Gotas na janela (conto romantico)

A chuva diminuíra. As gotas iam descendo devagar. Outras, mais velozes, em ritmo diferente. Ora fazendo caminhos compridos e retos, ora, tortos. Algumas vezes rápidos ao longo do comprimento. Havia aquelas que se juntavam a outras na caída.

Assim ia ela, agora, com um torpor no corpo e na mente, um tanto distraída, a observar o vidro da janela. Seguia os riscos delicados, em meio ao embaçamento que se criava pelo calor dentro do ônibus. Já passara o momento de mais desespero. Havia se preocupado muito. A chuva ia diminuir e a água da inundação ia descer. Três horas fazia que estavam parados. O ônibus não podia seguir por causa de alagamento no vale do Anhangabaú. Notícia dada por alguém, que passara e que, sem medo de enxurrada, zombava dos céus que despencavam em muita água. Dentro, muita gente sentada e em pé; todos no mesmo calor. Fora, a chuva já caíra sem dó.

Moça nova, quase menina, balconista de loja, com mais do que um balcão pela frente. Tinha também algumas especiais ilusões que uma vaidade indicava: unhas feitas, maquiagem leve no rosto, esfumaçada já, cabelo preso em rabo na nuca com graça, brinco e anel no dedo. A roupa que se quis bonita tentava esconder a vida que levava em bairro simples. Ia cansada, mas não muito. A juventude só mede o cansaço pelo físico. Ainda tinha toda uma vida para sonhar em sua imaginação.

Estamos todos numa situação nada engraçada, pensava. Ilhados e aprisionados no meio da cidade. Parece que há carros inundados. Inutilizados, sem dúvida. Estava enjoada do vidro da janela, que não se podia abrir. Tímida, evitava os olhos dos outros passageiros. Com semblantes de quem se enfastia do trabalho, canseira de sobrevivência. Trabalhar, tanta correria. O povo brasileiro é assim mesmo, acomodado. Ou sabe viver. Algumas pessoas pareciam conformadas.  Outras pessoas ainda tentavam conversar ou falar de alguma questão para a qual não se tinha resposta. Passando o tempo. Até começaram a trocar palavras, num diálogo marcado pela cumplicidade. Numa eventualidade, que se pode até chamar de tragicômica. Ruas e esquinas demais adivinhadas pelas pupilas, linguagem e gestos.

Então, virou-se mais atentamente em volta para perceber as pessoas. Com semblantes de quem se enfastia da vida, canseira de sobrevivência. Pó, rugas, esgarçado tecido na bermuda, na saia, na blusa. Desbotado nos olhos, nos cabelos e nos rostos. O mesmo cenário de sempre. Vida dura.

Foi então, que viu uma face. Quase num susto. Olhos acesos olhando para ela. Um moço moreno de meio sorriso nos lábios. E agora? Que fazer? Em sua direção, sem dúvida. Era comigo. De soslaio, percebeu de novo a pupila como um raio a lhe atingir. Como não vira antes? E se visse, que iria fazer? Claro que nada… Nem dava para fugir. E agora?

Baixou os olhos, envergonhada. Passou a mão por alguns fios de cabelos longos e crespos que ainda lhe caíam na face. Sabia que não era feia. Tinha um fã na loja. O gerente, casado, safado, queria sair com ela. Gostava de seus olhos castanhos.

Voltou-se para os caminhos da água delicada a cair pelo vidro. Não dava para, de novo, ficar presa naquele pedaço de janela. Uma aflição lhe invadia o peito. Começou a transpirar mais. A respiração ficou mais apressada.  Até que ele era bonito. Será que ele gosta de cinema? Seria tão bom ir com alguém ao cinema. Ver um filme romântico, daqueles que tem paisagem e beijo.  Olhou de novo. E lá estava ele, sem disfarçar. Tantas pessoas em volta e ele a me fixar desse jeito.

O ônibus começou a andar, enfim. Devagar, mas andou. Não muitos quarteirões depois, uma parada.  Muita gente desceu. Ainda chovia. Sufocava. Mas fora havia ar. Todos se movimentaram, com barulho, ao perceber a oportunidade de sair dali.

Estava paralisada. Ele também se encaminhou para a porta. E para sua surpresa, ao passar onde estava afundada, estendeu-lhe um pedaço de papel, dizendo: “Prazer em conhecê-la. Ligue-me”.

Tentou sorrir. Sem conseguir falar nada, percebeu, que, além de paralisada, também estava muda.

Olhou para os caminhos na janela. Gotas de água de chuva. Pequenas e cúmplices. Nem acreditava… Não, não acreditava que era verdade, apesar do pedaço de papel na mão.

Ainda menina, através de certa desesperança, sorriu. E sentiu assim misturada uma esperança que se acendera.

Olhou a janela e, em meio às gotas que ainda se equilibravam pelo vidro, desenhou um coraçãozinho líqüido, pequeno: Quem sabe?

Autor: Ana González

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