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A Bela Adormecida (conto infantil)

Um Rei e uma Rainha que há muito desejavam ter filhos. Quando, por fim, a Rainha deu a luz uma menina, decidiram celebrar o acontecimento com uma grande festa. Foram convidadas sete fadas e cada uma delas concedeu uma prenda especial à princesinha. A fada mais nova concedeu-lhe o dom de ser a mais bela do mundo; a seguinte, que ela fosse espirituosa como um anjo; a terceira, que ela fosse graciosa em tudo o que fizesse; a quarta, que ela dançasse melhor que ninguém; a quinta, que ela cantasse lindamente; a sexta, que ela tocasse perfeitamente qualquer instrumento musical.

Quando a sétima fada ia conceder o seu dom, irrompeu na sala uma velha fada a quem o Rei e a Rainha se tinham se esquecido de enviar um convite. A fada malvada estava tão furiosa que, logo ali, fez a terrível profecia de que a princesa, ao completar 16 anos, se picaria num fuso e morreria. E com uma terrível gargalhada desapareceu, deixando todos a chorar.

Porém, nesse momento, aproximou-se a fada mais nova e disse-lhes:

– Coragem, Majestade! Ainda não concedi o meu dom. Não tenho poder suficiente para desfazer totalmente o que a perversa fada profetizou, mas posso modificá-lo. Apesar de se picar num fuso, ela não morrerá. Ficará profundamente adormecida durante 100 anos até que um jovem príncipe a venha a acordar.

O Rei mandou imediatamente proclamar pelo reino um édito especial, na esperança de poder proteger a princesa da maldição.

– Todas as rocas do reino deverão ser queimadas, sob pena de prisão!

Todos obedeceram entregando as rocas com que fabricavam os fios para os tecidos e todas foram queimadas. Algum tempo depois não havia um único fuso em todo o reino.

Passaram 15 anos. A princesa cresceu e tornou-se a mais bela menina do reino, tal como as boas fadas tinham predito. Já ninguém se lembrava da horrível maldição. No dia em que fazia 16 anos, a jovem princesa andava a brincar com o seu cãozinho e foi atrás dele até à cima da torre e encontrou uma velhinha junto a um objecto estranho.

A princesa ficou tão curiosa que perguntou:

– O que é que estás a fazer com essa roda?
– Estou a fiar, minha querida. Queres que te ensine?
– Claro que sim! Deve ser divertido! – respondeu a princesa sentando-se ao lado da velhinha.

Foi então que tudo aconteceu: ao pegar no fuso ela picou-se e caiu no chão. A velha era a fada má, disfarçada.

Foi só? tardinha que o Rei a encontrou. Ele ficou profundamente desgostoso, mas a jovem fada entrou e disse:

– Não se preocupe! A princesa vai apenas dormir muitos anos. E eu vou adormecê-los a todos para que a princesa não se sinta sozinha quando acordar.

E, conforme ia agitando a varinha mágica, todos os habitantes do palácio foram adormecendo, num profundo e mágico sono.

Dentro do castelo a vida parou. Com o passar dos anos, as plantas foram crescendo em redor do castelo criando um muro invencível e espalhou-se o boato de que lá dentro vivia um terrível dragão. Um príncipe que ali passava quis saber o que lá havia de verdade. Um velhote avançou e disse-lhe:

– Quando era pequeno o meu pai disse-me que tinha ouvido o avô contar-lhe que no castelo dormia uma princesa encantada.

O príncipe, que era valente, ficou excitadíssimo com a notícia e meteu-se a caminho do castelo.

Foi com grande dificuldade que o príncipe conseguiu abrir caminho para entrar. Mal conseguia cortar as trepadeiras elas voltavam a crescer ainda mais fortes.

– Nunca vi plantas assim na minha vida! – queixou-se.

Foi então que apareceu uma das fadas e lhe deu uma espada especial. Era muito grande e tinha uma cruz no punho.

Com o auxílio desta espada o príncipe lá foi abrindo caminho para o interior do castelo quando, de repente, um dragão enorme o atacou com o seu bafo ardente. O príncipe protegeu-se das chamas com a espada e um raio de sol refletiu-se na cruz do seu punho transformando-se numa luz fortíssima. O dragão ficou ofuscado pelo clarão e o príncipe aproveitou para lançar a espada, que atravessou o peito do dragão. Este se transformou na velha fada má e morreu ali mesmo.

Mal o corpo da bruxa desapareceu, as plantas que cobriam o castelo também desapareceram e o sol voltou a brilhar. Ficou tudo florido e os pássaros começaram a cantar. O palácio vivia de novo a Primavera ao fim de 100 anos. O príncipe estava estupefato. E a fada veio dizer-lhe:

– Temos estado à tua espera. Agora tens de ir acordar a princesa.

Ele dirigiu-se ao castelo e encontrou os guardas e todos os cortesãos a dormir. Por fim entrou num quarto onde estava uma princesa, lindíssima. Ele pegou-lhe na mão e beijou-lhe as pálpebras. E nesse momento ela acordou de um sono de 100 anos. A maldição tinha passado e todos os habitantes do castelo começaram a acordar também.

O Rei fez uma grande festa para o príncipe e agradeceu-lhe dizendo:

– Pode pedir-nos tudo o que quiseres.
– Não consigo pensar em nada que me faça mais feliz do que casar com a vossa filha – respondeu o príncipe.

O casamento do valoroso príncipe e da bela princesa foi abençoado por todos no reino. As sete fadas vieram ao casamento e, desta vez, todas desejaram ao feliz casal a chegada breve de uma criança.

Autor: Charles Perrault

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A Biblioteca (conto de ficção)

“Biblioteca Luís de Camões. Oferta de um grupo de patriotas de Lisboa. 1908” O orgulho da inscrição ia-se apagando, caindo como caía a caliça pobre, mas as portas de madeira aguentavam há quase um século a abertura às nove e o fecho ao meio-dia e meia, a abertura às duas e o fecho às cinco e meia. A sala de leitura ficava a seguir ao depósito dos livros. Realmente um depósito: ninguém os lia. Que livros ali haveria? Os mesmos de 1908? Teria entrado algum livro depois? E os espaços vazios nas prateleiras, esperariam eles sem esperança alguma obra recente ou seriam antes lembranças de roubos e de devoluções por fazer para sempre? Coisas de antigamente. Agora já nem mesmo se roubavam livros desta biblioteca.

No depósito a limpeza era sumária e ao nível das prateleiras mais baixas. Para cima ninguém olhava e as aranhas guarda-livros impediam com as suas teias antigas que os volumes encadernados partissem sem chamada de atenção. Ao lado esquerdo, a única janela iluminava o armário do arquivo das obras catalogadas. Numa das gavetas de madeira faltava o puxador metálico. A ordem alfabética fora substituída pela ordem do uso do tempo à medida que as fichas manuscritas se soltavam ou eram arrancadas do tubo metálico e recolocadas depois noutro lugar. Tal desordem não constituía para a biblioteca qualquer problema; já ninguém consultava o ficheiro e muito menos havia quem se preocupasse como antigamente em escrever nas fichas sebosas algum comentário independente sobre o livro folheado: “Monárquico, mas documentado.” Ou generoso: “Muito bom, recomendo a outros leitores.” Ou explicativo: “Poema de amor intenso, fervor do amor físico, páginas 23 a 26. Atenção que ‘lírio’ simboliza o pito da miúda.” Ou violento: “O que é que este gajo quere, afinal?” Várias fichas tinham comentários sobrepostos. Um leitor escreveu num dos cartões: “É belo, mas não percebi nada.” Por baixo, noutra letra, noutra cor, alguém escreveu depois: “Não percebi nada, mas é belo.” No fundo de todas as gavetinhas estreitas e compridas havia fichas soltas de obras esquecidas nas prateleiras.

Dali se passava para a sala de leitura. As sua grandes janelas davam também para o logradouro dum quarteirão antigo. O sossego dos livros repetia-se no rectângulo enorme de antigos talhões de cada prédio, agora reunidos pelas ervas altas e tombados que estavam os murinhos de tijolo burro como em ruínas de antigos impérios.

Ao fundo da sala iluminada de luz velha que se espalhava por abóbadas envergonhadas ficavam uma secretária simples, quase uma mesa de refeição, e a sua cadeira sóbria estofada com uma almofadinha baixa e um encosto para as costas que compensasse as longas horas de vigília. Era nessa cadeira por trás dessa secretária que muitas vezes se sentava a menina Julieta.

Chamavam-lhe menina precisamente desde o tempo em que deixara de ser menina, quando cresceu – não de repente, mas sem se dar por isso, como uma florzinha que desabrocha suavemente, entre a primeira réstea da madrugada e o primeiro raio forte do sol – e cresceu até usar sapatos de saltos altos. Antes de ser menina Julieta ela era para todos a Julieta, a filha da Jeropiga, a Jeropiga que limpava a biblioteca com o mesmo encanto e empenho que punha em todo o seu trabalho: nenhum. Limpava só até à hora do almoço, porque depois era uma tristeza, um calicezinho bastava para soltar o génio do seu corpo forte e toda ela transbordava em coisas que não se deviam fazer e ela fazia e em coisas que não se deviam dizer e ela dizia em altas vozes. Uma desgraçada. Nada que se adivinhasse de manhã, com as canções controladas a marcarem o vaivém do pano do pó e da esfregona molhada. Quando a tranca da porta da biblioteca soava no logradouro no intervalo para o comer, todos sabiam que a Dona Jeropiga já não voltava, nem mesmo a buscar a filha. Outra desgraçada. “Não há livros que contem estórias destas”, dizia um velho que se sentava no resto do muro que separava do logradouro abandonado o claustro republicano do edifício da biblioteca. “Então não há?!”, dizia outro, que lia livros. E discutiam o assunto com pouco entusiasmo e mesmo algum incómodo até voltarem às doenças e ao futebol.

A Dona Jeropiga, cuja graça já ninguém recordava e por isso tinha o Dona legitimador colado à alcunha, trazia a miúda pela mão e deixava-a a brincar no logradouro ou na biblioteca, chovesse ou não. Nem tinha mal: os poucos que lá entravam achavam a miúda engraçada. Ela aprendeu a ler na escola, e na biblioteca brincava com a boneca. A Julieta ia fazendo parte dos dias e do lugar. A Senhora Clotilde, que se lembrava de também ter sido Julieta num dia longínquo e de ter visto o ministro da Instrução da República na única visita de Estado à Biblioteca (foi na Festa da Árvore, e plantaram uma no logradouro, que morreu dois invernos depois), pedia à miúda, por causa do reumático e de outras mil doenças de que nem os livros falavam, que fosse buscar e entregar coisinhas, fosse ele livros ou fichas, jornais ou uma merenda, revistas encadernadas ou um lavor de uma vizinha.

Assim cresceu a Julieta até desabrochar a menina Julieta. Já ela era da casa. Se a mãe entrava mais cedo na taberna, a Julieta vinha limpar o pó por ela. Os velhotes gostavam de ver a Julieta a limpar o pó em cima dum banco. Foi então que descobriram que ela já era menina. E que bela menina! Parecia uma estampa, a Julieta. O velho que lia coisas dizia que ela parecia as mulheres que o Stuart desenhava, mas os outros não visualisavam. Viam o mesmo à sua maneira, porém: umas pernas realmente desenhadas por mão de artista, um peito de República, uns cabelos de deusa romana, uns lábios de artista de cinema. Não viam com estas palavras, mas o ver bastava-lhes.

A Dona Clotilde pigarreava como no tempo em que as pessoas pigarreavam. Morreu primeiro que a mãe da menina Julieta. Mas com pouca diferença. Parecia combinado. Da Dona Clotilde ninguém sentiu realmente falta, mas sentiram sim da tossezinha educada com que marcava o fluir do tempo pois o novo silêncio punha a morte atrás da orelha dos poucos que faziam do espaço da biblioteca um muro que a enganasse. Caso diferente foi a morte da Jeropiga. O bairro não chorou, mas foi mais a pena da menina que da mãe – e estava encontrada, com a naturalidade das coisas simples, a herdeira das funções da Dona Clotilde e da Dona Jeropiga. O Estado estava em tempo de poupanças. Duas em uma. A menina Julieta limpava o pó aos livros e sentava-se na cadeira da, chamemos-lhe assim, bibliotecária. Os velhotes passaram a usar a biblioteca com uma regularidade antes interrompida pelas maleitas, servicitos, afazares, idas à Caixa, enterros, jogatina no jardim público. Não queriam perder a limpeza dos livros. A menina Julieta tirava os sapatos altos, ficava em pontas de pés um momento, tendo um delicioso arrepio por causa da pedra gelada do chão irregular do depósito, juntava os sapatos, punha-os numa das prateleiras onde o tempo deixara espaços vagos, e subia o escadote com gentil firmeza. Quando se aplicava a limpar o pó, com um certo entusiasmo de juventude, percebia-se que sabia como limpar o pó em livros velhos. A menina Julieta parecia aos velhotes a Julieta do balcão de Verona mesmo que nunca tivessem sabido que havia um balcão em Verona. Era linda, a menina Julieta. E quando se sentava na sua cadeira sóbria, toda direita, sem se envergonhar do peito alevantado, do seu peito 5 de Outubro, olhando a janela, fechando os olhos se o sol entrava sem medo? Melhor que uma santa no altar duma igreja quando a luz apanha a jeito os rasgos na pedra e atravessa os vidrinhos transparentes colocados no lugar de antigos vitrais. Os velhotes deixaram os bancos do falso claustro e passaram a sentar-se nas mesas de leitura, viradas para o lugar institucional da menina Julieta. Com livro ou sem livro, os velhos admiravam a Julieta ao sol, virando a face para a janela, fechando os olhos, às vezes inclinando a cadeira mais para a sua direita, para receber o calor no regaço, nas pernas, no corpo todo.

Um dia entrou na biblioteca um rapaz e viu o mesmo que viam os velhos. A diferença é que era rapaz. Porque teria ele lá entrado? Um dos velhos dizia que andava à procura duma morada para entregas e foi ali ao engano; outro que o moço já a devia ter visto na rua muitas vezes e sabia muito bem quem ela era; outro, ainda, aventou que ele ia à procura dum livro, mas os outros riram-se da ideia e ele calou-se. Certo é que o rapaz quando a viu sentiu qualquer coisa; como que parou, congelado, ou a ferver por dentro; sem saber o que sentia, sabia o que via e o que via era o que sentia e o que sentia era uma atracção por olhá-la, vê-la, mirá-la, fitá-la, observá-la, sentada, em pé, parada, em movimento.

A menina Julieta não era de gestos delicados, mas naquela idade os gestos têm o cheiro do amor. Fazem tremer os rapazes por dentro. O rapaz que lá entrou, que não entrou à procura de nenhum livro porque não sabia sequer que ali havia livros e não lhes tinha gosto, ficou a tremer por dentro e com a borracha da sola dos ténis agarrada ao chão, a derreter-se como ele. A menina Julieta deu por ele ali especado, entre o depósito e a sala de leitura e sorriu bom-dia como era costume a quem ali entrasse, mas o bom-dia arrastou-se e ela também se sentiu agarrada pelo meio do ar aos olhos do rapaz e quase se podiam ver as setas do olhar da menina Julieta a seguirem em sentido contrário, dos seus olhos cor de castanha para os olhos esverdeados do rapaz. Em breve (foi uma questão de segundos) as setas dos olhares, duas em cada sentido, começaram a tremer também.

A menina Julieta foi a primeira a despertar do ataque que o seu próprio corpo lhe fazia, uma coisa interna em que ela não pensou propriamente, nem precisava, pois dela tinha milenar conhecimento. Pegou ao calhar numa revista qualquer que nem era da biblioteca, tinha-a trazido dum consultório para ver nas horas vagas, e disse ao rapaz para se sentar numa das mesinhas mais próximas dela. Ele obedeceu sem dizer palavra e seguindo a menina Julieta com os olhos, seguindo o que quer que ela fizesse ou não fizesse, foi folheando a revista uma, duas, três vezes, as vezes que foram precisas até que se aproximasse a hora do almoço da biblioteca.

Os velhotes saíram um a um da sala e do portal e foram para as suas casas, os seus quartos, os seus lares, os seus pratos de sopa, os seus caldos e uma peça de fruta. O rapaz ficou-se pela menina Julieta e a menina Julieta ficou-se pelo rapaz. A menina Julieta fechou a porta como era hábito, mas fechou-a consigo dentro da biblioteca, ela e o rapaz.

Perguntou-lhe o nome, porque ela não era dessas que nem sabia o nome dos rapazes com quem andava, repetiu o nome Armindo e agarrou-se-lhe ao pescoço arrastando-o para o depósito, para um dos corredores escuros, afastado da janela do móvel do arquivo. Ali, encostada ela à prateleira das letras A, B e C e ele de costas para o J, o L e o M, pois a biblioteca não tinha livros de autores começados por K, o rapaz e a menina Julieta possuíram-se um ao outro em igualdade republicana, ais mudos e bafos quentes quantificando e qualificando a intensidade do encontro.

O rapaz queria mais, o que era compreensível dada a perfeição da troca dos corpos um no outro. Ela, com um sorriso a chamar-lhe maroto e a si mesma marota, levou a mão atrás da cabeça, pegou num livro (eram os sonetos de Camões) e deu-lhe com ele ao de leve no cocuruto, enquanto o puxava para cima da mesa de apoio do depósito, onde apenas uma Lírica de Garrett esperava que a menina Julieta a devolvesse à prateleira do A, de Almeida. Ali, deitada na mesa, de pernas ao alto apoiadas no BA início do B e a Lírica a servir-lhe de almofada para a cabeça, o rapaz penetrou a menina Julieta e a menina Julieta penetrou o rapaz, se é que a imagem se pode usar só para que conste que aqueles dois tentavam com igual empenho, naquela alegria breve, ser apenas um. Assim terminaram a hora de almoço, comendo-se um ao outro, consumindo as energias mútuas com toda a seriedade que há nas coisas do amor mais perfeito que há, que é o que não tem amor consciente nem pensado.

Recompuseram-se. A menina Julieta abriu-lhe a porta para ele se ir, e ele só se apercebeu disso com ela dentro e ele fora, e ele a querer vir outra vez e ela a sorrir que não e a fechar a porta da biblioteca onde ele tinha aprendido tantas coisas de uma só vez naquele fim de manhã.

O rapaz, trabalhador como poucos, não voltou lá no dia seguinte nem no outro. Passados uns dez dias, entrou de novo na biblioteca e a entrada anunciava que se estava quase na pausa do almoço. A menina Julieta sorriu-lhe e, à parte as setas dos olhares cruzados, repetiu todos os gestos pela mesma ordem, pois os hábitos de bibliotecária diligente implicavam disciplina nos actos quotidianos. E, assim, sentou-o na mesma mesa, deu-lhe uma revista recente, fechou-se com ele lá dentro, encostou-se à prateleira do D, do E e do F e lá foram eles aprender a ler o amor em cada centímetro de pele, em cada linha do rosto, em cada mistério do corpo. Desta vez falaram mais, mas a menina Julieta não queria muitas conversas. Como saberia ela que quanto mais se fala mais o amor se complica? Punha-lhe o dedo indicador nos lábios e impedia-o de falar. Ela sabia que ele estava a tentar apaixonar-se.

De duas em duas semanas lá voltou o Armindo, toda a primavera e meio verão. Depois falou que emigrava e chorou. Queria levá-la. Ela disse: “só se levares a biblioteca”. Ele não entendeu, mas parou de chorar porque sabia que tinham ambos falado de mais. Já não havia setas imaginárias ligando o olho esquerdo dele ao olho direito dela e o olho direito dele ao olho esquerdo dela. Estavam as coisas neste pé: ela ficava, ele partia e o que houvera entre eles sobreviveria ainda como memória às primeiras chuvas. Ele disse que já estava a passar a pasta a um colega e que passaria a dizer-lhe adeus uma última vez antes de abalar para a América. Ela, com o mesmo sorriso de sempre (apenas com uma ligeira sugestão de que era um sorriso segurado numa linha do canto da boca) disse que sim, que passasse.

Ele passou. Trazia o colega. A menina Julieta, sempre atarefada com as suas coisinhas, olhou-o e olhou o colega. Disse-lhe adeus, um adeus sentido mas já resignado, enquanto sentia, de novo, as setas nos olhos ligando-se aos olhos pretos do colega do rapaz.

De duas em duas semanas, o colega do rapaz passava na biblioteca à hora de almoço e a menina Julieta fechava-se por dentro com ele. Correram as prateleiras todas. A coisa tornou-se um hábito. Mas, desta vez, em chegando ao Z, a menina Julieta hesitou antes de regressar ao A.

E, já depois de esquecidas as primeiras chuvas, a menina Julieta dava por si a pensar se haveria na América alguma biblioteca como aquela.

Autor:Eduardo Cintra Torres
Estoril, 2002-3

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A Bruxa (fantasia)

Todo mundo conhece a Bruxa. Ela mora num cantinho da floresta. Dizem que sua casa, nos dias de tempestade, costuma atrair todos os raios para si. Acho que é seu jeito de salvar as árvores para que não queimem e morram e a contrapartida da Mãe Natureza é lhe aumentar os poderes.

Outro dia, ela estava apanhando algumas folhas para fazer uma infusão e encontrou uma moça desfalecida no meio do mato. Ajeitou a moça nos seus braços e começou a conversar com ela. Uma conversa estranha, de bruxa pra desmaiada:

-Vem aqui, filhinha, volta os teus olhos para o claro.

As nuvens se abriram e deixaram passar um raio de sol.

– Ouve a canção, filhinha, abre teus ouvidos para as notas.

Um vento brando começou um sussurro nas folhagens.

– Deixe o sangue correr nas veias, filhinha, ele está com pressa.

Umas gotas de chuva começaram a cair lentamente.

– Abra a porta do seu coração, filhinha, estão batendo lá fora.

Um trovão se fez ouvir, suave, longínquo.

E mais outro, mais outro, mais outro, até toda a floresta acordar.

As folhas reluziram de limpas, as flores se abriram por um instante, a erva daninha se acalmou, a terra, abençoada terra, perfumou a tudo com seu cheiro de molhada, os bichinhos saíram pra brincar e o céu todo encantado, se abriu no seu azul mais lindo e deixou o sol brincar também. E ele, fez o que sabe fazer, secou as folhas, calou o vento, abrigou os animais, e acariciou o rosto da moça.

Contam que a moça saiu da floresta e encontrou os que a estavam procurando. Já estavam sem esperanças de encontrá-la; uma moça sozinha e perdida por tantos dias… Quando perguntaram se estava ferida, disse que não, que estava se sentindo muito bem. Que não se lembrava direito do que tinha acontecido, nem de como havia se perdido do seu grupo, mas parece que tinha tropeçado e depois havia adormecido e sonhado um sonho bom.

– Com o que você sonhou?

– Sonhei que estava num lugar muito quieto, de paz, sentia que flutuava, mas alguém me puxava devagarinho para baixo. Depois o lugar todo ficou mais lindo, com música, perfume, pássaros e eu me senti feliz e protegida porque estava sendo embalada com muito amor, muita ternura… e acordei quando vi que estava nos braços de minha mãe…

Autor: Najah DL

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A Cigarra e a Formiga (fábula)

A cigarra, sem pensar em guardar, a cantar passou o verão.

Eis que chega o inverno, e então, sem provisão na despensa, como saída, ela pensa em recorrer a uma amiga:

sua vizinha, a formiga, pedindo a ela, emprestado, algum grão, qualquer bocado, até o bom tempo voltar.

“Antes de agosto chegar, pode estar certa a senhora:
pago com juros, sem mora.”

Obsequiosa, certamente, a formiga não seria.

“Que fizeste até outro dia?”
perguntou à imprevidente.

“Eu cantava, sim, Senhora, noite e dia, sem tristeza.”
“Tu cantavas? Que beleza!
Muito bem: pois dança agora…”

Do livro Fábulas de La Fontaine, 1992.

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A convergir para zero (conto de ficção)

“Tanta gente,
tantos enredos
até ficarmos para sempre
quedos!
Para sempre? Não!
Que outros (mínimos) seres
já trabalham na nossa remoção.”

Alexandre O’Neill, De ombro na ombreira

De tudo o que se dissera e não dissera, pouco restava. “Pouco” era aliás, de todas as palavras que ali se acotovelavam, a que mais se ouvia. Todos toleravam os sopros de todos os outros, de insonoros que eram, e a mudez, pactuada sobre sangue de ninguém, não era capaz de mais que isto: o pouco crescia.

À saída, houve aqueles para quem a resposta mais natural foi acender um cigarro e gostar de fumá-lo. Os que não fumavam, tiveram pena. E a primeira baforada teve o efeito vaporizante que outro alguém ainda tentou obter de um rebuçado de mentol e eucalipto. Depois, quando o chuvisco quase tão inócuo como os poucos pensamentos conseguidos resolveu dar uma de toró, os sete ou oito pontos incandescentes – que a cada movimento dos braços ou das mãos iam ensaiando passos de dança – pareciam formar a única equipa suficientemente corajosa para fazer face às bátegas. Há algo de quixotesco em fumar à chuva no fim de um velório.

Nunca largando a mão pequena e desenhada cujos dedos frios a rapariga friccionava nos seus, foi impossível à noite evitar-lhe aquela interpelação.

– Manel…

– Então, meninos, onde é que se vai?

Esta frase de Manel teve mais expressão do que qualquer outra até aí, embora não fosse necessariamente dita com o ar de quem pergunta “então, meninos, onde é que se vai?”. O sucedâneo de sorriso que se instalou nos lábios dela não descurou isso, e o que tinha falado primeiro puxou longamente o fumo ao cigarro, que tinha a particularidade de ser dos de enrolar, e retomou:

– Manel, falta a…

– Meteu-se num táxi e foi para casa. Tudo em ordem.

Nova passa. Cofiou a barba, apertou com mais força a mão da outra, que por tentativas ia estreitando o gesto, e fixou-a brevemente porque sabia que ao fazê-lo reporia forças. Mas Manel também não o deixou descalço.

– Pode não parecer normal, mesmo nela, mas é assim mesmo. Além disso, a casa para onde ela foi é a minha. Para onde eu, de resto, irei quando voltarmos. Claro que não ia deixá-la sozinha a noite toda, mas agora teve que ser. A sério, ela fica bem.

Ainda a ponderar uma insistência, o outro soprou mais uma nuvem, como se fizesse bolas de sabão. Quando fazia isto, o contorno da cara tornava-se-lhe confortavelmente difuso, como bem percebeu Manel.

– Ao Zero?

Ela abriu a boca para produzir um “vamos?” que a rapidez com que se meteram no carro faria supor bem mais lapidar. Apenas o tempo de Manel tirar mais um Halls do bolso enquanto os dois centímetros de um cigarro enrolado que já dera o que tinha a dar iam a sepultar na alturazinha de água que cobria o passeio. Rest in peace.

Mas nem por isso o Zero lhes pareceu um sítio pior. Suspensão coloidal, dissera um deles noutro dia, com uma ou outra menção de olá emergindo da matriz e a nossa mesa, como sempre, daquele lado. Era quase possível, no desencontro das conversas, da música e dos diversos vapores exalados, deslindar-se um padrão repetido, uma cadência ou ritmo que teorizassem o que em termos empíricos ninguém ousaria contestar: a mistura de tudo aquilo não era desprovida de um significado.

A uma cara diferente do barman, Manel, que de uma forma ou de outra já tinha decidido levantar-se, empreendeu o trajecto. Quando chegou ao balcão, um toque do telefone adiou-lhe a breve troca de palavras, pelo que foi espreitar a rua.

O panorama mantinha-se. Só que agora a chuva a percutir no toldo fazia esforços por se integrar na métrica do barulho de fundo. Não o conseguindo, dava a volta por cima, alongando-se numa celebração em tudo primordial e incausada: a fúria da água a cair. Encostado à porta, de ombro na ombreira, o espectador não sabia bem se aquilo era um espectáculo digno de aplauso. Pois que a questão nem sequer era essa – digno de aplauso seria sempre. A dúvida que ali se lhe pôs foi se não seria melhor descrever a chuvada como imagem de uma plateia, um balcão, um coliseu inteiro que se põe de pé em ovação à mais bela das récitas. E lembrou-se da noite do concerto, que tinham vindo, todos então, acabar no Zero. Ele aflito com o prazo do artigo, o primo da outra com o avião para apanhar às oito e meia, os outros mais stressados ainda, caramba!, mas fiéis ao conluio com os brasileiros, numa de prolongar ao máximo o estar… nisto, contudo, a magnífica peça de jazz para chuva e orquestra até então tapeteada no toldo do Zero sofreu uma mudança brusca: desacelerou e pôs-se um molha-tolos mortiço. A alegoria algo tribal que havia em tudo aquilo deu lugar a um desses momentos em que, tendo levado a adrenalina do Cosmos ao rubro, o intérprete falha o apogeu da obra. “Deus acobardou-se ao piano”, pensou, “e logo hoje que o Nuno até merecia uma canção”. Foi aqui que Manel voltou a ficar triste.

– Desculpe lá o mau jeito – o barman, com quem só lhe faltou chocar, já desligara -, mas olhe, soube há bocado. Ainda não apanhei o queixo…

– Hã, soube? Como é que…

– Ah, olhe, ela mandou dizer para não se preocupar. E para não ter pressa, que está à sua espera. E olhe, hoje a noite fica por nossa conta, está bem?

– Não estão cá os brasileiros – ao regressar à base, a constatação dela, ainda mais branca debaixo do R grande do letreiro, convergia para uma mesma ausência que o fumo do cigarro que o outro voltara a acender -, mas olha, Manel, a tua miúda é impossível. Lembras-te do que ela fez naquela primeira noite em que falámos com eles?

– Estava apostada, sabes como ela é. E ele também não é…ra muito diferente.

– E o brasuca, morto de gozo, quando percebeu que ela estava a olhar para eles: “escuta, moça, você está a divagar? É que a gente prefere dipressa!”

O riso que se seguiu a esta saída do da barba não tinha aspirações a igualar antecessores. E mesmo estes últimos tinham-no sido sem ter de o querer, não seria bonito da parte de Manel esconder aos olhos pretos que o sabia. Foi este um pouco o turning point que os fez, a 180 graus na mesa, pousar o tabaco de enrolar:

– Manel, estava a pensar. Tens mesmo a certeza que ficou tudo bem com ela?

Aqueles olhos podiam ter a cor da noite, mas eram de todos os mais inadaptados. A ponto de obterem alívio da impressão ácida com que o fumo turva a vista. Eram momentos pouco propícios a quem, por detrás da barba e da voz cava, esconde o jogo da solidão inverosímil mas realíssima que se segue a um silenciamento. Quando a fé escasseia para expurgá-lo, como de resto em todos os momentos de rara beleza – e tenha-se aqui a atenção de distingui-la da alegria -, é duro o “mai’nada”. O pior é que, não obstante o quão diferente a angústia dos outros, a coisa pega-se. Por esta altura Manel já aprendera que há males que não vêm por bem, e que não vão a bem. Por muito que. Pelo que só pôde abanar a cabeça enquanto ela acabava à pressa o tríplice-seco.

O carro, outra vez, mas sem chover. Os néons do Zero no retrovisor, só vestigiais, e nem uma palavra. Depois de o irem pôr a casa, unânimes num “até amanhã” que se adivinhava uma provação, semáforos consecutivos tiveram a consideração ou a imensa piedade de ir abrindo o caminho. Até à porta dela, onde ambos saíram do carro para um aveludado de cacimba.

– Bueno, cá estamos. Vá, despacha-te que não se deixa uma senhora à espera – ensaiou ela, embora Manel já estivesse fora do carro.

– E o que isto não deve ter sido para ela. Não a consigo ver sem o irmão.

– Nem eu. Não faço ideia de como é que as coisas vão ser.

– Ouve, estava a pensar, se quiseres ir lá para casa, arranja-se o sofá-cama…

– Obrigado, Manel, mas não. Eu fico bem. Não me digas que já estás como o outro, coitado! Veio-me dizer que estava ali para o que eu precisasse.

– Ainda bem que tomaste conta dele. És mesmo um espanto, miúda.

– Não sou, não. Ainda não caí foi em mim, e não quero estar por perto quando isso acontecer. É este medo, sabes? É que…

– Sei – com que veemência três letras passam uma mensagem – sei. E eras mesmo tu, miúda. Para o Nuno, eras mesmo tu.

Agarrar-lhe a mão pequena e desenhada que tremia, foi preâmbulo para o abraço em que desejou ser capaz de a envolver e resguardar. Choraram os dois. E era a mesma amargura, o mesmo vazio, a mesma anulação ao entregarem-se ao calor um do outro. O mesmo zero. Ao desaparecer pela porta, o rosto dela levava esculpido esse sentimento, e Manel só rodou a chave na ignição quando viu que a luz do quarto se apagara. Depois, depois guiou e sentiu um pequeno mas enorme alívio por saber que ao enfiar-se na cama ia ter quem tomasse conta de si.

Lisboa, Dezembro de 1997 e umas vezes em 1999

Autor: André Rodrigues

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A dança (fantasia)

As mãos dançando pelo ar tão suavemente, transpassando sobre a cabeça e encontrando-se nas ondas que os braços permitiam ela criar. Descendo e subindo com suas suavidez desejada por qualquer corpo merecido de arte. Essas mãos que tanto pediram perdão e renuncias, mãos de quem deseja o inesperado. Mãos de quem não teme quando abrirem a porta. Mãos que se contorcem no ar, em giros mirabolantes indo do mais alto apêndice até o mais baixo globo terrestre, tocando quase o chão como quem acaricia a própria pele. Agora estão ávidas, ativas imunes de serpentes. O som da gaita enérgica que como estilo de valsa, ela transgredia há ouvidos sobre-humanos. Mãos que ouviam a gaita e dançavam, mãos que por enquanto sem corpo, mas mãos que tinham objetivo. Aos poucos encontrou-se com cabelos que os dedos não deixaram de se ater e roça-los como quem penteia os cabelos lentamente. E ao ir de encontro com a raízes da onde vinham os cachos cor de caju, ela conheceu a casa das maravilhosas linhas acajusadas. A gaita gritando em seu ouvido, entorpecida, agradecia agora á nuca pelo merecido encontro casual. Que história maluca, a mão dizia. Desculpe, mas logo não posso ficar, tenho muito a conhecer ainda. Um mundo inteiro para descobrir. Preciso deixar este nosso drinque para mais tarde, disse a mão e acenou um adeus. Descendo avistou uma pequenina montanha que forrava sua face, acariciou-o. E em um local apenas encontrou milhares de outras formas, como seus olhos negros que jaziam docemente e aguçados a música da gaita. Agora tudo dançando, e eles se juntavam na música, os olhos sorriam e brilhavam cintilantes. Como uma orquestra, eles se comprometiam a entrar em harmonia. Enquanto os olhos faziam o dó, as mãos prevaleciam no lá.

Deslizando pela face e salientando todos os traços. Até se encontrar com os finos lábios que se entreabriam e fechavam cantando e soprando para o ar sua energia e sugando mais energia para continuar dançando. Um único instrumento a boca, e capaz de fazer todas as notas.Aqueles lábios finos e umedecido com a cantoria.

Dançando…Dançando…Disse tchau a cabeça e ela se encontrou os ombros que se mexiam como um rebolar de cintura. Adeus as mãos disseram e foram para a cintura.

 Que giravam e dançavam rebolando e paradas as vezes. Um junção de contornos. E então as pernas ouviram ao longe um som contagiante que vinha de cima. Inconcientemente motivou seus companheiros a baterem sobre o chão. As junções se locomoviam de lugar sem mesmo mudar de local. Tudo andava, corria, tudo voava! As pernas pergutaram as mãos o que ocorria. E elas lhe disseram: Se desleixe meninos!

 Aqui não há regras nem perfeições, há um turbilhão de energia! Aqui não há normas, nem pensamentos. Aqui não há cérebro, ele está dormindo. Quem comanda agora, somos nós!

As pernas não esperou nem segundos para se contrabalancear para os lados e se dislocar, pulando e agaixando, mosntrando a cintura que não parava de dançar. As mãos deslizando por todas as formas e cores. A cabeça subindo e caindo com os cabelos longos acajusados. A gaita berrava para todos da baile. Que perfeição. Ninguém ali era perfeito, mais com a união tudo se tornava perfeito. Eles ultrapassando leis e periódicos.

 Arcados, lateral, direita…Agora esquerda…Balançando…Balançando…As mãos pendendo a cabeças, segurando os pés miúdos, segurando a cintura, abrindo caminhos para as costas, rodopiando com as pernas, firmando com os pés. E todos mal se queixavam de dor. Ali não havia dor, ali havia apenas uma pura e doce dança. Dança magnética, que puxava e arrastava tudo ao redor. Era como se o quarto inteiro rodopiasse e dançasse junto com todos. Estavam todos com convidados e sem convites.

 Eles não se continham, se remexiam! Ah…Que pura beleza a arte de dançar, pouco importando o comprometimento com sua significação. E todos foram se conhecendo assim, em uma sala de bar. Dançando…Dançando…

 _E é assim que eu vivo, sem comprometimento algum.

 _ Capaz! Duvido que não se apaixone sequer por um homem lindíssimo, destes que vemos em televisão.

 _ Isto é paixão. São paixões sua tola! Nada passa de simples paixões, assim como hoje muda para o amanhã e assim vai. Nada continua o mesmo. Um dia…Há de ter um fim.

 _ E como vive nessa inconstância? Não tens medo de ficar só? Abaixe um pouco o som por favor.

_ Sim claro. Espere só esta música ter fim. Seria horrível desligar o som, sem ouvi-la até o final é quase que um crime! Mas o que havia me perguntado? Ah, claro, a inconstância…Não temo não. Porque deveríamos teme-la? A morte é uma inconstante infinita. E aliás…A vida é uma inconstate finita. Os cálculos matemáticos por exemplo, não passam de suposições, é tão grande estas ilusões que para resolvermos muitos cálculos, devemos acreditar fielmente que aqui, não tem gravidade alguma.

 _ Assim você me deixa perder as esperanças com Samuel.

_ Samuel. Este é seu nome hoje, amanhã você irá enxe-lo de apelidos.

_ Não! Odeio este tipinho de gente. Que vive apelidando com: meu chuchusinho, mel, coquinho, doce de goiabinha…Esquece! Será sempre…Samuel.

_ Samuel.

_ Samu- EL!

_ Certo.

_ Desligue o som por favor!

_ Como você se queixa com tudo! Se queixa disso hoje, e queixará dele amanhã.

_ Você é realmente uma anti-homens né?

_ Para que te-los?

_ Ama-los?

_ Para isto tenho meu cachorro.

Disse a boca agora nunca mais enclausurada. As mãos aumentaram o som, e voltaram a bailar com o resto do pessoal do bar.

AutorRosa Maria

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A Espada de Cristal (conto de ficção)

De um só golpe matou dois homens selvagens, grandes e peludos como todos os das tribos dos mares quentes. Ela desferira o golpe com força demasiada, se esquecendo que acabara de colocar uma lâmina nova em seu bastão. Naquele mundo os metais oxidavam muito rápido e as lâminas eram quase descartáveis. Sua melhor amiga, SINIEM, acabava de chegar ofegante e gritando. – KILA! Tudo bem!? Estes foram os últimos? 

 – Sim. – Respondeu a guerreira, ainda impressionada com a potência do ataque que desferira, finalizando uma luta que ela pensara que seria árdua, e completou. – Acho que descobri um golpe novo.

Em torno delas dezenas de corpos jaziam mortos, muitas de suas colegas, guerreiras de várias idades, pereceram naquele confronto insano promovido por hordas de homens brutais das tribos inimigas. Mas não fora apenas pelo número superior que eles quase arrasaram o exército das LIANS, guerreiras das tribos matriarcais que promoviam uma revolução feminista em toda extensão conhecida daquele mundo. O massacre se devera aos Astrais, que invadiam os corpos de guerreiros medianos e os tornavam combatentes terríveis, ou mesmo possuíam inocentes e os forçavam a lutar, e por vezes conseguiam dominar até mesmo as guerreiras menos treinadas voltando-as contra suas próprias companheiras. Matava-se a vítima da possessão, e de nada adiantava, o Astral migrava para outro corpo.

 Finalmente as feiticeiras do grupo acabaram de eliminar os últimos Astrais, só elas podiam faze-lo com seus poderes mentais, e a batalha pode prosseguir no justo corpo a corpo, e a superioridade técnica das LIANS pôde se revelar. Elas eram muito bem treinadas, normalmente maiores que os homens das tribos inimigas embora esses em geral fossem mais fortes e violentos, o que elas podiam compensar com maior destreza e agilidade de seus corpos aperfeiçoados pela Magia Sexual que vinha revolucionando suas tribos e permitindo que as mulheres ficassem cada vez mais poderosas, resistentes, inteligentes e fortes.

 Era esse o pomo da discórdia. Com a Magia Sexual ensinada pelos “Emissários de Além do Céu” as mulheres vinham assumindo o poder cada vez mais rápido nas tribos mais próximas das terras frias, suas sociedades prosperavam, as doenças desapareciam, a ordem social se aperfeiçoava sob o comando das feiticeiras. Os homens destes grupos em ascensão longe de lamentar suas gradativas perdas de autoridade na verdade comemoravam, não só pela beleza crescente que acompanhava o aperfeiçoamento corpóreo de suas mulheres, e também deles próprios, mas porque também não resistiam às sedutoras feiticeiras, cuja famosa beleza percorreu o mundo atraindo a cobiça de tribos bárbaras ainda acostumadas a guerras de extermínio, pilhagens, saques e estupros das mulheres das tribos derrotadas.

 Havia também feiticeiros, muitos dos quais se aliaram às tribos feministas, mas os das tribos mais próximas às terras quentes não estavam dispostos a abrir mão de suas sociedades androcentristas segundo eles determinadas pelos deuses. De potencial inferior e cada vez mais acuados pelas feiticeiras, pelas LIANS e pelos guerreiros e feiticeiros homens aliados a estas, os bruxos das terras quentes apelaram para uma tática terrível, um feitiço que fazia com que os espíritos de certos guerreiros ao serem mortos não descessem ao interior da terra, e sim ficassem vagando como Astrais e possuindo corpos de outras pessoas vivas, controlando-as e continuando a lutar através delas.

Com esse recurso eles saíram de uma posição de recuo e estavam prestes a virar a guerra a seu favor, pois os Astrais só podiam ser destruídos pelas feiticeiras, que eram poucas, e as guerreiras nada podiam fazer.

 SINIEM e KILA eram amigas de infância, nascidas quase no mesmo dia já sob os benefícios da Magia Sexual que as fez crescer fortes e saudáveis, e mais rápido que as crianças de antigamente. Após vencerem a última batalha voltaram à sua tribo, que crescia tanto que as construções de pedra branca já se perdiam de vista, colorida pela luz da imensa lua esverdeada que tornava a noite muito mais clara que o luar mais forte de nosso planeta Terra. 

 Aquele mundo, que elas chamavam de SAMTAM, e que também significa algo como terra mas com uma conotação ainda mais feminina, possuía 3 grandes astros celestes. O sol era chamado por um nome muito parecido com a palavra que usavam para se referir a “pai”, e além da lua verde havia uma minúscula lua negra que porém refletia a luz solar como se fosse uma esfera de metal. Talvez por ser menor que a nossa Terra e ter uma curvatura mais acentuada, seus habitantes de algum modo sempre souberam que seu mundo era curvo, e sabiam que conheciam pouco de sua extensão. 

 As guerreiras tiveram tempo para descansar e se encontrar com suas famílias. Os homens em sua tribo e várias outras vizinhas já começavam a ficar para trás em estatura e força física, mas ainda lideravam grande parte da sociedade inclusive exércitos. KILA e SINIEM foram homenageadas mais uma vez pelo bom desempenho em luta. Em parte por realmente terem se aperfeiçoado, e parte porque mais de 3/4 dos guerreiros da região terem perecido em combate, elas passaram a integrar o mais respeitado grupo de guerra e foram convocadas para uma importante reunião com as feiticeiras. Uma delas, a líder do local falou para uma ampla platéia da qual muitos ainda mal entendiam os fatos. 

 – A nossa situação é crítica. Em menos de uma estação (o que equivaleria a 115 dias terrestres) perdemos nossa hegemonia e nossa vantagem, e se antes nada parecia ser capaz de deter nossa revolução e a chegada de uma nova era de paz e justiça, agora nossas expectativas começam a dar lugar ao desespero. Os feiticeiros das terras quentes violaram todas as leis divinas e criaram essa aberração mística que nos ameaça. Cada guerreiro selvagem enfeitiçado, ao morrer, deixa seu Astro Corpo na dimensão dos vivos, se recusando a voltar ao Espírito de SAMTAM, e com esse Astral pode continuar lutando, tendo a vantagem de ser insensível a qualquer arma, e usando vidas alheias para seus objetivos. Não sabem que com isso estão arruinando suas vidas futuras, e nem os feiticeiros parecem se preocupar do mal que estão causando ao Espírito de SAMTAM, e que serão punidos por isso. Mas até lá, já podem ter destruído todos os nossos exércitos e conquistado todas as nossas nações. 

 – Não podemos fazer nada! – Disse um dos velhos generais.
– O que pode uma lança contra um Astral!? – Afirmou uma guerreira mais jovem.
– Um deles me possuiu uma vez, só mesmo uma feiticeira pôde removê-lo de mim e destruí-lo. – Afirmou outro relatando sua amarga experiência.

SINIEM olhou com discreta decepção. Um já tentara possuí-la também, mas seu autocontrole frustrou-lhe o intento e o Astral migrou para o corpo de um de seus colegas, uma rapaz que ela gostava, e com muito sofrimento ela foi obrigada a ferir-lhe gravemente para detê-lo, mas o guerreiro Astro Corpóreo migrou novamente, e ela acabou tendo que matar companheiras até que uma feiticeira o eliminasse. Ela achava que todas as guerreiras já deviam ser capazes de resistir às incorporações.

 – Convocamos uma reunião de emergência com feiticeiras de várias nações e estamos estudando uma solução para o problema. Deverei ir pessoalmente até a grande tribo de BIEMARLIA, e por isso precisamos montar uma escolta pequena e apenas de guerreiras que comprovadamente resistam aos ataques astro corporais de nossos inimigos. – Concluiu a feiticeira olhando diretamente para SINIEM assim como para outras guerreiras que também não cediam às investidas dos Astrais, e que posteriormente foram obrigadas a lutar contra suas própria companheiras. 

 KILA nunca tinha tido a experiência, mas por ser muito parecida com sua amiga, integrou o restante do pequeno grupo de 11 guerreiras mais um jovem guia que acompanharam a feiticeira na missão que partiu ao anoitecer do outro dia. Era mais seguro viajar a noite ainda que esta não fosse tão escura, além do que era bem menos quente.

 A maioria ia a pé, enquanto a feiticeira e mais um grupo de 4, que se revezava com outros grupos, iam a bordo da carruagem totalmente coberta de lona branca e puxada por um forte mas lento animal quadrúpede. Nada havia equivalente a cavalos naquele mundo, embora eficientes os animais de tração não serviam para deslocamentos rápidos e muito menos para batalhas. 

 Foram 3 dias até alcançarem BIEMARLIA, uma nação tão extensa que SINIEM e KILA não acreditavam no que viam, mais de 150 mil habitantes! A reunião durara dois dias inteiros contando com a presença de dezenas de feiticeiras e alguns feiticeiros, ao fim dos quais a pequena comitiva retornou para a casa, mais uma vez partindo no início da noite. 

 KILA olhou para o céu e viu os XINGS, grandes animais voadores, e ficou invejosa das distâncias que eles podiam cobrir em menos de um dia enquanto elas caminhavam lentamente em torno de uma carruagem ainda mais encoberta do que antes. 

 – Será que um dia poderemos voar com esses animais. – Perguntou à colega. Uma outra guerreira disse. – Um rapaz de uma tribo perto das montanhas diz que certa vez viajou agarrado na perna de um GRIL. – Comentou sobre um boato pouco creditado a respeito dos imensos animais alados, dezenas de vezes maiores que os XINGS. 

 Foi sorte que elas estivessem olhando para o céu e divagando sobre as selvagens criaturas aladas, pois com isso avistaram rapidamente os silenciosos e velozes bumerangues que cortavam o ar em sua direção assim que a feiticeira deu o grito de alarme.

 Uma das lâminas partiu uma pedra ao meio ao atingir ao chão e outra inutilizou a lança de uma das guerreiras. Duas atingiram a lona da carruagem e outra causou o maior prejuízo, ferindo o animal de tração. Mas logo uma chuva de bumerangues surgiu de trás de uma colina, acompanhado por um grupo de homens selvagens. 

 Eles eram bem mais numerosos, ainda mais depois que os bumerangues atingiram em cheio uma das LIANS, matando-a instantaneamente, e outras duas foram feridas. KILA e SINIEM porém, assim como suas companheiras, logo demonstraram porque eram respeitadas como guerreiras.

KILA rolou no chão catando dois bumerangues e os usando para matar dois oponentes antes que eles sequer se aproximassem para usar as lanças, e isso porque as lâminas giratórias eram bem mais difíceis de serem usadas na horizontal. SINIEM assustou os adversários ao matar rapidamente 3 oponentes que mal se aproximaram dela. 

 As outras guerreiras não fizeram por menos e até o guia se revelou um hábil atirador de pedras com uma lançadeira que produzia um tiro mortífero. Não demorou para que os homens selvagens vissem que mesmo estando em número bem maior não seria fácil dominarem as LIANS e capturarem a feiticeira, o que geralmente tentavam. 

 Mesmo assim, 3 das guerreiras tombaram, e mais homens selvagens chegavam quando finalmente a feiticeira saiu da carruagem e erguendo os braços para o céu fez uma luz ofuscar os agressores e logo em seguida fez lanças e bumerangues caídos flutuarem e se lançarem contra os oponentes. Em segundos ela matou vários deles, o que os forçou a recuar, até que então um dos guerreiros, por sinal o que se destacava no grupo pela ferocidade, caiu morto. 

 Um minuto depois o jovem guia subitamente se virou contra a feiticeira e disparou uma pedra. A hábil mulher, que era bem mais idosa do que aparentava, deteve o ataque, no momento exato em que uma das LIANS nocauteou o rapaz, mas de pouco adiantou, pois logo em seguida uma guerreira foi atacada pelo Astral. Ela resistiu, tentando impedir a incorporação, mas estava muito mais difícil que na ocasião anterior em que sofrera ataque semelhante, o vulto luminoso do Astral se infiltrava mais e mais.

 – Esse é muito mais poderoso. Chega a ser visível! – Comentou a feiticeira, e completou. – Para trás! – Lançando-se em frente à guerreira que lutava para não ceder o controle. A feiticeira se concentrou e visualizou o Astral que tentava se sincronizar com a aura da vítima, sintonizava a vibração do astro corpo hostil quando de repente este fez a guerreira atacar. Mas a feiticeira, tão ágil quanto as guerreiras, se desviou do golpe e uma outra LIAN conseguiu desarmar a colega. 

 A feiticeira então se preparava para deflagrar a energia mental que destruiria o Astral quando um bumerangue a atingiu entre os seios, num raro momento onde a concentração a prejudicava a percepção do ambiente a sua volta. Ela caiu ao chão no mesmo momento em que o Astral abandonou o corpo da guerreira e imediatamente possuiu a outra, que num momento de distração com o que acontecia, não conseguiu evitar que seu braço se movesse e atingisse em cheio com a lança à colega que acabava de voltar a si. 

 A guerreira tentou se controlar, mas o Astral era muito mais poderoso que o normal, e ao ver a feiticeira caída, os homens selvagens restantes voltaram a atacar. O jovem guia ao se recobrar impediu que KILA fosse morta pela guerreira possuída, ao atingi-la na cabeça com uma pedra. Mas como era de se esperar o vulto luminoso migrou para outra guerreira, que desta vez mostrou-se mais resistente à investida, fazendo-o desistir e entrar no corpo de KILA. 

 SINIEM acabava de matar o último homem selvagem que restava de pé, mas o estrago fora grande. Além dela apenas 3 outras guerreiras estavam em condições de lutar, além de KILA que não conseguia mais resistir ao controle do Astral, e finalmente cedeu quando o vulto luminoso mergulhou completamente no corpo da guerreira tornando-se invisível. 

 KILA era muito hábil, tinha pernas compridas e poderosas e seus golpes eram amplos e certeiros. Ela rebateu duas pedras que o rapaz tentou acertar nela, e a segunda foi direto de volta a cabeça dele causando desmaio instantâneo. SINIEM e suas companheiras evidentemente não queriam ferir a amiga, e tentavam de toda a forma possível contê-la sem machucá-la, na esperança de que o Astral se cansasse e desistisse, ou que outra feiticeira viesse no pequeno grupo aliado que surgia no horizonte, ao mesmo tempo que outro grupo hostil surgia no horizonte oposto. 

 – SINIEM… – Chamou a voz debilitada da feiticeira. – SINIEM… Venha cá. – Insistiu a mulher que já dava sinais de agonia. Com muita relutância SINIEM correu e se agachou junto à feiticeira, no mesmo momento que suas companheiras puseram KILA a nocaute, mas como era de se esperar, o Astral migrou para outra LIAN, que embora tentasse resistir ainda conseguiu ferir gravemente uma colega, e agora apenas uma guerreira tentava conter a companheira sob controle do inimigo Astro Corpóreo. 

 – SINIEM… Ele é muito poderoso… Vo…Você precisa pegar a… Arma. – Disse a feiticeira, que apesar da voz baixa e relutante dava à guerreira explicações necessárias. Enquanto as duas LIANS lutavam entre si o grupo de homens selvagens e um outro grupo de LIANS se encontraram e iniciaram novo e feroz combate. Mais uma vez as guerreiras, mas rápidas e mais hábeis, levavam vantagem, até que outra delas foi possuída.

 Dois Astrais brilhantes agora começavam a virar o combate contra as guerreiras, uma deles possuía uma jovem que não ofereceu a menor resistência ao controle, e nesses casos o dano costumava ser permanente, mesmo que o Astral se ausentasse, a guerreira não mais sobreviveria.

Não obstante ela lutava com uma ferocidade assustadora, em segundos matou duas LIANS e atacava outra que fazia de tudo para resistir à investida sem nem tentar se conter, tinha que lutar de qualquer jeito, mas caiu ao chão ferida e o corpo dominado da colega se preparava para desferir-lhe o golpe fatal quando de repente outra guerreira pareceu atingi-la pelas costas. A pobre LIAN dominada estremeceu e tombou, mas algo diferente aconteceu. 

 Normalmente “olhos” não treinados não viam os Astrais, eles não eram fisicamente visíveis mas sim perceptíveis ao supra sentidos que nas LIANS era cada vez mais desenvolvido. Mas esses tinham tanta energia que qualquer pessoa com um mínimo de terceira visão podia ver, a guerreira caída viu quando o Astral parecia agonizar como se sentisse o golpe que derrubara sua vítima, e então viu ele se desfazer numa nuvem de luz como se tivesse sido atingido por uma raio mental das feiticeiras. Mas não havia feiticeiras. De pé, havia apenas SINIEM, empunhando uma estranha arma. 

 Tinha uma punho curto em comparação com a lanças, cabia as mãos juntas, e uma comprida lâmina transparente ligeiramente brilhante. Era uma arma nunca vista. Só então SINIEM realmente acreditou no que a feiticeira dissera. 

 – “No cristal… Estão armazenadas energias mentais desintegradoras de Astro Plasma… Que se liberam em contato com Astro Corpos… Pelo simples movimento.” – Lembrou a LIAN e logo teve que se defender de um homem selvagem, impressionada com o a resistência da lâmina de aparência frágil, e sobre a qual ela questionara a feiticeira. 

 – “Mas senhora! Cristal não é páreo para…” 

 – “O cristal é frágil SINIEM… Mas a magia nele… O torna mais resistente que qualquer metal.” – E com um só golpe SINIEM seccionou o tronco do oponente que caiu em duas metades. 

 – “Você tem uma habilidade… Bem desenvolvida SINIEM… Pode ver… Sabe sentir e é forte… Use a arma… É nossa única chance.”

 Ao defender um golpe de lança esta se partiu e no contra ataque SINIEM matou outro homem selvagem. Agora ela avançava contra o Astral que ainda dominava sua companheira. – Deixe comigo! – Gritou para as outras que tentavam deter a colega possuída. 

 – “A arma corta com muita precisão… Mas a energia mental liberada alcança um pouco além da lâmina.” – E lembrando disso SINIEM deu um golpe superficial que cortou e arrancou a armadura da LIAN, mas imediatamente o vulto luminoso saiu de seu corpo e numa expressão de pânico o Astral se desintegrou. 

 As LIANS já recuperavam a vantagem e logo os homens selvagens sobreviventes estavam fugindo, mas quando KILA começava a se recuperar, outro vulto, desta vez ainda mais luminoso, invadiu seu corpo. 

 As guerreiras olharam impressionadas, nunca viram uma Astral tão brilhante. KILA se levantou com uma aura em torno do corpo e sem armas derrubou 3 LIANS com ferocidade incomparável. 

 – Você não vai escapar… LIAN! – Disse numa voz irreconhecível e ameaçadora. E se movendo como um raio partiu para cima de SINIEM que por pouco não foi atingida por um golpe mortal. E então percebeu. Aquele era o Astral de um feiticeiro! 

 Ela tentou vários golpes mas o corpo de sua amiga mais o poder do bruxo combinavam-se num oponente terrível, que em movimentos extremamente rápidos já matara 3 guerreiras, e agora num salto estava no ar, descendo sobre SINIEM que caíra no chão desnorteada. 

 Num movimento quase desesperado ela ergueu a espada como se fosse proteger-se, mas assim que o inimigo se aproximou ela girou a lâmina de cristal num amplo círculo que criou um anel de energia, o Astral tentou desviar o corpo mas era tarde, parte da energia o atingiu expulsando-o imediatamente, e deixando-o desorientado. 

 SINIEM tocou o corpo de KILA, que tremia e tinha convulsões, e parecia agonizar, então ouviu a “voz” do Astral. – “Não pode nos deter.” – E com ódio, ela se ergueu e o desafiou. – Tente me pegar seu maldito! – E apontou-lhe a espada. O Astral mergulhou em sua direção, mas é óbvio que já havia percebido o poder do cristal energético, e numa manobra inusitada mergulhou no solo, e repentinamente surgiu por baixo de SINIEM entrando em seu corpo, causando-lhe um choque e fazendo largar a espada. 

 Ela sentiu o fortíssimo assédio espiritual, muito mais intenso do que das tentativas anteriores que sofrera. Resistiu enquanto suas companheiras se afastavam dela temendo que se possuída, e com aquela arma a seus pés, fosse invencível, e dezenas de LIANS faziam um círculo em torno dela, pois quase não mais restava homens selvagem em combate. 

 Para SINIEM o mundo porém sumia, só restava ela e uma escuridão a sua volta. O Astro Corpo já lhe usurpava os sentidos, isolando sua mente da realidade exterior e agora tentava controlar seus músculos, mas SINIEM lembrou das palavras da feiticeira. – “Você é forte SINIEM… Concentre-se, e ninguém poderá dominar você.” – Lembrando disso, num esforço mental e físico intenso exorcizou o Astral de seu corpo com um grito ensurdecedor. 

 Caiu de joelhos ao chão quando o mundo voltou a lhe ser perceptível. Nem precisou olhar para o Astral para saber onde ele estava, era como se o contato lhe tivesse criado uma sintonia com o mesmo. Ele voou para o alto, se para fugir ou para possuir outra guerreira, SINIEM não estava disposta a saber. Pegou a espada e arremessou no ar como um bumerangue. 

 Sua percepção ainda distorcida, lhe fazia ver a cena como que em câmera lenta, a arma girando com sua lâmina cristalina deixando um rastro luminoso e atingindo o astro corpo em cheio fazendo-o brilhar e entrar em colapso, e explodir num onda brilhante. 

 A espada caiu com a lâmina fincada na terra, instantes depois que as LIANS aniquilaram os últimos componentes que se recusavam a bater em retirada.

 Vacilante, SINIEM caminhou lentamente até a arma, hesitou um pouco e então a retirou da terra. A lâmina saiu limpa, uma força repulsora afastou a sujeira. 

 Então a guerreiras recém chegadas abriram caminho para sua feiticeira líder, que se aproximou de SINIEM e já entendia a situação. Cumprimentou suas colegas, requisitou a espada, a LIAN a atendeu prontamente, examinou-a e disse: 

 – Bem… A arma deveria ser guardada em segredo até passar por uma série de testes. Mas parece que este teste já ocorreu.

 Subiu então na carruagem trazendo SINIEM consigo, e lá em cima anunciou: 

 – LIANS! Recuperem suas esperanças! Há pouco estivemos a beira de retroceder, e nosso sonho de uma SAMTAM harmônica e sublime esteve ameaçada. Mas agora tudo irá mudar! Neste momento já estão sendo produzidas centenas destas armas e com elas qualquer guerreira poderá destruir os maléficos Astrais que ameaçam o Espírito da Terra! Agora nada poderá nos deter! Nossa revolução marchará até os confins do mundo! 

 Então SINIEM, intuitivamente, ergueu a espada ao alto, contra o céu já azul escuro, e todos puderam ver quando a lâmina pareceu brilhar ainda mais, e por um instante, tiveram a visão de um brilhante e magnífico futuro.

Autor: Marcos Valério XR

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A espinha (fantasia)

Estava ali parada em frente ao espelho, convicta de que aquela espinha iria acabar com todas as possibilidades de que aquele final de semana fosse perfeito, justo na sexta-feira mais importante de sua vida, a festa do Beto. Havia esperado a semana inteira por aquele momento, escolhera tudo, nos mínimos detalhes, a roupa, maquiagem, grampos de cabelo, lingerie, e até o perfume, tudo que o fizesse cair inteiro em seu colo, só queria a sua atenção, nem que fosse só uma noite, mas queria provar para si e para as outras, principalmente a Karen, que ela era capaz de conseguir ficar com Otávio, o mais cobiçado do primeiro ano! 

Este era seu objetivo, sua meta, alguns minutos de atenção dele, e os olhares invejosos de todas as que duvidassem dela. Tomou seu banho, mais longo que de costume, um banho de corpo e alma, olhava seu corpo pelo espelho esfumaçado do banheiro, a puberdade tardou para ela, enquanto suas amigas tinham os seus seios fartos e volumosos, os dela ainda eram miúdos quase imperceptíveis. Era muito magra, esquálida, esguia, mas tinha uma postura um tanto quanto desengonçada, senti-se uma garça com sua estrutura fina. Mas leu em um livro de auto-ajuda que deveria ser menos dura e crítica e aceitar-se como era. 

Terminou seu banho, animada, acreditando que sua noite ainda poderia tocar a perfeição, enxugou os cabelos, ajeitou-os com um modelador de cachos, e enquanto vestia seu sutiã, sentia saudades de ser criança e correr nua entre os adultos sem ser notada, agora parecia que todos os olhares se voltavam para ela. Eram tantos problemas com os quais não contava quando era apenas uma garotinha, se o absorvente fica saliente sob a calça justa, a maneira de se sentar com uma saia mais curta, ou como cuidar se seu tomara-que-caia. 

O corretivo de sua mãe resgatava a esperança de ficar linda, aliás, de um corretivo facial dependia todo o sucesso de sua empreitada, delineou seus olhos com cuidado, escolheu um batom, se perfumou, estava pronta para a batalha, era uma nova Ana, mais poderosa, livre de seus cadarços, de seu tênis All Star e de seus moletons frouxos. Estava numa linda sandália que afinal libertavam seus pés e suas unhas carmim, colocou suas lentes de contato, para dispensar os óculos de grau, por trás deles se escondeu por muito tempo. 

A noite podia nem ser tudo o que ela quisesse ou sonhava, mas presenciou em si o milagre da transformação, sua paz amarga que carregava até ali se transformara em confiança para as guerras que ainda estavam por vir, pegou sua bolsa correndo, pois a mãe de Vivian lhe daria carona, mais uma vez se olhou no espelho, gloriosa, despediu-se da mãe com um grito já no portão e foi ser feliz.

AutorLarissa Marques

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A Faca da Ximinha do Balão (conto de ficção)

– Deixa de mania de elegância, menina, só porque esse tal do Martins Guimarães te deu troco no outro dia aí no beco quando tu lhe perguntou as hora. Ele falou só para mostrar tinha relógio no pulso, não foi porque visse agrado em ti. Ele tem mulher e filha candengue, Domingas, e tem muito em que pensar. Só quis mesmo foi que tu visse o relógio lhe deu o doutor e até já não faz tiquetaque nem nada. O Martins tem ele no pulso mas não sabe mesmo para onde aponta os ponteiro, nem sei até se o relógio o doutor lhe deu tem ponteiro ou não. Ele disse a hora certa, sim, mas ele viu mesmo foi na torre onde a gente vê se amanhã chove, ali mesmo ao lado de vocês na rua, o Martins sabia aquela era a hora de o balão da torre descer. Pensavas ele estava te dar conversa, eu vi bem tu andar de peito arrebitado sempre vê ele e de kinhonga bem apertadinha na cinta te ofereceu a dona para esconder o dikovo te fizeram com mau jeito na Samba Grande quando tu nasceu, minha sobrinha, pensavas eu nem dava por isso, logo eu, aka, a Chica do Balão que já vem do tempo do pai-de-umbanda Miguel Kandimba, tu ainda precisa aprender muito, Minguinha. Mas, xê, olha só, eu não falei para zangar contigo, não precisa entornar o borrifador assim na tábua, menina, tu ainda vai queimar essa camisa ou apanhar choque no ferro que nem eu uma vez já faz tempo. Não, Minguinha, eu só falei porque eu conheço esses muadié que nem o Martins Guimarães, que anda por aí de tardinha de fato cinzento lhe deu o patrão, relógio sem ponteiro e óculos que até vidro já nem tem com livro debaixo do braço só para mostrar que anda nos estudo, que vai na escola depois do serviço aprender as letra, tudo porque quer deixar de ser criado de limpar a casa e servir à mesa para passar a ser contínuo lá do banco na baixa, julga só por isso já é doutor mesmo, aiuê, até lembra o outro eu conheci. Sabes quem é, Domingas, esse que anda aí ainda a servir na casa lá de baixo, aquela onde fica o governador quando vem da metrópole, esse cambuta, como chamam a ele, o Mateus, o que põe nome nos bichos, ele mesmo, que chamou Vitória na tartaruga vendeu na dona por cinquenta mil réis, tu sabe porquê, Minguinha, porque é ele chama Vitória nas tartaruga e Ximinha tudo o que é cobra das barroca, sabe? Eu conto para ti a maka dele, a gente tem tempo, tu inda tem para passar toda essas camisa e eu um bué de lençol branco, minha sobrinha, e até é bom eu contar para tu aprender não deve deitar olho em cima de homem casado ou amigado.

“Sempre tu vir um desses como o Martins Guimarães mostrar relógio sem ponteiro tu já sabe, lembra da faca-de-Ximinha. Tu sabe o que é faca-de-Ximinha, não sabe? Tu costuma ir na dissaquela do Cruzeiro, não vai mesmo? Pois então, mâma Chica Aniceto já passou muita vez faca-de-Ximinha na tua língua, de certeza, mas tu não sabe mesmo eu conheci a Ximinha que pôs o nome na faca de kimbanda. Crescemos juntas no Belela e fomos morar na Samba Grande depois que a calema grande engoliu as nossas cubata. Nossos pais continuaram pescadores, embora de pescar muito menos, porque perderam as chatas e, da Samba, os dongos não podem ir tão longe, as nossas mães deixaram as quitandas de peixe e foram fazer serviço de lavadeiras nas casas da praia da Corimba. Mas nós, a Conceição e eu, nós era rapariguinha, nós pôde ir trabalhar na cidade, então a gente veio de lavadeira aqui para estas casas do Balão, que eram novinhas. Ainda não morava aqui este doutor, era aquele conde eu te falei usava um vidro só num olho e no outro nada, ele era bom para a gente, só não dava o vidro do olho para o Mateus que nem o doutor dá os óculos para o Martins, aiuê, a gente até ri destas coisas, mas era bom, dava muita roupa ao Mateus, que era criado da casa. O Mateus contava tudo para nós de tardinha, quando nós subia a rua do Palácio na mesma hora a gente costuma ir agora, a hora de o balão descer da torre onde a gente vê se amanhã chove. Ele ia com a gente até no maximbombo, falava mais com a Conceição, até já chamava ela pelo nome de bairro, Ximinha. Nós apanhava o maximbombo, ele ia embora de livro debaixo do braço, dizia ia estudar mas não ia, ia mesmo era no Hospital ver a moça dele, a Vitória, que trabalhava lá.

“A gente ia muita vez na dissaquela do Cruzeiro, assim como tu vai, só que nesse tempo o kimbanda era o Miguel Kandimba, não era ainda a Chica Aniceto, essa só xinguilava, como a Ximinha. Eu ainda não xinguilava, ficava só a ver, Pai Kandimba punha alfinete no meu cabelo para o calundu não entrar em mim. Depois punha na dicanga tudo o que tu sabe, a benzedura com pemba e ucusso, e recebia o mazaco. Lembro Ximinha era dumbe de Samba Nzundu e o Manuel Cadete xinguilava o espírito de Mutakalombo, que foi seu esposo. No mais nós era todas mulher, não havia tanto xinguilador homem como agora, mas os ilundu, como tu sabe, eram homens e mulheres. A Ximinha era Samba Nzundu, Pai Kandimba passava a faquinha na língua na hora do pelo, ela não gritava nem nada, depois ela dançava na dicanga, xinguilava mesmo, eu via tudo sentada no luando, e então eu via na minha frente todo o musendu de Samba Nzundu.

“Samba Nzundu era uma filha o Ngola Kiluanji kya Samba fez em uma de suas esposas quando reinava na Kissama. Ali perto havia um branco. Chamavam ele de Mutakalombo porque escapou de um jacaré comer ele e diziam até jacaré era cão de guarda dele e fazia tudo ele mandava. O Mutakalombo tinha muito poder, mandava mesmo em alguns jisoba da Kissama. O Mutakalombo quis casar com a princesa Samba Nzundu e foi pedir ao Ngola Kiluanji, mas o rei não deixou. O Ngola Kiluanji kya Samba queria ser amigo dos brancos, mas não daquele, ele queria mandar chamar os padre do Kongo. Foi o conselho lhe deu o ngola-mbole, que era o Mwana Kalunga, e também o kimbanda Muhaidi. Eles até mandaram vir da Ilha de Luanda um menino que falava com as yanda e fizeram dele o Kilamba Kiaxi no lugar de um outro que pensava diferente. Envenenaram o kilamba de antes e ouviram a consulta o Nsanda Kabasa fez às yanda. Os espíritos não queriam o casamento de Samba Nzundu com o Mutakalombo. O Mutakalombo nunca perdoou e mandou o cão atacar a coitadinha. Samba Nzundu foi com as outras no Kwanza encher a sanga de água e aí o jacaré pôs de fora a bocaça e levou ela para o fundo do rio. O povo veio a correr, pediu pela vida da filha do Ngola, teve homem e mulher de calundu que xinguilou Mutakalombo, xinguilaram bué, até o mais-velho Muhaidi xinguilou. Só quando o kilamba Nsanda Kabasa xinguilou também, o ngandu apareceu. Trazia nos dente a menina adormecida do susto, com muito sangue no corpo, mas com vida. Os kimbanda levaram ela para o dilombe, não deixaram ninguém ver as ferida dela. Mas teve gente viu ela de perto, mais-velhos juraram jacaré só mordeu Samba Nzundu no peito e no ana a sonhi porque o Mutakalombo não lhe queria mal, só queria era ter ela para ele.

“O Nsanda Kabasa ficou toda noite com a Samba Nzundu no dilombe, convocou dissaquela e os espíritos visitaram a vítima. Manhãzinha o Nsanda Kabasa se mostrou no povo e disse, a dissaquela acabou, mandou trazerem a Samba Nzundu. Ela veio, nuazinha, ituxi mesmo, Domingas, naquele tempo a nossa gente não andava tão vestida que nem anda agora tu julga o quê, o povo viu ela vinha com as mamas inteirinha e tudo o mais muito perfeito. Aquilo foi obra do Nsanda Kabasa, que era um grande kilamba, e todo mundo ficou contente e quis a Samba Nzundu casasse com o Nsanda Kabasa. O Ngola Kiluanji kya Samba concordou.

“Quando kilamba casa, minha sobrinha, tu não sabe, tu nunca saiu aqui da cidade mas no Kwanza é assim mesmo, quando o kilamba casa no primeiro casamento a noiva não pode ser donzela, tem que saber daquelas coisa melhor que o homem para fazer ele ter prazer. A Samba Nzundu foi do Mutakalombo, depois do milagre do Nsanda Kabasa era como kilumba mesmo. Devia ser primeiro de outro kilamba ou de um kimbanda, depois do soba e só depois do noivo. Ali não havia soba mas o ngola-mbole fazia as vezes. Foram buscar a Samba Nzundu para levar ela ao Mwana Kalunga em um lugar escondido, mas ela gritou, não queria, só gostava mesmo era do Nsanda Kabasa. Primeiro se deitou com ela o kimbanda Muhaidi, ela teve que suportar calada o mais-velho, depois veio o ngola-mbole.

“A moça estava preparada para o casamento com o Nsanda Kabasa, meteram ela na dibata com uma mais-velha. A Samba Nzundu pediu mukolo de mateba, queria morrer enforcada, já não queria casar com aquele ela gostava, agora depois que o Mwana Kalunga e o velho Muhaidi tiveram ela. A mais-velha não deixou, a Samba Nzundu empurrou ela, bazou dali até no Kwanza.

“Manhãzinha cedo as água do Kwanza estava vermelha, vermelha de sangue, com muito jacaré de roda. Uns pensam o ngandu comeu a Samba Nzundu, tem outros dizem não era ela, era outra, porque a Samba Nzundu se juntou com o Mutakalombo e foi viver com ele para sempre. E é verdade, na dissaquela de Pai Kandimba, Ximinha do Balão xinguilava Samba Nzundu e o Manuel Cadete, que era o Mutakalombo, se punha de quatro patas e, quando ele fazia isso, a Ximinha imitava ele e deixava ele fosse para cima dela, eu via tudo, Minguinha, eu não xinguilava naquele tempo, tu sabe, Pai Kandimba e todos nós tinha que separar eles na força.

“A Ximinha do Balão xinguilava bem o espírito da Samba Nzundu. Mas depois que ela deu conversa para esse tal do Mateus começou de aparecer pouco na dissaquela, eu não via ela nunca, Minguinha, mesmo aqui no beco do Balão, porque ela foi de lavadeira para a casa de baixo quando chegou o governador da metrópole. Só depois eu percebi ela foi porque o Mateus era criado lá, como ainda é agora. Ela queria estar perto do Mateus para ter conversa com ele. Saíam juntos sem mim na hora que desce o balão da torre onde a gente vê se amanhã chove. Lá na Samba corria mujimbo ela visitava o Mateus onde ele morava. No Prenda todo o mundo sabia a Vitória estava doente, deu nela febre muito de repente, mas o namorado só pensava na Ximinha do Balão.

“Passou tempo, minha sobrinha, eu já nem conversava mais com a Ximinha aqui no beco, ela vinha em maximbombo que não era o meu e ia sempre para a casa lá de baixo. Até que veio um dia ela entrou aqui mesmo, na casa de engomados, aka, eu nem estava à espera nem nada, aí ela chorou muito e contou tudo para mim. A Vitória morreu da febre e o Mateus queria se amigar com a Ximinha.

Mas a Ximinha chorava, ela tinha medo de os calundus castigar ela porque ela já vivia amigada com o Mateus quando a Vitória estava doente. Então aí foi que eu disse, mana Xima, conta o que aconteceu, porque eu sabia, Minguinha, havia coisa ela não tinha contado.

A Ximinha sentou aí nesse banco onde tu põe as camisa e contou. Ela não foi mais na dissaquela, mas pai Kandimba procurou ela e perguntou porquê. A Ximinha disse ao pai Kandimba o coração dela estava tomado por homem amigado com outra e ela queria muito esse homem, não podia viver sem ele. Pai Kandimba disse podia fazer uanga contra a moça dele, jurou a Ximinha para mim, mas só se ela se amigasse por um tempo com ele, que aquilo era trabalho de mulôji e kimbanda só vira mulôji se mulher amigar com ele, tu já viu, Minguinha?, aí então ele ia nas barrocas buscar erva para fazer uanga contra a Vitória. A Ximinha contou fez tudo com o kimbanda e depois chorou muito outra vez, gritou bué aqui na casa de engomados. Então foi que eu vi já quase tarde, a Ximinha começou de bonzar muito as mãos com esse borrifador aí, Minguinha, ela queria mesmo tocar com as mãos molhada no ferro e no fio que liga na electricidade, queria ter choque que nem eu tive uma vez que até quase que eu morri, a Ximinha queria morrer mesmo, ela queria fazer o que fez no antigamente a muculo dela, a Samba Nzundu, queria se matar por vergonha de o kimbanda se ter deitado com ela.

“Eu não deixei, eu peguei ela e levei ela para a Samba antes da hora de o Mateus sair, a gente passou a torre onde vê se amanhã chove e o balão não tinha descido ainda.

“Veio a noite, teve dissaquela no Cruzeiro, na casa de pai Kandimba. A Ximinha foi lá e eu também, de alfinete no cabelo. A Ximinha ia xinguilar e Manuel Cadete também, Samba Nzundu e o Mutakalombo ia ser chamado. A música dos goma e das dicanza começou de tocar, a Ximinha dançou e pai Kandimba foi passar a faquinha do pelo na língua dela. A Ximinha aí gritou, nunca tinha acontecido xinguilar falso. Pai Kandimba levou ela para o quarto de quozar. Ficaram lá muito tempo. O Manuel Cadete correu a sala no xinguilamento do espírito do Mutakalombo, procurou ela e não viu. A Ximinha saiu do quarto de quozar e dançou até junto do Mutakalombo. Mas o chão ficou estrada de sangue. Quando o Mutakalombo foi para cima dela, a Ximinha caiu e estava morta.

“Foi então a gente viu, a Ximinha tinha a faca do pelo espetada na barriga. Nós foi todos ver no dentro do quarto. Pai Kandimba estava morto também, com muito sangue. A gente entendeu então, a Ximinha matou o Kimbanda com a faquinha do pelo e depois espetou a faquinha nela mesma.

“Tu já acabou as camisa, minha sobrinha? Não esquece, não olha para homem amigado senão acontece como à Ximinha do Balão.

Chega de lençol branco, aka, agora a gente vai apanhar o maximbombo, está na hora o balão desce da torre onde a gente vê se amanhã chove.

Autor: Alberto Oliveira Pinto

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A História do Golfinho e do Tubarão (conto de ficção)

“Mãe, porque somos diferentes?” perguntou um dia um golfinho à sua mãe que o seguia com ternura pelos corredores do oceano.

“Filho, nós somos mamíferos, sabes? Respiramos o oxigénio do ar, não da água, assim como os homens e…”
“Como as garças?” Interrompeu o golfinho.
“Sim, também, mas..”

Distraído em seguir um cardume de peixes, o golfinho já não prestou a atenção à explicação. Não se importava.

Eram lindas as águas. Passavam como rosários com contas de cristal. Como sabia brincar entre elas, deslizar, correr, subir, descer, trepar entre cortinas de luz vindas do alto. Não havia melhor que isso. A terra era seca e ardia na pele. O mar sim, era maravilhoso.

Assim pensando, desviou-seo golfinho de onde a sua mãe havia parado para descansar. Nadou para cima e para baixo em guinadas divertidas como se estivesse numa montanha russa ou carroucel. De súbito parou. Silencioso e ilustre, deparou com um tubarão – o principe dos mares, atravessando a extensão iluminada pelo sol do meio dia. Que belo! Sim, gostaria de ser como ele; assim senhor de si, nobre, elegante, fino, distinto, perfeito, respeitado por todos os peixes. O golfinho parou para apreciar essa membro da raça fina e senhor dos mares.

Seguiu-o. Como o invejava. Tinha uns movimentos seguros e captivantes. Ao seu passar, todos os peixes se desviavam com respeito, como se ele fosse um Deus, um peixe de ouro. Como gostaria de trocar com ele de lugar e ser também um tubarão – —ser invejado por todos, ser rico, belo, chamar a atenção, conseguir tudo que quisesse, encantar todos os peixes do mar com a sua beleza.

Quando o tubarão subiu à tona, subiu ele também. Para lhe chamar a atenção, deu umas cambalhotas e até uns saltos fora da água. Que bom seria tornar-se seu amigo, ser seu igual, pertencer à mesma raça e mesma classe.

Nos seus saltos, então, deparou com uma traineira não muito longe de onde estavam. Lá estavam as criaturas de que sua mãe tanto falava, cobertos de algas coloridas sobre o rosto e fazendo sons como o vento sobre a água ou como o mar na praia.

De súbito, algo acontecia. De longe viu um dos seres debater-se nas ondas e apercebeu-se da sua angustia e aflição. Viu também, como da traineira um outro ser humano se atirava à água. Ao mesmo tempo viu surgir do fundo aquele que era o seu ídolo. Viu como ele se havia transfigurado, transformado numa fera hedionda, uma besta de dentes arreganhados, cego, furioso, mau – um demónio. Ele podia ouvir o rugir bestial e pavoroso. Como movido a eléctrico, chapinhava a superfície com uma raiva louca, espalhando terror à sua volta. Como é que um ser tão belo, podia esconder tal ferocidade, produzir tal terror?

O golfinho viu como os homens lutavam com todo o esforço e como um deles, uma criança ainda, desfalecia e sangrava. Ele viu toda a bestialidade daquele que ele havia julgado tão puro, tão nobre, e ficou cheio de revolta. Não havia nada nobre agora naquele peixe cruel , quase satânico, feito um monstro horrível de se olhar.

De um momento para o outro, sem saber como, o golfinho viu-se deslizar na água com uma força estranha, que ele próprio desconhecia nos seus tenros anos. Primeiro desceu para tomar força e depois vertiginosamente subiu, vindo a embater contra o tubarão num impeto fenomenal. Atordoado, o principe dos mares, cobarde e apressadamente se desviou do lugar. O golfinho ainda o seguiu e o atacou mais duas vezes. Depois já mais calmo, deixou descer ao abismo esse peixe formoso, mas mau. Deixou-o silenciosamente ondular no silêncio terrível e na dignidade assassínea, assim desaparecer de vista e do seu coração.

Voltando à tona, o golfinho a seguir, percebeu que os homens também estavam alegres. Viu um deles abanar os seus membros e lhe atirar alguns peixes com carinho. Tinham trazido para bordo a criança e estavam à sua roda. O perigo já tinha passado.

“Que era isso?” Sentia-se tão bem entre esses seres. Eles, sim, pareciam ter o Sol dentro de si quando sorriam. Um dos que tinha estado na água até o acarinhou. Davam-lhe alegria e amor! Sim, gostaria de ser como esses pescadores um dia.

Por uns instantes os seguiu cambalhotando e saltando cheio de alegria e emoção. Ah… se pudesse viver com eles! Mas depois lembrou-se da mãe. Tinha que lhe contar esta aventura de terror e de glória, e lá voltou aos bancos onde ela esperava ansiosa. Amanhã haveria de procurar o mundo dos homens e haveria de ficar com eles, haveria, Amanhã …

Autor: Silvério Gabriel de Melo – Vogelbach, Alemanha

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