Loucura (fantasia)

Estava lá Luciana em sua casa, numa tarde de começo de inverno fria e chuvosa, assim como ela sentia se fria. Faltava alguns dias para completar um mês, isso mesmo, trinta dias onde sua vida parecia não ter mais alegria nem calor, como aquelas tardes ensolaradas de verão; dias em que passava em frente a tela do seu monitor tentando, chorando, olhando e esperando. Sem nenhum brilho no olhar, sombrios, vazios.

E, rememorando cada segundo de tudo o que havia vivido, como havia chegado até este ponto. Afinal, era uma mulher de bom senso, madura, mãe de família. Como perdera o controle da situação deste forma ? Como se entregara a esta experiência no mínimo louca. Simples no amor não havia mesmo controle, e a razão e a loucura são separadas por uma linha muito fina.

Acontecera do nada, como sempre estava lá ela em seu site habitual de jogos, isso mesmo jogos on line, com pessoas de verdade atrás de alcunhas, mas tinha uma em especial que a incomodava o via todos os dias por ali, muitas horas do dia e pensava consigo mesma : Poxa esse cara não deve fazer nada, fica ai o dia todo, deve jogar muito. Qualquer dia entro na sala dele, porém nunca tinha coragem, dia após dia, Luciana apenas observava., porém dizia a si mesma mais tarde eu entro. Até que um dia num gesto impensado clicou ali, quando viu estava no jogo e bem ali a sua frente ninguém menos que o próprio, motivo de curiosidade de todo este tempo.

Começou a tremer e a suar , céus ela não conseguiria , após alguns erros e praticamente perder o jogo sozinha, no rodapé de seu monitor um amigo a chama, resolve abrir a janela e ele está nela junto com o amigo que chamou, a cumprimenta e educadamente pede se pode adiciona-la em sua lista de contatos. Ela aceita, sem entender direito a atitude, pois estava jogando há pouco tempo e já fazia parte de um clube o qual esta mesma pessoa fazia parte, o por que pedir permissão se ele tinha acesso a estes endereços. Na mesma hora vem o convite, o qual é aceito prontamente. Dali pra frente começa a nascer algo inexplicável, começam a dividir problemas, alegrias, ansiedades, tudo. Ela estava radiante, vivia dias de plena felicidade, pois ele dizia que a amava o tempo todo, sempre a espera-la em todos os momentos.

Todos os dias no mesmo horário Luciana abria seu programa de conversa e aguardava ansiosamente até que ele chegasse lhe dissesse algo como “oi” “tudo bem”, se ela estava triste ou com problemas ele percebia e não deixava que ela escondesse, passavam boa parte do dia e da noite juntos, se falavam no telefone pois ele dizia que a voz dela era linda queria ouvi-la o tempo todo. Porém com toda essa magia, Luciana procurava se manter alheia a estes carinhos por assim dizer, pois entre eles havia uma barreira enorme, cruel, a diferença de idade que beirava em torno de vinte anos, porém quando estavam se falando ela parecia não existir, se tratavam de igual para igual pois ele nunca permitia que ela falasse nisso, era motivo de descontentamento nele. E, nessa brincadeira toda havia promessas de muitas coisas, e Luciana, mulher feita procurando brincar e se manter alheia; até que um dia veio a pergunta por parte dele “ o que está acontecendo comigo?” “o que você está fazendo comigo ?” só que à esta altura, ela já não sabia responder, o que dizer a não ser “ também não sei “. entretanto no seu íntimo Luciana sabia que algo muito forte estava nascendo e lutava a cada segundo para combater até que suas forças se exauriram e ela cansada se rendeu a este : como podemos definir amor ou loucura? Pois afinal dizem andam juntos , lado a lado. Era sabido que ele nada havia prometido a não ser deixar rolar, e estavam deixando. Mas, como tudo tem um mas, um certo dia ele vem e diz oi, ela pergunta: vamos jogar ; pois afinal passavam todo o tempo no site jogando, todos viam e percebiam, não comentavam mas percebiam, ele por sua vez, não disfarçava na frente de ninguém pois dizia que não tinha nada a esconder. Ele responde: estou jogando com a Sônia, faz expressão de contrariado, pois a mesma havia sido uma ex. que segundo havia dito fazia um mês que havia sumido, Luciana resignada se propõe a ficar aguardando que ele termine, a noite ele a chama mas já estranho, ela não pode deixar de notar e perguntou ai começou a desmoronar o castelo de sonhos que ela sozinha havia feito, ele responde : a Sônia quer voltar, não sei o que faço, vou amanhã em sua casa conversar com ela. A tristeza invade Luciana, ela não podia acreditar naquilo, lia e relia aquelas linhas, pois um dia antes tanta coisa contrária havia sido dita, não isso não estava acontecendo, não era possível pois havia dito a ela que não a queria mais, que havia passado. Bem, Luciana que a esta altura já o amava demais à ponto de renunciar aconselha: vá vê-la de coração aberto, converse, tenha calma ,se dê essa chance. Mais tarde, chorou pois sabia que estava entregando-o a outra pessoa, mas não tinha o direito de se impor na vida daquele garoto, também a barreira falou mais alto, a razão gritou dentro de si faça o melhor à todos, esta batalha você perdeu.

Dia seguinte a notícia, voltei para Sônia, ela disfarça esboça alegria e convence de que está feliz , que o quer feliz, mas no fundo de seu coração sabe, que no momento ninguém o amaria mais do que ela. Dias se passam sombrios, a senhora chora o tempo todo a falta, sentia sem chão , perdida, não sabia o que fazer , pra onde ir, apenas se lembrava e chorava. Como se não bastasse ter que conviver com está tristeza toda com o passar dos dias vem a decepção, a pior de todas; uma intriga muito bem armada, sórdida , cruel, fez com que ele se irritasse muito com ela, e, com razão pois nada havia prometido a não ser deixar fluir a emoção, ele a questionou, ofendeu, pediu para que ela se defendesse, disse que estava dando a chance. Pobre dela, como poderia defender-se? Isto significaria ter que dizer o quanto o amava e lutava contra, que jamais havia feito qualquer comentário a respeito, a não ser com sua confidente e esta não falaria de forma alguma à ninguém. Assim sendo, afastou-se dele de forma resignada, humilhada, pagando pelo que não havia feito, e, por isso passa os seus dias em frente ao monitor, sempre vendo-o de longe e chorando, dia após dia, esperando a ferida aberta em seu peito cicatrizar. No entanto, ela não consegue avaliar se sofre mais com a distancia dele, ou pela perda do carinho que recebia diariamente, da atenção que buscou a vida toda. Agora sabe realmente o que é esse sentimento que lhe rouba o ar a distancia, que a faz flutuar com o simples toque da mão em seus cabelos, que dispara o coração ao ouvir a voz, será amor ou loucura, os dois talvez.


Muitos dias se passaram, como a tristeza era repetida não se tem a noção de quanto tempo, mas, certo domingo, Luciana havia convidado um amigo em comum para o almoço, tocam a campainha, ela vai atender, ao abrir a porta sente as pernas amolecerem. Deus pensou não é possível, ele estava ali diante dela, sem saber muito bem o que estava fazendo os convidou a entrar, tratou o bem porém com a formalidade de um amigo, almoço servido, todos satisfeitos, resolvem jogar o que os uniu. Determinada as duplas, coincidentemente, ficam em duplas opostas, portanto ele se senta ao seu lado na mesa, e justamente embaixo da mesa sua mão encontra a dela gelada, céus ela estava apavorada se pudesse saia correndo dali ao invés disso buscava forças em si mesma para se controlar, ele aperta a mão dela como se quisesse dizer algo. Terminou uma partida, ele pede para usar o toilete que na casa dela fica no pavimento superior, ela o conduz pois afinal é uma pessoa educada e como era a primeira vez dele em sua casa era obrigada a fazer tal gentileza. Suspira sobe as escadas a frente dele para indicar o caminho, chegando ao corredor quando se volta para trás com intuito de retornar ao andar de baixo um braço esticado em direção a parede a impede de fazê lo, e antes mesmo que pudesse esboçar qualquer reação um braço a envolve pela cintura e traz pra junto de si, a outra mão delicadamente segura seu rosto.

Completamente atordoada ela levanta os olhos e encontra um par a fita la por alguns segundos apenas , a mão que segurava seu rosto agora acaricia os cabelos e a beija com muita paixão, o que era aquilo pensa: estou no céu, no paraíso, tamanha a felicidade que sentiu por alguns minutos ela não pensou em nada, aliás nem sabia mais onde estava. Quando se separaram ele apenas disse preciso falar lhe muito, mas não pode ser aqui quero muito estar à sós com você, não quero e não vou mais lutar , nem fugir , muito menos controlar. Nossa! É comigo mesmo que isto está acontecendo, é concluiu, se não tem mais ninguém aqui deve ser comigo mesmo. Combinaram então se encontrarem na segunda pela manhã, logo a primeira hora pois tinham muito o que dizer um para o outro. Alguém pode imaginar para nossa protagonista como foi aquela noite, terrível. Ela não dormiu, pulou da cama antes mesmo que o dia amanhecesse, afinal precisava estar bem para ele e faria o melhor possível. Lentamente começa a se aprontar: Banho, cremes, cabelos, serviu café da manhã aos filhos e despediu se deles, só então terminou sua produção com a roupa simples e maquiagem leve porém tudo com muito cuidado.

Vai ao encontro dele pois se demorasse mais um minuto morreria de agonia, chega ao local marcado dez minutos antes do horário , nota que ele também está a espera la. Aquela distancia de cinco metros entre ela e ele parecia não ter fim tão ansiosa que Luciana estava, um braço a envolve seu corpo se estremece ele se assusta e perguntava se tudo aquilo era verdadeiro ela apenas consente com a cabeça. Rumam a um hotel, pois não pretendiam fazer nada a não ser se entenderem a princípio, mas queriam estar em paz para poder conversar. Enfim sós e antes que ela pudesse fazer qualquer coisa é puxada para junto de seu peito como se quisesse se fundir a um só corpo, chegou a perder o ar e antes mesmo que recuperasse o fôlego teve um beijo roubado de forma muito apaixonada.

Separam se alguns minutos depois, ela procura seus cigarros, precisa se acalmar pois tremia dos pés a cabeça, como era possível uma mulher experiente estar se portanto como uma adolescente, não conseguia entender. Acendeu seu cigarro, recobrou o sentido e perguntou o que ele tinha para dizer de tão urgente e importante, ele começa a narrar tudo o que se passou desde a intriga, o fim de seu namoro com Sônia, enfim o que foram estes dias distante dela, foram monótonos, tristes intermináveis sentia uma falta enorme dela e não sabia exatamente o por que mas queria muito estar junto dela e finalmente ele insiste com ela em querer saber o porque na ocasião não se defendeu, pois depois ele reunindo os fatores havia concluído que nada daquela intriga condizia com ela, entretanto ele insistia no porque do silencio dela. Você não consegue imaginar mesmo? Pergunta Luciana com uma ponta de irritação em sua voz. – Não mesmo . Responde ele em sua inocência de menino. Pacientemente Luciana segura o rosto de seu amado entre as mãos com o seu rosto já banhado em lágrimas, olha bem dentro daqueles olhos que tanto sonhou um dia poder fazê- lo e simplesmente responde por que o amo mais que tudo, aliás dizia a todo momento que te amava e você nunca deu ouvidos, calei me porque sabia que acreditaria ser uma brincadeira, mas o momento que você perguntou era sério e defender me significaria confessar, ceder aos meus medos, ter a coragem de assumir o que considero uma loucura. Ele carinhosamente pousa os dedos na boca de Luciana para que ela não diga mais nada, apenas murmura : – Acontece que eu sou louco, esqueceu. E, a beija com muito amor e paixão, nesta hora Luciana apenas o acaricia, os corpos se unem pois não querem mais se separar, mas sim juntos serem transportados a uma dimensão aonde não existem os corpos, apenas as almas a se entregarem, e o tempo que consta marcado em um pedaço de papel não existe mais, o amor venceu esta barreira.

Autor: Rofan

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