Desejos da Alcova (conto romantico)

Doutor, há tempos és meu terapeuta e sabes que não há na cidade quem levante suspeita sobre minha fidelidade, honestidade e retidão de caráter. Há doze anos sou casado com Amélia e por ela tenho vivido deste então. A consulta de hoje é para que eu lhe conte o que vivi nestes doze anos e, principalmente, nos últimos meses e dias. Não posso me furtar o direito de confessar que a monotonia do enlace me vinha perturbando. Amélia sempre foi mulher recatada e este foi um dos encantos que me fizeram cortejá-la. Doze anos após, tanto recato me vinha esfriando e indignando, afinal, sou seu esposo, dono do seu corpo sem poder usufruí-lo por completo. Sua decência a impedia de me deixar explorar as fantasias e os desejos que sempre senti em relação à sua boca e “cul”. Demasiadamente pudica, inovações eram tidas como um atentado à sua moral e religiosidade.

Sou advogado e há três meses tenho despachado em meu novo escritório, na Rua de cima. A clientela tem aumentado, o que me fez contratar uma secretária para auxiliar-me.

Dona Patrícia é mulher vistosa, de longas penas e fartos lábios. Não que eu a tenha reparado sistematicamente, mas suas qualidades se fazem perceber sem que se queira. Eficiente em seu trabalho e na arte de embaralhar minha mente, tem um cruzar de pernas que me provoca sudorese. Ora, sua mesa fica de frente para a minha e não há como não notar. Mesmo trabalhando tão próximos, Dona Patrícia faz questão de manter as formalidades e a distância profissional. No entanto e por tanto, quando deseja dirigir-se a mim, o faz pelo ramal telefônico. Um castigo e tortura, visto que sua voz faz-me transportar a outras situações, remetendo minha imaginação a coisas, das quais, desejo fugir.

Não sei se tenho enlouquecido, mas vejo no olhar de Dona Patrícia uma ponta de saliência que me obriga a fazer o sinal da cruz umas dez vezes por dia.

Mas devo confessar que na segunda feira recebi um telefonema, quando o relógio marcava doze e trinta da tarde. Dona Patrícia havia saído para o almoço, quando uma voz igualmente excitante chamou pelo meu nome ao telefone. Disse admirar-me e não mais ser capaz de conter seu desejo. Identificou-se como Amanda, mas não fiquei seguro de que esta fosse mesmo sua identidade. Enquanto ouvia seus devaneios, sua voz materializava-se, diante de mim, no corpo de Dona Patrícia. Eu estava certo de que era ela. Tinha tomado coragem, se libertado das insinuações e partido para ação efetiva. Queria encontrar-me no final daquela tarde. Hesitei e fiz valer minha reputação de homem correto.

Quando voltou do almoço, Dona Patrícia não fez qualquer alusão ao telefonema, mas seus olhares ainda me diziam muito. Certeza absoluta, não pude ter. Mas em mim não tinha dúvidas de que ela era a dona da voz ao telefone!

Ontem, no mesmo horário, a cena se repetiu. A voz ligou e me fez anotar o endereço do hotel Paradis de L’amour, devendo estar lá meia hora após o expediente. Não me permitiu negar o convite. Desligou antes que eu o pudesse fazer. A curiosidade e excitação apoderou-se do meu corpo e mente. Quis ir, quis não ir, decidi que fosse !

Entrei de maneira que não pudesse ser percebido por ninguém e fui direto à suite que a voz me havia indicado. A porta estava entreaberta e o quarto na penumbra. Apenas uma luz suave vinha do banheiro, como que para me indicar a direção da cama. Lá estava ela. A voz materializada em corpo de mulher, deitada seminua em uma cama de finos lençóis. Mas pasme, seu rosto não se fazia conhecer. Estava envolto na penumbra do quarto e revelava apenas os lábios voluptuosos e vermelhos. De sua boca não saiu voz. Apenas sua mãos sinalizaram o que deveria ser feito. Chamou-me à alcova, desnudou-me e acariciou-me com mãos que me traziam novidade, mas que me provocava a sensação de que as conhecia. Não me apeguei a estes detalhes e minha retidão foi sufocada pelo imenso desejo que sentia naquele momento. Ela me fez experimentar tudo aquilo que sempre desejei fazer com Amélia. Todos os beijos, posições e novidades possíveis de se testar em duas horas de prazer e exploração de sentidos.

Terminado o tempo no paraíso carnal, fui convidado com gestuais a retirar-me quarto. Assim o fiz. Estava atrasado para uma reunião no Conselho. Mais tarde, ao chegar em casa, não tinha olhos para dirigir à Amélia. Tão dedicada, amorosa, fiel…fui dormir, após beijar a sua fronte.

No outro dia, não tinha olhos para dirigir à Dona Patrícia. Mas ela parecia insinuar ter adorado a tarde do dia anterior. No entanto, passamos o dia assim, como se não conhecêssemos aquele quarto de hotel.

 Uma vez mais chego em casa, e lá está Amélia. Não tendo palavras para dirigi-la, ela mesma tratou de fazer. Qual foi a minha surpresa quando ela perguntou-me:

– Rodolfo, minha desenvoltura naquele quarto de hotel fez o meu marido emudecer?

Era ela, doutor! Era ela!

AutorMarcos Sodré

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