Daqui Só Saio Quando Morrer (conto de ficção)

1. O cão gemia tanto que miava. Pendurou-o debaixo do braço, pegou-lhe pela cauda pendular, volteou uma corda de ponto cruzado na sua ponta e uma lata destapada de querosene na outra, e soltou-o no chão. Balançou a perna bruscamente de um lado até ao rabo do cão, que ganiu num salto e solto fugiu regando óleo pela lata. Araújo soltou então um fósforo aceso no riacho de combustível. Num só fôlego, o fogo galopou até ao cão, perseguindo-o através da floresta. Os pinheiros e os eucaliptos acenderam-se como lâmpadas.

Aquele tipo de vida tinha começado um dia meio ano atrás, quando Araújo Monteiro-Silvas recebeu a visita de três homens vestidos de branco na sua casa vaga de desempregado, no bairro social das Ajudas Perenes. Era tarde, os três senhores apinhados na porta suavam, devia ser do calor. Araújo perguntou quem eram do outro lado da porta, vendo-os desfocados e distorcidos pelo olho-de-boi.

De porta aberta, os três homens sorriram ao de leve, bafientos e gordos. Um era parecido com uma cara espalhada pelas ruas na altura das eleições, mas Araújo não fez conta, outro era polícia em paisana, e o terceiro era o ex-patrão que o tinha desempregado.

– Como vai, Aráujo? -disse-lhe o ex-patrão e Araújo pensou com os diabos que vem agora este aqui. Fez cara de sujeito empancado com a conversa, enquanto afagava o bigode hirsuto e tenso, mas não rogado o ex-patrão desatou zumbindo ladainhas -…sabe que eram tempos difíceis, razões de racionalização e multi-tasking, mas olhe: […]

Aráujo ouviu e não gostou, ficou com o cartão de visita e adiou uma resposta, mas de noite e de barriga roncada e vazia, pensou que remédio tinha senão aquilo ou ser encontrado pendurado, pendurado como roupa velha apodrecendo, encontrado por qualquer vizinha cigana que teria duvidado da razão de tanto cheiro roto, um Araújo morto na corda curta pelo desespero de nada ter e nada lhe darem. 

Fez uns trabalhos e foi rendendo. Era já Verão alto e a própria terra tinha piromania, ardendo calor através dos poros de musgo. Um dia chegou mais um telefonema. – Ora mais um trabalhinho para o Araújo! – disse-lhe da linha o retomado patrão com voz irritante e adunca, nasal e criminosa. Segundo ele existiam interesses por terrenos na serra frondosa do Rochedo Milenar, paraíso na terra protegido de Araújos que Araújo deveria tornar inferno. A madeira ia render na proporção da queimada, e uma empresa de combate aéreo aos incêndios florestais estava pronta e de contrato assinado com o governo local.

A Araújo empestava-lhe aquele calor devasso, da chama que lhe vinha das mãos a troco de pouco, mas suficiente.

– A serra do Rochedo Milenar -pensou -,que raios ia lá com o pai pescar quando era puto, as primeiras trutas e sardas, todos os fins de semana de Verão e bom tempo. Mas pouco disse, como era hábito feito.

– E olha – disse-lhe mais o patrão -,desta vez sê esperto e põe um rafeiro a fazer o mais difícil -e desligou.

Horas mais tarde, já o cão fugia com a chama atrás, espalhando fogo e fumo pelo verde.

– Felizmente as árvores não gritam por socorro – imaginava Araújo o arvoredo a ulular de pânico, sacudindo os pés presos no cimento da terra, brandindo os ramos como nas ventanias bruscas. Apesar da deambulação, ateou um último fogo numa clareira seca, e sentou-se no chão, desafogado com algum sofrimento desconhecido. As árvores começaram a morrer como bruxas na estaca. 

Já o cão não se via, repentinamente Aráujo sentiu o peito queimar-se-lhe, como se por acidente se tivesse ateado a si próprio. Sentia como que pedaços de vidro espetados na carne que se atingiam por pedaços quentes de sol e bigode ardia-lhe na pele, como se tivesse tornado numa pequena labareda. Intimidado, sabia que não era acidente, haviam coisas dentro de si que ardiam, fogo posto na alma que ardia sem se ver.

Araújo pensou – Tenho de sair daqui! – mas sentou-se novamente, esgotado e exposto – Puta de vida.

Viu ao longe o rio onde pescava com o seu pai, as suas primeiras trutas e sardas, e entre os ramos revoluteantes da chama imaginou ver o seu pai, pescando suavemente com uma cana longa que baloiçava para tirar os peixes da água. Sem reparar, Araújo estava cercado de labareda e tinha-se tornado árvore, com ramos, folhas, tronco duro até ao centro da terra, e sentindo o peso das estrias centenárias por onde sangrava seiva verde, queimou-se até à terra que o vira nascer.

2. Nas fraldas do Rochedo Milenar vivia Armindo Cabra-Leite. Nessa mesma tarde, Armindo, velho velhinho, estava no quarto quando a chama, vinda de longe, invadiu tudo num só momento, apanhando-o na desprevenção de um sono.

Apanhado assim, repetia em soluços -Que desta morro! Que desta morro! – Com pouco cálcio nos ossos rangidos e pouca força nos músculos vazios, tentou levantar-se e procurar saída. Andou um pouco contra o nevoeiro do fumo mas sentiu tonturas imediatas no peito que o obrigaram a recolher-se novamente. Armindo estava cercado e intransigente a labareda subtil consumia as paredes à sua volta.

Os parcos móveis, mesinhas de cabeceira, estantes e guarda-fatos armário faziam barulhos estaladiços e faziam cinzas. O retrato de uma mulher antiga derretia, e o caixilho estalava e fazia cinzas mortas. Com um olhar sempre vago, com um ligeiro sorriso de sofrimento – o fotógrafo tinha-lhe dito que sorrisse mas Eugénia Cabra-Leite não tinha jeito para aquelas coisas tão preparadas e tão formais – Eugénia derretia aos poucos, firme e tensa e vaga. Armindo olhando-a assim decidira que morreria da mesma maneira. Olhou em frente, e firmou os pés no chão de estacas que saltitavam de calor, e cerrou os lábios com firmeza ainda que tremesse. Firmou também os olhos, baixando as pálpebras velhas, ainda que chorasse um pouco. No retrato, Eugénia Cabra-Leite, amarrotando-se toda numa convulsão derretida, dizia-lhe com sussurros – Vem comigo, sai da solidão. Através do turbilhão da chama, agora só Armindo e Eugénia partilhavam coisas.

As paredes continuavam a estalar e as chamas cada vez mais circunscreviam Armindo firme na sua cama. Armindo fala alto para si, pede-se calma, retesa as lágrimas, não dá voz a pânico. Pensa que não vai chegar a sentir o fogo na pele, que o fumo já vai ser demais para os seus pulmões sem ar. Olha os comprimidos para dormir, e pensa se tentasse uma dose para dormir demais, ali na mesinha de cabeceira, talvez todos de uma vez, talvez passasse a dormir imenso e teria sonhos sem calor.

Tarde demais, a mesinha começou também a arder, agarrada por uma chama que caiu de uma trave do tecto com escarcéu – pam – os comprimidos derretem-se na fornaça, polvilhando o ar de soporíferos que se dissolvem nas restantes cinzas e Armindo cai inconsciente de fumo.

Contudo nem duas labaredas ameaçam e já uma mão puxa finalmente Armindo para fora do quarto, arrastando-o através das estacas do chão que estalavam. Na rua, aplicam-lhe oxigénio, dá-se o refolgo. Não havia ar em lado nenhum como se o sol se tivesse sentado na atmosfera esmagando-a contra a superfície da terra. Armindo sofre, faz de peixinho dourado em aquário sem água durante uns minutos, boqueando ar para dentro, aflito.

De onde estou vejo-o de longe, esgotado e prostrado na cama da ambulância. Perguntam-lhe – como se chama? Sente dores? Está queimado? – Apalpam e oscultam Armindo que chorava ou pelo menos parecia que chorava, talvez de comoção. Ao longe via-se a sua pequena estrutura sacudindo-se lentamente, os ombros vacilando. 

Eu, entretanto, esbaforia com frenesim, não só eu mas todos, bombeiros de mangueiras esticadas bombeando água contra as alturas e locais regateando metros poucos ao fogo com ramos de árvore e baldes de areia. A cinza pespegava-se no meu rosto, alvo da brisa ácida das chamas. Já lutavam todos dois e três dias assim desta maneira, sem sono ou recompensa. As chamas abraçavam-se às árvores rompendo até às suas alturas, lançando-nos um mural de calor que nos suava a humidade do corpo, ameaçando-nos como um exército de gigantes que sacudia as casas por gozo.

Chamam-me então para evacuar Armindo da área com urgência e corro para a ambulância onde ele está nas mãos de um bombeiro. O velho pede para ficar, quer lutar contra o fogo, mas o meu colega olha-o com calma – O senhor agora tem de ir, para descansar e ver se não tem problemas sérios, estas coisas ás vezes queimam-nos onde não conseguimos ver.
No hospital, Armindo é visto por um médico, jovem, que lhe diz que parece estar tudo bem, depois de ter ouvido o peito implodido e fraco de Armindo. O médico tomou-lhe então o braço fino e caminhou-o para um dos colchões de cama.

– Descanse um pouco, sr. Armindo, e se se sentir mal é só chamar uns dos enfermeiros que vagueiam por ali -disse-lhe. Armindo olhou o corredor e viu enfermeiros vestidos de branco circulando em silêncio, de olhos atentos a quem tinha deixado arder a casa como ele.

Abatido por tudo, Armindo fechou então os olhos cansados. Com a vinda do sonho sentiu tremuras na pele e os seus olhos lançaram-se numa montanha-russa de movimentos debaixo das pálpebras cerradas. Numa floresta longíqua africana, viu-se vestido com farda miliciana e empunhando uma metralhadora a tira-colo. Cercando a vista estavam grandes árvores de copa oval amarela, nas quais chamas verdes deslizavam entre as folhas como se fossem liquidas, caindo para o chão fazendo cascatas tépidas. Na queda faziam faúlhas com o atrito, queimando as moléculas de ar que se transformavam em carvões flutuantes. Ao caírem no chão, as labaredas líquidas esfolavam a terra e largavam sangue. No sangue telúrico e castanho que alagava toda a floresta estava o reflexo de Armindo de arma empunhada, de cara encorpada traçada com um bigode hirsuto e tenso. Fazia calor de incêndio. Em todo o lado cheirava a animais livres, cheiros tépidos e frescos, cheios de ilusão como miragens de desertos quentes. Armindo então ajoelhou-se e levou a mão à terra inundada. Ao tocar Armindo sentiu com horror os dedos queimados e o ardor rapidamente se espalhou pelos braços, peito, cabeça, como um miasma. Gritou forte e começou a disparar para o céu até acordar esbaforido de suor. Acalmou-se e deu-se com uma certeza, não devia ter abandonado a sua casa. Que antes tivesse morrido.

Veio de novo ter consigo o médico, ao que Armindo lhe contou o mau sonho. O enfermeiro fez pouco caso e sem delongas disse-lhe que estavam ali uns senhores que queriam falar com ele a propósito do que tinha visto antes do incêndio.

Dirigiram Armindo para um pequeno escritório na companhia de um policia, jovem, enquanto o enfermeiro veria então Armindo mais logo e o ia deixando por um corredor afluente. No espaço de entrada contíguo ao escritório, três homens bafientos e gordos, vestidos de branco, conversavam em tom inaudível. Um era policia, outro o presidente da Câmara, e o terceiro era um homem-mistério. Armindo aproximou-se com o jovem policia e eles emergiram um pouco os seus rostos inclinados, parando de falar. Pareceu que sorriram respeitosamente para Armindo quando o viram aproximar, mas Armindo não faz disso certeza. Os três homens suavam copiosamente, devia ser do calor.

O policia encaminha então Armindo para a porta e no interior sentou Armindo.

– Se não se importa espera um pouco que o comissário já vem. -disse-lhe e saiu. Está fresco e suave e Armindo sentiu-se um pouco melhor. Os três homens entram varrendo o chão com os seus passos de enigma e sentam-se em três cadeiras encostadas à parede, incomodando Armindo com um silêncio-fátuo. O comissário entrou pouco depois.

– Sr. Armindo, como se sente?

Armindo acenou que bem, usando as palavras habituais.

– Sr. Armindo, montamos um posto policial de urgência no hospital para estabelecer contactos imediatos e eficientes com as testemunhas visuais dos epicentros de incêndio.

Armindo aí pestanejou da forma mais nula possível.


-Sr. Armindo, estamos por isso aqui ao ataque contra as pessoas que lhe fizeram esta tragédia. O senhor viu, sentiu ou ouviu alguma coisa de suspeita na tarde da tragédia?

O comissário então reclinou-se na cadeira e ele próprio produziu um silêncio em que Armindo parecia não poder ainda penetrar com palavras. ainda que lhe tivesse sido feita uma pergunta. Estranho. De perto, sentia os olhos rompidos dos três homens nele depositados. Fugazmente tossiram os três em paralelo como se para testar a consistência daquele silêncio e mantê-lo cerrado contra Armindo.

– Sr.Armindo não viu nada então?

-Vi – Armindo soltou.

-O quê?

-Coisas.

-Que coisas, sr. Armindo? – o inspector fez zoomido com os seus olhos em Armindo, inclinando o tronco sobre a secretária. Armindo abandonou então a contenção e gritou – QUEM SÃO ESTES SENHORES?

Com o dedo apontado varre na direcção dos três e num salto rude Armindo rompe contra os que encostados na parede se entreolham pela surpresa. Armindo tem raiva no coração porque sabia a que farsa aquilo cheirava, porque sabia o que estas pessoas não sabiam, que pensavam que se podem fintar assim setenta ou oitenta anos de vida. Armindo levantou-se então sentindo de novo a memória vívida dos seus vinte anos idos, anos de trabalhos duros nas alfândegas marítimas e pancadarias nas tascas. O comissário pinchou alertado, pequeno e insignificante, e correu para o corredor alarmando que se busque rápido um enfermeiro rápido enquanto Armindo já ameaçava torcer cabeças e os gordos tentavam em vão subir pelas paredes, ganindo como eunucos.

Ainda conseguiu esfarelar uma canela branca com um pontapé de esquina ia Armindo já nos braços de um enfermeiro que o arrastava pelos corredores – Vá Sr. Armindo, vá, com calma -até longe do tumulto.

Amarrado por braços fortes, Armindo foi levado por labirintos de escadas e elevadores consecutivos até perder o sentido de direcção. Nos corredores, sobre a triste cor das paredes desinfectadas, lívidas do hospital, as dezenas de pessoas que Armindo tinha encontrado durante a sua chegada, tinham-se multiplicado por outras tantas. Eram crianças e avós, pais e crianças, encolhidos entre os colchões distribuídos no chão e nas macas. Nas sombras das luzes desligadas dos pavilhões do hospital, entre os cobertores emaranhados e as mantas de vultos que dormiam, havia um choro de fundo, havia um sussurro ecoado e lúgubre. Tinha faltado a luz e fazia calor sob a luz da lua nas janelas largas dos quartos e dizia-se entre as paredes e os corredores e as macas e os pavilhões que tudo que tinha ido tudo tinha ido tudo tinha ido tudo tudo tudo.

Já Armindo estava decididamente perdido no percurso que estavam fazendo quando o enfermeiro largou o seu braço velho e ia já seguindo por um corredor afluente, desta vez sem se despedir.

Armindo reclinou-se sobre o estômago, levando as mãos aos joelhos. Cansado, vê então no corredor adjacente, sentada numa pequena cadeira repousada defronte de uma maca nua, a sua vizinha Idalina Boa-Nova. Mancou até ela, como uma sombra, e acercou-se pondo-lhe a mão no regaço de mãos cruzadas. Idalina arregalou os olhos na direcção de Armindo até o discernir dos contornos circundantes. Vendo-o finalmente, soltou um pequeno grito e suspirando agarrou-o.

– Oh Armindo, ardeu tudo, Armindo, ardeu tudo.

Armindo Cabra-Leite olhou-se com vagar pensando nas vítimas que eram. Tomando uma decisão, vergou-se então até ao peso dos seus joelhos estragados e deu-lhe um beijo seco na face de rugas:

– Vou fugir, Idalina. Vou para casa que de lá não deveria ter saído. De lá só saio quando morrer.

Surpresa, Idalina alteou o peito descido, abafando-o depois um pouco e expelindo o ar das bochechas disse – Oh Armindo! Não vás que isso é toleira! Ainda te acontece outra!

Olhando-a Armindo pensou -Não me contradigas, Idalina Boas-Novas, que minhas mãos estão nas tuas, e a meus olhos restam já poucos dias de claridade. Mas não tinha forças para falar, Armindo sorriu somente, de maneira frágil como que insistindo e lamentando aquela condição. Idalina bocejou novamente o ar que tinha nas bochechas, rendendo a sua preocupação à fé no seu amigo.

E Armindo partiu, pelos corredores, pelas saídas do hospital sem que ninguém lhe confiscasse a liberdade, pelas ruas, até aos cimos da serra que o chamavam, deixando Idalina Boa-Nova sentada defronte do corredor enquanto desaparecia.

Na noite, Armindo foi caminhando os caminhos da serra, caminhos de um asfalto esquecido. Isto com os seus pequenos passos, perguntando-se ali e além, quais eram as diferenças entre os pequenos focos de chamas no céu e nas serras. A todo o comprido do vale e das cercanias, via-se sem distância os filamentos de chamas entre as árvores. Os bombeiros, em baixo, no seguimento das estradas, atravancavam os seus carros sapadores nas fileiras de alcatrão e corriam com desaforo, mangueiras esguias na mão, fugindo contra as chamas, batendo-lhes com águas de jactos murchos, capando-lhes a raiz com alvoroço de formiga. As chamas elevavam-se assim à vista cansada de Armindo cansado, os incêndios lavrando tudo.

– Talvez seja assim o Inferno. Morremo-nos, fardam-nos de bombeiros e somos enviados para combater chamas até à eternidade. – disse em voz baixa para consigo.

Em volta, era tudo rescaldo, a terra esfumando como se estivesse a evaporar. As árvores queimadas esperando já novas árvores, espécies alienígenas daqueles montes, fungos gigantescos que iriam sugar as mantas de água velha dos poços da terra, como cangurus sedentos num deserto árctico, comendo todo o gelo. E com as árvores iriam as aldeias, e com as árvores novas viriam as cidades e com isto tudo, iriam os velhos. Iriam os velhos com a força da chama, iriam os velhos com sua solidão, iriam os velhos extraídos com a dissensão de um machado que atalha a força das raízes cortando no tronco. Os velhos que gritam – daqui não saio – ,e já os tinham arrancado com a labareda, levados em braços pelas autoridades, deixando-lhes para trás a raiz apodrecida no chão.

Armindo suspirou com o pensamento e olhou novamente o céu. Subitamente, fez-se silêncio denso, como tivesse caído um pano feito de noite, cometendo todo o vale à falta de luz e à falta de som. Os barulhos distantes foram remetidos a tocas abismais, e as estrelas piscaram como lâmpadas de néon até se apagarem. Uma claridade fusca surgiu então no fundo de todos os montes como um palco de teatro iluminado a partir do chão. Tudo parecia quieto, todos os montes e colinas erguidos como sombras tremendas de fúria silenciosa. 

Sentindo uma tremura repentina pelas veias, o sangue puxando-lhe com velocidade até aos pulmões, Armindo involuntariamente soltou um grito retinente, relinchando como um cavalo-totem. De longe, de montes acercados, soaram outros gritos, fortes, retinidos e prolongados. Dos fundos, a noite gritava em congregação. E então fez-se madrugada.

Foi já sobre a luz de um sol que sublinhava o horizonte, que Armindo viu a sua aldeia, no fim da estrada de asfalto. A geometria e a localização eram as mesmas de sua memória mas no lugar das casas da aldeia, erguiam-se agora bases curtas de tijolo queimado. Móveis obscuros e tortos, completamente inúteis padeciam de pé nas ruínas como múmias. A aldeia tinha implodido naquela guerra atómica de fogueiras como uma citânia escurecida da antiguidade, cheia de artefactos puídos.

– Que maldade a do fogo – disse e sabia agora bem de repente de que se tratava tudo isto, este acidente de humanidade tão subtil.

No fim da sua rua empedredada de ladrilhos em granito, a casa de Armindo, outrora cercada do arvoredo que tinha trazido a chama. Sobre a luz fraca matinal que faz o ar azul escuro, Armindo calcorreou o chão, arrastando as calças pelo pó vivo das cinzas e pelos quartos contíguos sem tecto.

– Não devia ter saído daqui. – Armindo desceu até ao pátio, o alpendre estava abatido, como o resto do telhado. O quintal havia-se tornado um lugarejo de cinzas e tijolos e bidões cheios da água estagnada que tinha sido atirada contra o fogo. Armindo soergueu-se então na ombreira da porta exterior, olhando tudo com vagar. Olhou em frente, cambaleado mas rígido, posando para a escuridão com intento, focando os olhos como alguém se estivesse pronto a tirar-lhe uma fotografia. É pequeno, atarrecado, de tronco curto. As calças estão presas acima na linha do umbigo com um cinto de fivela. As botas são botas botas botas, esgotadas pelo uso rude que lhes dá Armindo. A cobrir o peito implodido e fraco, uma camisa interior branca, daquelas que se compravam nas antigas retrosarias. Cobre-lhe o calvície uma boina de tecido.

Foi assim que o reconheceu o vizinho que por ali andava como Armindo. Os escombros ainda fumegavam quando a vizinho se aproximou.

– Então o tio Armindo não vê que ainda se queima ou lhe cai o resto do telhado em cima?

Vagueando pelo nevoeiro dos escombros, Armindo olhava as telhas no chão, procurando as telhas boas, e soltando as más para um contentor de lixo.

– Pronto, nesse caso como preciso do tractor e ele tem o selim queimado, vou primeiro arranjar o tractor.
E lá foi Armindo irredutível á procura de material para refazer o assento.

– E se deixasse isso para os da câmara? Talvez venham cá dar uma ajudinha…

– Vou agora incomodá-los. Eu cá me desenrasco. A minha filha de França vem cá com o meu genro, e ele ajuda me, oh.

Armindo sabia que precisava de continuar a andar, a passarinhar atrás de telhas partidas, telhas boas, pedaços de colchão para fazer bancos de tractor, tijolos secos para refazer as paredes partidas. O vizinho deixou Armindo assim nas suas sortes. Nesse momento, uma brisa castanha e esfumada oscilou no ar, escorregando nas fossas nasais e impregnando Armindo: cheiro de cadáver.

E assim passou um dia naquele vagar de cinzas até à queda da noite, sem comer, sem repousar, sem ninguém por perto. Cansado finalmente, Armindo aplanou no chão uma coberta que tinha no armazém dos fundos, e deitou-se de frente para o tecto tolhido. Entre frechas viam-se estrelas e universo, metidos entre as telhas suspensas e aquela escuridão intrigante entre os espaços de pequenas luzes solares. 

– É para ali que vão os velhos quando morrem. – aponta Armindo para o espaço entre duas estrelas anónimas.


De repente, uma língua varre as rugas de Armindo. Um nariz preto e quadrado ofega junto ao de Armindo, e a língua varre novamente as rugas e os olhos de Armindo. Buga tinha regressado, chiando ao dono, que amarrou o cão preto com força incrédula. Armindo sorri, este regresso é uma alegria, e chora enquanto esfrega o pêlo de Buga nos seus dedos.

– Meu cão, vieste meu lindo cão. – Atada na cauda estava uma lata vazia, que Armindo desfez, afagando o rafeiro.

Mas a vizinhança tinha razão, as debilidades das vigas ainda estavam vivas e Armindo não estava seguro. De repente, silenciosamente, parte do tecto quebrou. Telhas, vigas, paredes rompem num desmaio sobre Armindo e sobre Buga, soltando pó no ar num tumulto de cinzas frias. O barulho é um estrondo que incomoda a serenidade da noite mas é efémero na duração do impulso que a gravidade dá as coisas para cair como bem lhe apetecerem, e na vizinhança não se acendem luzes em janelas sobressaltadas com o alarme.

A noite recompõe-se e vê-se um velho em andrajos, Armindo com idade, tombado no chão como se fosse vagabundo em esquina de rua com um cão longo e rafeiro atravessado no seu colo. Buga tinha vindo avisar Armindo do perigo. Tanto o velho como o cão continuavam olhares rectos de olhos fechados pelas linhas do céu, não oscilando de forma perceptível, de aspecto quedado e mortificado. A poeira da queda suspendia o ar com a tensão lívida do acidente.

Mas Armindo abriu então os olhos, e dá-se consciente, abre novamente os olhos, ofega Buga no seu colo, que pronto faz com a cauda em concordância, e estavam bem. A queda dos escombros tinha sido amparada pela dinâmica das traves do telhado que se entrechocaram e afunilaram à chegada do chão com Armindo deitado com Buga precisamente no intervalo das traves tombadas.

– Anjos na terra -rezou Armindo enquanto se esgueirou do emaranhado de pó, seguido pela cauda oscilante do cão até ao relento do quintal sem tectos. As estrelas sossegam novamente, dono e cão deitam-se e descansam as pálpebras na relva acizentada.

Autor:João Medeiros

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