O tempo passa! (crônica)

Não sei que locutor esportivo cunhou este bordão: “O tempo passa!”, para anunciar os minutos que faltavam para o encerramento de um jogo de futebol. Era um aviso que carregava qualquer coisa de fatídico, sinistro. Como quem diz: não percam o tempo porque ele passa inexoravelmente, e deve ser agora ou então nunca mais! Parecia até um dos versos de O Corvo, do Edgar Allan Poe.

Quem fazia essa advertência no rádio? Certamente um locutor de uma emissora de São Paulo, pois a lembrança que tenho da voz que o proclamava é antiga, de quando eu ainda não morava no Rio, e aqui já vivo há mais de quarenta anos. Para citar o autor que eu não conseguia lembrar quem era, acabei por consultar meu amigo Marcelinho, simplesmente neto do grande comentarista Luiz Mendes! E ele me disse que o jargão era uma criação do Fiori Gigliotti, locutor esportivo paulista, como eu desconfiava.

Alguns dos meus leitores certamente serão assim também: não descansam enquanto não se lembram do autor de uma frase ou um verso. Ficam brigando com a memória. Eu sou demais. Às vezes lembro o esquecido no meio da noite e salto da cama, anotando a informação. Sim, porque, se não faço isso naquele momento, já não me lembrarei do que estava perdido e foi finalmente recuperado da memória.

Minha mulher me diz, apagando as luzes e indo para a cama:

— Mas por que tem de colocar o nome do autor? Diga que era um locutor esportivo e pronto. Vem logo dormir.

E foi assim, misturando o ontem com o agora, que acabei ligando para o meu amigo, já quase de madrugada, e conseguindo o nome do autor. Esquisitices da idade? Pode ser.

Minha mãe dizia que envelhecer nos tira muita coisa, mas nos dá o que jamais teríamos de outra maneira.

— Não se pode improvisar a experiência e a sabedoria — dizia ela, referindo-se à sabedoria da vida cotidiana.

Um presente do Tempo, que não aceita recusa. Para muitos, um presente de grego. Da mesma forma, só a idade nos possibilita o prazer do amor sem disfarce e sem defesa. De peito aberto. Confessional. Como no poema Campo de Flores, do Drummond. Ao ser surpreendido por um novo amor, o poeta exclama e proclama:

“Deus, ou foi talvez o diabo, deu-me este amor maduro, e a um e outro agradeço, pois que tenho um amor”.

Futebol, tempo, amor, Drummond. Cabe tudo numa vida ampla, ainda que nem sempre feliz. Envelhecer é didático. Nos faz compreender o que fomos e como fomos na infância, na juventude e na chamada idade adulta.

Sem auxílio de terapia.

O tempo passa! E como! Somos crianças até os 10 anos, jovens até os 25 e depois só nos resta amadurecer e viver o tempo que nos permitirem.

Meu professor de literatura, que era dado a grandes tiradas filosóficas, dizia:

— É como pegar na mão um punhado de areia. Por mais que a gente aperte, ela há de ir escapando entre os dedos, até nos deixar a mão vazia.

Minha mãe, se isso ouvisse, diria:

— A mão pode ser, mas nada impedirá que o coração esteja transbordando de amor até o fim.

O tempo passa!

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