Escolhas (conto de ficção)

O radio relógio marca 03:30. Ouço a esposa ressonando ao meu lado. Que bom! Pelo menos ela está conseguindo relaxar. A inconsciência do sono me é negada. Os pensamentos fervilhando na mente não me permitem dormir. São tantos os problemas financeiros… O pior é que amanhã será mais um dia difícil. Preciso decidir o que fazer da empresa e não me sinto capaz de qualquer escolha. Todas parecem péssimas.

Levanto silenciosamente. Quem sabe um pouco de água para aplacar esse inferno. Noto que a luz da cozinha foi esquecida acesa. Ainda mais isto para aumentar a conta. O estranho é que a luz está muito azulada. Vai ver está dando curto. Estou ferrado mesmo. Empurro a porta e quase caio de costas. Tem um cara dentro da minha cozinha olhando para mim. Mas, que sensação mais esquisita. O cara sou eu mesmo. Mas diferente. Quer dizer…

-Olá! Não se assuste! Está tudo bem!

– É fácil falar! respondo. Olhando desconfiado para um outro eu que tenta me acalmar.

Que sensação maluca. Sei que aquele sujeito na minha frente sou eu mesmo, apesar de ter algumas características diferentes. Está bem elegante, nada de barriga, mas o cabelo… Nunca me imaginei usando um cabelo tão ridículo. Além de tê-lo tingido ainda está usando um litro de gel.

– Acalme-se que eu explico tudo. Sorriu meu outro eu.

-Lembra de quando queria descobrir como viajar no tempo? Que prometeu voltar para dizer a si mesmo quando conseguisse?

– Quer dizer que eu consegui? Eu sou você no futuro?

– Sim e não para as duas perguntas!

– Que raio de resposta é essa?

– Explico :Sim eu sou você, pelo menos de certa forma, mas não sou você no futuro. E não descobrimos a viagem no tempo. Isto é uma viagem entre possibilidades existenciais.

– Que? Que diabo é isso?

– Vou tentar falar em linguagem simples afinal você não é físico.

– Quase fui!

– Sim, mas decidiu não ser, e é aí que entra o que eu quero te explicar. Eu continuei na física e na tentativa de descobrir a possibilidade da viagem no tempo acabei descobrindo outra coisa.

– O que?

– Descobri que cada decisão que tomamos em nossas vidas é como se criasse uma “esquina”, que dobramos ou seguimos em frente, conforme a nossa escolha. Isso gera a possibilidade de dois mundos distintos, um onde fomos em frente e outro onde escolhemos virar para uma outra direção.

– Quer dizer que quando escolhemos dividimos o nosso universo em dois? Criando duas possibilidades?

– Você entendeu rápido! Devia ter feito física! Exatamente! E a cada decisão isso se multiplica. Vivemos num universo existencial que é resultado de nossas escolhas e decisões, que faz parte de um multiverso que se estende ao infinito. Eu sou o eu que continuou na física você o eu que desistiu.

– Devo estar sonhando!

– Quer outro exemplo? Lembra que pensamos em nos tornarmos padre quando éramos adolescentes?

– Eu decidi ser? Virei padre?

– Bem, você não, um outro você, um outro nós, decidiu. Hoje é papa no universo existencial dele?

– Papa?

– É! O primeiro papa de origem americana!

– Que loucura!

– Cada decisão tomada por um de nós, cria mais um de nós.

– E qual o limite?

– Sem limites!

– Se as coisas são do modo como diz, falta me explicar por que você veio?

– Bem, você não está muito feliz com as decisões que andou tomando, certo?!

– Não, mesmo!

– Pois é! Outra coisa que descobri nas minhas pesquisas é que apesar de nos dividirmos ao infinito entre os universos existenciais ainda assim continuamos ligados uns aos outros.

– Como é? Ligados?

– Sim, e nossas decisões e estados existenciais continuam tendo influência em todos os nossos eus. Por exemplo: Já sentiu vontade de se matar alguma vez?

– Não! Credo!

– Mas a idéia já te passou pela cabeça, não?

– Bem, já algumas vezes, mas afastei como uma tremenda besteira.

– Pois é, alguns de nós, não mudaram de idéia!

– Quer dizer que…

… alguns de nós se mataram!

– Deus do céu!

– A coisa se estende ao infinito, lembre-se. Todas as possibilidades existenciais estão disponíveis, basta que decidamos.

– Mas, porque você veio? Eu não vou me matar! Estou cheio de dívidas, mas não faço isso nunca!

– Não, é provável que não. Neste universo existencial nossas opções geraram valores que diminuem as chances de cometermos tal ato.

– Então, por que?

-Como eu estava dizendo, nossos estados existenciais continuam reverberando nos demais Eus e isso cria uma certa instabilidade em todos. Além de ter descoberto a existência e funcionamento destes universos existenciais pude construir equipamentos que nos permitem fazer a viagem entre estes universos como estou fazendo agora. Enquanto estivermos dentro deste campo de não-existência tudo estará bem.

– Esta luz azulada? E se sairmos?

– Bem, você simplesmente vai voltar a sua vidinha normal. Em poucos minutos acabará esquecendo tudo o que conversamos aqui. Quanto a mim, se sair, deixando você aqui vou em poucos minutos assumir a sua existência. Vou esquecer tudo o que se passou comigo e passar a lembrar tudo o que se passou com você. Torno-me você.

– E se sairmos os dois?

– Essa seria a pior das opções. Pense bem. Você poderia, ao mesmo tempo, ter feito uma escolha e não tê-la feito? Virar à direita e ao mesmo tempo à esquerda numa encruzilhada?

– Não, claro que não, isso é uma impossibilidade lógica, isso não existe!

– Exatamente! Duas opções opostas se anulam. Deixaríamos de existir. Nossos universos existenciais se anulariam.

-Credo!

– Mas, voltando ao que eu dizia. Construí equipamentos como este meu bracelete, que permitem a criação de um campo de não-existência. É baseado numa lógica não formal. Aqui dentro é possível alem de verdadeiro e falso, um talvez…Dentro deste campo podemos coexistir como um talvez, ou com um quem sabe…

– Que coisa de doido!

– Alguns de nós ficaram mesmo!

– Você está me deixando assustado!

– Não precisa ficar. Aqui você é filosofo, não físico, mas não somos tão diferentes assim. Você é tão pirado quanto eu, quantas pessoas conhece que já te disseram isso por gostar de filosofia? Tenho certeza que empata comigo com a física.

– E verdade!

– Mas, voltamos a divagar. É difícil conversar com você, hein?

– Deve ser por causa da filosofia!

– Bem, retomando. Com essas minhas invenções foi possível criar equipamentos para explorarmos Terras alternativas onde o homem nunca se desenvolveu, isto resolveu muitos problemas energéticos e alimentares do meu universo existencial. Ganhei muito dinheiro com as patentes de minhas invenções. Sou um dos homens mais ricos de lá.

– Caramba! Isso abre muitas possibilidades!

– Realmente. E uma das que fazem maior sucesso é a troca de existências.

– Como é que é?

– Isso mesmo, troca de existências. Se um sujeito não está satisfeito com as opções que fez, pode trocar com outro que também não esteja e isso tem um reflexo positivo em todos os Eus existenciais dele. Aquela instabilidade de que eu falava diminui. Deste modo estamos tentando minimizar os problemas gerados pelas insatisfações e suicídios.

– Bela idéia! Assim ficam todos felizes e o todo fica mais feliz ainda, certo?

– Pegou a idéia!

– Tá, mas e o que eu tenho com isso?

– Ora, você não estava agora mesmo se remoendo na cama com os problemas que estão te impedindo de viver feliz? Com as decisões que terá que tomar? Então? Estava gerando o maior ruído nos equipamentos. Mais do que você só o Eu Papa, que parece estar em crise de fé, logo agora que assumiu.

– Eu não pensei que estava prejudicando a nós… quer dizer mim… sei lá , você entendeu.

– Calma, não precisa se desculpar! Eu vim para ver se você quer fazer uma troca.

– Troca? Trocar o que?

– Trocar de lugar comigo!

– Com você? Mas você é o cara que descobriu tudo isso. O cara que ficou rico com tudo. E quer trocar comigo que estou na maior pindaíba? Você é um dos meus Eus malucos?

– Não, apenas não estou satisfeito com algumas das minhas escolhas, também, e gostaria de mudá-las.

– Mas porque não escolheu outro?

– Porque as possibilidades não são muitas para a troca que almejo. Você fez algumas escolhas que eu não fiz e que gostaria de ter feito.

– Que escolhas? Não continuar com a física?

– Essa, também, mas foi só uma conseqüência. Antes você fez uma escolha mais importante.

– Qual?

– Ir ao baile!

– Que baile? Acho que viajar entre existências está te deixando maluco!

– O baile em que conheceu sua mulher!

– Ah! Esse baile. Você não foi?

– Não! E por isso não me casei. E por causa disso não parei de estudar física, pois não tinha mais nada a que me dedicar.

– Quer dizer que você ficou solteiro e sem…

– … filhos! Isso mesmo!

– E com isso descobriu tudo o que descobriu e ficou milionário.

-Exato! Por essa razão quero tocar com você! Eu tenho o dinheiro que você deseja, já que está falido e você tem o que eu mais desejo…

– Que é?

– Uma família!

– ….

– Acho que para você fica difícil entender. Você tem uma. Você tem esposa e filha. Pode estar passando por problemas financeiros, mas não está só.

– Quer dizer que apesar de tudo o que conseguiu, preferia não ter feito aquela escolha? Preferia ter ido ao baile, namorado, casado, tido filhos, e por aí a fora? Mesmo ficando falido?

– Sem dúvida!

– Mas devem existir outros Eus por aí que também se casaram, por que não os escolhe?

– Não estão tão insatisfeitos com a vida que levam. Meus instrumentos registraram apenas quatro de nós com um alto índice de insatisfação: Eu, você, o Papa e mais um de nós que fez muitas escolhas erradas e está preso aguardando execução.

– E pelo que parece você não quer nem ser Papa nem candidato a defunto, certo?

– Certo! E além disso o Papa não se casou. Só sobra o outro para os meus objetivos.

– Legal, mas quem disse que eu quero trocar de lugar com você?

– E uma possibilidade! Se você aceitar eu lhe passo meu bracelete e saio da cozinha. Basta você apertar este botão e voltará ao meu universo existencial e em poucos minutos tudo terá acabado. Fácil!

– Entendi! Eu fico com a grana e uma vida de tranqüilidade financeira, seu cabelinho pintado e empastado de gel, e você vai para a minha cama e assume minha família e as minhas dívidas?

– Muito obrigado, mas não!

– Não?

– Não! Não quero fazer troca nenhuma!

– Mas…

– Sem mas. Tem coisas que dinheiro nenhum compra. E a sua vinda aqui é uma prova disso. Prefiro lutar com minhas dívidas a abrir mão do meu maior tesouro. Acho melhor você procurar algum outro.

– Teria que esperar um outro de nós que tenha feito a mesma opção ficar com um nível de insatisfação maior. Ou então pegar o nosso Eu criminoso. Tem certeza que não quer trocar?

– Tenho!

– Está bem! Eu posso compreender. Afinal você já havia feito a escolha antes, não é mesmo? Dificilmente mudaria. Creio que vou tentar o prisioneiro. Ele deve ter motivos fortes para desejar a troca.

– Mas e se você for condenado? Vai jogar tudo fora?

– Acho que você ainda não pegou toda a idéia. Assim que eu trocar com ele, as nossas existências serão permutadas. Para todos os efeitos eu terei vivido tudo o que ele viveu. Eu terei uma família, mesmo que seja como uma lembrança de dias melhores. Mesmo que eu esteja no corredor da morte terei toda uma existência, com a qual sempre sonhei, para me sustentar.

– Te desejo boa sorte!

– Obrigado e continue fazendo boas escolhas!

A luz azulada se foi e estou em pé e sozinho na cozinha escura.

Volto para o quarto, mas antes paro no corredor e dou uma olhada no quarto de minha filha adormecida. Uma sensação de bem estar me invade a alma.

Aconchego-me à esposa adormecida e dou-lhe um beijo.

– Que houve? Não consegue dormir? me pergunta sonolenta.

– Nada, parece que eu queria te contar alguma coisa, mas… não consigo lembrar o que é!

– É melhor você dormir, pela manhã vai ter que tomar uma decisão muito importante.

– Engraçado, não sei porque, mas acho que já tomei. Acho que já tomei!

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