Ronda (crônica)

Não pelos bares, como fiz muitas vezes na juventude, acompanhado de amigos boêmios, quase sempre pelo prazer de andar pelas ruas paulistanas jogando conversa fora. Hoje minhas rondas são pelas livrarias e pelos cafés de Ipanema e Leblon, e começam, e muitas vezes também acabam, na Argumento da Rua Dias Ferreira, onde tenho uma turminha fiel de amigos. Hoje sou raro no Severino, já que comecei a escrever mais uma novela. Não fosse isso e lá estaria, como sempre, dia sim, outro também. Ou, como dizia um médico que conheci no interior de São Paulo, ao me receitar um xarope para a tosse: uma colher de sopa nos dias pares e outra nos dias ímpares, em vez de dizer: diariamente. Preciosidades de um doutor de província.

Nesta semana voltei ao Severino para tomar uma taça de vinho na comemoração de mais um aniversário da Carla, minha querida amiga. Perguntei, sem querer fazer graça:

— Vinte e cinco anos?

Ela riu, charmosa como sempre, olhos brilhantes:

— Põe mais dez nessa conta. Trinta e cinco!

— Não dá para acreditar.

Gabriel, o marido, não deixou passar a oportunidade:

— Essa juventude é por conta do bom trato que ela tem em casa.

A tarde foi perfeita: o bom vinho, as lascas de grana padano, um Nat King Cole muito oportuno cantando Noche de Ronda, que o encarregado da seção de CDs teve a felicidade de escolher para tocar. Mas principalmente pelos bons amigos e pelo sucesso que Carla faz em nossos corações, com sua graça espontânea e sua honesta aceitação da vida e do tempo que passa:

— Nunca menti a minha idade. Sei que pareço ter menos de 35, que poderia mesmo dizer não 25, mas 30, e que todos acreditariam numa boa, mas pergunto: pra quê? A quem estaria enganando se não posso enganar a mim mesma, que sei que são 35?

Quando uma mulher é objetiva, penso eu, não há homem que a supere. E, quando uma mulher é objetiva e charmosa, aí então não há coração que lhe seja indiferente. Penso em ter na novela que escrevo uma coleção de mulheres para boas atrizes interpretarem.

Penso em ter uma Carla também. Pergunto:

— Você me autoriza a incluí-la como personagem da minha novela?

— Claro.

Esse “claro” é um dos vícios de linguagem da nossa amiga. Ela ri e se admira quando lhe falo nisso.

— Nunca reparei que repito muitas vezes essa palavra.

Brinquei:

— Apenas nos dias pares e nos dias ímpares.

E prometi:

— Assim que eu criar o perfil dessa personagem, mostro para você, para que aprove.

— Não precisa. Faça essa Carla do jeito que você quiser. Pode até usar o meu nome.

— O.k. Fechado. Vou ter uma Carla na minha história. Você vai ser o modelo.

Ah, para quê? Foi um tal de pedido dos amigos que cheguei a me arrepender do prometido. Todos, sem exceção, queriam ser personagens da novela. E de preferência com o próprio nome, para que pudessem provar serem eles os inspiradores.

Ah, o prazer de ser personagem! Trocar a realidade pela ficção, onde ninguém sofre e ninguém morre de verdade! E se pode ter 25 ou 35 anos para sempre!

You can follow any responses to this entry through the RSS 2.0 feed. Both comments and pings are currently closed.

Comments are closed.

Copy Protected by Chetan's WP-Copyprotect.