Fênix (fantasia)

Esfrega os olhos. O ar parado, sufoca. Em volta, o caos. Cinzeiros virados, cinzas espalhadas, carteiras vazias de cigarro, copos de café caídos, folhas de papel amassadas jogadas à esmo.

Há quanto tempo está ali? Dois dias? Dez? Já não sabe mais. Nem importa. Deixou de fazer diferença desde… não lembra.

Sobre a mesa o jornal aberto na página de eventos anuncia “Jovem artista em Premiére de Autógrafos”. Quando isto? Já foi? Olha a data, confere com o calendário do micro. A notícia é de nove dias atrás. Nove! Há nove dias está ali. A noite é hoje. Noite? Que horas são?

Ergue-se. Trôpega, caminha até a cozinha. Percebe agora que a dieta de água, café e maçãs não é muito saudável. Está enjoada. Abre a torneira da pia, mergulha a cabeça sob o jato de água. Precisa manter-se sóbria.

Não bebe, mas os remédios a oprimem, deprimem. Está de ressaca psicológica. Náusea.

Atordoada, consegue atravessar o caos em que está mergulhada a sala e segue pelo corredor até o banheiro. Aos poucos, a lembrança do que houve, retorna. E distante, porém nítida, a voz dele soa em sua mente:

– Todos me adoram!

– É? E onde eles estavam antes?

-Eu não era ninguém!

– E hoje? Você é quem?

– Você é possessiva! Não gosto de gente assim!

E nos ecos dessa triste lembrança, a porta bateu com força deixando-a para trás com a raiva e a decepção. Sabia que aquele era o definitivo adeus. O que nunca foi dado mas sempre pressentido.

Ecos. Sacode a cabeça para espantar os pensamentos, as lembranças. Com o movimento, a vertigem. Apoiando-se à pia, vê seu reflexo no espelho. Os olhos que a fitam estão marcados pela mágoa, inchados pelo choro. O rosto vincado pelas noites insones denuncia o cansaço de toda uma vida. Abre o armário, pega a tesoura. Aos poucos, o longo cabelo cai aos tufos dentro da pia, forrando-a de cachos castanhos e dourados…

Abre a ducha. Sem experimentar a temperatura como sempre faz, entra sob a água e se deixa ficar. Para que o banho frio expulse do corpo todos os seus demônios, todo o resto de mágoa que ainda tiver por dentro.

Sem se enxugar, vai para o quarto deixando atrás de si um rastro de água e indiferença. Veste o jeans, coloca a camiseta. Está magra, a inevitável dieta fez com que perdesse mais peso e a cintura da calça denuncia a fragilidade do seu corpo.

Calça as botas e busca na bolsa as chaves da moto. Apesar do ar sufocante dentro de casa, faz frio lá fora. Veste a jaqueta e sai.

Na estrada, debruçada sobre a moto, vê os últimos meses passarem com a velocidade do vento que agora aposta corrida com ela. E de novo, o som distante daquela voz:

-Tenho medo, sei que não vou conseguir

– Vai sim, você consegue! Eu acredito em você!

– E se os outros…

– Esqueça os outros! Faça por você!

Foram dias, noites, madrugadas de longas conversas, intensas discussões, deliciosas descobertas… E quando o mundo dava voltas em parafuso deixando-o confuso, era no seu colo que ele buscava refúgio. E como mãe carinhosa que ouve do filho todos os seus temores, assim ela o ouvia e amparava.

Fácil gostar dele. Ela quase se encantou. Ele sabia, sentia, conhecia o efeito que causava, mas a mantinha próxima apenas o bastante para algum socorro. Ciente disso, ela observava. Sabia o que estava por vir. A experiência a prevenia contra as armadilhas da vida. De pessoas como ele.

Mesmo assim, quantas vezes esquecida de si própria, de sua vida tão cheia de inadiáveis questões, esteve ela à disposição de seus caprichos! Vezes tantas apenas como etérea presença, pois que ele chegava, mal a percebia, e logo se ocupava de outros afazeres ou outras conversas, deixando-a totalmente alheia a tudo.

Ele dissera um dia “sempre que puder… esteja por perto”. E ela estava.

Já percebera que sua presença era apenas uma âncora para que ele se sentisse seguro. Poderia ser qualquer outra pessoa, não faria diferença para ele, desde que estivesse ali, disponível, para quando precisasse.

Naquele dia, à porta da sala, esperava que ele a atendesse. Novidade, porta fechada. Sempre estivera aberta para ela e agora, é preciso que se anuncie. De dentro, por trás da porta trancada, o imperativo da voz denuncia irritação “Espera! Estou ocupado!”

A surpresa a mantém parada no mesmo lugar, olhos fixos na porta. De repente lembra do vira-latas que ronda a lixeira do prédio. À cata de restos, resigna-se a olhar de orelhas baixas cada um dos que chegam para depositar o lixo. E fica ali à espera de alguma migalha. Ou de um afago.

Como ela. À espera de uma resposta.

Um minuto. Dois. Três, que lhe pareceram horas. No virar-se para partir, a porta entreabre:

– Hey, o que foi agora?

– Como…

– Você é impaciente! Não percebe que estou ocupado?

– Sim, eu sei mas…

– Você é ciumenta, não admite que eu fale com mais ninguém!

– Eu?? Mas eu não…

Pelo desvão, ouve a música. A mulher lá dentro espia com um meio-sorriso nos lábios, como um desdém. Não. Impossível definir a expressão. Está enganada, elas não se conhecem.

– Estou conversando com MINHA amiga, o que você quer?

– Eu?…

Já não sabia. Queria alguma coisa? Não lembrava mais. O “minha amiga” soou como um sinal. O sinal do navio que parte. Era o seu sinal.

As coisas em volta começaram a desvanecer. Paredes, quadros, chão. Flutuando no vazio, atônita, tentando entender o que ele dizia, adivinhando o que significavam os movimentos de seus lábios que agora estavam em “slow-motion” como num terrível filme “noir”.

Pior que a indiferença, era a vergonha…

Acabou a estrada. Pelas avenidas, circula entre os carros com a perícia de esguia serpente.

Na mais movimentada das avenidas da cidade, o trânsito congestionado denuncia o local do evento. Em frente ao elegante clube, uma fauna de repórteres, fotógrafos e curiosos se amontoa para ver chegar as celebridades. Noite de gala. Holofotes, câmeras, carros de luxo. O sucesso do jovem artista é reconhecido internacionalmente.

Desce da moto. Com o capacete preso ao braço, caminha até a esquina. Misturada à multidão que se amontoa, observa os convidados chegarem. Honras de chefe de estado para o pretenso tradutor de almas.

A limusine estaciona com dificuldade. Os convidados já chegaram e aguardam pelo homenageado da noite. E ei-lo ali, a menos de 3 metros de distância dela. Em traje a rigor, com a desenvoltura de quem nunca viveu outra vida que não esta de luxo e glória, ele ajeita rapidamente a casaca e graciosamente reclina-se para dentro estendendo a mão.

Tomando-a, a mulher desce em seguida. Jovem, bela e sorridente. A amiga.

Empurrada pela multidão, ela esbarra no cordão de isolamento. E é aí que ele a nota. Por breves segundos seus olhares se cruzam. Tão rapidamente, que só ela percebe o tremor em seu sorriso e o olhar turvar-se na surpresa. Mas ele se tornou um mestre na arte de dissimular e logo se recompõe. O sorriso ressurge, ele e sua companheira sobem os degraus rumo ao clube de fãs que o espera.

Não sem antes ele responder a um repórter ” – Sim, ela é responsável por tudo, sem ela eu não estaria aqui!” apontando para a sorridente mulher que está a seu lado e fugindo do olhar surpreso que recai sobre si vindo da figura perdida em meio à multidão.

Silêncio.

Há muito a multidão dispersara, foram-se os holofotes e os carros de luxo. O som que vem dos salões denuncia uma longa noite pela frente. Os enormes degraus que dali se estendem, bailam estranha melodia que só ela percebe.

A garoa intensifica-se, já escorre pelo rosto como fina chuva de inverno. E na lenta percepção do que ainda está acontecendo à sua volta, sente delicada mãozinha a puxar-lhe pelo braço. Um menino, grandes olhos negros, pés em sapatos cujo antigo dono era bem menor, tiritando sob a garoa, pergunta baixinho “compra uma flô?”.

Ela inclina a cabeça aturdida, como se não tivesse entendido. E ele, percebendo a oportunidade, repete “compra uma flô?” e antes que ela possa responder, ele começa a cantarolar, com os olhinhos fixos nela e com os lábios trêmulos de fome e frio:

– “se eu puder falar de amor

– me deixa primeiro tocar o céu

– sentir do sol o seu calor

– e de tua boca o sabor de mel”

E continua naquela cantilena melodiosa e solitária, enquanto no rosto da Mestra, a última lágrima morre num sorriso.

Autor: Flora

O que vê de longe, não escuta. Mas sabe, pelo abraço da mulher, que outro pobre diabo encontrou a Fênix.

Ela ressurge. Ele nasce.

Category: Contos:, Fantasias  Tags:
You can follow any responses to this entry through the RSS 2.0 feed. Both comments and pings are currently closed.

Comments are closed.

Copy Protected by Chetan's WP-Copyprotect.