Amores de café (conto de ficção)

I


Se tiveres um problema que não consegues resolver, em que a solução não te é imaginável, a resposta estará sempre ao alcance da tua mão. Dependente de um pequeno esforço. Foi o que um dia li, algures.

Mas qual seria esta resposta que tinha tanto de simples como de milagrosa?

Bastar-te-ia pegares num qualquer livro e abri-lo ao acaso. Como que lançando nos dados o teu destino, a tua vida, as tuas decisões mais simples (não se entenda as mais fáceis). A primeira frase, o primeiro verso, a primeira palavra que rodopiasse em torno do teu olhar e te prendesse a atenção, num daqueles impulsos que sendo ocasionias também o são irresistíveis, seria a chave das tuas dúvidas.

Será de facto assim?

A tarde segue calma o seu curso. Os cadernos debaixo do braço mal conseguem disfarçar a tua falta de vontade em pegar neles. Pareces indiferente, distante. Devagar, particularmente devagar, segues pela rua fora, num ritmo que, sem dares por isso, te distingue dos demais. Aparentando decisão em chegar ao teu destino, não porque ele seja um local diferente do habitual, afinal trata-se do café ao lado da faculdade, não disfarças a distracção com as pessoas e a confusão da rua, com o colorido das montras. Sozinho no teu mundo, com os teus pensamentos, com as tuas piadas, chegas ao café. Sentas-te a um canto. À tua volta as imagens, o mundo do costume. O velho que, inexplicavelmente, está sempre a ler o mesmo livro empoeirado. A D. Júlia que parece viver atrás daquele balcãozinho afogado em jornais e revistas. Os artolas do grupo de fados que têm sempre uma guitarra portuguesa debaixo do braço e uns copos de vinho do Porto em cima da mesa. O sr. Artur, esse, já se confunde com o próprio café, com os cartazes que anunciam as francesinhas e os pratinhos de moelas, os espelhos baços e o ambiente que era tão peculiar.

Pedes-lhe um café. Outra coisa é que era de estranhar.

Pensas em ficar por ali um bocado, ler o jornal, blá, blá, blá. Banalidades. Mas a vida nunca, ou muito raramente, segue o curso que nós lhe queremos dar.

Ela entra pelo café dentro. Não de uma maneira qualquer, mas daquela maneira que só ela parecia saber. Nariz empinado, cabelo ondulado, e aqueles olhos… Aqueles olhos castanhos. Castanhos como só ela os tinha. Senta-se, a duas ou três mesas de ti.

Pensas nela, só nela. Não fazes ideia de quem era, apesar de todos os teus sentidos te dizerem que a conhecias desde sempre. Irónico.

Tinhas de fazer alguma coisa, mas não sabias o quê. As ideias, os sentimentos estavam perdidos no turbilhão que era, naquele momento, a tua cabeça. Ou seria o teu coração?

Queres um livro? 

II


“Festival de oportunidades falhadas”- era o título d’A Bola naquele dia.

Lias o jornal tranquilo. Tomavas o café numa daquelas chávenas com desenhos ridículos. Sossegavas o espírito, pensavas tu. Pelo menos até os putos irromperem pela cozinha fora. Pousas o jornal e olhas para eles. O João e o Tiago.

Um homem por mais que fale, evite ou fuja, acorda sempre um belo dia com um par de filhos à volta, uma mulher ao lado (a Teresa) e aliança no dedo. E pergunta-se: “O que é isto?”.

Tu sabes a reposta. Não por seres um sábio, mas por ela estar à tua frente. Já ali, à tua frente. Ela entra na cozinha. Sorri. Como em tempos, naquele café ao lado da faculdade.

É daqueles momentos que duram uma vida, uma eternidade. Momentos que deambulam pelas galerias da nossa memória e que trespassam a nossa alma nas alturas mais difíceis. Não só nessas, mas nessas sempre. Um sorriso, um olhar meigo, uma carícia no rosto. São estas pequenas coisas que nos fazem felizes. Especialmente felizes.

III


Tinhas estudado até tarde. O cabelo estava um pouco despenteado. As olheiras mal disfarçadas por debaixo dos teus óculos, denunciavam o teu cansaço. O sr. Artur traz-te o café. Ainda com a chávena a escaldar e com um copo de água. Daquela água que nós nem queremos saber de onde vem.

Um impulso. Era isso que te bastava. Um pequeno impulso. Mas aquelas duas ou três mesas pareciam mil. Ela, apesar de estar ali tão perto, parecia inatingível.

Tomas o café nervoso. Ficas mais nervoso ainda. Num frenesim folheias os teus cadernos. Não lhes consegues prestar atenção. A devida. As páginas passavam sem tu lhes dirigir um olhar. Um único que seja. Sabes que precisas de pouco. Muito pouco mesmo. Mas mesmo esse pouco escapa-te. É pouco, mas não é insignificante.

Vais ganhando força. Instante a instante pareces mais decidido, mais forte. Falta-te cada vez menos. Cada vez menos. Começas a levantar-te.

Ela levanta-se, vai ter com o sr. Artur, paga e sai.

Ficas-te a meio caminho. Sem saber o que fazer. Sentas-te. Arrependes-te. Agonizas sozinho com a tua indecisão. Culpas-te a ti. Só a ti.

O velho parou de ler aquele livro empoeirado. A D. Júlia, essa, já fechou o quiosque. O sr. Artur pede-te o dinheiro do café. A tarde já ia alta.

IV


Há razões que a própria razão desconhece. O amor também se conhece mal. Também ele tem os seus segredos e mistérios. Cabe-nos a nós, a ti, tentar descobri-lo, explorá-lo. Foi isso que fizeste. É isso que fazes, espero.

Tinhas vestido aquele casaco cinza, um pouco manhoso, que te assentava mal nos ombros. As calças eram as da véspera, mas sendo um pouco compridas demais disfarçavam a lama que trazias nas botas. Tinha chovido naquela noite.

Pedis-te um café. Hábitos.


Estavas irrequieto, inseguro. A expectativa angustiava-te. Viria? Aguardas…

Ela entra. Igual a si própria. Senta-se e pede um café. Hábito? Sorri, ou melhor, torna a sorrir. Um sorriso timido, mas sincero. Daqueles que parecem um nada, mas que te revelam um mundo.

Estavas decidido que hoje havia de ser diferente. Porquê? Porque sim. Porque há coisas que não se explicam, uma vez que não se entendem. Sentem-se. Só se podem sentir. E muito! Muito mesmo.

Lá no fundo sabias o que tinhas fazer e ias fazê-lo. Mais do que isso, fizeste-o. Levantas-te. Aproximas-te dela. Não estava longe, nem demasiado perto. Estavas com um ar estúpido, mas sincero. Atrevido, mas sem nunca parecer provocador.

“Posso?”-perguntas. O que esperavas? Que ela dissesse sim? Talvez não, mas disse-o. Inexplicavelmente, virias a sabê-lo mais tarde, mas disse-o. Falaram sem se aperceberem como, sem saberem porquê. Pareciam velhos conhecidos, sendo estranhos. Profundamente estranhos. Intimamente estranhos.

Sorris. Ela também.

Pormenores, podem os outros dizer. Amor, respondes tu. E ela também.

Autor:Vitor Oliveira

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