Bandolo e Montoeira (conto de ficção)

A sensação de estar voando é espetacular. Nunca na vida sentiu tanta leveza, tanta soltura, tanta liberdade. Nem sentiu a decolagem, só se dá conta do enquanto, do mágico, do encanto, do mato lá embaixo, do movimento dos jogadores no campinho, a charanga da torcida, Margarida segurando com as duas mãos o vestido amarelo que o vento ameaça suspender.

Na verdade, não era totalmente por sua vontade que agora ali estava, experimentando a ausência de peso, a musculatura toda solta, apreciando o ônibus vermelho da empresa Rei que passava lá no asfalto, crianças na janela. Dormira mal, preocupado com Margarida. O namoro até que ia bem, falavam em noivado, gostava dela, mas a turma tomava tempo demais, o time exigia muito. Era uma crise.

Mas tinha cedido a pressões. Os amigos namoravam amigas de Margarida que passavam pela mesma situação. De manhã, Alzira, noiva de Gasparzinho, tinha passado na casa de Margarida pra conversar. O time ia bem no campeonato da cidade, todo mundo contava com Bedurri. Logo chegou Dinalva, já de casamento marcado com Samurai Baiano, zagueiro central do Caju Amigo Futebol Clube.

E Bedurri se admirava da rapidez com que as imagens iam pipocando em flashes na sua cabeça. Nunca tinha voado, seria comum aquilo? Noite de domingo, bermuda, o joelho enfaixado, dormindo no colo de Margarida, o pai dela doido de ciúme, o cinema cancelado pela décima vez. Bedurri, apaixonado, achava lindo até o bico que Margarida fazia, mas a situação começava a se complicar demais.

Procurou concentrar-se no vôo, arranjar uma posição mais confortável. Logo recordou o sofá da sala de Margarida. O velho dela, na outra sala, de vez em quando esticava o pescoço, tossia cada vez que o silêncio dos namorados acionava um alarme em sua cabeça. Mãos furtivas escapavam do flagrante anunciado. Só depois das dez o coroa deixava a cadeira de balanço e ia tomar banho, preparar-se pra dormir. Margarida e Bedurri tinham então vinte, trinta minutos de maior intimidade. Às dez e meia o despertador do velho tocava. Não havia o que dizer, era se ajeitar, despedir-se e sair.

E na véspera daquele vôo a situação enferrujara. Quando soou o despertador, a discussão entre os namorados pegava fogo. Em dois anos de namoro, Margarida contabilizava quatro finais de semana em que tivera o namorado só pra si. Duas festas de suas amigas de colégio, uma excursão a uma praia com muitas dunas, e um domingo inteiro na piscina de um clube campestre onde o velho dela era sócio. No mais era a bola, o samba. Uma vez por mês, a macumba.

Bedurri reconhecia as razões de Margarida, mas não conseguia alterar o curso das coisas. Sabia que precisava dar mais atenção à namorada, gostava dela sinceramente, mas não via como fazer de outro jeito. Trabalhava muito, ganhava pouco, era doido com bola. Não tinha família na cidade, a turma do time ocupava um espaço em sua vida que Margarida sozinha não conseguia preencher.

Era difícil pra ela. Enfurecida em meio a tantas discussões motivadas pelo mesmo problema, já o mandara casar-se com a bola, chamara-o de imaturo muitas vezes, interrompera beijos ardentes pra perguntar se algum colega do time beijava assim tão bem. Me chama de sua bolinha, pedia, pura malícia e sedução. A coisa tava apertando.

As imagens durante o vôo eram como um filme onde a velocidade às vezes aumentava até complicar sua percepção e depois se desenrolavam lentamente, com clareza e detalhamento maiores que a das telas de cinema e TV. E Margarida sempre lá, inicialmente vibrando, na beira do campo, junto com as colegas, incentivando o namorado, vibrando com suas fintas de corpo, gritando quando ele disparava com a bola dominada, com seus longos e precisos lançamentos, seus freqüentes gols de falta com barreira, da entrada da área. Tinha todas as suas medalhas, seus troféus de artilheiro. Era pra ela que corria, na comemoração do gol.

Só mesmo por muita pressão dos amigos e de suas namoradas foi que Margarida concordara com a ida de Bedurri ao jogo, naquele dia, e também resolvera acompanhá-lo mais uma vez. A última, dissera. A situação tava ficando tão difícil que Bedurri pela primeira vez pensou em deixar de jogar futebol aos domingos. Assustou-se, de tão novo que o pensamento era. Precisava pensar muito naquilo.

A visão de um urubu em vôo tranqüilo a uns cem metros de distância disparou outro filme na cabeça de Bedurri. Lembrou-se do dia em que Nuvem Negra, que todos na sua turma tinham como a pessoa mais carregada, pessimista e mal-humorada do mundo, lhes perguntara se sabiam por que aquelas aves não se contaminavam com tanta porcaria que comiam. Reviu-se numa roda, no bar da esquina, onde o amigo explicava que os urubus voavam alto para que o ar rarefeito lá de cima matasse os microorganismos ingeridos junto com a carniça. Urubu planando lá no alto acabou de comer, garantia o amigo, professoral. Geralmente Nuvem Negra o irritava, com seu astral sempre pra baixo, mas naquele dia Bedurri gostou da conversa, ficou um tempão imaginando o funcionamento do sistema imunológico dos urubus.

Mas o filme principal era outro. Naquele dia, quando Paletó Velho lhe atirou a 10, no vestiário, Bedurri, o mais fominha do grupo, sentiu vontade, pela primeira vez, de pedir pra não ir pro jogo. O time tava bem, sobrando na tabela, e no banco tinha uma meninada precisando pegar ritmo de jogo. Acabou desistindo, já sabia o que o velho treinador ia dizer. É importante ganhar bem, disputar artilharia, manter a noção de conjunto. Em time que tá ganhando não se mexe. Sem contar que entre o treineiro e as namoradas dos jogadores o clima também já tava perto de derramar. Melhor ir pro jogo. Pegou o material, caladão, e foi se vestir num canto do vestiário.

Naquele dia, até o cheiro do ungüento do massagista aborreceu Bedurri. Normalmente, era um de seus odores preferidos, lembrava a erva-de-santa-maria que a Vó Normélia de vez em quando lhe aplicava num emplastro, misturada com saião e sal, pra ajudar a curar algum inchaço mais renitente na coxa, na panturrilha, no tornozelo. Então era como se a imagem da Vó que tanto amava e de quem recebia tantos conselhos importantes entrasse com ele em campo. Menos naquele dia.

Paletó Velho terminou sua preleção, que Bedurri conhecia quase de cor: futebol é a arte de ocupar espaços e de tirar espaços; marca a saída da bola; quero o time gritando, cantando o jogo; time calado não ganha de ninguém; roubou a bola, sai em velocidade, tocando; quem tem de correr é a bola; ataca em bloco e defende em bloco; chupa-sangue vai pro banco; falta perto da área, bate Bedurri; média distância, Cocô-de-Cabra; o jogo é no campo do adversário, não começa a dar porrada; se eles começarem, não quero ver ninguém afinar. Vamo pro jogo.

Outra seqüência nas imagens no vôo-filme que passava na cabeça de Bedurri, em sua primeira experiência aérea, era da entrada do Poca e Rasga em campo. Camisas, calções e meias azuis, uma faixa branca em diagonal na camisa. Uniforme estalando de novo. Um foguetório medonho, a charanga. No fim da fila, os dois zagueiros. Dois armários, um ruço e outro negro, logo identificados por Gasparzinho, que já tinha morado na localidade: Bandolo e Montoeira. Bedurri não conseguiu evitar um friozinho na barriga.

Bandolo era o ruço, quase dois metros. Parecia um gorila, as mãos batendo abaixo dos joelhos. Tinha de coxa quase o que Bedurri tinha de tórax. E Montoeira era ainda mais forte que seu parceiro de zaga.

Com cinco minutos de jogo, os dois já tavam na pele de Bedurri. Gracinha, boneca, puxão no cabelo comprido, valia tudo. Bandolo deu-lhe uma pisada no pé, com a bola lá na outra área. Dói demais, os olhos se enchem d´água. Pezinho de moça vai levar pra casa hoje, de presente, um lindo par de muletas.

Nada mal, pra começar.

O Poca e Rasga, jogando em casa, começou matando. Tinha um camisa 8 que onde punha os olhos punha a bola. Morfético, lazarento, Bedurri xingava baixinho, secando a canhotinha infalível do malandro. Logo fizeram um a zero e quase que o mundo veio abaixo, de tanto foguete, boa parte atirada pra cima do time visitante enquanto a equipe da casa comemorava junto à sua torcida. A dupla de zaga infernizando Bedurri, a camisa já rasgada, cuspidas na cara, mão na bunda. Gostosa, delícia. O juiz, na dele. Os bandeiras não viam nada.

– Juizão, tu não tá vendo isso não?

– Cala a boca e joga sua bolinha, senão vai mais cedo pro chuveiro.

No vestiário, no intervalo, Bedurri quase pede pra sair, mas aí já era outra situação. Tinha fama de manhoso, catimbeiro, não havia como escapar daquela, levar nome de pipoqueiro. O jeito era voltar. Paletó Velho orientava: é segurar, esperar a chance de empatar num contra-ataque; não recua demais, senão vamos tomar de muito;. Bedurri faz o limpador de pára-brisa, aparece na direita, na esquerda; a zaga deles é pesada; se ficar no mano a mano com um dos dois, é sair na cara do guapo e ir pro abraço; recebeu de costas, não deu pra virar, segura até o meio-de-campo encostar.

Segurar até o meio-de-campo encostar. Bedurri voava pensando se alguma vez na vida Paletó Velho tinha precisado encarar dois armários daqueles, malandros e carniceiros, um na cola e outro na sobra. Melhor não discutir. O juiz já chamava pro segundo tempo e Bedurri achou melhor pensar que só faltavam quarenta e cinco minutos pro fim do jogo e que se conseguissem segurar aquele um a zero a coisa tava até de bom tamanho.

Aos quinze, conseguiu chamar Bandolo pra dançar, na intermediária, e meteu-lhe uma por entre as canas, mansamente. Partiu. Montoeira, na cobertura, veio feito uma fera. Também levou no meio das canas. Inevitável: mão direita no cabelo, esquerda na camisa, fez que tropeçou e desabou seus quase cem quilos em cima de Bedurri, o joelhão no meio das costas. Falta, juntinho da meia-lua. Bedurri leva quase cinco minutos pra se recuperar. A dor nas costas é insuportável. Vou meter essa, de presente pra vocês, desafia, quase sem voz. Tu tá querendo é sair morto daqui, veadinho, rosna Bandôlo.

Barreira colocada, o goleiro do outro lado, a súbita intuição mandou bater do jeito mais difícil. Uma ginga de corpo e o goleiro partiu pro canto, na certeza de que a bola ia por cima da barreira. Imobilizado, sem condição de inverter o movimento e voltar, ficou estático, pregado no chão, torcendo, enquanto ela descrevia um largo arco, como se fosse sair. O efeito tinha pegado de jeito. Foi fechando, fechando. Entrou lá no outro canto, depois de bater na junção dos dois paus da trave, na orelha da girafa, lá onde a coruja dorme. Um a um.

Pra quê. O clima esquentou. Nos 10 minutos seguintes, Bedurri tomou três cachações, um de Bandolo e dois de Montoeira. Vou te matar, seu escroto, prometiam. Bedurri na dele, fingindo coragem. Quero ver se tu é valente é na pequena área, seu merda, tentava encarar. Vou te meter outra debaixo da saia.

Mas a crise com Margarida, a pressão, tudo conspirava contra e acabou contribuindo para que Bedurri esquecesse a mais primária das lições que um atacante tem de saber: sempre entre os dois zagueiros, nunca deixar dois atrás de si. Se o armador conseguir fazer a bola chegar a ele já de frente pro último homem, é meio gol. Mas aquele não era o dia.

Quase quarenta minutos. A torcida urra, xinga, joga pedras, ameaça invadir o campo, promete porrada. O adversário sufoca, sufoca. Paletó Velho, lá fora, já quase sem voz, continua gritando e gesticulando o tempo todo.

A defesa alivia, o goleiro tira de soco. Quatro escanteios seguidos. Lá na frente, Bedurri e seus carrascos. De repente, o goleiro intercepta um cruzamento. Bedurri chama o jogo pra si. Abre os braços, berra o mais alto que pode e dispara da ponta direita para a esquerda. O goleiro enxerga, mete de pé, pelo alto, na ponta. Vem com força, periga sair pela lateral. Bedurri acelera o que dá, o pulmão ardendo. Se chegar primeiro, decide o jogo.

Chega. Um palmo da linha lateral esquerda. Não pode parar. Negaceia, troca de pé, gira o corpo sem tocar na bola. Sente a respiração, o deslocamento de ar, o tremor de terra, e Montoeira já ficou, passou lotado, deslocado pela finta de corpo. Agora é travar a bola e cortar pra dentro, pra tirar do Bandolo. Vai ter então uns 50 metros até o gol.

A sombra cresce, é imensa, cobre o sol. A sensação de estar voando é espetacular. Nunca na vida sentiu tanta leveza, tanta soltura, tanta liberdade. Nem sentiu a decolagem, só se dá conta do enquanto, do mágico, do encanto, do mato lá embaixo, do movimento dos jogadores no campinho, a charanga do adversário, Margarida segurando com as duas mãos o vestido amarelo que o vento ameaça suspender.

Então as imagens se aceleram ainda mais, muito mais. Parado no ar, vê o chão partir em sua direção. A rápida aterrissagem é precedida de luzes, sons de sinos e pios de pássaros tão comuns em desenhos e quadrinhos mas que Bedurri nunca acreditou que um dia pudesse ver ou sentir. O filme acaba e é só o chão chegando, a razão inversa do quadrado das distâncias. Alguém apaga a luz.

Abre os olhos, lentamente. Sente frio. Paredes brancas, uniformes verdes, luzes difusas, um braço amarrado, agulha. Soro. Força a vista, foca parcialmente. O rosto de Margarida, os olhos marejados. Vão surgindo os amigos mais chegados. Paletó, Gasparzinho, Três Oreia, Cascobreu.

– Voltou da anestesia – ouve a voz embargada de Margarida.

Busca na memória, quer se situar no tempo. Tenta falar, não querem que fale. Precisa saber, insiste, pede o inventário dos estragos. O médico relata, devagar, profissional.

Cabeça: cinco pontos no supercílio, hematoma na fronte, lado direito. Braço direito luxado, fraturas em duas costelas. Edema no adutor da coxa. Gentilezas da cabeça de Bandolo, dos cotovelos de Bandolo, do joelho de Bandolo. Contusões e escoriações generalizadas, da infeliz aterrissagem. Todo cortado de mato. Considerando a altura do vôo relatado pelos amigos, até que não está mal. Se fosse mais pesado, um pouco mais velho ou tivesse caído de cabeça, sim, poderia ter morrido. Teve muita sorte.

A fala do médico desata o choro miúdo da namorada, abraçada com Alzira, apoiada em Dinalva. Bedurri tem um nó na garganta.

Aperta a mão de Margarida, ganha um beijo na testa enfaixada, vai se acalmando. Sono, torpor. A visão se turva. A mentira escorrega fácil, rola redondinha:

– Nunca mais jogo bola, amor.

Autor:Tavares Dias

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