Não É Só por Vinte Centavos. Nem pelo Quilo do Feijão (crônica)
Saí pra comprar feijão, apaixonada que sou pela especiaria. No sacolão mais próximo, me deparei com o pacotinho de um quilo por nove reais. Olhei feio pra vendedora, franzi a testa, torci o nariz. E saí, de mãos vazias, revoltada e assustada, como alguém que acabara de sofrer tentativa de furto.
Disse a mim mesma que a culpa era do dono do negócio, que pretendia extorquir os moradores da região, aproveitando-se do fato de seu estabelecimento ser o único do gênero ali nas redondezas. Até então, a culpa era apenas do proprietário do sacolão, que, em poucos instantes, na minha mente, tornou-se um criminoso da pior espécie.
Fôlego retomado, dirigi alguns metros até o próximo supermercado, um pouco mais longe de casa, certa de que ali os desejados grãozinhos marrons estariam sendo vendidos por um valor mais justo e razoável. Pra minha surpresa e decepção, o preço era exatamente o mesmo. E a vendedora, dessa vez, me desencorajou a andar até o terceiro mercadinho, dizendo que o aumento tinha sido geral.
Pensei em ir num outro bairro, a fim de me certificar da veracidade daquela informação, mas o que eu gastaria em gasolina tornaria o produto ainda mais oneroso. Sem falar no tempo que seria perdido no percurso, já que o trânsito era infernal naquele horário.
Voltei, então, pra casa, com o pacotinho de um quilo de feijão preto, um pouco menos caro que os grãozinhos marrons. Decidi que boicotaria o carioquinha e o jalo, meus preferidos, em sinal de protesto, até que os preços voltassem à normalidade. E assim o fiz.
Em casa, ainda resmungando comigo mesma, liguei a televisão e as notícias eram idênticas às dos últimos dias. Imagens de milhares de pessoas por ruas do Brasil e do mundo, portando cartazes e bandeiras, com reivindicações diversas, dirigidas aos nossos governantes. E os repórteres, ao menos boa parte deles, repetindo a ladainha de que o movimento havia começado em razão do aumento de vinte centavos na passagem de ônibus na região metropolitana de São Paulo, mas que, agora, não tinha mais uma “causa específica”.
Ora bolas. Que os protestos começaram na capital paulista, em razão do aumento de vinte centavos no transporte público, todo mundo sabe. Inclusive os abestados repórteres da maior emissora de televisão do país. Mas o que o governo finge não enxergar e a imprensa insiste em tentar camuflar é o fato de que os vinte centavos foram só a gota d’água que faltava pra fazer transbordar o balde de indignação e revolta que há tempos andava cheio, abarrotado por episódios de corrupção e mau uso do dinheiro público.
Naquele final de tarde, o meu balde (assim como o dos moradores da cidade de São Paulo, na semana anterior) transbordou, logo que me deparei com o preço do pacotinho de feijão, que mais parecia “filet mignon”.
Definitivamente, não é só por vinte centavos. Nem pelo quilo do feijão. E, ainda que fosse, tal fato não tornaria menos legítimas as manifestações populares que marcaram as últimas semanas no Brasil, a par, obviamente, dos atos de destruição praticados por delinquentes, que em nada se confundem com aqueles que, empunhando bandeiras e cartazes, dignaram-se a exigir o cumprimento de direitos básicos, assegurados constitucionalmente, mas ainda hoje não implementados de forma satisfatória.
É, o balde precisava mesmo transbordar. O grito precisava ser exalado. O gigante tinha que acordar. Resta torcer para que, com a vitória da seleção brasileira na Copa das Confederações, ele não volte a hibernar, embalado pela falsa sensação de que, agora, depois de alguns gols, tudo vai bem.
Category: Crônicas:, Sílvia Tibo  Tags:
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