Uma Fábula: De Lagartas e Maracujás (fantasia)

Em uma terra que não mais existe e num tempo tão longínquo  que coisas e pessoas careciam de nome, existiu uma grande floresta negra e úmida que ninguém jamais ousou atravessar  e que guardava no centro uma pequena aldeia muito linda, com flores, pássaros, árvores, riachos, pequenos e grandes animais, dias brilhantes e noites amenas.

As pessoas, porém, não eram felizes porque um antigo ancião vaticinara que, um dia, a grande floresta cresceria ainda mais e engoliria toda a aldeia, suas flores, suas árvores, seus riachos, seus pequenos e grandes animais, seus dias brilhantes, suas noites amenas e os humanos que nela também habitavam.

Entre os habitantes  havia um menino tão franzino quanto  medroso, que crescera e virara um homem de peito largo, sorriso miúdo e olhos espertos. Como quase tudo na aldeia também não tinha nome o que tinha era a curiosidade maior do que todos os medos que guardava. Com curiosidade e alegria procurava conhecer tudo à sua volta – as flores, as árvores, os pássaros, os pequenos e grandes animais: olhava cada coisa por muito tempo para ver os detalhes, as cores, os sulcos, as formas. Cheirava cada coisa que avistava para conhecer-lhe os odores, tocava-as para sentir a texturas e temperaturas, lambia, a sentir-lhes o gosto – fazendo  isso sempre e muito, com cada coisa que avistava. O homem sem nome gostava de cantar e, enquanto perdia-se em conhecer as coisas cantava, cantava, cantava … melodias que ninguém ensinou, umas tristes, outras não, mas sempre cantava e sorria enquanto olhava tudo, tocava tudo, cheirava tudo, lambia tudo.

Na mesma aldeia morava a moça bela  e estranha que havia sido tirada do  reino de seu pai por um fauno e levada para o meio da floresta para ser escrava. Após largo tempo, usando de artimanhas, logrou fugir do fauno, mas não encontrou o caminho de casa que já não era. Perdida, encontrou a pequena aldeia, seus habitantes e o homem feliz por quem se apaixonou mas nada falou, porque ainda temia ser encontrada pelo fauno. Apenas olhava aquele homem de peito largo deslocar-se de um canto para o outro, divertindo-se com as músicas que ele cantava, enchendo-se de felicidade e curiosidade quando ele vinha contar o que descobrira.

Um dia, o homem sem nome, perdido na sua insaciável curiosidade, aproximou-se  muito aos limites que separavam a linda aldeia da trevosa floresta e foi ouvido por uma das muitas bruxas que ainda habitam as mais escuras, densas   e frias matas. A bruxa se encantou pelo homem curioso e feliz e o homem curioso que era quis conhecer melhor a bruxa. Ele não sabia o que era uma bruxa e nem que era tão feia, porque ela, para atraí-lo, tomara uma poção que a deixara menos medonha, depois fez outra poção que entregou para o homem curioso que cheirou e provou e assim, enfeitiçado, nem percebia que se afastava da sua aldeia, das suas flores, árvores, pássaros, riachos, animais e da moça perdida, adentrando,  cada vez mais, o reino da bruxa, em meio à névoa, lodo e lama, que ele, enfeitiçado, nem via. Mas, às vezes, quando ia passando o tempo e o efeito da poção mágica da bruxa malvada, ele lembrava da moça perdida, e tinha saudades. Lembrava da antiga aldeia, dos pássaros, das árvores, dos riachos, dos pequenos e grandes animais e queria voltar para ver tudo isso de novo. Às vezes, conseguia fugir e encontrava a moça perdida, e falava com ela, e cantavam juntos, e juntos brincavam com os pequenos animais  e sorriam um para o outro, os dois para tudo o que viam, mas a bruxa o fazia voltar para o seio da floresta e dava-lhe um pouco mais da poção diabólica que o fazia permanecer por mais tempo em meio à névoa, a umidade, o lodo e a lama.

O homem, de peito largo, sorriso pequeno e olhos espertos já não cantava mais e a floresta não tinha nenhum encanto. Queria voltar, mas a  bruxa, feia e má, o prendia.

Por duas vezes, a moça perdida, que amava o homem curioso, o retirou da floresta e por duas vezes ele voltou para a morada da bruxa. Quando isso acontecia, a moça perdida sentava-se junto às flores e árvores e pássaros e pequenos animais e chorava. Chorava muito e as lágrimas dos seus tristes olhos transformavam-se em pequenas e coloridas conchas que ela depois recolhia e usava de adorno em suas vestes encantando a todos que apreciavam-lhe a beleza que nem imaginavam, era feita de pura tristeza.

Uma noite a moça perdida ouviu no seu coração que o homem curioso que já não era feliz, a chamava – correu ao seu encontro auxiliando na fuga que, desta vez, pensava ser definitiva.

Naquela noite, na pequena aldeia, caiu, pela primeira vez, imensa tempestade, muitos foram os raios, o céu rugia, os humanos, desesperados, corriam de lado a lado, sem ter e nem saber para onde ir , chocando-se uns com os outros.

A moça perdida entendeu que a bruxa descobrira o acontecido e lançava contra todos a sua ira, clamando vingança. Se encheu de coragem e foi ter com a bruxa que em meio a ameaças prometeu poupar a população e ao próprio homem curioso, que preferia morto a feliz, se ela, a moça perdida o devolvesse. A moça perdida, sabendo que não poderia ser feliz com o homem curioso, sob ameaça da bruxa, disse que não lhe poderia devolver, mas poderia deixá-lo ir, se assim quisesse. A bruxa concordou. A moça perdida, que agora também era triste, sem poder contar ao homem curioso que fizera um trato com a bruxa, ao aproximar dele, mostrou-se, igualmente, bruxa: vociferou, babou, ameaçou e expulsou dali o seu homem curioso que nesta hora, sen entender,  se mostrou triste, queria ficar …

e, assim, partiu.

A moça perdida voltou a  chorar, mas desta vez, as lágrimas não viraram conchas coloridas ao contrário,  corriam-lhe a pele e na pele se apegavam, formando crostas espessas e viscosas. Ao mesmo tempo, para sempre triste,  lembrava os abraços do peito largo do homem curioso, lembrava os lábios de pequeno sorriso, lembrava os olhos espertos e nessa lembrança, sem água ou alimento, definhava.

O homem curioso também já não era feliz, mas fortalecido pela coragem da moça perdida que o libertara da bruxa – fera,  recusou-se a voltar para a floresta escura, sombria e úmida. Recusou os novos chamados da bruxa e as novas poções que ela lhe oferecia. Sempre curioso, encontrou na pequena aldeia, uma pequena trilha e por ela seguiu, procurando outras aldeias, outras flores, outras árvores, outros pássaros, outros pequenos e grandes animais, outras cores, outros cheiros, outros gostos e, assim, perdeu-se também pelas inúmeras grandes e pequenas aldeias que existiam além da sua e além da floresta densa e amaldiçoada.

Quando a bruxa má percebeu que nunca mais teria o homem curioso, a quem mantinha apenas por capricho e pelo prazer que sentia em impedir-lhe olhar, cheirar, tocar, lamber e – cantar, fez o céu rugir mais uma vez e lançou sobre o homem curioso um poderoso feitiço, dando-lhe raízes, prendendo-o definitivamente ao solo e feito em planta não poderia mover-se ou cantar – mas conservando ainda a curiosidade que nasceu consigo, em grande esforço, esticava os galhos, tentando alcançar a terra, outras plantas, árvores e flores, descia e subia por tudo o que pudesse alcançar, ao final de algum tempo, nasceram-lhe lindas flores, grandes como seu peito, arroxeadas como as chagas que ainda trazia no coração, mas de beleza tão exuberante como outrora havia sido a sua própria alma, atraindo a admiração de quem a pudesse contemplar. Caídas as flores, surgiram-lhe os primeiros frutos: redondos como os olhos da moça perdida, amarelo como o sol dos dias radiantes de sua antiga aldeia, rugosos e azedos como seu coração agora ressequido e, pela primeira vez, naquele antigo e distante reino, uma coisa ganhou o nome: maracujá.

A moça perdida, na primitiva aldeia, definhou até o tamanho de uma pequena folha, já ninguém lhe poderia reconhecer porque já não possuía a antiga beleza, as lágrimas por tanto tempo choradas e aderidas á pele, como crostas roubaram-lhe as formas e, sem poder mover-se como antes, rastejava  por entre as árvores e flores. Feia assim, foi rejeitada por todos e, pela segunda vez, no antigo e longínquo reino, uma coisa ganhou nome: lagarta.

Ninguém percebeu quando deixou a aldeia e, como por instinto, sem saber, seguiu a mesma trilha por onde antes, saíra o homem curioso. Atravessou florestas, riachos, outras pequenas e grandes aldeias  até encontrar uma estranha árvore, que não buscava o céu, como as outras, mas ao que estava  volta.

Parecia árvore sem o ser, não tinha tronco forte ou galhos robustos e hirtos, mas apenas um sem número de tentáculos que a tudo buscava enquanto exalava um exótico odor que fazia vir à lembrança o mesmo odor do homem curioso atraindo a pequena e rastejante criatura que, ao alcançar-lhe as folhas, assim como o faria, se pudesse, o homem curioso, olhou atentamente, apreciou a cor, tocou e sentiu a textura, aspirou o odor e, recordando o seu homem curioso, lambeu e beijou, sentindo, ao mesmo tempo, todas as possíveis sensações e, mais ainda, o sabor dos lábios de sorriso pequeno do seu homem curioso e, assim, impelida pelo  faminto coração e pelo insitinto, pôs-se a devorar as folhas e  os finos galhos.

O homem curioso, agora transformado em planta, se deixava devorar, como antes permitiu-se devorar pelo amor da moça perdida, sentindo nas pequenas e insistentes mordidas o mesmo prazer que antes sentiu com os muitos beijos que recebeu da moça perdida e que agora recordava.

Como vaticinara o velho, o antigo reino há muito desapareceu na terra, tragado pela trevosa floresta deixando como  única lembrança, o  que dele resta no nosso mundo: um pé de maracujá incessantemente devorado por uma lagarta que jamais voltará a ser borboleta porque já o fora antes, em metamorfose invertida.

Autor: Rogerio Lenac

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