Epitáfio (conto romantico)

A tarde é vermelha, pinta os campos e o lago de dourado e aquece o seu rosto que eu encontro a espreitar o meu. Tenho um espelho nas mãos. Encaro-me nele, investigo as rugas que já se insinuam. Mas não você; tudo o que vê em mim é jovem e fresco. Detrás de mim, sussurra-me ao ouvido:

– Você é tão bela.

Belo é ter seus braços sobre meus ombros, agasalho humano, e seus dedos nos meus cabelos, o melhor dos pentes. Tudo é perfeito em nós.

– Não mude nunca.

E você se ergue no espreguiçar sossegado de quem sabe apenas gozar a vida. Mas eu tenho um espelho nas mãos. E nele o que vejo é a marcha invencível das décadas nublar de súbito tudo o que sou. Tudo o que você ama.

Serei velha um dia, amor. Quem há de querer uma velha?

Creio que o assusto quando atiro o espelho no lago. Sorrio e você pensa que é piada – o disfarce do meu desespero.

– Não mudarei, meu querido – e o que digo é uma jura.

Escurece, o campo é perigoso à noite, você tem também a sensação de que somos vigiados? São apenas as sombras das árvores. Recolhemos a toalha e a louça. Ainda sinto o gosto da torta de amoras no seu último beijo à minha porta. Mais um chá sob a macieira domingo que vem? Até domingo, então; você pode esperar, mas eu não.

Eu serei velha.

No espelho do meu quarto, já sou. O preto dos cabelos desbota para o branco, a pele escorre cinza sobre os ossos e os olhos brilham ainda, mas no fundo de duas covas cavadas no meu rosto pela mão do tempo. O tempo maldito.

Cubro o espelho com um lençol. Não quero um cadáver a me encarar a noite toda. Fito minhas mãos: ainda são as de uma moça. Suspiro, por ora livre do meu pesadelo desperto. Mas não durmo, pensando no amor, que é caro, no medo, que é grande, e na decadência, que é certa.

Entretanto, é manhã, e eu me levanto sem ter sonhado. Passar o dia a bordar e coser ou respirar na praça; não, quero estar de pijama, acorrentada à escrivaninha, papel e tinta diante de mim numa sentença que cumpro em versos. Amanhã, levá-los ao editor. No jornal sempre há espaço para a minha poesia.

Sento-me. Sirvo-me de chá verde. Papéis novos sobre a mesa. Uma carta. Do meu amor? Não há remetente, endereço ou mesmo perfume. Abrindo-a, desdobro uma nota escrita por mão pesada, inábil, agressiva:

Deseja ser jovem para sempre?

Eu concedo esse desejo.

Hoje, na esquina da Rua do Poço com a do Alfaiate, à meia-noite.

Venha só. Não terá outra oportunidade.

Não assina.

Meu coração quer me arrebentar o peito, bate furioso, tremem-me as pernas como as de uma debutante apaixonada. Apaixonada pelo quê? Uma possibilidade, um sonho… uma mentira?

Mando vir mais chá. Que seja egípcio: karkadeh me distrai por ser vermelho como sangue. Não quero almoço. Passo o dia a mordiscar biscoitos. Mais alguns versos e estarei curada.

Deseja ser jovem para sempre?

Mas nada sai da minha pena. Suponho espetá-la no braço e daí fazer brotar boas quadras, honestas e intensas, mas tenho medo da cicatriz. Quem sabe uma anedota hoje em lugar de um soneto.

Eu concedo esse desejo.

Logo estou bebendo aguardente da garrafa que mora debaixo da cama. Esqueço depressa o copo, beijo o gargalo, amante de vidro. A carta não tem nome, mas tem olhos, espia-me de lado, afronta-me…

Hoje, na esquina da Rua do Poço com a do Alfaiate, à meia-noite.

Apanho-a, envelope e tudo, amasso-a no punho fechado, atiro-a longe. Mas ela ainda existe dentro do meu escritório, num canto de parede, num canto de memória:

Venha só. Não terá outra oportunidade.

Chega a noite e eu tomei minha decisão. Lavo as olheiras, tenho um vestido discreto, o cinza não chama atenção à noite. Um xale nos ombros.

Levo meia hora a pé até a Rua do Poço. Conheço tão mal a cidade. O frio, a escuridão, o silêncio, tudo sacode meu corpo em calafrios progressivos. Este é um lugar solitário, cama dos desvalidos, parque dos delinqüentes. Estou só e é tarde. Sou louca por ter vindo. Sou louca, não resta dúvida; mereço ao menos recompensa pelo meu atrevimento.

Por isso, avanço para a esquina onde já me espera o remetente.

A dois metros dele eu me detenho. O homem é calvo, nem tão velho para o ser pela idade, a cabeça enterrada no corpo muito magro – demais, talvez, para pensar em me fazer mal. Parece tão frágil nas pernas longas e finas, nas costas arqueadas. Sinto pena do seu corpo. Mas tenho medo da sua face – não consigo vê-la assim tão longe do poste mais próximo.

– Eu vim – digo-lhe. – Por isso, fale: o que pode me oferecer?

Agora é ele quem se adianta, o lampião de gás revela no seu rosto uma testa fechada, um nariz de abutre e uns olhos sem cor, duros como a vida. A boca é um rasgo cruel na face cor de cera, que se abre para responder:

– Tudo.

Ele é tão… feio. Sinto pena e algum nojo; recuo e não desisto.

– E qual é o seu preço?

Agora ele apenas me sorri. Meu coração quer fugir pela boca. Seu sorriso é horrível como só a morte. Seus dentes são amarelos, terminam em punhais, punhais em toda a sua boca, dentes em ponta como os de um cão, de uma serpente, de um tubarão, ou todos juntos. E todos juntos avançam para mim.

Eu…

Eu tenho um sonho, amor, no qual você é triste. O dia é nublado, como poderia ser de sol? Eu me deito numa cama de cetim. Estou no meu vestido azul, aquele que eu deveria usar nas missas. Chovem rosas sobre o meu corpo, lentas como as horas de espera por você. Não nos veríamos só no domingo?

Você me atira uma flor. Tudo é tão devagar. O tempo já não passa em meu leito macio. Venha deitar-se comigo… Mas você se vira, dá-me as costas, caminha para longe. E tudo se torna chuva.

Meus olhos se abrem vagarosos. Silêncio. Escuridão. Meus dedos tateiam paredes muito estreitas.

Entendo…

Meu caixão é forrado de cetim.

Autor:Camila Fernandes

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