Vende-se Felicidade! (crônica)
Quando eu era criança, ficava intrigada ao ouvir um adulto dizer que não podia comprar alguma coisa. Pensava sempre com os meus botõezinhos (já bem agitados à época) que aquilo não fazia o menor sentido. Afinal, o que é que custava pegar a caneta e preencher uma das muitas folhinhas do talão de cheques, no valor da mercadoria desejada?
E só não pensava que seria mais fácil ainda passar o cartão de crédito na maquineta da loja (como, imagino, devem cogitar as crianças de hoje), porque esse instrumento de compra ainda não havia sido inventado à época.
Mas não demorou muito para que eu passasse a ter noção do quanto as coisas custavam e do quanto era difícil consegui-las. Em pouco tempo, percebi que as folhinhas de cheques, em si mesmas, não tinham qualquer serventia. Era preciso trabalhar (e muito!) para que elas adquirissem algum poder de compra.
Para a minha total decepção, num belo dia, descobri que os tais papeizinhos não podiam ser simplesmente trocados por bonecas, vestidos e cadernos, como eu supunha. Definitivamente, não era bem assim que a coisa funcionava.
Essas lembranças da infância me vieram à mente num dia desses, assim que recebi por e-mail um arquivo intitulado “E se o dinheiro não existisse?”. Trata-se de um vídeo a respeito da influência que o dinheiro exerce sobre nossas vidas, sobretudo no que toca às nossas escolhas profissionais.
De acordo com o narrador, em regra, não somos orientados por nossos pais e professores a escolher a profissão que nos trará maior satisfação pessoal, mas sim aquela que nos proporcionará melhores resultados financeiros, ainda que, para tanto, seja necessário deixar de lado nossas verdadeiras aptidões. E essa educação distorcida faz surgir um sem número de profissionais frustrados e medíocres, que, sem o menor amor pelo que fazem, limitam-se a cumprir suas obrigações diárias para receberem a remuneração ao final do mês.
Por coincidência (ou não), poucos dias após assistir ao vídeo, recebi em casa um jornal cuja reportagem de capa trazia a velha e famigerada pergunta: “O dinheiro compra felicidade?”.
Embora o assunto nada tenha de novo, o que me chamou a atenção, nesse caso, foi o resultado da pesquisa feita por uma empresa de consultoria de investimentos em treze países, inclusive o Brasil, em que noventa e três por cento dos entrevistados responderam de forma afirmativa à indagação.
Não discordo dessa maioria esmagadora. E seria hipocrisia da minha parte dizer o contrário. Afinal, no mundo em que vivemos, o dinheiro é essencial para se concretizar a maior parte dos anseios, que, em geral, estão mesmo voltados, direta ou indiretamente, à aquisição de bens de consumo. Além disso, na prática, é preciso recorrer ao dinheiro até mesmo para que se tenha acesso a direitos básicos como saúde e educação de qualidade, que deveriam ser (mas não são) fornecidos gratuitamente e a todos, de forma igualitária.
Inspirada pelo vídeo e pela reportagem de capa do jornal, fiquei imaginando como nos comportaríamos se, num belo dia, acordássemos com a notícia da promulgação de uma lei determinando a extinção do dinheiro ou proibindo o seu uso como instrumento para a aquisição do que quer que fosse.
No estágio em que estamos, acredito que a novidade, por si só, não nos tornaria consumidores menos ávidos. Afinal, continuaríamos sujeitos aos bombardeios e apelos diários dos meios de comunicação, que nos impelem a comprar sempre e cada vez mais. Na falta do dinheiro, certamente nos valeríamos de algum mecanismo de troca, a fim de darmos continuidade a todo esse processo de acúmulo de bens.
Cheguei à conclusão, então, de que não é o dinheiro o vilão da história. O problema está em nós mesmos, que, insatisfeitos com aquilo que já temos, criamos novas necessidades a todo o tempo e, a fim de supri-las, consumimos de forma desenfreada e irresponsável. Movidos por desejos que parecem não ter fim, compramos coisas das quais não precisamos, com o dinheiro que muitas vezes não temos. Endividamo-nos, irracionalmente, convictos de que o dinheiro pode mesmo comprar tudo, inclusive a tão sonhada felicidade.
Category: Crônicas:, Sílvia Tibo  Tags:
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