renascer meu coração que, de uma certa forma, se encontrava fechado para novas emoções.

Olhos castanhos se foram deixando-me completamente vazio mergulhado em profunda solidão. Sigo minha viagem através da bela Toscana, minha paixão fica para trás perdida em uma estação de trem qualquer. Eu fico aqui dentro de mim, completamente só com minha solidão. Sozinho sentindo minhas emoções fervendo, observo da janela do trem o brilho pálido da Lua refletido nas águas inquietas do mar Tirreno. Talvez em outra estação eu esqueça essa paixão, paixão que agora tornou-se lívida dentro de mim, como o brilho pálido da Lua, mergulhada na escuridão da noite lá fora…

* – “È caldo oggi, vero?” – Quente hoje, verdade?
* – “Vero è troppo caldo questa será?” – É muito quente esta tarde, verdade?
* “Ciao bello, sono certo che tu hai sentito la mia passione!…” – Adeus rapaz, estou certo que tu sentiste a minha paixão!… Um beijo.

Autor: Edmar Bernardes Da Silva

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