Avisos à Navegação (conto de ficção)

Esta história fala de um médico que todos os domingos ia andar de barco à vela com um amigo e a quem aconteceu a aventura de ser possuído por vozes. Certa noite, há alguns anos, voltava ele de um passeio de barco à vela com o amigo e as respectivas mulheres, quando lhe tocou ficar no convés para o seu turno ao leme, enquanto os outros dormiam nos beliches em baixo. A lua brilhava, o mar estava calmo, havia o vento do costume que soprava de terra, e na escuridão o médico ouviu vozes que lhe falavam distintamente ao ouvido. Como não estava ninguém com ele, pode imaginar-se o espanto, de o deixar suspenso à escuta, contendo a respiração, sem perceber o que se estava a passar.

Eram vozes de mulher que lhe chegavam muito claras, como se falassem atrás dele. Vinham de terra, de uma distância de pelo menos dez quilómetros, trazidas pelo vento num canal de ar que tornava possível tal fenómeno. Passados os primeiros momentos de surpresa, o médico compreendeu que se tratava de uma conversa entre duas mulheres ao longe. Distinguia bem a voz de uma mulher idosa e a de uma mais nova, talvez filha dela. Provavelmente falavam as duas ao ar livre. Durante o breve tempo em que o canal de ar que trazia aqueles sons permaneceu aberto, no meio das correntes ventosas que se encontravam e se misturavam dali até à costa, conseguiu apreender ou imaginar muitíssimas coisas. As palavras vindas de longe deram-lhe a entender que as duas mulheres estavam sem recursos, que a filha tinha de fazer uma operação porque sofria de cálculos renais, e que a operação iria deixá-las em dificuldades pois não tinham nenhuma assistência.

Pode parecer estranho que tenha sido capaz de compreender tudo isto, mas dá-se o caso de o nosso médico se ocupar todos os dias de questões do género, tendo-se especializado no tratamento de doenças renais. Só, ao luar, conseguiu traçar um quadro da situação, e inclusive formular um diagnóstico para a mulher mais nova. Desaparecidas as vozes, ficara incapaz de pensar noutra coisa, imóvel ao leme, mesmo depois de ter terminado o turno dele. Diz que se sentia fascinado pela voz da mulher mais nova, uma voz de mulher muito decidida, que lhe dava vontade de a ajudar. Como? Dava-se o caso de ter acabado de chegar ao hospital dele um novo tratamento, que não era caro, que se estava a experimentar, com o qual os cálculos renais se dissolviam dispensando a operação, e de o tratamento ser gratuito por se estarem a estudar os seus efeitos secundários.

É um homem que sempre quis ajudar os outros, e é esse o seu defeito, diz ele. Terminado o turno ao leme ficara ali a reflectir, e veio-lhe a ideia de procurar a mulher mais nova, ainda que não soubesse onde nem como. Queria procurá-la, queria explicar-lhe o tratamento, oferecer-lhe a solução gratuita para os problemas dela. As duas mulheres deviam morar na costa em frente, e devia ser possível encontrá-las num sítio ou noutro, segundo ele. Diz que de um momento para o outro o cérebro desatara a funcionar a grande velocidade, abrindo-se a ideias que de outro modo lhe teriam parecido estranhas, embaraçosas. De resto, tudo na vida lhe servia para evitar que lhe surgissem ideias do género, incluindo o amigo, a mulher e o barco à vela. Um mundo sem ar, diz, no qual sofria de enxaquecas e de ligeiros estados confusionais. Não valia a pena contar a história das vozes ao amigo, que só pensava no barco à vela, nem à mulher, que muito facilmente se enciumava. Não falou naquilo a ninguém. O passeio concluiu-se na habitual indolência do regresso, e no dia seguinte o médico voltou ao trabalho no hospital como de costume.

Passam algumas semanas. Uma tarde, sem dar por isso, meteu-se no carro e foi até *** à procura do ponto de onde lhe tinham chegado as vozes nocturnas. No litoral já despovoado naquela estação, pôs-se a vaguear sem saber a quem se dirigir. Cafés meio vazios, blocos de casas que pareciam ao abandono, painéis comerciais postos ali por ninguém, e umas lojecas que expunham colchões pneumáticos e bóias em forma de cisne, com vendedores de ar enfastiado pela ausência de clientes. Toda esta melancolia do mundo levou-o a mudar de direcção. De resto, as duas mulheres deviam ser pobres, não podiam morar em zonas turísticas como aquelas. Deviam morar nas aldeias do interior, mais despovoadas e rústicas. Por isso decidiu continuar as buscas para o interior, começando pelos velhos casarões que despontavam ao longo das estradas de terra. Casarões velhos e derrocados, perdidos no meio dos campos, até ao horizonte que sobe até ao perfil de colinas. No horizonte ao longe, vazio a perder de vista, via-se um ou outro charco onde floresciam nenúfares, junquilhos, caniços.

Andava de quinta em quinta, batendo porta a porta, para perguntar por uma certa Milena que sofria de cálculos renais. Isso de a mulher mais nova se chamar Milena foi uma coisa que lhe veio à ideia de repente, ao remoer sobre as vozes que ouvira naquela noite. Mas sabia bem que era um nome muito duvidoso, parecia-lhe tê-lo ouvido no ar, só isso. Ou então tinha sonhado com ele nas visões nocturnas que acompanhavam a sua busca de casa em casa. Eram visões de quintas, de casais abandonados, de cães a ladrar, de velhas de bengala em antros escuros como os da Sibila. Agora sonhava muito à noite, uma novidade para o nosso médico. Tudo estava suspenso no ar, não tinha outros indícios além do nome, e os moradores das casas quinteiras não percebiam o que procurava ele.

“Quem procura?” – “Uma tal Milena.” – “Milena quê?” – “Não sei, uma que sofre de pedras nos rins.” – “Aqui não há ninguém assim.” – “E por aí? Não ouviu falar nada?” – “Mas que procura o senhor, pode-se saber?” Acabavam por suspeitar dele. Tomavam-no por alguém que andasse a estudar os locais para ir roubar as casas, ou por algum vendedor ambulante que lhes queria vender alguma coisa. A cara que os moradores dos casarões lhe faziam era demasiado dura para ele, homem baixo, delicado, gorducho, com um princípio de úlcera até. Diz que se via obrigado a voltar para o carro a toda a pressa, com a inquietação, o embaraço. Os velhos pareciam-lhe ressequidos, e não se viam jovens por ali. As mulheres vestidas de preto agitavam de maneira estranha os braços para afastar as moscas, para afastar os pensamentos, ou para mostrarem que não tinham tempo para estar a falar com ele. Os cães ladravam dos pátios, por toda a parte.

Afastava-se com passos cambaleantes, vinham-lhe à ideia visões da vida naqueles sítios. Por exemplo, a ideia de ali em redor haver antros escuros habitados por bruxas, como os da Sibila. Ou então via-se nas cozinhas enormes daqueles casarões, e a apalpar uma daquelas mulheres vestidas de preto. Apalpava-a por baixo das saias. apalpava-lhe as mamas, arrastava-a para cima de uma cama para a montar à pressa e depois fugia. Eram assim as visões que lhe vinham à cabeça certos dias enquanto rodava pelo campo, diz o médico, e certos dias sentia-se possuído, e começava a sentir-se cansado da sua pena. Mas ao vaguear de carro de um lado para o outro mal tinha meio dia livre, acontecia que se sentia cada vez mais afeiçoado àquele nome, Milena. Diz que quanto mais pensava nele mais lhe parecia o nome certo, porque soava bem ao ouvido. Mal o pronunciava para si mesmo, ouvia a voz decidida da mulher que buscava. Parecia-lhe ouvi-la de perto, como quando lhe tinha chegado de um ponto ignoto da costa. Bastava parar numa estrada no meio dos campos, sentado no carro com a cabeça entre as mãos para se concentrar e tinha a impressão de ouvir nitidamente aquela voz da terra como se a ouvisse no rádio.

Procurou a ignota Milena pelas aldeias o Outono todo, rodando de carro dois ou três tardes por semana, sem nunca falar disso a ninguém. Mas no princípio do Inverno tinha parado porque a sua busca era realmente demasiado insensata, diz ele. Tinha até apanhado uma bronquite, a juntar a um lumbago que o fazia coxear um pouco. Só que, quando regressou a Primavera, juntamente com a febre dos fenos, voltou-lhe a mesma fantasia e sentiu-se novamente possuído, divagando muito sobre a voz que tinha ouvido no barco. “Estou possuído, estou possuído”, dizia de si para si, enganando-se no caminho a cada cruzamento, espirrando a cada momento. E agora no hospital metia baixas por doença para andar à procura da ignota Milena, recomeçando a partir do litoral turístico.

Estava-se em plena Primavera, mas vagueando ao longo do litoral o nosso médico via tudo cinzento à volta dele, entre os chalés de férias que desfilavam, hotéis de férias, lojas para veraneantes, instalações balneares e lugares públicos apenas frequentados no Verão. Parecia um planeta desabitado, com tabuletas de lojas que nos olhavam a cada esquina, candeeiros inúteis que se acendem ao crepúsculo, avenidas geométricas com fachadas angulosas e umas pobres árvores sufocadas no meio de um deserto de asfalto. Escutava as conversas nos cafés e ouvia falar de fortunas na lotaria, de novas marcas de automóvel, de jogos de futebol, de pessoas ricas e famosas. Um mundo sem ar, diz ele. Mas agora também as suas voltas lhe pareciam desesperadas, como alguém surpreendido por uma tempestade muito longe de qualquer abrigo. Desesperada a convivência com a mulher a quem não tinha nada para dizer, nem aos filhos pouco simpáticos, com más notas na escola, nem ao amigo que só falava de barcos à vela, nem ao enfatuado do seu director clínico que queria comprar uma aldeia numa encosta. Sim, uma aldeia só para ele, apanhado pelo delírio dos novos ricos que grassava entre todos os médicos do serviço.

O médico andava de carro e ia contando a si próprio a sua vida, como indubitavelmente todos fazem – contam a si mesmos a própria vida para confirmar terem razão. Mas para ter razão até ao fim tinha absolutamente de encontrar a ignota Milena, ou então outra mulher com aquela voz decidida que julgava ainda ouvir junto ao ouvido. Era aquela a voz da mulher que devia mudar a vida dele, segundo a quiromante Egle. Porque um dia era isso que deveria acontecer, mudar de vida e partir estrada fora, como se tudo estivesse já escrito na ordem das coisas. Era esse mesmo o parecer da quiromante Egle e ele ia vê-la uma vez por semana, quarta-feira à tarde, numa sala empoeirada cheia de flores secas, entrando pelas ruínas de um palacete rodeado de ervas daninhas, no bairro antigo da cidade.

Também por causa das enxaquecas que o atormentavam e o princípio de úlcera que não conseguia curar, não tinha já forças para andar à toa em busca de uma mulher desconhecida. Agora procurava-a com método. A quiromante Egle orientava-o para pontos localizados no mapa graças ao seu pêndulo mágico. E no início da Primavera tinha já circunscrito uma zona dos arredores, onde procurar o rasto da ignota Milena. Mas onde quer que fosse o médico parava e punha-se à escuta, esperando ouvir vozes como as que ouvira no barco à noite. Precisava de ouvir vozes da terra. Uma outra vidente, ou antes uma cartomante, de nome Marilù, confirmou-lhe que aquelas vozes eram o destino.

Era um homem baixo, gorducho, de olhar assustado e claramente possuído por alguma coisa. Tornara-se impaciente com os colegas de hospital e na vida familiar, pela mudança que o destino parecia prometer-lhe, tornava-se brusco e intratável. Havia noites em que ao sair do hospital ia dar uma volta de carro pelo litoral, apenas para deitar a cabeça de fora da janela e gritar ao vento: “Quero vozes de terra, vozes de terra! Meu Deus, por favor, peço-te!” E depois sentia-se completamente insensato, de tal modo insensato que lhe chegava a parecer inútil continuar no mundo.

Não sabia o que procurava, nem se interrogava sobre o assunto, e nem falava nele a ninguém, tirando a quiromante Egle que ia ver todas as quartas-feiras à tarde. As buscas com o pêndulo sobre o mapa eram a única maneira de descobrir onde poderia morar a ignota Milena, que segundo a cartomante Marilù devia estar doente e precisar de ajuda. Diziam-no as cartas, nas quais a ignota Milena aparecia frequentemente como a papisa, ainda segundo a senhora Marilù. “Está a ver aqui?” – “O quê?” – A papisa. Vê o que está ao lado?” – “Não, o que é?” – “Esta é a carta das desgraças dela.” – “De quem?” – “Da mulher de quem anda à procura. Vê o dois de espadas?” – “Vejo.” – “Esse é você que a vai ajudar a escapar.”

Tento imaginar estes diálogos com a cartomante, uma mulher loira oxigenada de meia idade, gorda e expansiva, com muito bâton nos lábios, que lhe fazia sempre profecias favoráveis. Tão favoráveis que ele quase só pensava naquilo, diz ele, esquecendo todo o resto, sem já se importar com os contornos das coisas. Esquecia os locais por onde passava e as horas do dia, descobrindo com surpresa estar no hospital enquanto visitava os doentes, ou então quando guiava pelos campos desertos, ou em família à mesa comendo a sopa em silêncio. Encontrava-se num sítio ou noutro, fazendo tudo mecanicamente, imerso nos seus pensamentos e pressentimentos. Mas diz que ninguém se apercebia, pois que em contrapartida se mostrava mais eficiente e preciso do que nunca no trabalho, e parecia até mais sério e responsável em casa, graças àquele estado de sonâmbulo.

Chegamos agora a um momento importante da história, de novo no Outono. Nos campos desertos, a poucos quilómetros do litoral, existe uma zona para onde desde há algum tempo a quiromante encaminhava o nosso médico, graças ao pêndulo oscilante por cima do mapa. Antes da subida que dá para os montes e a serra, ao longo de uma estrada rural, avista-se um descampado com pedaços de asfalto arrancados, rodeado de uma barreira de arame farpado. Para lá da barreira e no fundo do descampado vêem-se umas ruínas de cimento. É uma antiga fábrica de cimento, abandonada há muito tempo. Na parte de cima dos muros despontam os suportes de ferro enferrujados, como furúnculos nos restos de betão. Uma velha ruína sem nome, exposta aos ventos e às chuvas. As ervas daninhas crescem altas nos buracos do asfalto e por cima dos blocos de cimento. Mas porque será que o médico meteu na ideia que as vozes que ouviu no barco à vela deviam ter vindo destas ruínas? Não exactamente das ruínas, diz, mas de detrás das ruínas.

Num café na aldeia vizinha, o dono zarolho, ouvindo dizer que ele andava à procura de uma tal Milena, parece que lhe respondeu: “Milena quê? Milena, a gigante?” – “Não sei, deve ser uma que sofre dos rins.” – “Bem, a Milena é doente, mas de quê não sei.” – “E onde mora?” – “Onde era a antiga fábrica, mas atrás, junto ao canal”. É isso que conta o nosso doutor, que aqui imagino quando andava às voltas com um impermeável fora de moda, os ombros descaídos, o ar cansado. Nessa altura tinha-lhe aparecido também um pouco de asma, com frequentes faltas de respiração. No entanto, o lugar sugerido pelo dono do café coincidia com a área localizada pela quiromante Egle por meio do pêndulo, e também com a ideia com que ele ficara na noite do barco à vela. Quer dizer que ficava no raio de cerca de vinte quilómetros, de onde se podiam ouvir vozes de terra. E durante uma tarde inteira tentou chegar à parte de trás das ruínas da fábrica, seguindo as indicações do dono do café, mas sem perceber onde poderia estar a estradinha de serviço que devia tomar, no meio daquele dédalo de estradas de terra batida.

No entardecer outonal viu-se junto ao arame farpado, diante das ruínas da fábrica, enquanto a noite ia caindo e deu-lhe a impressão de ouvir vozes vindas de terra. Ou julgou ouvi-las, pois que muitas vezes provocava tais alucinações quando queria. O ar estava completamente parado, nem morno nem frio. Estava para chover, caíam umas gotas. Então baixou-se e encostou o ouvido ao chão, no asfalto. Veio-lhe o suor à testa, diz ele, ao pensar que a famosa Milena estava ali a dois passos e que ele ia finalmente encontrá-la. Com uma lanterna, passou por baixo do arame farpado, passou os maciços de ervas daninhas, as ruínas da fábrica abandonada. Atrás das ruínas surgiu um daqueles casebres do campo, com uma chaminé exterior de tijolos escalavrados. Um velho casebre baixo, junto ao canal imerso nas trevas, e era ali que desembocava a estradita de serviço de que tinha andado à procura.

O que se terá passado aquela noite, não sei. Parece-me que o médico teve uma falha de memória, ou talvez não tenha querido falar nisso. Mas enfim, adiante. Passaram alguns meses e na Primavera o nosso médico pôs-se a escrever a história do que lhe tinha acontecido no ano anterior. Contava como uma noite tinha ouvido vozes de terra no barco à vela e as suas buscas para descobrir a pista da ignota Milena, e os pensamentos que lhe tinham ocorrido enquanto andava nessa procura pelos campos. Quando ficava de serviço no hospital fechava-se no gabinete e passava a noite a escrever, muito satisfeito, diz. Em parte para desabafar e falar daquilo que não podia contar a ninguém, enclausurado numa vida que parecia sem esperança, com a mulher infeliz com as ausências dele, os filhos cada vez mais embrutecidos em frente da televisão , o director clínico cada vez mais no delírio de novo rico.

Todas as noites, depois do trabalho no hospital, fazia muitos quilómetros para ir ao casebre na margem do canal, com a chaminé exterior e as paredes escalavradas. Ao chegar pela estradinha de serviço via a mãe da tal Milena a espreitar da janela. Era uma daquelas mulheres do campo vestidas de preto, e mal ele saía do carro encontrava-a imóvel à porta, fitando-o e saudando-o com um aceno da cabeça. Diz ele que tinha de apressar o passo com o embaraço que aqueles olhares lhe criavam. A mulher ficava na penumbra a fixá-lo com o olhar fixo, como se ele fosse um animal que é preciso ter de olho por ser de esperar alguma surpresa. Pesada, cheia, vestida de preto até aos joelhos, com meias pretas a chegar ao joelho. Não se percebia se andava de luto ou se tinha andado de luto a vida toda, diz o médico.

Quando ele se sentava a beber um café à mesa da cozinha, via-a afastar-se movendo pesadamente as ancas e os flancos, sempre sem lhe falar e voltando os olhos para outro lado se se apercebia que a observava. Depois entregava-lhe os papéis onde tinha escrito todas as compras que fizera e o preço da carne, do pão, das revistas, dos medicamentos e dos biscoitos para a filha, com o total do dia a pagar. O médico punha o dinheiro em cima da mesa, enquanto acabava o café e antes de ir visitar a filha. A filha era uma gigante de mais de dois metros, que raramente saía da cama por ser muito doente, muito fraca, gorda e indolente. O médico raramente a via levantada, e quando a visitava ela olhava-o com as pálpebras semi-cerradas, voltando depois os olhos preguiçosamente para o lado. Parecia que as duas mulheres o olhavam como um intruso, diz ele, apesar dos esforços dele para as ajudar a tratar a filha e responder às necessidades delas. Porque é uma pessoa que sempre quis ajudar os outros, e é esse o seu defeito, diz, ou antes a sua desgraça.

O médico tratava a filha das sequelas de uma operação à vesícula biliar e visitava-a todos os dias fazendo-lhe perguntas a que ela apenas respondia com uns balbucios. Balbuciava com ar cansado, como se ele a viesse incomodar inutilmente, e não queria que ele lhe tocasse nem sequer o pulso para sentir as pulsações. Se ele estendia sequer uma mão, reagia assanhada, com repelões violentos para que não lhe tocasse. O médico tinha de recorrer à mãe para ter indicações sobre os sintomas da filha e então ouvia as duas mulheres trocarem entre si frases em dialecto, de que não distinguia uma única palavra. Cansava-se de perguntar e não fazia mais perguntas, diz, cansava-se de estar sempre a querer ajudar os outros.

Depois da operação à vesícula a gigante não conseguia comer quase nada. Vivia de biscoitos desfeitos no chá ou em água quente com açúcar, e passava o dia vestida com uma velho fato de treino azul, a desfolhar revistas ilustradas ou a ver televisão. O médico nunca a ouviu dizer duas frases seguidas, a não ser quando falava em dialecto com a mãe. Diz que lhe parecia indiferente a tudo, mergulhada numa indolência de rapariga gorda e obtusa. Não devia ter trinta anos, mas sendo assim tão gigantesca aparentava uma idade indefinida, tirando a cara que estava já apagada. Quando o médico a visitava, ficava deitada de lado continuando de olhos pregados na televisão, balbuciando à pressa as respostas ou bufando como se ele não passasse de um importuno. Até que por fim ele saía humilhado, sem sequer uma palavra de despedida dela.

Em volta da casa à noite ouviam-se os gritos dos pássaros, o ramalhar dos arbustos, por vezes o marulhar da água no canal e muitas vezes antes de entrar no carro o médico sentia vontade de dar uma volta no escuro, até à fábrica em ruínas, até ao asfalto e ao arame farpado. Ao regressar espiava na sombra as duas mulheres no quarto, encantado por alguma coisa, diz, sempre possuído e sob a influência dos outros. No quarto a filha estava estendida na cama diante da televisão, imóvel, inerte, grande e pesada, com os cabelos compridos e emaranhados, uma gigante com uma cara que começava a murchar, ainda que jovem e rosada. Por seu lado, a mãe ajoelhada na cama fazia estranhos exercícios com os braços esticados ao alto, como se invocasse a ajuda do céu, e só muito tempo depois o médico percebeu que aqueles exercícios deviam ser uma espécie de ginástica.

Aqui vejo o médico muito titubeante, com um impermeável deformado, a calvície agora pronunciada, quando voltava para o carro e recomeçava a fazer a si próprio as mesmas perguntas de todas as noites. Perguntava-se se aquela Milena que tinha encontrado seria mesmo a mulher que tinha procurado tanto. É certo que se chamava Milena, mas esta não sofria de cálculos renais, mas sim de cálculos na vesícula. E a voz dela seria a mesma que ouviu naquela noite? Talvez, mas esta balbuciava e falava pouquíssimo, era difícil comparar. Ainda por cima a cartomante Marilù mudara a sua interpretação dos factos, e segundo ela as cartas diziam que não era aquela a mulher certa do destino. O médico não conseguia compreender o seu próprio destino e pedia explicações. “Olhe para aqui, vê esta carta?” – “Vejo. Que quer dizer?” – “Cuidado com as mulheres que lhe dão a entender uma coisa em vez de outra.” – “Por exemplo quem?” – “Por exemplo essa Egle, que o mandou para aquelas duas.” – “Mas porquê? Anda a enganar-me?” – “Faz tudo para o ter ligado a ela como um súcubo e extorquir-lhe dinheiro, juntamente com aquelas duas.”

Sem deixar de dar razão à senhora Marilù, que visitava às sextas-feiras à noite, ele fazia questão em continuar as consultas das quartas com a quiromante Egle, porque agora era a única que lhe dava razão. Assegurava-lhe que aquela Milena era mesmo a pessoa que procurava, até porque o pêndulo voltava sempre àquele ponto sem nunca se enganar. Depois, todas as noites, a altas horas, ao regressar a casa, recomeçavam as discussões com a mulher. Os filhos olhavam-no como um estranho, um bêbado talvez. Mas porque não conseguia cortar com aquilo? Porque estava possuído, diz, sob a influência dos outros a quem não se pode escapar. E também porque ele é uma daquelas pessoas que sempre quis ajudar os outros, mesmo com prejuízo próprio, diz ele. Possuído como estava, um belo dia decidiu que a vida podia seguir como quisesse, não lhe interessava. Por ele, a partir dessa altura faria o que calhasse, dia a dia, sob a influência dos outros ou levado pelos acontecimentos. Se os outros pensam que dominam a vida, melhor para eles, ele já não acredita nisso. Há-de deixar-se andar, fará tudo o que o seu destino quiser, ainda que não compreenda realmente que vem a ser isso de ter um destino.

Entre outras coisas, o médico agora não conseguia ouvir as vozes de terra que trazia no ouvido quando andava em busca da ignota Milena. Muitas vezes no hospital o telefone tocava e chegavam-lhe ao ouvido vozes desencorajantes, vozes abstractas e rígidas, como se se pusessem em pose a cada frase. Voltava-lhe então o desejo de ouvir vozes de terra, vozes de terra! Rezava a Deus para que lhe mandasse de novo vozes de terra, e não sempre e apenas vozes do alto, vozes da televisão, vozes de poderosos, ou então vozes de apáticos que citam apenas dados seguros para não serem contestados, ou vozes de gente que quer ser alguém e então imitam as vozes de outros.

A gigante estava sempre na cama, diáfana e obesa, e também carrancuda mal ele entrava no quarto. Exactamente por se sentir repelido, diz o médico, é que cada vez tinha mais vontade de entrar na vida dela, de casar com ela talvez, de se tornar num criado dela. Levava-lhe presentes, caixas de chocolates, vestidos até para que ela se mudasse e não ficasse sempre na cama com o fato de treino. Entrava no quarto com o presente, mostrava-lho sem dizer nada, ela com o dedo fazia-lhe sinal para que o deixasse em cima da cadeira, e voltava de imediato a olhar para a televisão em cima da cómoda. No quarto reinava um cheiro a fechado, a suor, a carne, a lençóis sujos, a flores murchas, mas não o incomodava. Pelo contrário, diz que aquele cheiro lhe dava a única sensação que chegava a sentir de intimidade com a gigante. A mãe vestida de preto vigiava sempre a cena, como se temesse algum ataque à filha. O médico tinha de se voltar para ela: “Como está a Milena?”. A mãe respondia apenas: “Hoje estava enjoada, não consegue comer nada”. Naturalmente os chocolates não eram indicados, faziam mal à doente. Comia-os a mãe. O médico agora apenas fingia tratar da gigante, como os médicos fazem muitas vezes no hospital, diz ele.

É também estranho que, desde o primeiro dia, nenhuma das duas mulheres lhe tenha perguntado porque se interessava por elas. Não lhe tinham perguntado porque se tinha oferecido para levar a gigante ao hospital para ela ser operada à vesícula, nem porque vinha visitá-la todos os dias, porque lhes pagava as contas, porque tinha pago as reparações no telhado. Era como se tudo isso fosse normal. Nunca lhe tinham perguntado quem era, que queria delas, nem lhe tinham agradecido uma única vez. A mãe vigiava-o a todos os momentos, sem voltar a cabeça, pelo canto do olho. Depois da visita à doente, por duas ou três vezes, o médico tentou falar com ela na cozinha, para perceber se eram aquelas as mulheres que tinha ouvido no barco à vela. Conversas impossíveis, porque a mãe respondia a contragosto, com suspiros de enfado. Havia momentos em que o deixava a falar sozinho, levantava-se mexendo as ancas pesadas, os quadris largos, como para mostrar a carne toda que trazia debaixo da roupa. Era a impressão que lhe dava, e diz que ficava excitado a observá-la. Depois ela voltava a sentar-se, olhando para outro lado, como se estivesse aborrecida com a insistência dele. Não compreendia o que ele queria saber. “Que vozes?” – “As vozes que ouvi uma noite.” – “Onde?” – “Ao largo, eu estava num barco.” – “E daí?” – “Queria saber se eram as vossas vozes.” – “Quando?” – “Há dois anos.” – “Não sei.”

No dia seguinte voltava à quiromante Egle, para receber nova confirmação. Mas a certa altura pareceu-lhe que também a quiromante Egle estava farta dele, farta de ter de lhe repetir sempre as mesmas coisas. Além disso, apercebeu-se de que não se parecia nada com uma Sibila, pois se vestia a bem dizer como uma bailadeira, com pulseiras e véus, perfumes e aromas que o envolviam na sala decrépita, com o tecto que metia água. Com a cartomante Marilù não havia tanta encenação, mas não mudava a interpretação dos factos. Repetia-lhe que aquela não era a Milena que procurava. Um dia o médico perguntou-lhe: “Mas o meu destino onde está?” – “Qual destino?” – “O que estava nas cartas.” – “Deixe lá as cartas, Oiça o que lhe digo, que o andam a enganar”. Agora não lhe falava como vidente, mas como alguém que faz questão em lhe mostrar a sua honestidade profissional e em não trair os clientes. Não se lembrava sequer que lhe tinha prometido um destino, por isso deixou de ir vê-la nas noites de sexta-feira. De resto, também ela não se parecia nada com uma Sibila, ou pelo menos com as Sibilas que vira nas suas visões nocturnas, nos tempos em que andava pelos arredores.

Tinham-lhe dito que nas montanhas havia verdadeiramente uma velha Sibila, que morava num antro escuro, curava as pessoas, e lia o destino no chumbo derretido dentro de uma bacia. Vivia nas montanhas que se viam a aparecer da casa das duas mulheres, para lá das colinas. Um dia deixou o hospital ao fim da manhã, porque queria ir à procura da velha Sibila e ter um veredicto insuspeito. Por volta da uma hora chegou às ruínas da fábrica de cimento, que parecia cada vez mais derribada, as partes em betão com ar de murcharem ao sol. Aí chegado, decidiu fazer uma paragem e pedir informações à mãe da gigante, para não se perder nas montanhas que não conhecia. Quando chegou em frente da casa, apercebeu-se de que a mãe não devia lá estar, porque não se via a bicicleta dela. A porta estava entreaberta, o resto parecia normal, sem nenhum ruído em redor.

Entra na cozinha, tudo em silêncio. Vê a porta do quarto entreaberta. Vai espreitar da ombreira, e vê a gigante na cama a dormir. Nunca a tinha visto dormir, e também nunca a tinha visto com roupas diferentes do fato de treino. Agora tinha um vestido às flores que ele lhe tinha dado, ou antes tinha-lhe dado o tecido e a mãe dela tinha-o feito. Estava deitada de lado, encolhida, com os joelhos quase junto à cara e as coxas grossas todas descobertas naquela posição. Também a fenda no meio das nádegas estava destapada, entre aqueles dois montes de carne flácida e diáfana. Tinha o polegar junto à boca, como se tivesse acabado de o chupar. Muitas vezes, durante as visitas, o médico tinha-a visto meter o polegar na boca, prendendo-o entre os lábios entreabertos sem o chupar. Agora, deitada encolhida de lado, tinha o polegar junto aos lábios. Mas estava tão distendida e pacífica no seu corpo enorme, tão leve a respiração no sono, que não conseguia deixar de ficar ali a espreitar. Entrou no quarto, onde havia aquele cheiro de flores murchas, de lençóis, o cheiro a roupa suja, a suor. Na cama à volta dela estavam espalhados alfinetes de peito, bonecas, colares, pulseiras, anéis. A rapariga monumental tinha junto ao ventre vários anéis, como se tivesse estado a experimentá-los ainda há pouco.

Deixou-se ficar a contemplá-la sentado numa cadeira, sem que ela se mexesse. Tudo o que havia em torno, todo o mundo em torno da casa e até ao céu, se tinha acalmado ou parado. Diz ele que tudo estava em ordem naquele momento, apesar da confusão no quarto, com meias pelo chão, uma colher suja, restos de biscoitos esfarelados em cima da cama, revistas abandonadas na cadeira. Bastava apenas estar quieto e tudo ficava calmo e sem desejos, sem ter de se perguntar se a vida vai bem ou mal. Diz que lhe apetecia adormecer, não pensar mais na Sibila das montanhas. Tinha até a impressão de estar já no antro da Sibila que devia dizer-lhe o destino. São coisas que não se podem explicar, diz ele, e eu aqui dou-as como me vêm à ideia. O médico sentia uma grande vontade de dormir, contemplando a rapariga gigantesca que dormia tão sossegada na cama, com uma cara que agora reconhecia, e também ela sem desejos. Uma cara de boneca de celulóide, oval, com uma boca pequena como a das bonecas. Uma cara de rapariga pequena, que nunca cresceu, mas cheio de rugas, com se tivesse uma pele que debaixo da superfície rósea fosse a de uma velha.

Mas no próprio momento em que estava a pensar que talvez fosse ela a Sibila, apercebeu-se que a mãe dela o observava da porta com um ar severo. Recompôs-se e dirigiu-se embaraçado para a saída. Não sabia o que devia fazer. A mãe continuava a tê-lo de olho como se ele tivesse tramado alguma maroteira. Diz ele que naqueles olhares havia a insinuação de que ele tinha querido violentar a gigante, ou tocá-la ou coisa do género, mas de qualquer modo uma censura por o ter apanhado no quarto da filha. A mãe fechou a porta do quarto, devagar, e depois pôs dois pratos na mesa, sempre com os olhos postos nele. Ele não sabia se devia ir-se embora ou ficar, embaraçadíssimo com aqueles olhares. Então a mulher convidou-o a comer a sopa, deitando-a num prato e apontando-lho com um gesto decidido. O médico não tinha fome, mas comeu na mesma. Depois a mãe da rapariga disse-lhe para ir rachar lenha, como uma ordem que não se discute. E durante a tarde toda esteve a rachar lenha no terreiro atrás da casa, vendo-se à noite com dores nas costas, os ossos moídos, além da enxaqueca. Tinha trabalhado tanto com o machado, que caminhava cambaleante e pediu que o deixasse estender-se.

A mãe apontou-lhe o velho divã com as molas a sair do tecido, onde se deixou cair num sono profundo. Acordou era já noite e em cima da mesa havia um prato de sopa fria, evidentemente deixado ali para ele. As duas mulheres estavam no quarto, de onde lhe chegava o som da televisão. O médico comeu, mas sentia-se tão cansado, com dores de cabeça, que não lhe apetecia voltar para casa. Foi buscar uma manta ao carro e dormiu naquele divã incómodo.

No dia seguinte era domingo, não tinha de ir ao hospital, e desde que acordou a mãe começou a dar-lhe ordens, umas a seguir às outras, sem o olhar de frente, mas vigiando-o pelo rabo do olho, com gestos e palavras que o intimidavam. Para começar, mandou-o acender o lume, depois mandou-o à aldeia fazer as compras, depois acima do telhado ajustar as telhas, e depois tirar um antigo ninho de pássaro na boca da chaminé. À tarde mostrou-lhe um monte de lençóis para levar para a arrecadação, onde estava uma tina cheia de água fumegante e ele ficou a remexer a roupa na tina e depois foi estendê-la nos arames em frente da casa.

Diz ele que estava a ficar com o fígado inchado, com enjoos, além da enxaqueca e de um dente que lhe doía. À noite não lhe apetecia nada comer, mas comia a sopa do costume, e só queria fugir, mas estava completamente exausto. Nos dias que se seguiram, a mãe dava-lhe ordens continuamente, como quem falasse a um criado. Não lhe dava sequer tempo de visitar a filha e mal ele entrava em casa punha-o a trabalhar. Mas porque voltava àquela casa? Não se sabe. E assim teve de levar a lenha rachada para a cozinha, tirar todos os garrafões e lavá-los, andar nas traseiras da casa a destruir as tocas das toupeiras, deitar insecticida para os escaravelhos na arrecadação, cavar a horta, descascar batatas, limpar a chaminé e fazer muitos outros trabalhos de que não me lembro. Mal acabava uma tarefa, a mulher dava-lhe outras ordens com alguma palavra seca, e ele obedecia sem saber por quê. De cada vez ficava especado, depois olhava-a a afastar-se remexendo o traseiro enorme no vestido preto, meneando os quadris com todo o seu peso. Mas acontecia sempre que ela se voltava para surpreender aqueles seus olhares desajeitados. Parecia que lhe lia os pensamentos, que o dominava mesmo quando estava virada para outro lado. Cada vez mais incomodado, com a enxaqueca e as dores de dentes, o médico lembrava-se que a cartomante Marilù lhe tinha previsto que viria a tornar-se escravo das duas mulheres.

Mas depois mesmo ao voltar a casa dele sentia-se dominado pela mãe vestida de preto, e parecia-lhe que continuava a receber ordens dela, que tinha de fazer tudo depressa no hospital para ir a correr receber novas ordens à casa junto ao canal. Entretanto sentia que os braços lhe ficavam frouxos, a calvície ganhava terreno no cimo da cabeça e não tinha tempo para ir ao dentista tratar os dentes. Com os colegas do hospital não trocava já nenhuma palavra, a não ser por imperativa necessidade e eles olhavam-no como um falhado, um desgraçado que nunca faria carreira. Quando voltava a casa a mulher ficava amuada durante horas e depois de repente punha-se a suspirar: “Mas onde vais tu? Onde passas a noite? Tens uma amante? Diz-me, que ao menos fico com o coração tranquilo”. E a ele dava-lhe para responder apenas: “Porque não morro eu? Porque não morro?”.

Não lhe apetecia continuar em casa e anunciou à mulher que tinha uma amante e que ia para casa dela. Mas disse-lho ao telefone, para não ficar também á mercê das lágrimas dela, porque os outros tinham o poder de o dominar completamente. Na casa junto do canal não lhe agradava muito dormir no incómodo divã de molas, que lhe furavam as costas. Falou nisso à mãe da gigante e ela uma noite pegou num candeeiro a petróleo e foi com ele às ruínas da fábrica, onde havia no primeiro andar um grande hangar de cimento cheio de escombros, com uma tarimba a um canto. Alguém devia ter dormido ou morado ali, porque se viam cinzas de uma fogueira, lenha queimada, as janelas tapadas com plásticos. Enquanto estavam ali, com o candeeiro de petróleo no chão espalhando uma luz fraca no meio das sombras, diz o médico que compreendeu que era um escravo. Não apenas súcubo, mas escravo da situação que tinha criado com a sua mania de ajudar os outros. Não podia voltar para casa, porque seria escravo da outra situação que tinha criado em família.

A mãe vestida de preto punha um cobertor na tarimba e ele fixava-a de trás, num estado de perturbação. As grandes nádegas dela, com a carne tremulante debaixo da roupa, em certos momentos excitavam-no. Quando lhe passou perto, estendeu a mão para a tocar, aflorou-lhe o flanco. Ela não disse nada, voltou-se a fixá-lo com um olhar severo, à espera dos movimentos dele. Então diz o médico que o assaltou a ideia de inverter a situação, de a comprar, de a prender pela trela, apoiando-se na ganância dela. Sacou da carteira algumas notas das maiores e pô-las em cima da tarimba. Tremia todo, diz ele, mas queria dominá-la, submetê-la à sua vontade, e compreender finalmente qual era o seu destino. Nem ele sabe como conseguiu recuperar o sangue frio, embaraçado com a situação, para fazer um sinal com a cabeça a indicar a cama. Ela percebeu, pegou no dinheiro e enfiou-o no seio, depois começou a tirar o vestido sempre de olho nele e depois deixou-se montar em silêncio em cima da tarimba. Fez tudo sem um suspiro ou um arquejo, tornando-o ainda mais súcubo com o seu mutismo, ainda mais escravo, depois voltou a vestir-se tranquilamente e foi-se embora sem se despedir.

A coisa repetiu-se duas vezes, depois ele deixou de ter vontade. Quando certas noites ela o olhava com ar de quem espera, o médico limitava-se a dar-lhe o dinheiro. Depois também ela deixou de o olhar daquela maneira, pois o médico dava-lhe todo o dinheiro que ganhava no hospital, retirando o que tinha de pagar à mulher como pensão alimentar. Na casa do canal ele e a mãe tinham-se tornado como marido e mulher, diz ele, tirando a variante de não dormirem juntos e de nunca se falarem. Ele continuava a dormir na tarimba na fábrica em ruínas e obedecia a todas as ordens que recebia da mãe vestida de preto. Agora a gigante parecia tratá-lo como a um pai ou a um tio e embora nunca falasse com ele deixara de bufar quando ele estava por perto. Ele porém tinha medo de ficar parado a olhar para ela, como gostaria, a estudar aquela indolência sem desejos, porque a mãe haveria de espetar nele os seus olhos duros que o deixavam logo confuso. De qualquer modo tinha já compreendido o seu destino, já não precisava de ir consultar a Sibila.

Naqueles campos não há consolações, não há nada a esperar. Do seu bunker poderiam ver-se as estrelas e talvez também as luzes das casas pela montanha se as janelas não tivessem sido tapadas com plásticos. Naquele hangar enorme cheio de escombros, com cinzas espalhadas e uma fogueira acesa no chão, ouvem-se os gritos de uma ave nocturna no silêncio da noite. Estamos na noite de Inverno em que o amigo dele o foi lá buscar e o encontrou febril. Sentados à fogueira os dois homens projectam sombras que tremulam juntamente com as chamas devido às correntes de ar vindas de baixo. Naquela pouca luz, o médico, vestido com roupas gastas, parece um velho barbudo macilento. No hospital já só continua graças à bondade do director clínico enfatuado, como o amigo do médico sabe. O médico acabou de escrever o relato de toda esta história e quer que o amigo o leia ali, junto à fogueira. Então o outro põe-se a ler sentado numa caixa de fruta, enquanto lá fora cai a neve e o médico treme de febre, com a perna esquerda a doer-lhe com o reumatismo. Ainda não há muito a gigante mandou a mãe chamá-lo, porque não se sente bem. Mas o médico quer ficar no hangar junto à fogueira, até o amigo acabar de ler o relato e por isso mandou embora a mulher vestida de preto com dois berros de histérico.

Está frio, o lume não aquece. Enquanto o amigo lê o relato, o médico revê aqueles homens no molhe, operários, grevistas, vagabundos, não sabe, que naquela manhã estavam ali, recortados contra o céu, contra as nuvens, contra as vagas do mar que se erguem em ondas altíssimas. O amigo não compreende de que é que ele está a falar. Talvez esteja a falar de alguma coisa que viu na televisão, quando à noite vai aquecer-se um pouco a casa das duas mulheres. O médico diz que eles ainda devem estar lá no molhe no meio das ondas, à espera. “À espera de quê?” Não responde. Diz que já não há lugar no mundo para gente como ele, para aquilo que pensava ser ele, para aquilo que ele pensava. E acrescenta: “Pensávamos estar acima de tudo, mas somos como os outros, como os animais, como os pássaros, como as vacas numa mangedoura”. E o amigo dele repara que também estas palavras parecem saídas de uma televisão, não são vozes de terra.

Agora não há mais do que o frio do Inverno, que o nosso médico sente ainda mais porque come pouco e está sempre a espirrar, ali fechado naquele hangar de cimento. A tarimba é um montão de lençóis sujos e amarrotados, a única manta que existe tem-na pelas costas. A mãe traz-lhe todos os dias alguma coisa para comer, mas pouco, só um prato de sopa, um pouco de pão com alguma coisa. E quanto menos comer mais frio terá, como se compreende, enquanto ali as ondas se erguem contra o quebra-mar e a fúria do mar continua por todo o litoral, dizem as notícias da rádio desde há alguns dias. Uma parte do litoral foi invadida pelas águas, mas agora toda a costa está dominada pelo mar, diz o médico, trinta ou quarenta quilómetros são um puro deserto sem abrigo.

O amigo acabou de ler o relato. O médico diz que não quer ouvir comentários, odeia comentários. Mas gostaria que o relato fosse publicado, porque então alguém o poderia ler e escrever-lhe para lhe dar a pista certa, caso a famosa Milena seja realmente uma pessoa viva e não apenas uma ideia fixa do seu espírito. Espera ainda vir a conseguir saber se a mulher de voz decidida que o tinha fascinado é a gigante indolente ou uma outra pessoa ou mesmo uma quimera. Mas para compreender tudo isso é preciso muito tempo, diz o médico, o tempo de se deixar andar e de se perder por completo e o tempo de subir de novo a encosta em busca de outra coisa. Sim, e é preciso saber seguir em frente sem nenhuma meta, sem nenhum desejo que nos leve sempre atrás de sempre novas quimeras. É este o sentido do destino, segundo ele. Nesta altura acrescenta: “Estou tão fraco que já não posso decidir nada”.

Pela manhã, o amigo leva-o de carro de volta a casa, envolto numa manta, pálido como um morto, com estremecimentos de febre tão fortes que o abanam todo. Chovem gotas enormes, tudo é cinzento na paisagem. Naqueles campos quando chove muito os terrenos ribeirinhos ficam imediatamente alagados e então vêem-se em volta pessoas de guarda-chuva a pescar nos canais que se cruzam no meio dos campos. Vêem-se bicicletas, alguns raros carros que desaparecem no nevoeiro e casas quinteiras a despontar de uma bruma cinzenta. Toda aquela escuridão e aquele cinzento da bruma sobre os canais parece um encantamento, onde as pessoas vivem protegidas dos clamores do mundo. Mas pode também produzir delírios melancólicos, ou outros delírios que é inútil definir. Talvez tenha sido essa atmosfera a influenciar o nosso médico, bloqueando-o na fábrica de cimento abandonada, no meio das ervas daninhas que invadiram todo o terreno circundante, por trás do casebre junto ao canal onde moram as duas mulheres. Quando saiu de casa era o fim da Primavera, agora estamos no Inverno. Nevou durante a noite, no seu bunker gelava-se mesmo junto à fogueira.

O médico acorda quando chegam ao litoral. Treme, depois endireita-se na cadeira: “Olha, olha!” Aponta para os homens no molhe junto ao quebra-mar, enquanto as vagas se erguem acima deles, altas e brancas. Também o amigo os vê. À distância parecem refugiados, talvez desempregados, talvez só vagabundos desocupados. Todo o mar em fundo é plúmbeo, tirando as ondas brancas e espumejantes contra o quebra-mar. Vê-se o molhe comprido como uma fita que entra pelo meio do mar, pelo meio da fúria das ondas, e ali alinhados em fila aqueles homens. De longe têm ar de pessoas mal vestidas, com guarda-chuvas, lonas na cabeça, jornais na cabeça, ou envoltos nos impermeáveis, de mãos nos bolsos, mas calmos, imóveis, indistintos. Não se percebe o que estão a fazer, ali reunidos no meio da borrasca. Parece que esperam o fim de tudo, pacientemente, sem se moverem, no meio dos salpicos das ondas, expostos à tempestade que não pára de se enfurecer.

O médico tosse, deve ter uma pneumonia, além de todos os outros males e achaques. O amigo terá de o levar ao hospital, onde ficará entregue aos seus colegas com o delírio de novos ricos. É esta a melhor solução, diz o amigo, porque o médico ficará muito mal com aquela gente. Mas eu não sei o que será melhor, talvez seja um erro como tantos outros, como as outras quimeras que se perseguem. A rádio, que o amigo acaba de acender, anuncia marés fortíssimas ao longo da costa. Ouve-se o vento uivar com força, abanando os postes dos candeeiros, enquanto se espera um furacão vindo do oceano ou sabe-se lá de onde, pouco importa. Em volta é como um deserto, mas um deserto cinzento de asfalto, entre o desfilar de chalés de férias, hotéis de férias, lojas para veraneantes, instalações balneares e lugares públicos apenas frequentados no Verão. Dá a impressão de um planeta desabitado, com tabuletas de lojas que nos vêem passar, sacudidas pelo vento. Na rádio ouve-se uma voz, que parece a última voz da terra, transmitindo avisos aos navegantes.

Autor:Gianni Celati

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