Fabulas Mortas (conto de ficção)

Conheça O Resumo dos Relatórios do Experimento ‘Fábulas Mortas’:

Olá, senhores. Meu nome é Akheofis Tutthokh. Sou um Ekimmu – um ser da noite. Um vampiro. Eu fui criado por Alazzos, meu mestre e senhor, o qual me incubiu de receber e ser o anfitrião de seus convidados em nosso mundo, o qual chamamos carinhosamente de Terra. Eles foram conjurados pelos poderes de meu mestre de seu mundo, chamado Arcádia. Esta conjuração foi feita unicamente para fins de estudo do comportamento destas raças em nosso Plano, em vista que Alazzos já reconheceu, em seus 352 anos sobre o mundo, duas dessas criaturas e uma delas – cuja qual despertou o interesse deste por esse estudo – estava “vampirizada”. Desde então, Alazzos começou á procurar rituais para conjurar tais seres, até que conseguiu o ritual correto.

O ritual foi um sucesso, como o previsto. As criaturas conjuradas vieram em número de três: um ser humanóide, de pele branca, esguio, de orelhas pontudas, que poderia ser categorizado – e será feito de agora em diante nesse estudo – como um “elfo”; o segundo era a antítese do primeiro, um ser baixo, feio, de pele verde, orelhas pontiagudas, olhos rubros, dentes afiados e rosto rude, o qual categorizamos como um “goblin”; e o terceiro era um ser bastante diminuto, de 26cm, humanóide, de traços raciais semelhantes àos do elfo, mas com um par de antenas esverdeadas, como as de um inseto, e seis pares de asas insetóides. Nós categorizamos a última criatura como um “pixie”. Inicialmente, o contato com essas criaturas foi estranho, mas não demais; Alazzos conhecia um pouco do mundo e da natureza desses seres. Eles estavam assustados (o goblin estava especialmente irritadiço), mas meu mestre pôde comunicar-se com eles utilizando-se de meios mágicos. Demoramos dois meses para aprender a “língua feérica”.

É interessante como passamos, com os anos, a descobrir fatos interessantes sobre essas criaturas. Por exemplo, elas eram especialmente ingênuas sobre as nuances do mundo: todos acreditaram piamente em meu mestre quando este disse que a conjuração deles foi um acidente mágico. Normalmente, ele alegou também que não conhecia meios para que estes retornassem, mas “deu sua palavra” que iria pesquisar para tal, e seria prudente que eles se mantivessem por perto – e assim meu mestre ganhou seus experimentos interdimensionais. Outro fato interessante sobre eles é que, com o passar dos anos, descobrimos que essas criaturas possuem uma longevidade não-natural.

2067. Dois anos se passaram com os experimentos por perto. O elfo, antes sempre feliz e irreverente, adquiriu um certo… silêncio. Já notei ele passar horas sozinho. Também tornou-se solitário (inicialmente ele desejou conhecer nosso mundo, mas depois de seis viajens pelo ‘mundo exterior’, ele decidiu que não queria mais conhecer nada). Acredito que ele percebeu que estamos enganando-o, e nunca os levaremos de volta para seu lar. Ele, porém, nunca disse uma palavra sobre o assunto – seu olhar, porém, falava por si. O goblin foi um tanto diferente: ele não só gostou de conhecer nosso mundo, como se ambientou bastante facilmente, e aprimorou suas técnicas de disfarce, fingindo ser anão, ou ter alguma deformidade física em momentos muito inoportunos. O pixie parece ser o que menos se encaixa por seu tamanho, e vive a maior parte do tempo observando as pessoas. tentei algumas sessões psiquiátricas com ele, mas ele recusa-se á falar dos problemas que lhe afligem. Um acidente infeliz também ocorreu: o elfo foi estuprado. Ocorreu um incidente de comunicação entre o elfo e um cyberpunk em sua primeira saída sozinho pela cidade, e este foi atacado por um gigolô, cujo qual acreditava que o elfo estava vendendo-se para o cyberpunk na área de atuação e controle da prostituição deste. O gigolô o estuprou e o espancou. Passamos meses tratando sua psiquê. O evento serviu para modificar ainda mais a psiquê da criatura.

2077. Dez anos se passaram. Eu mesmo continuo aqui, em meus próprios estudos, e continuando a experiência de meu mestre Alazzos. Continuamente, como sempre fiz, envio relatórios para este em sua mansão na Inglaterra. O elfo adquiriu certos costumes noturnos, e passou á misturar-se àos humanos jovens. Parece que o excesso de alegria destes alimenta o espírito da criatura feérica, deixando-o mais próximo de seu lar. O goblin regrediu; antigamente, esperto e alegre (embora um tanto sanguinolento e sádico), agora passou à exibir alguns graus de tristeza. Eu tento remediar isso medicando-lhe com antidepressivos. O pixie continua o mesmo, embora tenha tornado-se mais violento. Recentemente ele perdeu o braço após ter sido atacado por um gato de rua.

2127. Cinqüenta anos se passaram. Continuo os estudos de meu mestre, enviando relatórios sagradamente. Eu mesmo comecei meus próprios estudos. A raça feérica parece impressionante e o trabalho para vidas inteiras. Não parece haver fim para a infinidade de conhecimentos que pode-se extrair desses seres. Encontrei muitos tomos falando sobre eles, mas meu – digo, nosso – estudo parece único em todas as eras. Encontrei também informações sobre os vampiros chamados de “Arcádios”, que são exatamente humanos que foram vampirizados por criaturas ou outros vampiros que possuem o vampirismo e o sangue feérico em um mesmo corpo, e passam essa “mistura” adiante, causando alterações no corpo do humano vampirizado por último, além das mudanças para seu status de morto vivo. Essa condição deu à parecer que os seres de Arcádia conseguem suportar bem melhor o peso da “vida” na Terra – a situação de morto-vivo parece influenciar na mente do ser feérico, e parece eliminar – ou diminuir bastante – a necessidade de um “mundo mágico”. O elfo passou à demonstrar sinais paranóides e compulsivos, como lavar as mãos e trancar a porta de seu aposento, mantendo-se lá por horas à fio. Passou também à consumir cocaína, crack e LSD com freqüência. Acredito que ele já matou e roubou também (a primeira vez, creio que foi quando este chorou por uma noite inteira). O goblin sumiu há 5 anos atrás, e o encontrei dois meses depois num esgoto. Aparentemente ele passou à morar com mendigos (creio que imitando os costumes de seu povo em sua terra natal), e dormir nos esgotos. Seu corpo apresentou sinais avançados de varíola. O pixie morreu de depressão (os medicamentos não foram suficientes).

2132. Creio que após cinqüenta e cinco anos de estudos, esse experimento está concluído. O elfo (cujo qual não direi, nem disse, seu nome em todos os anos de testes, pois prefiro mantê-lo aqui como uma cobaia e objeto de experimentação) fugiu. Ele deixou uma longa carta despedindo-se de mim. Um tanto melodramática… mas isso parece ser natural de sua raça. Ela diz que ele partiu em busca de uma saída de nosso mundo e um retorno para o seu. Algo me diz que ele nunca encontrará…

Dito isso em minhas últimas palavras sobre os meus relatórios, faço oficial o término de minha vigília e a conclusão de que os seres do Plano de Arcádia não conseguem sobreviver em nosso mundo por muito tempo, pois aqui não é o lugar para seres de tamanho espírito, ingenuidade e magia. O mundo consumirá suas mentes e definhará seus espíritos até que eles morram.

Akheofis Tutthokh, Ekimmu

Cria de Alazzos

Cria de Efeu

Cria de Enkil

Cria de Akasha

Autor:H.P.Almeida

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