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A Biblioteca (conto de ficção)

“Biblioteca Luís de Camões. Oferta de um grupo de patriotas de Lisboa. 1908” O orgulho da inscrição ia-se apagando, caindo como caía a caliça pobre, mas as portas de madeira aguentavam há quase um século a abertura às nove e o fecho ao meio-dia e meia, a abertura às duas e o fecho às cinco e meia. A sala de leitura ficava a seguir ao depósito dos livros. Realmente um depósito: ninguém os lia. Que livros ali haveria? Os mesmos de 1908? Teria entrado algum livro depois? E os espaços vazios nas prateleiras, esperariam eles sem esperança alguma obra recente ou seriam antes lembranças de roubos e de devoluções por fazer para sempre? Coisas de antigamente. Agora já nem mesmo se roubavam livros desta biblioteca.

No depósito a limpeza era sumária e ao nível das prateleiras mais baixas. Para cima ninguém olhava e as aranhas guarda-livros impediam com as suas teias antigas que os volumes encadernados partissem sem chamada de atenção. Ao lado esquerdo, a única janela iluminava o armário do arquivo das obras catalogadas. Numa das gavetas de madeira faltava o puxador metálico. A ordem alfabética fora substituída pela ordem do uso do tempo à medida que as fichas manuscritas se soltavam ou eram arrancadas do tubo metálico e recolocadas depois noutro lugar. Tal desordem não constituía para a biblioteca qualquer problema; já ninguém consultava o ficheiro e muito menos havia quem se preocupasse como antigamente em escrever nas fichas sebosas algum comentário independente sobre o livro folheado: “Monárquico, mas documentado.” Ou generoso: “Muito bom, recomendo a outros leitores.” Ou explicativo: “Poema de amor intenso, fervor do amor físico, páginas 23 a 26. Atenção que ‘lírio’ simboliza o pito da miúda.” Ou violento: “O que é que este gajo quere, afinal?” Várias fichas tinham comentários sobrepostos. Um leitor escreveu num dos cartões: “É belo, mas não percebi nada.” Por baixo, noutra letra, noutra cor, alguém escreveu depois: “Não percebi nada, mas é belo.” No fundo de todas as gavetinhas estreitas e compridas havia fichas soltas de obras esquecidas nas prateleiras.

Dali se passava para a sala de leitura. As sua grandes janelas davam também para o logradouro dum quarteirão antigo. O sossego dos livros repetia-se no rectângulo enorme de antigos talhões de cada prédio, agora reunidos pelas ervas altas e tombados que estavam os murinhos de tijolo burro como em ruínas de antigos impérios.

Ao fundo da sala iluminada de luz velha que se espalhava por abóbadas envergonhadas ficavam uma secretária simples, quase uma mesa de refeição, e a sua cadeira sóbria estofada com uma almofadinha baixa e um encosto para as costas que compensasse as longas horas de vigília. Era nessa cadeira por trás dessa secretária que muitas vezes se sentava a menina Julieta.

Chamavam-lhe menina precisamente desde o tempo em que deixara de ser menina, quando cresceu – não de repente, mas sem se dar por isso, como uma florzinha que desabrocha suavemente, entre a primeira réstea da madrugada e o primeiro raio forte do sol – e cresceu até usar sapatos de saltos altos. Antes de ser menina Julieta ela era para todos a Julieta, a filha da Jeropiga, a Jeropiga que limpava a biblioteca com o mesmo encanto e empenho que punha em todo o seu trabalho: nenhum. Limpava só até à hora do almoço, porque depois era uma tristeza, um calicezinho bastava para soltar o génio do seu corpo forte e toda ela transbordava em coisas que não se deviam fazer e ela fazia e em coisas que não se deviam dizer e ela dizia em altas vozes. Uma desgraçada. Nada que se adivinhasse de manhã, com as canções controladas a marcarem o vaivém do pano do pó e da esfregona molhada. Quando a tranca da porta da biblioteca soava no logradouro no intervalo para o comer, todos sabiam que a Dona Jeropiga já não voltava, nem mesmo a buscar a filha. Outra desgraçada. “Não há livros que contem estórias destas”, dizia um velho que se sentava no resto do muro que separava do logradouro abandonado o claustro republicano do edifício da biblioteca. “Então não há?!”, dizia outro, que lia livros. E discutiam o assunto com pouco entusiasmo e mesmo algum incómodo até voltarem às doenças e ao futebol.

A Dona Jeropiga, cuja graça já ninguém recordava e por isso tinha o Dona legitimador colado à alcunha, trazia a miúda pela mão e deixava-a a brincar no logradouro ou na biblioteca, chovesse ou não. Nem tinha mal: os poucos que lá entravam achavam a miúda engraçada. Ela aprendeu a ler na escola, e na biblioteca brincava com a boneca. A Julieta ia fazendo parte dos dias e do lugar. A Senhora Clotilde, que se lembrava de também ter sido Julieta num dia longínquo e de ter visto o ministro da Instrução da República na única visita de Estado à Biblioteca (foi na Festa da Árvore, e plantaram uma no logradouro, que morreu dois invernos depois), pedia à miúda, por causa do reumático e de outras mil doenças de que nem os livros falavam, que fosse buscar e entregar coisinhas, fosse ele livros ou fichas, jornais ou uma merenda, revistas encadernadas ou um lavor de uma vizinha.

Assim cresceu a Julieta até desabrochar a menina Julieta. Já ela era da casa. Se a mãe entrava mais cedo na taberna, a Julieta vinha limpar o pó por ela. Os velhotes gostavam de ver a Julieta a limpar o pó em cima dum banco. Foi então que descobriram que ela já era menina. E que bela menina! Parecia uma estampa, a Julieta. O velho que lia coisas dizia que ela parecia as mulheres que o Stuart desenhava, mas os outros não visualisavam. Viam o mesmo à sua maneira, porém: umas pernas realmente desenhadas por mão de artista, um peito de República, uns cabelos de deusa romana, uns lábios de artista de cinema. Não viam com estas palavras, mas o ver bastava-lhes.

A Dona Clotilde pigarreava como no tempo em que as pessoas pigarreavam. Morreu primeiro que a mãe da menina Julieta. Mas com pouca diferença. Parecia combinado. Da Dona Clotilde ninguém sentiu realmente falta, mas sentiram sim da tossezinha educada com que marcava o fluir do tempo pois o novo silêncio punha a morte atrás da orelha dos poucos que faziam do espaço da biblioteca um muro que a enganasse. Caso diferente foi a morte da Jeropiga. O bairro não chorou, mas foi mais a pena da menina que da mãe – e estava encontrada, com a naturalidade das coisas simples, a herdeira das funções da Dona Clotilde e da Dona Jeropiga. O Estado estava em tempo de poupanças. Duas em uma. A menina Julieta limpava o pó aos livros e sentava-se na cadeira da, chamemos-lhe assim, bibliotecária. Os velhotes passaram a usar a biblioteca com uma regularidade antes interrompida pelas maleitas, servicitos, afazares, idas à Caixa, enterros, jogatina no jardim público. Não queriam perder a limpeza dos livros. A menina Julieta tirava os sapatos altos, ficava em pontas de pés um momento, tendo um delicioso arrepio por causa da pedra gelada do chão irregular do depósito, juntava os sapatos, punha-os numa das prateleiras onde o tempo deixara espaços vagos, e subia o escadote com gentil firmeza. Quando se aplicava a limpar o pó, com um certo entusiasmo de juventude, percebia-se que sabia como limpar o pó em livros velhos. A menina Julieta parecia aos velhotes a Julieta do balcão de Verona mesmo que nunca tivessem sabido que havia um balcão em Verona. Era linda, a menina Julieta. E quando se sentava na sua cadeira sóbria, toda direita, sem se envergonhar do peito alevantado, do seu peito 5 de Outubro, olhando a janela, fechando os olhos se o sol entrava sem medo? Melhor que uma santa no altar duma igreja quando a luz apanha a jeito os rasgos na pedra e atravessa os vidrinhos transparentes colocados no lugar de antigos vitrais. Os velhotes deixaram os bancos do falso claustro e passaram a sentar-se nas mesas de leitura, viradas para o lugar institucional da menina Julieta. Com livro ou sem livro, os velhos admiravam a Julieta ao sol, virando a face para a janela, fechando os olhos, às vezes inclinando a cadeira mais para a sua direita, para receber o calor no regaço, nas pernas, no corpo todo.

Um dia entrou na biblioteca um rapaz e viu o mesmo que viam os velhos. A diferença é que era rapaz. Porque teria ele lá entrado? Um dos velhos dizia que andava à procura duma morada para entregas e foi ali ao engano; outro que o moço já a devia ter visto na rua muitas vezes e sabia muito bem quem ela era; outro, ainda, aventou que ele ia à procura dum livro, mas os outros riram-se da ideia e ele calou-se. Certo é que o rapaz quando a viu sentiu qualquer coisa; como que parou, congelado, ou a ferver por dentro; sem saber o que sentia, sabia o que via e o que via era o que sentia e o que sentia era uma atracção por olhá-la, vê-la, mirá-la, fitá-la, observá-la, sentada, em pé, parada, em movimento.

A menina Julieta não era de gestos delicados, mas naquela idade os gestos têm o cheiro do amor. Fazem tremer os rapazes por dentro. O rapaz que lá entrou, que não entrou à procura de nenhum livro porque não sabia sequer que ali havia livros e não lhes tinha gosto, ficou a tremer por dentro e com a borracha da sola dos ténis agarrada ao chão, a derreter-se como ele. A menina Julieta deu por ele ali especado, entre o depósito e a sala de leitura e sorriu bom-dia como era costume a quem ali entrasse, mas o bom-dia arrastou-se e ela também se sentiu agarrada pelo meio do ar aos olhos do rapaz e quase se podiam ver as setas do olhar da menina Julieta a seguirem em sentido contrário, dos seus olhos cor de castanha para os olhos esverdeados do rapaz. Em breve (foi uma questão de segundos) as setas dos olhares, duas em cada sentido, começaram a tremer também.

A menina Julieta foi a primeira a despertar do ataque que o seu próprio corpo lhe fazia, uma coisa interna em que ela não pensou propriamente, nem precisava, pois dela tinha milenar conhecimento. Pegou ao calhar numa revista qualquer que nem era da biblioteca, tinha-a trazido dum consultório para ver nas horas vagas, e disse ao rapaz para se sentar numa das mesinhas mais próximas dela. Ele obedeceu sem dizer palavra e seguindo a menina Julieta com os olhos, seguindo o que quer que ela fizesse ou não fizesse, foi folheando a revista uma, duas, três vezes, as vezes que foram precisas até que se aproximasse a hora do almoço da biblioteca.

Os velhotes saíram um a um da sala e do portal e foram para as suas casas, os seus quartos, os seus lares, os seus pratos de sopa, os seus caldos e uma peça de fruta. O rapaz ficou-se pela menina Julieta e a menina Julieta ficou-se pelo rapaz. A menina Julieta fechou a porta como era hábito, mas fechou-a consigo dentro da biblioteca, ela e o rapaz.

Perguntou-lhe o nome, porque ela não era dessas que nem sabia o nome dos rapazes com quem andava, repetiu o nome Armindo e agarrou-se-lhe ao pescoço arrastando-o para o depósito, para um dos corredores escuros, afastado da janela do móvel do arquivo. Ali, encostada ela à prateleira das letras A, B e C e ele de costas para o J, o L e o M, pois a biblioteca não tinha livros de autores começados por K, o rapaz e a menina Julieta possuíram-se um ao outro em igualdade republicana, ais mudos e bafos quentes quantificando e qualificando a intensidade do encontro.

O rapaz queria mais, o que era compreensível dada a perfeição da troca dos corpos um no outro. Ela, com um sorriso a chamar-lhe maroto e a si mesma marota, levou a mão atrás da cabeça, pegou num livro (eram os sonetos de Camões) e deu-lhe com ele ao de leve no cocuruto, enquanto o puxava para cima da mesa de apoio do depósito, onde apenas uma Lírica de Garrett esperava que a menina Julieta a devolvesse à prateleira do A, de Almeida. Ali, deitada na mesa, de pernas ao alto apoiadas no BA início do B e a Lírica a servir-lhe de almofada para a cabeça, o rapaz penetrou a menina Julieta e a menina Julieta penetrou o rapaz, se é que a imagem se pode usar só para que conste que aqueles dois tentavam com igual empenho, naquela alegria breve, ser apenas um. Assim terminaram a hora de almoço, comendo-se um ao outro, consumindo as energias mútuas com toda a seriedade que há nas coisas do amor mais perfeito que há, que é o que não tem amor consciente nem pensado.

Recompuseram-se. A menina Julieta abriu-lhe a porta para ele se ir, e ele só se apercebeu disso com ela dentro e ele fora, e ele a querer vir outra vez e ela a sorrir que não e a fechar a porta da biblioteca onde ele tinha aprendido tantas coisas de uma só vez naquele fim de manhã.

O rapaz, trabalhador como poucos, não voltou lá no dia seguinte nem no outro. Passados uns dez dias, entrou de novo na biblioteca e a entrada anunciava que se estava quase na pausa do almoço. A menina Julieta sorriu-lhe e, à parte as setas dos olhares cruzados, repetiu todos os gestos pela mesma ordem, pois os hábitos de bibliotecária diligente implicavam disciplina nos actos quotidianos. E, assim, sentou-o na mesma mesa, deu-lhe uma revista recente, fechou-se com ele lá dentro, encostou-se à prateleira do D, do E e do F e lá foram eles aprender a ler o amor em cada centímetro de pele, em cada linha do rosto, em cada mistério do corpo. Desta vez falaram mais, mas a menina Julieta não queria muitas conversas. Como saberia ela que quanto mais se fala mais o amor se complica? Punha-lhe o dedo indicador nos lábios e impedia-o de falar. Ela sabia que ele estava a tentar apaixonar-se.

De duas em duas semanas lá voltou o Armindo, toda a primavera e meio verão. Depois falou que emigrava e chorou. Queria levá-la. Ela disse: “só se levares a biblioteca”. Ele não entendeu, mas parou de chorar porque sabia que tinham ambos falado de mais. Já não havia setas imaginárias ligando o olho esquerdo dele ao olho direito dela e o olho direito dele ao olho esquerdo dela. Estavam as coisas neste pé: ela ficava, ele partia e o que houvera entre eles sobreviveria ainda como memória às primeiras chuvas. Ele disse que já estava a passar a pasta a um colega e que passaria a dizer-lhe adeus uma última vez antes de abalar para a América. Ela, com o mesmo sorriso de sempre (apenas com uma ligeira sugestão de que era um sorriso segurado numa linha do canto da boca) disse que sim, que passasse.

Ele passou. Trazia o colega. A menina Julieta, sempre atarefada com as suas coisinhas, olhou-o e olhou o colega. Disse-lhe adeus, um adeus sentido mas já resignado, enquanto sentia, de novo, as setas nos olhos ligando-se aos olhos pretos do colega do rapaz.

De duas em duas semanas, o colega do rapaz passava na biblioteca à hora de almoço e a menina Julieta fechava-se por dentro com ele. Correram as prateleiras todas. A coisa tornou-se um hábito. Mas, desta vez, em chegando ao Z, a menina Julieta hesitou antes de regressar ao A.

E, já depois de esquecidas as primeiras chuvas, a menina Julieta dava por si a pensar se haveria na América alguma biblioteca como aquela.

Autor:Eduardo Cintra Torres
Estoril, 2002-3

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A convergir para zero (conto de ficção)

“Tanta gente,
tantos enredos
até ficarmos para sempre
quedos!
Para sempre? Não!
Que outros (mínimos) seres
já trabalham na nossa remoção.”

Alexandre O’Neill, De ombro na ombreira

De tudo o que se dissera e não dissera, pouco restava. “Pouco” era aliás, de todas as palavras que ali se acotovelavam, a que mais se ouvia. Todos toleravam os sopros de todos os outros, de insonoros que eram, e a mudez, pactuada sobre sangue de ninguém, não era capaz de mais que isto: o pouco crescia.

À saída, houve aqueles para quem a resposta mais natural foi acender um cigarro e gostar de fumá-lo. Os que não fumavam, tiveram pena. E a primeira baforada teve o efeito vaporizante que outro alguém ainda tentou obter de um rebuçado de mentol e eucalipto. Depois, quando o chuvisco quase tão inócuo como os poucos pensamentos conseguidos resolveu dar uma de toró, os sete ou oito pontos incandescentes – que a cada movimento dos braços ou das mãos iam ensaiando passos de dança – pareciam formar a única equipa suficientemente corajosa para fazer face às bátegas. Há algo de quixotesco em fumar à chuva no fim de um velório.

Nunca largando a mão pequena e desenhada cujos dedos frios a rapariga friccionava nos seus, foi impossível à noite evitar-lhe aquela interpelação.

– Manel…

– Então, meninos, onde é que se vai?

Esta frase de Manel teve mais expressão do que qualquer outra até aí, embora não fosse necessariamente dita com o ar de quem pergunta “então, meninos, onde é que se vai?”. O sucedâneo de sorriso que se instalou nos lábios dela não descurou isso, e o que tinha falado primeiro puxou longamente o fumo ao cigarro, que tinha a particularidade de ser dos de enrolar, e retomou:

– Manel, falta a…

– Meteu-se num táxi e foi para casa. Tudo em ordem.

Nova passa. Cofiou a barba, apertou com mais força a mão da outra, que por tentativas ia estreitando o gesto, e fixou-a brevemente porque sabia que ao fazê-lo reporia forças. Mas Manel também não o deixou descalço.

– Pode não parecer normal, mesmo nela, mas é assim mesmo. Além disso, a casa para onde ela foi é a minha. Para onde eu, de resto, irei quando voltarmos. Claro que não ia deixá-la sozinha a noite toda, mas agora teve que ser. A sério, ela fica bem.

Ainda a ponderar uma insistência, o outro soprou mais uma nuvem, como se fizesse bolas de sabão. Quando fazia isto, o contorno da cara tornava-se-lhe confortavelmente difuso, como bem percebeu Manel.

– Ao Zero?

Ela abriu a boca para produzir um “vamos?” que a rapidez com que se meteram no carro faria supor bem mais lapidar. Apenas o tempo de Manel tirar mais um Halls do bolso enquanto os dois centímetros de um cigarro enrolado que já dera o que tinha a dar iam a sepultar na alturazinha de água que cobria o passeio. Rest in peace.

Mas nem por isso o Zero lhes pareceu um sítio pior. Suspensão coloidal, dissera um deles noutro dia, com uma ou outra menção de olá emergindo da matriz e a nossa mesa, como sempre, daquele lado. Era quase possível, no desencontro das conversas, da música e dos diversos vapores exalados, deslindar-se um padrão repetido, uma cadência ou ritmo que teorizassem o que em termos empíricos ninguém ousaria contestar: a mistura de tudo aquilo não era desprovida de um significado.

A uma cara diferente do barman, Manel, que de uma forma ou de outra já tinha decidido levantar-se, empreendeu o trajecto. Quando chegou ao balcão, um toque do telefone adiou-lhe a breve troca de palavras, pelo que foi espreitar a rua.

O panorama mantinha-se. Só que agora a chuva a percutir no toldo fazia esforços por se integrar na métrica do barulho de fundo. Não o conseguindo, dava a volta por cima, alongando-se numa celebração em tudo primordial e incausada: a fúria da água a cair. Encostado à porta, de ombro na ombreira, o espectador não sabia bem se aquilo era um espectáculo digno de aplauso. Pois que a questão nem sequer era essa – digno de aplauso seria sempre. A dúvida que ali se lhe pôs foi se não seria melhor descrever a chuvada como imagem de uma plateia, um balcão, um coliseu inteiro que se põe de pé em ovação à mais bela das récitas. E lembrou-se da noite do concerto, que tinham vindo, todos então, acabar no Zero. Ele aflito com o prazo do artigo, o primo da outra com o avião para apanhar às oito e meia, os outros mais stressados ainda, caramba!, mas fiéis ao conluio com os brasileiros, numa de prolongar ao máximo o estar… nisto, contudo, a magnífica peça de jazz para chuva e orquestra até então tapeteada no toldo do Zero sofreu uma mudança brusca: desacelerou e pôs-se um molha-tolos mortiço. A alegoria algo tribal que havia em tudo aquilo deu lugar a um desses momentos em que, tendo levado a adrenalina do Cosmos ao rubro, o intérprete falha o apogeu da obra. “Deus acobardou-se ao piano”, pensou, “e logo hoje que o Nuno até merecia uma canção”. Foi aqui que Manel voltou a ficar triste.

– Desculpe lá o mau jeito – o barman, com quem só lhe faltou chocar, já desligara -, mas olhe, soube há bocado. Ainda não apanhei o queixo…

– Hã, soube? Como é que…

– Ah, olhe, ela mandou dizer para não se preocupar. E para não ter pressa, que está à sua espera. E olhe, hoje a noite fica por nossa conta, está bem?

– Não estão cá os brasileiros – ao regressar à base, a constatação dela, ainda mais branca debaixo do R grande do letreiro, convergia para uma mesma ausência que o fumo do cigarro que o outro voltara a acender -, mas olha, Manel, a tua miúda é impossível. Lembras-te do que ela fez naquela primeira noite em que falámos com eles?

– Estava apostada, sabes como ela é. E ele também não é…ra muito diferente.

– E o brasuca, morto de gozo, quando percebeu que ela estava a olhar para eles: “escuta, moça, você está a divagar? É que a gente prefere dipressa!”

O riso que se seguiu a esta saída do da barba não tinha aspirações a igualar antecessores. E mesmo estes últimos tinham-no sido sem ter de o querer, não seria bonito da parte de Manel esconder aos olhos pretos que o sabia. Foi este um pouco o turning point que os fez, a 180 graus na mesa, pousar o tabaco de enrolar:

– Manel, estava a pensar. Tens mesmo a certeza que ficou tudo bem com ela?

Aqueles olhos podiam ter a cor da noite, mas eram de todos os mais inadaptados. A ponto de obterem alívio da impressão ácida com que o fumo turva a vista. Eram momentos pouco propícios a quem, por detrás da barba e da voz cava, esconde o jogo da solidão inverosímil mas realíssima que se segue a um silenciamento. Quando a fé escasseia para expurgá-lo, como de resto em todos os momentos de rara beleza – e tenha-se aqui a atenção de distingui-la da alegria -, é duro o “mai’nada”. O pior é que, não obstante o quão diferente a angústia dos outros, a coisa pega-se. Por esta altura Manel já aprendera que há males que não vêm por bem, e que não vão a bem. Por muito que. Pelo que só pôde abanar a cabeça enquanto ela acabava à pressa o tríplice-seco.

O carro, outra vez, mas sem chover. Os néons do Zero no retrovisor, só vestigiais, e nem uma palavra. Depois de o irem pôr a casa, unânimes num “até amanhã” que se adivinhava uma provação, semáforos consecutivos tiveram a consideração ou a imensa piedade de ir abrindo o caminho. Até à porta dela, onde ambos saíram do carro para um aveludado de cacimba.

– Bueno, cá estamos. Vá, despacha-te que não se deixa uma senhora à espera – ensaiou ela, embora Manel já estivesse fora do carro.

– E o que isto não deve ter sido para ela. Não a consigo ver sem o irmão.

– Nem eu. Não faço ideia de como é que as coisas vão ser.

– Ouve, estava a pensar, se quiseres ir lá para casa, arranja-se o sofá-cama…

– Obrigado, Manel, mas não. Eu fico bem. Não me digas que já estás como o outro, coitado! Veio-me dizer que estava ali para o que eu precisasse.

– Ainda bem que tomaste conta dele. És mesmo um espanto, miúda.

– Não sou, não. Ainda não caí foi em mim, e não quero estar por perto quando isso acontecer. É este medo, sabes? É que…

– Sei – com que veemência três letras passam uma mensagem – sei. E eras mesmo tu, miúda. Para o Nuno, eras mesmo tu.

Agarrar-lhe a mão pequena e desenhada que tremia, foi preâmbulo para o abraço em que desejou ser capaz de a envolver e resguardar. Choraram os dois. E era a mesma amargura, o mesmo vazio, a mesma anulação ao entregarem-se ao calor um do outro. O mesmo zero. Ao desaparecer pela porta, o rosto dela levava esculpido esse sentimento, e Manel só rodou a chave na ignição quando viu que a luz do quarto se apagara. Depois, depois guiou e sentiu um pequeno mas enorme alívio por saber que ao enfiar-se na cama ia ter quem tomasse conta de si.

Lisboa, Dezembro de 1997 e umas vezes em 1999

Autor: André Rodrigues

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A Espada de Cristal (conto de ficção)

De um só golpe matou dois homens selvagens, grandes e peludos como todos os das tribos dos mares quentes. Ela desferira o golpe com força demasiada, se esquecendo que acabara de colocar uma lâmina nova em seu bastão. Naquele mundo os metais oxidavam muito rápido e as lâminas eram quase descartáveis. Sua melhor amiga, SINIEM, acabava de chegar ofegante e gritando. – KILA! Tudo bem!? Estes foram os últimos? 

 – Sim. – Respondeu a guerreira, ainda impressionada com a potência do ataque que desferira, finalizando uma luta que ela pensara que seria árdua, e completou. – Acho que descobri um golpe novo.

Em torno delas dezenas de corpos jaziam mortos, muitas de suas colegas, guerreiras de várias idades, pereceram naquele confronto insano promovido por hordas de homens brutais das tribos inimigas. Mas não fora apenas pelo número superior que eles quase arrasaram o exército das LIANS, guerreiras das tribos matriarcais que promoviam uma revolução feminista em toda extensão conhecida daquele mundo. O massacre se devera aos Astrais, que invadiam os corpos de guerreiros medianos e os tornavam combatentes terríveis, ou mesmo possuíam inocentes e os forçavam a lutar, e por vezes conseguiam dominar até mesmo as guerreiras menos treinadas voltando-as contra suas próprias companheiras. Matava-se a vítima da possessão, e de nada adiantava, o Astral migrava para outro corpo.

 Finalmente as feiticeiras do grupo acabaram de eliminar os últimos Astrais, só elas podiam faze-lo com seus poderes mentais, e a batalha pode prosseguir no justo corpo a corpo, e a superioridade técnica das LIANS pôde se revelar. Elas eram muito bem treinadas, normalmente maiores que os homens das tribos inimigas embora esses em geral fossem mais fortes e violentos, o que elas podiam compensar com maior destreza e agilidade de seus corpos aperfeiçoados pela Magia Sexual que vinha revolucionando suas tribos e permitindo que as mulheres ficassem cada vez mais poderosas, resistentes, inteligentes e fortes.

 Era esse o pomo da discórdia. Com a Magia Sexual ensinada pelos “Emissários de Além do Céu” as mulheres vinham assumindo o poder cada vez mais rápido nas tribos mais próximas das terras frias, suas sociedades prosperavam, as doenças desapareciam, a ordem social se aperfeiçoava sob o comando das feiticeiras. Os homens destes grupos em ascensão longe de lamentar suas gradativas perdas de autoridade na verdade comemoravam, não só pela beleza crescente que acompanhava o aperfeiçoamento corpóreo de suas mulheres, e também deles próprios, mas porque também não resistiam às sedutoras feiticeiras, cuja famosa beleza percorreu o mundo atraindo a cobiça de tribos bárbaras ainda acostumadas a guerras de extermínio, pilhagens, saques e estupros das mulheres das tribos derrotadas.

 Havia também feiticeiros, muitos dos quais se aliaram às tribos feministas, mas os das tribos mais próximas às terras quentes não estavam dispostos a abrir mão de suas sociedades androcentristas segundo eles determinadas pelos deuses. De potencial inferior e cada vez mais acuados pelas feiticeiras, pelas LIANS e pelos guerreiros e feiticeiros homens aliados a estas, os bruxos das terras quentes apelaram para uma tática terrível, um feitiço que fazia com que os espíritos de certos guerreiros ao serem mortos não descessem ao interior da terra, e sim ficassem vagando como Astrais e possuindo corpos de outras pessoas vivas, controlando-as e continuando a lutar através delas.

Com esse recurso eles saíram de uma posição de recuo e estavam prestes a virar a guerra a seu favor, pois os Astrais só podiam ser destruídos pelas feiticeiras, que eram poucas, e as guerreiras nada podiam fazer.

 SINIEM e KILA eram amigas de infância, nascidas quase no mesmo dia já sob os benefícios da Magia Sexual que as fez crescer fortes e saudáveis, e mais rápido que as crianças de antigamente. Após vencerem a última batalha voltaram à sua tribo, que crescia tanto que as construções de pedra branca já se perdiam de vista, colorida pela luz da imensa lua esverdeada que tornava a noite muito mais clara que o luar mais forte de nosso planeta Terra. 

 Aquele mundo, que elas chamavam de SAMTAM, e que também significa algo como terra mas com uma conotação ainda mais feminina, possuía 3 grandes astros celestes. O sol era chamado por um nome muito parecido com a palavra que usavam para se referir a “pai”, e além da lua verde havia uma minúscula lua negra que porém refletia a luz solar como se fosse uma esfera de metal. Talvez por ser menor que a nossa Terra e ter uma curvatura mais acentuada, seus habitantes de algum modo sempre souberam que seu mundo era curvo, e sabiam que conheciam pouco de sua extensão. 

 As guerreiras tiveram tempo para descansar e se encontrar com suas famílias. Os homens em sua tribo e várias outras vizinhas já começavam a ficar para trás em estatura e força física, mas ainda lideravam grande parte da sociedade inclusive exércitos. KILA e SINIEM foram homenageadas mais uma vez pelo bom desempenho em luta. Em parte por realmente terem se aperfeiçoado, e parte porque mais de 3/4 dos guerreiros da região terem perecido em combate, elas passaram a integrar o mais respeitado grupo de guerra e foram convocadas para uma importante reunião com as feiticeiras. Uma delas, a líder do local falou para uma ampla platéia da qual muitos ainda mal entendiam os fatos. 

 – A nossa situação é crítica. Em menos de uma estação (o que equivaleria a 115 dias terrestres) perdemos nossa hegemonia e nossa vantagem, e se antes nada parecia ser capaz de deter nossa revolução e a chegada de uma nova era de paz e justiça, agora nossas expectativas começam a dar lugar ao desespero. Os feiticeiros das terras quentes violaram todas as leis divinas e criaram essa aberração mística que nos ameaça. Cada guerreiro selvagem enfeitiçado, ao morrer, deixa seu Astro Corpo na dimensão dos vivos, se recusando a voltar ao Espírito de SAMTAM, e com esse Astral pode continuar lutando, tendo a vantagem de ser insensível a qualquer arma, e usando vidas alheias para seus objetivos. Não sabem que com isso estão arruinando suas vidas futuras, e nem os feiticeiros parecem se preocupar do mal que estão causando ao Espírito de SAMTAM, e que serão punidos por isso. Mas até lá, já podem ter destruído todos os nossos exércitos e conquistado todas as nossas nações. 

 – Não podemos fazer nada! – Disse um dos velhos generais.
– O que pode uma lança contra um Astral!? – Afirmou uma guerreira mais jovem.
– Um deles me possuiu uma vez, só mesmo uma feiticeira pôde removê-lo de mim e destruí-lo. – Afirmou outro relatando sua amarga experiência.

SINIEM olhou com discreta decepção. Um já tentara possuí-la também, mas seu autocontrole frustrou-lhe o intento e o Astral migrou para o corpo de um de seus colegas, uma rapaz que ela gostava, e com muito sofrimento ela foi obrigada a ferir-lhe gravemente para detê-lo, mas o guerreiro Astro Corpóreo migrou novamente, e ela acabou tendo que matar companheiras até que uma feiticeira o eliminasse. Ela achava que todas as guerreiras já deviam ser capazes de resistir às incorporações.

 – Convocamos uma reunião de emergência com feiticeiras de várias nações e estamos estudando uma solução para o problema. Deverei ir pessoalmente até a grande tribo de BIEMARLIA, e por isso precisamos montar uma escolta pequena e apenas de guerreiras que comprovadamente resistam aos ataques astro corporais de nossos inimigos. – Concluiu a feiticeira olhando diretamente para SINIEM assim como para outras guerreiras que também não cediam às investidas dos Astrais, e que posteriormente foram obrigadas a lutar contra suas própria companheiras. 

 KILA nunca tinha tido a experiência, mas por ser muito parecida com sua amiga, integrou o restante do pequeno grupo de 11 guerreiras mais um jovem guia que acompanharam a feiticeira na missão que partiu ao anoitecer do outro dia. Era mais seguro viajar a noite ainda que esta não fosse tão escura, além do que era bem menos quente.

 A maioria ia a pé, enquanto a feiticeira e mais um grupo de 4, que se revezava com outros grupos, iam a bordo da carruagem totalmente coberta de lona branca e puxada por um forte mas lento animal quadrúpede. Nada havia equivalente a cavalos naquele mundo, embora eficientes os animais de tração não serviam para deslocamentos rápidos e muito menos para batalhas. 

 Foram 3 dias até alcançarem BIEMARLIA, uma nação tão extensa que SINIEM e KILA não acreditavam no que viam, mais de 150 mil habitantes! A reunião durara dois dias inteiros contando com a presença de dezenas de feiticeiras e alguns feiticeiros, ao fim dos quais a pequena comitiva retornou para a casa, mais uma vez partindo no início da noite. 

 KILA olhou para o céu e viu os XINGS, grandes animais voadores, e ficou invejosa das distâncias que eles podiam cobrir em menos de um dia enquanto elas caminhavam lentamente em torno de uma carruagem ainda mais encoberta do que antes. 

 – Será que um dia poderemos voar com esses animais. – Perguntou à colega. Uma outra guerreira disse. – Um rapaz de uma tribo perto das montanhas diz que certa vez viajou agarrado na perna de um GRIL. – Comentou sobre um boato pouco creditado a respeito dos imensos animais alados, dezenas de vezes maiores que os XINGS. 

 Foi sorte que elas estivessem olhando para o céu e divagando sobre as selvagens criaturas aladas, pois com isso avistaram rapidamente os silenciosos e velozes bumerangues que cortavam o ar em sua direção assim que a feiticeira deu o grito de alarme.

 Uma das lâminas partiu uma pedra ao meio ao atingir ao chão e outra inutilizou a lança de uma das guerreiras. Duas atingiram a lona da carruagem e outra causou o maior prejuízo, ferindo o animal de tração. Mas logo uma chuva de bumerangues surgiu de trás de uma colina, acompanhado por um grupo de homens selvagens. 

 Eles eram bem mais numerosos, ainda mais depois que os bumerangues atingiram em cheio uma das LIANS, matando-a instantaneamente, e outras duas foram feridas. KILA e SINIEM porém, assim como suas companheiras, logo demonstraram porque eram respeitadas como guerreiras.

KILA rolou no chão catando dois bumerangues e os usando para matar dois oponentes antes que eles sequer se aproximassem para usar as lanças, e isso porque as lâminas giratórias eram bem mais difíceis de serem usadas na horizontal. SINIEM assustou os adversários ao matar rapidamente 3 oponentes que mal se aproximaram dela. 

 As outras guerreiras não fizeram por menos e até o guia se revelou um hábil atirador de pedras com uma lançadeira que produzia um tiro mortífero. Não demorou para que os homens selvagens vissem que mesmo estando em número bem maior não seria fácil dominarem as LIANS e capturarem a feiticeira, o que geralmente tentavam. 

 Mesmo assim, 3 das guerreiras tombaram, e mais homens selvagens chegavam quando finalmente a feiticeira saiu da carruagem e erguendo os braços para o céu fez uma luz ofuscar os agressores e logo em seguida fez lanças e bumerangues caídos flutuarem e se lançarem contra os oponentes. Em segundos ela matou vários deles, o que os forçou a recuar, até que então um dos guerreiros, por sinal o que se destacava no grupo pela ferocidade, caiu morto. 

 Um minuto depois o jovem guia subitamente se virou contra a feiticeira e disparou uma pedra. A hábil mulher, que era bem mais idosa do que aparentava, deteve o ataque, no momento exato em que uma das LIANS nocauteou o rapaz, mas de pouco adiantou, pois logo em seguida uma guerreira foi atacada pelo Astral. Ela resistiu, tentando impedir a incorporação, mas estava muito mais difícil que na ocasião anterior em que sofrera ataque semelhante, o vulto luminoso do Astral se infiltrava mais e mais.

 – Esse é muito mais poderoso. Chega a ser visível! – Comentou a feiticeira, e completou. – Para trás! – Lançando-se em frente à guerreira que lutava para não ceder o controle. A feiticeira se concentrou e visualizou o Astral que tentava se sincronizar com a aura da vítima, sintonizava a vibração do astro corpo hostil quando de repente este fez a guerreira atacar. Mas a feiticeira, tão ágil quanto as guerreiras, se desviou do golpe e uma outra LIAN conseguiu desarmar a colega. 

 A feiticeira então se preparava para deflagrar a energia mental que destruiria o Astral quando um bumerangue a atingiu entre os seios, num raro momento onde a concentração a prejudicava a percepção do ambiente a sua volta. Ela caiu ao chão no mesmo momento em que o Astral abandonou o corpo da guerreira e imediatamente possuiu a outra, que num momento de distração com o que acontecia, não conseguiu evitar que seu braço se movesse e atingisse em cheio com a lança à colega que acabava de voltar a si. 

 A guerreira tentou se controlar, mas o Astral era muito mais poderoso que o normal, e ao ver a feiticeira caída, os homens selvagens restantes voltaram a atacar. O jovem guia ao se recobrar impediu que KILA fosse morta pela guerreira possuída, ao atingi-la na cabeça com uma pedra. Mas como era de se esperar o vulto luminoso migrou para outra guerreira, que desta vez mostrou-se mais resistente à investida, fazendo-o desistir e entrar no corpo de KILA. 

 SINIEM acabava de matar o último homem selvagem que restava de pé, mas o estrago fora grande. Além dela apenas 3 outras guerreiras estavam em condições de lutar, além de KILA que não conseguia mais resistir ao controle do Astral, e finalmente cedeu quando o vulto luminoso mergulhou completamente no corpo da guerreira tornando-se invisível. 

 KILA era muito hábil, tinha pernas compridas e poderosas e seus golpes eram amplos e certeiros. Ela rebateu duas pedras que o rapaz tentou acertar nela, e a segunda foi direto de volta a cabeça dele causando desmaio instantâneo. SINIEM e suas companheiras evidentemente não queriam ferir a amiga, e tentavam de toda a forma possível contê-la sem machucá-la, na esperança de que o Astral se cansasse e desistisse, ou que outra feiticeira viesse no pequeno grupo aliado que surgia no horizonte, ao mesmo tempo que outro grupo hostil surgia no horizonte oposto. 

 – SINIEM… – Chamou a voz debilitada da feiticeira. – SINIEM… Venha cá. – Insistiu a mulher que já dava sinais de agonia. Com muita relutância SINIEM correu e se agachou junto à feiticeira, no mesmo momento que suas companheiras puseram KILA a nocaute, mas como era de se esperar, o Astral migrou para outra LIAN, que embora tentasse resistir ainda conseguiu ferir gravemente uma colega, e agora apenas uma guerreira tentava conter a companheira sob controle do inimigo Astro Corpóreo. 

 – SINIEM… Ele é muito poderoso… Vo…Você precisa pegar a… Arma. – Disse a feiticeira, que apesar da voz baixa e relutante dava à guerreira explicações necessárias. Enquanto as duas LIANS lutavam entre si o grupo de homens selvagens e um outro grupo de LIANS se encontraram e iniciaram novo e feroz combate. Mais uma vez as guerreiras, mas rápidas e mais hábeis, levavam vantagem, até que outra delas foi possuída.

 Dois Astrais brilhantes agora começavam a virar o combate contra as guerreiras, uma deles possuía uma jovem que não ofereceu a menor resistência ao controle, e nesses casos o dano costumava ser permanente, mesmo que o Astral se ausentasse, a guerreira não mais sobreviveria.

Não obstante ela lutava com uma ferocidade assustadora, em segundos matou duas LIANS e atacava outra que fazia de tudo para resistir à investida sem nem tentar se conter, tinha que lutar de qualquer jeito, mas caiu ao chão ferida e o corpo dominado da colega se preparava para desferir-lhe o golpe fatal quando de repente outra guerreira pareceu atingi-la pelas costas. A pobre LIAN dominada estremeceu e tombou, mas algo diferente aconteceu. 

 Normalmente “olhos” não treinados não viam os Astrais, eles não eram fisicamente visíveis mas sim perceptíveis ao supra sentidos que nas LIANS era cada vez mais desenvolvido. Mas esses tinham tanta energia que qualquer pessoa com um mínimo de terceira visão podia ver, a guerreira caída viu quando o Astral parecia agonizar como se sentisse o golpe que derrubara sua vítima, e então viu ele se desfazer numa nuvem de luz como se tivesse sido atingido por uma raio mental das feiticeiras. Mas não havia feiticeiras. De pé, havia apenas SINIEM, empunhando uma estranha arma. 

 Tinha uma punho curto em comparação com a lanças, cabia as mãos juntas, e uma comprida lâmina transparente ligeiramente brilhante. Era uma arma nunca vista. Só então SINIEM realmente acreditou no que a feiticeira dissera. 

 – “No cristal… Estão armazenadas energias mentais desintegradoras de Astro Plasma… Que se liberam em contato com Astro Corpos… Pelo simples movimento.” – Lembrou a LIAN e logo teve que se defender de um homem selvagem, impressionada com o a resistência da lâmina de aparência frágil, e sobre a qual ela questionara a feiticeira. 

 – “Mas senhora! Cristal não é páreo para…” 

 – “O cristal é frágil SINIEM… Mas a magia nele… O torna mais resistente que qualquer metal.” – E com um só golpe SINIEM seccionou o tronco do oponente que caiu em duas metades. 

 – “Você tem uma habilidade… Bem desenvolvida SINIEM… Pode ver… Sabe sentir e é forte… Use a arma… É nossa única chance.”

 Ao defender um golpe de lança esta se partiu e no contra ataque SINIEM matou outro homem selvagem. Agora ela avançava contra o Astral que ainda dominava sua companheira. – Deixe comigo! – Gritou para as outras que tentavam deter a colega possuída. 

 – “A arma corta com muita precisão… Mas a energia mental liberada alcança um pouco além da lâmina.” – E lembrando disso SINIEM deu um golpe superficial que cortou e arrancou a armadura da LIAN, mas imediatamente o vulto luminoso saiu de seu corpo e numa expressão de pânico o Astral se desintegrou. 

 As LIANS já recuperavam a vantagem e logo os homens selvagens sobreviventes estavam fugindo, mas quando KILA começava a se recuperar, outro vulto, desta vez ainda mais luminoso, invadiu seu corpo. 

 As guerreiras olharam impressionadas, nunca viram uma Astral tão brilhante. KILA se levantou com uma aura em torno do corpo e sem armas derrubou 3 LIANS com ferocidade incomparável. 

 – Você não vai escapar… LIAN! – Disse numa voz irreconhecível e ameaçadora. E se movendo como um raio partiu para cima de SINIEM que por pouco não foi atingida por um golpe mortal. E então percebeu. Aquele era o Astral de um feiticeiro! 

 Ela tentou vários golpes mas o corpo de sua amiga mais o poder do bruxo combinavam-se num oponente terrível, que em movimentos extremamente rápidos já matara 3 guerreiras, e agora num salto estava no ar, descendo sobre SINIEM que caíra no chão desnorteada. 

 Num movimento quase desesperado ela ergueu a espada como se fosse proteger-se, mas assim que o inimigo se aproximou ela girou a lâmina de cristal num amplo círculo que criou um anel de energia, o Astral tentou desviar o corpo mas era tarde, parte da energia o atingiu expulsando-o imediatamente, e deixando-o desorientado. 

 SINIEM tocou o corpo de KILA, que tremia e tinha convulsões, e parecia agonizar, então ouviu a “voz” do Astral. – “Não pode nos deter.” – E com ódio, ela se ergueu e o desafiou. – Tente me pegar seu maldito! – E apontou-lhe a espada. O Astral mergulhou em sua direção, mas é óbvio que já havia percebido o poder do cristal energético, e numa manobra inusitada mergulhou no solo, e repentinamente surgiu por baixo de SINIEM entrando em seu corpo, causando-lhe um choque e fazendo largar a espada. 

 Ela sentiu o fortíssimo assédio espiritual, muito mais intenso do que das tentativas anteriores que sofrera. Resistiu enquanto suas companheiras se afastavam dela temendo que se possuída, e com aquela arma a seus pés, fosse invencível, e dezenas de LIANS faziam um círculo em torno dela, pois quase não mais restava homens selvagem em combate. 

 Para SINIEM o mundo porém sumia, só restava ela e uma escuridão a sua volta. O Astro Corpo já lhe usurpava os sentidos, isolando sua mente da realidade exterior e agora tentava controlar seus músculos, mas SINIEM lembrou das palavras da feiticeira. – “Você é forte SINIEM… Concentre-se, e ninguém poderá dominar você.” – Lembrando disso, num esforço mental e físico intenso exorcizou o Astral de seu corpo com um grito ensurdecedor. 

 Caiu de joelhos ao chão quando o mundo voltou a lhe ser perceptível. Nem precisou olhar para o Astral para saber onde ele estava, era como se o contato lhe tivesse criado uma sintonia com o mesmo. Ele voou para o alto, se para fugir ou para possuir outra guerreira, SINIEM não estava disposta a saber. Pegou a espada e arremessou no ar como um bumerangue. 

 Sua percepção ainda distorcida, lhe fazia ver a cena como que em câmera lenta, a arma girando com sua lâmina cristalina deixando um rastro luminoso e atingindo o astro corpo em cheio fazendo-o brilhar e entrar em colapso, e explodir num onda brilhante. 

 A espada caiu com a lâmina fincada na terra, instantes depois que as LIANS aniquilaram os últimos componentes que se recusavam a bater em retirada.

 Vacilante, SINIEM caminhou lentamente até a arma, hesitou um pouco e então a retirou da terra. A lâmina saiu limpa, uma força repulsora afastou a sujeira. 

 Então a guerreiras recém chegadas abriram caminho para sua feiticeira líder, que se aproximou de SINIEM e já entendia a situação. Cumprimentou suas colegas, requisitou a espada, a LIAN a atendeu prontamente, examinou-a e disse: 

 – Bem… A arma deveria ser guardada em segredo até passar por uma série de testes. Mas parece que este teste já ocorreu.

 Subiu então na carruagem trazendo SINIEM consigo, e lá em cima anunciou: 

 – LIANS! Recuperem suas esperanças! Há pouco estivemos a beira de retroceder, e nosso sonho de uma SAMTAM harmônica e sublime esteve ameaçada. Mas agora tudo irá mudar! Neste momento já estão sendo produzidas centenas destas armas e com elas qualquer guerreira poderá destruir os maléficos Astrais que ameaçam o Espírito da Terra! Agora nada poderá nos deter! Nossa revolução marchará até os confins do mundo! 

 Então SINIEM, intuitivamente, ergueu a espada ao alto, contra o céu já azul escuro, e todos puderam ver quando a lâmina pareceu brilhar ainda mais, e por um instante, tiveram a visão de um brilhante e magnífico futuro.

Autor: Marcos Valério XR

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A Faca da Ximinha do Balão (conto de ficção)

– Deixa de mania de elegância, menina, só porque esse tal do Martins Guimarães te deu troco no outro dia aí no beco quando tu lhe perguntou as hora. Ele falou só para mostrar tinha relógio no pulso, não foi porque visse agrado em ti. Ele tem mulher e filha candengue, Domingas, e tem muito em que pensar. Só quis mesmo foi que tu visse o relógio lhe deu o doutor e até já não faz tiquetaque nem nada. O Martins tem ele no pulso mas não sabe mesmo para onde aponta os ponteiro, nem sei até se o relógio o doutor lhe deu tem ponteiro ou não. Ele disse a hora certa, sim, mas ele viu mesmo foi na torre onde a gente vê se amanhã chove, ali mesmo ao lado de vocês na rua, o Martins sabia aquela era a hora de o balão da torre descer. Pensavas ele estava te dar conversa, eu vi bem tu andar de peito arrebitado sempre vê ele e de kinhonga bem apertadinha na cinta te ofereceu a dona para esconder o dikovo te fizeram com mau jeito na Samba Grande quando tu nasceu, minha sobrinha, pensavas eu nem dava por isso, logo eu, aka, a Chica do Balão que já vem do tempo do pai-de-umbanda Miguel Kandimba, tu ainda precisa aprender muito, Minguinha. Mas, xê, olha só, eu não falei para zangar contigo, não precisa entornar o borrifador assim na tábua, menina, tu ainda vai queimar essa camisa ou apanhar choque no ferro que nem eu uma vez já faz tempo. Não, Minguinha, eu só falei porque eu conheço esses muadié que nem o Martins Guimarães, que anda por aí de tardinha de fato cinzento lhe deu o patrão, relógio sem ponteiro e óculos que até vidro já nem tem com livro debaixo do braço só para mostrar que anda nos estudo, que vai na escola depois do serviço aprender as letra, tudo porque quer deixar de ser criado de limpar a casa e servir à mesa para passar a ser contínuo lá do banco na baixa, julga só por isso já é doutor mesmo, aiuê, até lembra o outro eu conheci. Sabes quem é, Domingas, esse que anda aí ainda a servir na casa lá de baixo, aquela onde fica o governador quando vem da metrópole, esse cambuta, como chamam a ele, o Mateus, o que põe nome nos bichos, ele mesmo, que chamou Vitória na tartaruga vendeu na dona por cinquenta mil réis, tu sabe porquê, Minguinha, porque é ele chama Vitória nas tartaruga e Ximinha tudo o que é cobra das barroca, sabe? Eu conto para ti a maka dele, a gente tem tempo, tu inda tem para passar toda essas camisa e eu um bué de lençol branco, minha sobrinha, e até é bom eu contar para tu aprender não deve deitar olho em cima de homem casado ou amigado.

“Sempre tu vir um desses como o Martins Guimarães mostrar relógio sem ponteiro tu já sabe, lembra da faca-de-Ximinha. Tu sabe o que é faca-de-Ximinha, não sabe? Tu costuma ir na dissaquela do Cruzeiro, não vai mesmo? Pois então, mâma Chica Aniceto já passou muita vez faca-de-Ximinha na tua língua, de certeza, mas tu não sabe mesmo eu conheci a Ximinha que pôs o nome na faca de kimbanda. Crescemos juntas no Belela e fomos morar na Samba Grande depois que a calema grande engoliu as nossas cubata. Nossos pais continuaram pescadores, embora de pescar muito menos, porque perderam as chatas e, da Samba, os dongos não podem ir tão longe, as nossas mães deixaram as quitandas de peixe e foram fazer serviço de lavadeiras nas casas da praia da Corimba. Mas nós, a Conceição e eu, nós era rapariguinha, nós pôde ir trabalhar na cidade, então a gente veio de lavadeira aqui para estas casas do Balão, que eram novinhas. Ainda não morava aqui este doutor, era aquele conde eu te falei usava um vidro só num olho e no outro nada, ele era bom para a gente, só não dava o vidro do olho para o Mateus que nem o doutor dá os óculos para o Martins, aiuê, a gente até ri destas coisas, mas era bom, dava muita roupa ao Mateus, que era criado da casa. O Mateus contava tudo para nós de tardinha, quando nós subia a rua do Palácio na mesma hora a gente costuma ir agora, a hora de o balão descer da torre onde a gente vê se amanhã chove. Ele ia com a gente até no maximbombo, falava mais com a Conceição, até já chamava ela pelo nome de bairro, Ximinha. Nós apanhava o maximbombo, ele ia embora de livro debaixo do braço, dizia ia estudar mas não ia, ia mesmo era no Hospital ver a moça dele, a Vitória, que trabalhava lá.

“A gente ia muita vez na dissaquela do Cruzeiro, assim como tu vai, só que nesse tempo o kimbanda era o Miguel Kandimba, não era ainda a Chica Aniceto, essa só xinguilava, como a Ximinha. Eu ainda não xinguilava, ficava só a ver, Pai Kandimba punha alfinete no meu cabelo para o calundu não entrar em mim. Depois punha na dicanga tudo o que tu sabe, a benzedura com pemba e ucusso, e recebia o mazaco. Lembro Ximinha era dumbe de Samba Nzundu e o Manuel Cadete xinguilava o espírito de Mutakalombo, que foi seu esposo. No mais nós era todas mulher, não havia tanto xinguilador homem como agora, mas os ilundu, como tu sabe, eram homens e mulheres. A Ximinha era Samba Nzundu, Pai Kandimba passava a faquinha na língua na hora do pelo, ela não gritava nem nada, depois ela dançava na dicanga, xinguilava mesmo, eu via tudo sentada no luando, e então eu via na minha frente todo o musendu de Samba Nzundu.

“Samba Nzundu era uma filha o Ngola Kiluanji kya Samba fez em uma de suas esposas quando reinava na Kissama. Ali perto havia um branco. Chamavam ele de Mutakalombo porque escapou de um jacaré comer ele e diziam até jacaré era cão de guarda dele e fazia tudo ele mandava. O Mutakalombo tinha muito poder, mandava mesmo em alguns jisoba da Kissama. O Mutakalombo quis casar com a princesa Samba Nzundu e foi pedir ao Ngola Kiluanji, mas o rei não deixou. O Ngola Kiluanji kya Samba queria ser amigo dos brancos, mas não daquele, ele queria mandar chamar os padre do Kongo. Foi o conselho lhe deu o ngola-mbole, que era o Mwana Kalunga, e também o kimbanda Muhaidi. Eles até mandaram vir da Ilha de Luanda um menino que falava com as yanda e fizeram dele o Kilamba Kiaxi no lugar de um outro que pensava diferente. Envenenaram o kilamba de antes e ouviram a consulta o Nsanda Kabasa fez às yanda. Os espíritos não queriam o casamento de Samba Nzundu com o Mutakalombo. O Mutakalombo nunca perdoou e mandou o cão atacar a coitadinha. Samba Nzundu foi com as outras no Kwanza encher a sanga de água e aí o jacaré pôs de fora a bocaça e levou ela para o fundo do rio. O povo veio a correr, pediu pela vida da filha do Ngola, teve homem e mulher de calundu que xinguilou Mutakalombo, xinguilaram bué, até o mais-velho Muhaidi xinguilou. Só quando o kilamba Nsanda Kabasa xinguilou também, o ngandu apareceu. Trazia nos dente a menina adormecida do susto, com muito sangue no corpo, mas com vida. Os kimbanda levaram ela para o dilombe, não deixaram ninguém ver as ferida dela. Mas teve gente viu ela de perto, mais-velhos juraram jacaré só mordeu Samba Nzundu no peito e no ana a sonhi porque o Mutakalombo não lhe queria mal, só queria era ter ela para ele.

“O Nsanda Kabasa ficou toda noite com a Samba Nzundu no dilombe, convocou dissaquela e os espíritos visitaram a vítima. Manhãzinha o Nsanda Kabasa se mostrou no povo e disse, a dissaquela acabou, mandou trazerem a Samba Nzundu. Ela veio, nuazinha, ituxi mesmo, Domingas, naquele tempo a nossa gente não andava tão vestida que nem anda agora tu julga o quê, o povo viu ela vinha com as mamas inteirinha e tudo o mais muito perfeito. Aquilo foi obra do Nsanda Kabasa, que era um grande kilamba, e todo mundo ficou contente e quis a Samba Nzundu casasse com o Nsanda Kabasa. O Ngola Kiluanji kya Samba concordou.

“Quando kilamba casa, minha sobrinha, tu não sabe, tu nunca saiu aqui da cidade mas no Kwanza é assim mesmo, quando o kilamba casa no primeiro casamento a noiva não pode ser donzela, tem que saber daquelas coisa melhor que o homem para fazer ele ter prazer. A Samba Nzundu foi do Mutakalombo, depois do milagre do Nsanda Kabasa era como kilumba mesmo. Devia ser primeiro de outro kilamba ou de um kimbanda, depois do soba e só depois do noivo. Ali não havia soba mas o ngola-mbole fazia as vezes. Foram buscar a Samba Nzundu para levar ela ao Mwana Kalunga em um lugar escondido, mas ela gritou, não queria, só gostava mesmo era do Nsanda Kabasa. Primeiro se deitou com ela o kimbanda Muhaidi, ela teve que suportar calada o mais-velho, depois veio o ngola-mbole.

“A moça estava preparada para o casamento com o Nsanda Kabasa, meteram ela na dibata com uma mais-velha. A Samba Nzundu pediu mukolo de mateba, queria morrer enforcada, já não queria casar com aquele ela gostava, agora depois que o Mwana Kalunga e o velho Muhaidi tiveram ela. A mais-velha não deixou, a Samba Nzundu empurrou ela, bazou dali até no Kwanza.

“Manhãzinha cedo as água do Kwanza estava vermelha, vermelha de sangue, com muito jacaré de roda. Uns pensam o ngandu comeu a Samba Nzundu, tem outros dizem não era ela, era outra, porque a Samba Nzundu se juntou com o Mutakalombo e foi viver com ele para sempre. E é verdade, na dissaquela de Pai Kandimba, Ximinha do Balão xinguilava Samba Nzundu e o Manuel Cadete, que era o Mutakalombo, se punha de quatro patas e, quando ele fazia isso, a Ximinha imitava ele e deixava ele fosse para cima dela, eu via tudo, Minguinha, eu não xinguilava naquele tempo, tu sabe, Pai Kandimba e todos nós tinha que separar eles na força.

“A Ximinha do Balão xinguilava bem o espírito da Samba Nzundu. Mas depois que ela deu conversa para esse tal do Mateus começou de aparecer pouco na dissaquela, eu não via ela nunca, Minguinha, mesmo aqui no beco do Balão, porque ela foi de lavadeira para a casa de baixo quando chegou o governador da metrópole. Só depois eu percebi ela foi porque o Mateus era criado lá, como ainda é agora. Ela queria estar perto do Mateus para ter conversa com ele. Saíam juntos sem mim na hora que desce o balão da torre onde a gente vê se amanhã chove. Lá na Samba corria mujimbo ela visitava o Mateus onde ele morava. No Prenda todo o mundo sabia a Vitória estava doente, deu nela febre muito de repente, mas o namorado só pensava na Ximinha do Balão.

“Passou tempo, minha sobrinha, eu já nem conversava mais com a Ximinha aqui no beco, ela vinha em maximbombo que não era o meu e ia sempre para a casa lá de baixo. Até que veio um dia ela entrou aqui mesmo, na casa de engomados, aka, eu nem estava à espera nem nada, aí ela chorou muito e contou tudo para mim. A Vitória morreu da febre e o Mateus queria se amigar com a Ximinha.

Mas a Ximinha chorava, ela tinha medo de os calundus castigar ela porque ela já vivia amigada com o Mateus quando a Vitória estava doente. Então aí foi que eu disse, mana Xima, conta o que aconteceu, porque eu sabia, Minguinha, havia coisa ela não tinha contado.

A Ximinha sentou aí nesse banco onde tu põe as camisa e contou. Ela não foi mais na dissaquela, mas pai Kandimba procurou ela e perguntou porquê. A Ximinha disse ao pai Kandimba o coração dela estava tomado por homem amigado com outra e ela queria muito esse homem, não podia viver sem ele. Pai Kandimba disse podia fazer uanga contra a moça dele, jurou a Ximinha para mim, mas só se ela se amigasse por um tempo com ele, que aquilo era trabalho de mulôji e kimbanda só vira mulôji se mulher amigar com ele, tu já viu, Minguinha?, aí então ele ia nas barrocas buscar erva para fazer uanga contra a Vitória. A Ximinha contou fez tudo com o kimbanda e depois chorou muito outra vez, gritou bué aqui na casa de engomados. Então foi que eu vi já quase tarde, a Ximinha começou de bonzar muito as mãos com esse borrifador aí, Minguinha, ela queria mesmo tocar com as mãos molhada no ferro e no fio que liga na electricidade, queria ter choque que nem eu tive uma vez que até quase que eu morri, a Ximinha queria morrer mesmo, ela queria fazer o que fez no antigamente a muculo dela, a Samba Nzundu, queria se matar por vergonha de o kimbanda se ter deitado com ela.

“Eu não deixei, eu peguei ela e levei ela para a Samba antes da hora de o Mateus sair, a gente passou a torre onde vê se amanhã chove e o balão não tinha descido ainda.

“Veio a noite, teve dissaquela no Cruzeiro, na casa de pai Kandimba. A Ximinha foi lá e eu também, de alfinete no cabelo. A Ximinha ia xinguilar e Manuel Cadete também, Samba Nzundu e o Mutakalombo ia ser chamado. A música dos goma e das dicanza começou de tocar, a Ximinha dançou e pai Kandimba foi passar a faquinha do pelo na língua dela. A Ximinha aí gritou, nunca tinha acontecido xinguilar falso. Pai Kandimba levou ela para o quarto de quozar. Ficaram lá muito tempo. O Manuel Cadete correu a sala no xinguilamento do espírito do Mutakalombo, procurou ela e não viu. A Ximinha saiu do quarto de quozar e dançou até junto do Mutakalombo. Mas o chão ficou estrada de sangue. Quando o Mutakalombo foi para cima dela, a Ximinha caiu e estava morta.

“Foi então a gente viu, a Ximinha tinha a faca do pelo espetada na barriga. Nós foi todos ver no dentro do quarto. Pai Kandimba estava morto também, com muito sangue. A gente entendeu então, a Ximinha matou o Kimbanda com a faquinha do pelo e depois espetou a faquinha nela mesma.

“Tu já acabou as camisa, minha sobrinha? Não esquece, não olha para homem amigado senão acontece como à Ximinha do Balão.

Chega de lençol branco, aka, agora a gente vai apanhar o maximbombo, está na hora o balão desce da torre onde a gente vê se amanhã chove.

Autor: Alberto Oliveira Pinto

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A História do Golfinho e do Tubarão (conto de ficção)

“Mãe, porque somos diferentes?” perguntou um dia um golfinho à sua mãe que o seguia com ternura pelos corredores do oceano.

“Filho, nós somos mamíferos, sabes? Respiramos o oxigénio do ar, não da água, assim como os homens e…”
“Como as garças?” Interrompeu o golfinho.
“Sim, também, mas..”

Distraído em seguir um cardume de peixes, o golfinho já não prestou a atenção à explicação. Não se importava.

Eram lindas as águas. Passavam como rosários com contas de cristal. Como sabia brincar entre elas, deslizar, correr, subir, descer, trepar entre cortinas de luz vindas do alto. Não havia melhor que isso. A terra era seca e ardia na pele. O mar sim, era maravilhoso.

Assim pensando, desviou-seo golfinho de onde a sua mãe havia parado para descansar. Nadou para cima e para baixo em guinadas divertidas como se estivesse numa montanha russa ou carroucel. De súbito parou. Silencioso e ilustre, deparou com um tubarão – o principe dos mares, atravessando a extensão iluminada pelo sol do meio dia. Que belo! Sim, gostaria de ser como ele; assim senhor de si, nobre, elegante, fino, distinto, perfeito, respeitado por todos os peixes. O golfinho parou para apreciar essa membro da raça fina e senhor dos mares.

Seguiu-o. Como o invejava. Tinha uns movimentos seguros e captivantes. Ao seu passar, todos os peixes se desviavam com respeito, como se ele fosse um Deus, um peixe de ouro. Como gostaria de trocar com ele de lugar e ser também um tubarão – —ser invejado por todos, ser rico, belo, chamar a atenção, conseguir tudo que quisesse, encantar todos os peixes do mar com a sua beleza.

Quando o tubarão subiu à tona, subiu ele também. Para lhe chamar a atenção, deu umas cambalhotas e até uns saltos fora da água. Que bom seria tornar-se seu amigo, ser seu igual, pertencer à mesma raça e mesma classe.

Nos seus saltos, então, deparou com uma traineira não muito longe de onde estavam. Lá estavam as criaturas de que sua mãe tanto falava, cobertos de algas coloridas sobre o rosto e fazendo sons como o vento sobre a água ou como o mar na praia.

De súbito, algo acontecia. De longe viu um dos seres debater-se nas ondas e apercebeu-se da sua angustia e aflição. Viu também, como da traineira um outro ser humano se atirava à água. Ao mesmo tempo viu surgir do fundo aquele que era o seu ídolo. Viu como ele se havia transfigurado, transformado numa fera hedionda, uma besta de dentes arreganhados, cego, furioso, mau – um demónio. Ele podia ouvir o rugir bestial e pavoroso. Como movido a eléctrico, chapinhava a superfície com uma raiva louca, espalhando terror à sua volta. Como é que um ser tão belo, podia esconder tal ferocidade, produzir tal terror?

O golfinho viu como os homens lutavam com todo o esforço e como um deles, uma criança ainda, desfalecia e sangrava. Ele viu toda a bestialidade daquele que ele havia julgado tão puro, tão nobre, e ficou cheio de revolta. Não havia nada nobre agora naquele peixe cruel , quase satânico, feito um monstro horrível de se olhar.

De um momento para o outro, sem saber como, o golfinho viu-se deslizar na água com uma força estranha, que ele próprio desconhecia nos seus tenros anos. Primeiro desceu para tomar força e depois vertiginosamente subiu, vindo a embater contra o tubarão num impeto fenomenal. Atordoado, o principe dos mares, cobarde e apressadamente se desviou do lugar. O golfinho ainda o seguiu e o atacou mais duas vezes. Depois já mais calmo, deixou descer ao abismo esse peixe formoso, mas mau. Deixou-o silenciosamente ondular no silêncio terrível e na dignidade assassínea, assim desaparecer de vista e do seu coração.

Voltando à tona, o golfinho a seguir, percebeu que os homens também estavam alegres. Viu um deles abanar os seus membros e lhe atirar alguns peixes com carinho. Tinham trazido para bordo a criança e estavam à sua roda. O perigo já tinha passado.

“Que era isso?” Sentia-se tão bem entre esses seres. Eles, sim, pareciam ter o Sol dentro de si quando sorriam. Um dos que tinha estado na água até o acarinhou. Davam-lhe alegria e amor! Sim, gostaria de ser como esses pescadores um dia.

Por uns instantes os seguiu cambalhotando e saltando cheio de alegria e emoção. Ah… se pudesse viver com eles! Mas depois lembrou-se da mãe. Tinha que lhe contar esta aventura de terror e de glória, e lá voltou aos bancos onde ela esperava ansiosa. Amanhã haveria de procurar o mundo dos homens e haveria de ficar com eles, haveria, Amanhã …

Autor: Silvério Gabriel de Melo – Vogelbach, Alemanha

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A memória suspensa (conto de ficção)

De repente, começou a temer a morte. À medida que, sem querer, lhe iam ocorrendo lembranças passadas há muito tempo, temeu que se tratasse duma espécie de balanço antecipado, a súbita consciência plena da sua história, o livro completo ou quase a completar para fecho de contas, a sensação de que nada havia para a frente, que o futuro se tinha esgotado e amarrotado perante o peso cada vez maior do passado.

Foi por isso que começou a pensar em direcção a coisa nenhuma, tentando evitar constantemente a memória do passado, querendo apenas pensar sobre o futuro, como se ele, afinal, fosse ainda uma caixa de surpresas e esperanças recompensantes. Como se essas imagens do futuro lhe insuflassem uma nova vida e esconjurassem a morte.

Por isso deu início a um processo lento de apagamento da memória. Abandonou a casa e o emprego, mudou de cidade, deixou para trás os livros, o café e os amigos. Abandonou a família. Deu um novo corte ao cabelo e deixou crescer a barba, como sempre desejara. Deslocou-se para o interior. O interior do país, não de si mesmo. Mas na altura, olhando o rosto e os modos dos seus compatriotas achou melhor mudar de país. Sentia, como eles, o peso da história. E isso incomodava-o. Mudou de país. Assim fez. Escolheu um país ao acaso.

Durante a viagem vendeu o carro a uma família de camponeses que lhe deu abrigo por umas noites, enquanto pensava melhor na sua decisão. Quando vendeu o carro percebeu que, inconscientemente, estava a dificultar o seu regresso. Que não queria regressar. Nunca tinha andado a pé e decidiu que era isso que queria fazer. Primeiro, hesitava entre os caminhos, quando chegava a um cruzamento, depois deixou de hesitar. Apenas sabia que de manhã queria enfrentar o sol e à tarde queria caminhar sentindo-o a bater nas suas costas. Nos dias mais enevoados fazia uma paragem e dormia.

O seu único consolo era saber que ia deixando a sua história para trás de si como uma cobra que larga a sua pele. Por isso não parava de caminhar. Chegado ao país que lhe coubera em sorte acabou por reparar, apesar dos milhares de quilómetros de distância da sua casa, que havia muitos pormenores que evocavam a sua terra e o seu passado. Por essa razão, não perdeu muito tempo e pôs-se de novo a caminhar. Atravessou o mar. Durante várias semanas viveu no porão de um navio mercantil. Conheceu gente que apenas conhecia de ouvir dizer. Não os entendia pois falavam línguas estranhas. Mas era isso que ele procurava.

Sentir-se absolutamente estranho. Mas nenhum lugar lhe era completamente estranho e, por esse facto, não parava em parte alguma. Apenas o tempo suficiente para recuperar forças e fazer-se de novo à estrada. Finalmente desfez-se dos seus documentos, lançando-os numa ponte. Já vira muitas vezes essa cena no cinema, e se o fazia desse modo era porque seria a melhor maneira de esquecer todos os filmes que vira. E das circunstâncias em que os vira. O seu olhar tornou-se bondoso e aprendeu a convencer as autoridades. Não inspirava nenhum perigo. Por fim, esqueceu-se do seu nome. Também era verdade que não precisava mais dele para nada. Ninguém precisava do seu nome. Ele não precisava do seu nome. Não queria ouvir mais o seu nome. E ele próprio já se começava a esquecer de si próprio. Muitas vezes tinha que se sentar à beira do caminho, quando sentia que aquilo que sobrava de si mesmo, se atrasara. Até que percebeu que o que pretendia era precisamente o inverso. E começou a apressar o caminho e a encurtar os períodos de descanso. Aprendeu a largar-se de si mesmo.

Como isso era importante!… Atravessou de novo os mares e alguns continentes. O que viu nunca vira. Mas não se demorava a ver. Atravessava as cidades mais populosas de uma forma quase imperceptível. Evitava parar nas cidades. As montras e os espelhos das cidades podiam ser fatais. Se alguém se demorava mais tempo a olhar para si, partia logo a correr. Temia ser reconhecido. Ou reconhecer no olhar do outro, olhares ainda alojados no fundo da sua memória. Não se queria ver a si mesmo, embora sentisse que não se reconheceria. Mas não queria correr riscos. Só os correria quando já não sentisse qualquer risco. Por isso escolhia os campos. Preferia os caminhos mais estreitos. Os atalhos. Quando, por acaso, escutava alguém a falar, apercebia-se que continuava a atravessar países. Até que um dia chegou a uma cidade completamente desconhecida. Achou que era um bom lugar para ficar.

Nada do que via à sua volta lhe era familiar. Pela primeira vez, nada lhe dizia alguma coisa. Que local estranho, mas agradável, pensou. Pela primeira vez sentia-se completamente vazio. Entretanto, porque ganhara esse hábito, continuava a dar grandes passeios pela cidade, a passo vigoroso, grandes passadas, de forma apressada, quase louco, não ligando a nada à sua volta. Caminhando, apenas caminhando. O que fez nos primeiros dois dias que chegou à cidade, caminhando dia e noite, repetindo os lugares, as avenidas, as ruas, os becos, os jardins. Para ter a certeza de que nada lhe suscitava qualquer lembrança. Por fim, já extenuado, resolveu entrar numa casa. Bateu à porta e mandaram-no entrar para a sala. Uma mulher e duas crianças apareceram-lhe pela frente. Olhavam para ele, incrédulas. Pela primeira vez, desde há muito tempo, o homem olhava para si próprio e reparou em si mesmo. A roupa esfarrapada, quase descalço, as longas e sujas barbas, a magreza acentuada do rosto. Libertava-se dele um cheiro fétido. Mas a mulher e as crianças sorriram para o vagabundo. Tinham passado quase dois anos. Eles não sabiam o que dizer.

– Não me perguntem nada. Tive um dia esgotante.

E dito isto, o homem foi-se sentar no sofá, exactamente onde se sentava todos os fins de tarde quando regressava a casa, exausto e triste.

Autor: José Carlos Almeida

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A tortura pela esperança (conto de ficção)

Ao Senhor Edouard Nieter

“Oh! Uma voz, uma voz, para gritar!…” Edgar Poe – O Poço e o Pêndulo

Sob  as criptas do Santo Ofício de Saragoça, ao cair de uma noite antiga,  venerando  Pedro  Arbuez  de  Espila  – sexto prior dos dominicanos de  Segóvia,  terceiro  Grande  Inquisidor  de Espanha -, seguido de um frade  redentor   (mestre   torturador)   e  precedido  de  dois  familiares  da  Inquisição,  os  quais  seguravam duas candeias, descia para um calabouço  perdido.  Rangeu a fechadura de uma porta maciça; penetraram num mefítico  in  pace,  no  qual a janela tapada lá em cima deixava entrever, entre os  anéis  chumbados à parede, um cavalete negro de sangue, um fogareiro, uma  bilha.  Sobre uma cama de estrume, tolhido por umas manilhas, de canga de  ferro ao pescoço, sentava-se, esgazeado, um homem andrajoso, de idade que  se tornara indistinta.

O  prisioneiro  não era outro senão o rabi Aser Abarbanel, judeu aragonês  acusado de usura e de impiedoso desdém pelos pobres, que já há mais de um  ano estava a ser quotidianamente sujeito à tortura. Contudo, “tendo ele a  cegueira mais dura que o couro”, recusara se a abjurar.

O  rabi,  brioso  de uma filiação várias vezes milenar e que se orgulhava dos  seus  antiquíssimos maiores – pois todos os judeus dignos desse nome  são  ciosos  do seu sangue -, descendia talmudicamente de Othoniel e, por  conseguinte,   de   Ipsiboe,   mulher   desse   último  Juiz  de  Israel,  circunstância  que  também  sustentara  a  sua  coragem no mais aceso dos  incessantes suplícios.

Foi  pois  de  olhos  marejados,  ao  pensar  que  essa alma tão firme se escusava  à  salvação,  que  o venerando Pedro Arbuez de Espila, tendo se  aproximado do fremente rabi, pronunciou as seguintes palavras:

–  Meu  filho,  alegrai  vos:  vão acabar agora as vossas provações neste  mundo.  Embora,  em  face de tanta obstinação, eu tenha sido forçado, com  lástima,  a  permitir  o  emprego  de bastantes rigores, o meu encargo de  fraterna  correcção  tem  os  seus limites. Sois a figueira contumaz que,  encontrada tantas vezes sem fruto, incorre na pena de murchar… mas só a  Deus cabe decidir sobre a vossa alma. Talvez a infinita Clemência venha a  luzir  para vós no supremo instante! Há que ter esperança! Já houve casos  desses…  Assim seja! – Repousai pois em paz esta noite. Amanhã tomareis  parte no auto-de-fé: quer dizer que sereis exposto ao quemadero, fogueira  premonitória  das  Chamas  Eternas;  como  sabeis,  meu  filho, só arde à  distância  e  a  Morte  leva duas horas a chegar (muitas vezes três), por  causa  dos panos molhados e gelados com que temos o cuidado de proteger a  frente  e  o  coração  dos  holocaustos.  Sereis  apenas quarenta e três.  Considerai  que,  estando  colocado  na  última  fila, disporeis do tempo  necessário para invocar Deus, para lhe ofertar esse baptismo do fogo, que  é do Espírito Santo. Tende pois esperança na Luz e dormi.

Ao  acabar  este  discurso,  dom  Arbuez, depois de, com um gesto, mandar  desagrilhoar o infeliz, abraçou o ternamente. Coube a vez depois ao frade  redentor,  que,  sussurrando, pediu ao judeu perdão pelo que o obrigara a  sofrer  para  o  redimir;  por  fim,  cingiram no os dois familiares cujo  beijo,  dado  através dos capuzes, foi silencioso. Terminada a cerimónia,  deixaram o captivo nas trevas, só e atónito.

O  rabi  Aser  Abarbanel,  de  boca seca e olhar esgazeado de sofrimento,  começou  por fitar, sem atenção precisa, a porta fechada. – “Fechada?…”  Esta  palavra,  no  mais  íntimo  de  si,  despertava,  nos seus confusos  pensamentos,  um  devaneio.  Acontecia  que  entrevira  por um instante o  bruxulear das lanternas pela fenda entre a porta e a muralha. Uma mórbida  ideia  de esperança gerada pelo enfraquecimento do cérebro estremeceu lhe  o  ser.  Arrastou  se  para  a  insólita  coisa que aparecera! E, com mil  cuidados,  inserindo  um dedo com longas cautelas na nesga, puxou a porta  para si. Que assombro! Por extraordinário acaso, o familiar que o fechara  rodara  a  grossa  chave  um pouco antes do embate contra os montantes de  pedra,  de  modo  que,  não  tendo  a lingueta enferrujada entrado no seu  encaixe, a porta voltou a rodar no reduto.

O rabi arriscou uma olhadela lá para fora.

A coberto de uma espécie de obscuridade lívida, começou por distinguir um  semi  círculo de paredes terrosas perfuradas por umas escadas em espiral;  e,  diante dele, dominando cinco ou seis degraus de pedra, uma espécie de  boca negra pela qual se acedia a um vasto corredor, do qual, cá de baixo,  só se conseguiam entrever as primeiras arcadas.

Baixou  se pois e foi a rastejar até ao rés desse limiar – sim, era mesmo  um corredor, mas de comprimento desmedido! Iluminava o uma luz pálida, um  brilho de sonho: suspensas das abóbadas, umas chamas de vigia banhavam de  tons  azuis,  a intervalos, o ar pardacento: – o fundo longínquo era todo  sombra.  Nem uma porta lateral em toda essa extensão! De um só dos lados,  à  esquerda,  havia  uns  respiros, com grelhas em cruz, em cavidades das  paredes,  que  deixavam  perpassar  um  crepúsculo  –  que devia ser o da  tardinha,  dadas  as  listas  rubras  que  de  longe  em longe riscavam o  lajeado.  E  que silêncio medonho!… Contudo, lá ao fundo, nas profundas  dessas  brumas,  poderia  haver  uma  saída  que dava para a liberdade! A  vacilante esperança do judeu era tenaz, pois era a última.

Não  hesitando,  pois,  aventurou  se  pelas  lajes, seguindo encostado à  parede  dos  respiros, esforçando se por se confundir com o tenebroso tom  das  longas muralhas. Avançava com lentidão, rastejando sobre o peito – e  coibindo se de gritar quando o lanceava uma ferida recentemente avivada.

De  súbito,  chegou  até  ele,  no eco desta ala de pedra, o ruído de uma  sandália  que se aproximava. Agitou o uma tremura; a ansiedade abafava o;  escureceu se lhe a vista. Não era possível! Seria o fim? Agachou-se muito  num côncavo e, meio morto, pôs se à espera.

Era  um  familiar  apressado. Passou rapidamente, de lacerador na mão, de  capuz rebaixado, terrível, e desapareceu. O tolhimento que cingira o rabi  como que lhe suspendera as funções da vida, pelo que ficou quase uma hora  sem poder efectuar um movimento. Receando redobrados tormentos caso fosse  apanhado,  assaltou  o  a  ideia  de  voltar  ao  calabouço.  Mas a velha  esperança sussurrava lhe à alma esse divino Talvez que nos reconforta nas  piores  tribulações!  Dera se um milagre! Não havia que duvidar mais! Pôs  se  pois  a  rastejar  de  novo,  rumo  à  evasão  possível. Extenuado de sofrimento e de fome, tremendo de angústias, avançava! – e esse sepulcral  corredor  parecia alongar se misteriosamente! E ele, avançando sem parar,  continuava  a  fitar  a  sombra  lá ao fundo, onde tinha de estar a saída  salvadora.

– Oh! Oh! – eis que voltavam a soar passos, mas, desta vez, mais lentos e  mais sombrios. Surgiram lhe, lá ao fundo, emergindo no ar pardacento, com  os seus chapéus compridos e de abas enroladas, as formas brancas e negras  de  dois  Inquisidores.  Conversavam  em  voz  baixa  e pareciam estar em  controvérsia sobre um ponto importante, pois as mãos agitavam se lhes.

A  esta visão, o rabi Aser Abarbanel fechou os olhos: o coração batia lhe  que  o  matava; penetrava lhe nos andrajos um suor frio de agonia; deixou  se  ficar boqueaberto, imóvel, estendido ao longo da parede, sob os raios  de uma chama de vigia, imóvel, orando ao Deus de David.

Chegados  diante  dele,  os dois inquisidores detiveram se debaixo da luz fraca  da  lâmpada  –  e  isto  certamente  por  um  acaso originado pela  discussão. Aconteceu que um deles, escutando o seu interlocutor, se pôs a  olhar  para o rabi! E, sob esse olhar, cuja expressão absorta começou por  não compreender, o infeliz julgava sentir as tenazes quentes a morder lhe  de  novo  a  pobre  carne;  então  ia voltar a ser um choro e uma chaga?!  Desfalecendo, sem conseguir respirar, com as pálpebras a bater, arrepiava  se  ao  roçar do hábito do outro. Mas, coisa à uma estranha e natural, os  olhos do inquisidor eram obviamente os de alguém profundamente preocupado  com  o  que  vai  responder,  absorvido  pela  ideia do que está a ouvir:  estavam fixos – e pareciam fitar o judeu sem o ver!

Com  efeito,  ao  cabo  de  alguns minutos, os dois sinistros altercantes  continuaram  o seu caminho, a passos lentos, e continuando a falar em voz  baixa,  em direcção à encruzilhada de onde viera o captivo: este NÃO FORA  VISTO!…  Tanto,  que, no horrível desconcerto das suas sensações, houve  esta  ideia  que lhe atravessou o cérebro: “Estarei já morto, para que me  não vejam?” Uma repugnante impressão veio tirá lo da letargia: ao fitar o  muro, junto ao seu rosto, julgou ver, diante dos seus, dois olhos ferozes  a  observá  lo!…  Atirou  a  cabeça  para  trás, num transe desmedido e  brusco,  arrepiando  se lhe os cabelos!… Mas, não. A mão dele percebeu,  ao tactear as pedras: era o reflexo dos olhos do inquisidor que ainda lhe  tinham  ficado  nas  pupilas,  e que ele refractara sobre duas manchas na  muralha.

Em  marcha!  Havia  que  correr para esse objectivo que (doentiamente sem  dúvida) imaginava ser a salvação! Para essas sombras que já não estavam a  mais de trinta passos, aproximadamente. Assim, de joelhos, sobre as mãos,  sobre  o  ventre,  retomou  a  sua  via dolorosa; e breve entrou na parte  obscura desse corredor horripilante.

De  súbito,  o miserável sentiu um frio por sobre as mãos que apoiava nas  lajes:  provinha  dum  violento bafo que se infiltrava por debaixo de uma  porta  a que iam dar os dois muros – Ah, Deus! Se esta porta desse para o  lado de fora! Todo o ser do lamentável evadido teve como que uma vertigem  de  esperança!  Examinou a porta de alto a baixo, sem conseguir distingui  la  bem,  dada  a escuridão que reinava à volta dele. – Pôs-se a tactear:  nem  ferrolho,  nem  fechadura.

 – Um simples trinco!… Endireitou se: o  trinco cedeu lhe ao polegar: a silenciosa porta girou diante dele.

–   ALELUIA!… – murmurou, num imenso suspiro de acção de graças, o  rabi, que estava agora de pé no limiar, à vista do que lhe surgia pela  frente.


–     Ao  abrir  se,  a  porta deixara ver jardins, uma noite de estrelas! A  Primavera,  a liberdade, a vida! Dava para os campos ali ao pé, que se  prolongavam  para  as  serras,  cujas  sinuosas linhas azuis se perfilavam  no  horizonte – enfim, era a salvação! Ah, fugir! Havia de  correr  toda  a  noite  por entre os bosques de limoeiros cujos  perfumes  lhe  chegavam.  Uma  vez  nas  montanhas,  estaria salvo! 

  Respirava  o  bom  ar  sagrado;  o  vento  reanimava  o, os pulmões essuscitavam  lhe!  Ouvia,  no  coração  dilatado, o Veni foras de Lázaro!  E,  para  voltar  a  abençoar  o Deus que lhe concedia tal   misericórdia, estendeu os braços à sua frente, elevando os olhos ao  firmamento. Foi um êxtase.

–     Então, julgou ver a sombra dos seus braços virar-se para ele: – julgou sentir  que esses braços de sombra o rodeavam, o enlaçavam, e que o cingiam  ternamente  a  um  peito.  De facto, havia uma alta figura  junto  da sua. Confiante, desceu o olhar para essa figura – e ficou  ofegante, estarrecido, de olhar baço, tremebundo, de faces inchadas  e a espumar de terror.

–  Horror!  –  estava  nos  braços  do Grande Inquisidor, nem mais, do venerando  Pedro  Arbuez  de  Espila,  que  o  fitava,  com grossas lágrimas  nos olhos, e um ar de bom pastor que voltou a encontrar a  ovelha tresmalhada!…

– O  tenebroso  dominicano  apertava  o judeu ao peito com tão fervoroso impulso  de  caridade,  que  os  picos  do  cilício  monástico  lhe    esgadanharam  a  pele.  E, enquanto o rabi Aser Abarbanel, de olhos   revoltos sob as pálpebras, estrebuchava de angústia entre os braços do  ascético  Dom Arbuez e percebia confusamente que todas as fases da  fatal  noite  mais  não  eram do que um suplício previsto, o da  Esperança!,  o  Grande Inquisidor, num tom de pungente censura e de  olhar  consternado, murmurava lhe ao ouvido, com o hálito ardente e  estragado pelos jejuns:

–  Então,  meu  filho,  que  é  isso?  Então,  na  véspera  talvez  da  salvação… queríeis deixar nos?!

Autor: Villiers de L’Isle-Adam

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A Verdade da Cigana (conto de ficção)

Rapaz bonito, bem apessoado, Jorge apareceu na faculdade fazendo charme para todas as garotas. E qual delas não se interessava por ele? Logo primeira semana ficou com a menina mais bonita do lugar. Mas ele não queria saber de relacionamentos sérios. Como o próprio Jorge dizia, “para que ter uma quando se pode ter várias”? E assim Jorge foi aumentando a sua lista de telefones femininos na agenda do celular.

Certo dia ele conheceu Marta, um moça dotada de muita paciência. E ela, como era de se esperar, apaixonou-se. Jorge, achando a moça bonita, aproveitou para tirar uma casquinha. Mas Marta era esperta. Só ficaria com ele quando tivesse a certeza de que a relação dos dois caminharia para o namoro.

Marta esperou pacientemente que Jorge resolvesse tomar jeito até que finalmente ele pareceu sossegar. Depois de ficar falado pela faculdade inteira, ele percebeu que sua fama já não era das melhores e achou que era hora de namorar alguém legal. E Marta foi a escolhida.

Todas as outras meninas, quando não sentiam inveja, sentiam pena. Afirmavam de pé junto que não haveria um fim de semana em que Marta não aumentasse um chifre na sua coleção.

Mas para o espanto de todos Jorge estava calmo. Não aparecia mais nas festas. Era encontrado nos barzinhos do Dragão do Mar namorando e ouvindo MPB. E nunca voltava para casa muito tarde. Alguns diziam que era milagre. Outros alegavam que ele devia ter uma “filial” e por isso não podia se expor. Se uma namorada já pegava no pé, imagine duas. Ou mais quem sabe.

Só que Jorge sabia que Marta era a única mulher da sua vida. E Marta também tinha plena certeza disso. Mas sempre existiram e sempre irão existir as tentações da vida. Uma mulher mais velha e muito sensual começou a investir em paqueras com Jorge. E ironicamente, Júlia era sua professora de anatomia.

Jorge era o exemplo preferido da professora. Todo mundo percebia que ela estava interessada nele, pois não cansava de soltar indiretas, Mas Jorge não cedia nunca. Ele até pensou em processá-la por assédio sexual! Coisa que antes jamais passaria pela sua cabeça.

Seus amigos diziam que ele já não era o mesmo. O Jorge que eles conheciam já teria traçado a professorinha. Ninguém podia acreditar que Jorge agora era um rapaz sério e fiel. E as pessoas comentavam: “o que o amor não faz!”.

O namoro de Jorge e Marta ia muito bem até que num sábado, quando eles estavam na praia, tomando uma água de coco debaixo da barraca, uma cigana apareceu. Marta, que era louca por coisas esotéricas, não piscou duas vezes e estendeu as mãos para a cigana perguntando:

– O Jorge já me traiu ou vai me trair com o outra mulher?

A cigana prontamente respondeu que não e Marta se deu por satisfeita. Jorge não gostou muito da pergunta. Não acreditava que depois de tantos sacrifícios Marta ainda duvidasse dele. Ficou extremamente magoado e resolveu ir para casa após de uma pequena discussão.

Marta sabia que Jorge só ligaria para pedir desculpas no dia seguinte e, como não era boba, aproveitou para sair com suas amigas. Janete, sua melhor amiga, sugeriu que elas deveriam ir na nova boate da cidade. Chegando lá se decepcionaram. A boate era GLS. As duas não tinham nada contra os homossexuais, bissexuais, pansexuais ou seja lá que outra definição as pessoas de gostos sexuais alternativos tivessem. Só que aquele não era o tipo de lugar que elas esperavam encontrar. Principalmente Janete, que estava louca para arrumar um namorado.

Elas já estavam pensando em voltar para casa quando Janete encontrou Carlos, um amigo seu que era gay. Ele ficou surpreso e acabou perguntando se as duas também tinham “virado para o lado de lá”. Janete e Marta explicaram o que havia acontecido e Carlos, que era muito divertido, não deixou que elas perdessem a noite.

Algumas horas depois, os três já cansados, resolveram procurar um lugar para sentar. Foi difícil, mas encontraram. E tamanha foi a surpresa de Janete e Marta (principalmente de Marta, diga-se de passagem) quando as duas viram Jorge parado, sozinho no bar. As duas se entreolharam como se uma lesse o pensamento da outra e se encolheram completamente para não serem vistas. Foi quando se perguntaram o que ele estaria fazendo ali sozinho. As hipóteses foram começando a surgir até que um acontecimento dissipou todas as suas dúvidas. Um homem desconhecido, alto e musculoso, passou a mão pelo ombro de Jorge e saíram os dois, bem abraçadinhos, rumo ao banheiro da boate.

Marta, que até então estava com medo que o namorado a visse num ambiente nada familiar, ficou decepcionada com Jorge. Injuriada! Indignada! Principalmente com aquela cigana mentirosa. Mas a cigana não havia mentido. Realmente Jorge não a traiu com outra mulher.

Autor: Alinne Facundo

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Aconteceu no Trem (conto de ficção)

Meu sonho sempre foi um dia poder sentir a fragrância de uma só noite às margens do mar Tirreno, banhar-me nas águas mediterrâneas desse mar. Mergulhar dentro d’água, da noite e banhar-me na luz pálida do luar.

No verão de 1994, eu peguei um trem que liga Roma a todo o Norte da Itália, parando em diferentes cidades e vilas do pitoresco interior italiano. Eu comprei o bilhete até a estação de Viareggio-Lucca na toscana, quando comprei o bilhete pedi ao senhor que me desse um lugar ao lado da janela do trem, porque queria ver, e, apreciar toda a beleza da paisagem do interior italiano. Essa foi a razão porque eu pedi, não só pedi, porém quase implorei para que o bilheteiro me vendesse um lugar na janela.

Em vez de ficar em Roma fazendo nada, depois de uma estada de duas semanas, já tinha feito e visto bastante. Decidi pegar o trem e descobrir toda a maravilha das montanhas e colinas do Lácio e da Toscana. Eu parti de Roma pela tardinha, quando o trem saiu da estação, pude ver e sentir toda a beleza da Cidade Eterna, com suas sete colinas, seus monumentos suntuosos e sua história grandiosa. O verão este ano na Itália era muito quente, sentia-se um calor infernal dentro do vagão do trem mesmo como o ar condicionado ligado. Eu usava bermuda e uma camiseta bem leve com a estampa da bandeira italiana, um traje perfeito para dias quentes de verão. Não era difícil para comunicar-me na língua italiana, porque meus conhecimentos de italiano eram melhores que eu pensava.

Enquanto eu apreciava a paisagem lá fora, alguém sentou-se ao meu lado, quase não percebi a sua presença humana na poltrona, se não fosse o leve toque de seu braço no meu quando este se apoiou no apoio central da poltrona do trem. Sem sentir, essa pessoa olhou nos meus olhos e conseqüentemente eu também mergulhei profundo dentro dos seus.

Alguém sentado junto a mim, me olhando com olhos marcantes, na verdade esse alguém me marcava também. Finalmente era uma troca mútua de olhares.

Depois de algum tempo, mesmo sem saber meu nome, essa pessoa sensualmente linda olhou para mim, com seus olhos brilhantes e disse com uma voz forte porém sensual.
– “È caldo oggi, vero?”*

Eu respondi com a garganta seca de emoção, paralisado pela música de sua voz.
– “Vero è troppo caldo questa sera?…”*

Pensava que eu fosse um italiano, de fato eu poderia ser um italiano, tinha todas as características de um italiano, e algumas palavras que falasse não daria para perceber meu sotaque brasileiro.

Depois de algum tempo nossos olhos se olharam mais uma vez, buscávamos qualquer coisa escondida dentro de nossos olhares. O bilheteiro passou por nós sem nada perceber, só pediu para ver nossos bilhetes, depois de examiná-los, seguiu examinando os dos passageiros da frente.

Enquanto isso o trem movimentava, aumentando ainda mais o fogo da minha paixão. Da janela do trem se via a terra firme e também se via bem próximo da estrada de ferro, todo o azul índigo das águas do mar Tirreno. Eu me encontrava perdido entre a beleza desses olhos castanhos e a natureza lá fora. Um homem sensível como eu, tem muita facilidade de se entregar a um olhar profundamente cativante, mesmo que esse olhar seja de uma pessoa estranha. De um lado, a beleza do mar e, do outro, o brilho cativante de seus olhos a me olhar discretamente, um privilégio raríssimo que eu deveria aproveitar o máximo possível. Pensei comigo mesmo, tudo poderia terminar na próxima estação.

Quando chegamos à estação de Civitavecchia ainda na província do Lácio, já estava escuro lá fora e a Lua começava subir no horizonte, já não se podia mais ver a paisagem, somente luzes acesas e o brilho da Lua refletido nas águas do mar Tirreno. Através da noite o trem avançava, dentro da noite meus olhos procuravam dormir e esquecer esta paixão que se sentava ao meu lado. Eu sentia seu braço a tocar-me. Sentia todo o seu perfume no ar, silenciosamente nos buscávamos telepaticamente. Uma paixão telepática certamente acontecia entre nós, não pronunciávamos palavras, no entanto trocávamos energia e olhares.

A noite avançava e nós continuávamos buscando um ao outro intensamente dentro da noite. Por um instante dormi e sonhei… Quando acordei ao meu lado a poltrona estava vazia, minha paixão telepática sumiu dentro da noite, desceu na estação de Grosseto já na Toscana, deixando-me vazio e com o sabor amargo da perda dentro d’alma.

Acendi a luz para poder ler um livro, e, tentar apagar o fogo dessa paixão telepática que ainda queimava dentro de mim, foi então que percebi que na poltrona onde se sentava essa minha paixão, encontrava-se um papel com algumas palavras escritas em italiano. Sem hesitar, peguei o papel e li cheio de emoção.

Ciao bello, sono certo que tu hai sentito la mia passione!… Un bacio.“*

Um bilhete sem nome matou o que ainda não tinha nascido completamente. Nesse trem morreu uma paixão que apenas começou, um sentimento espiritual que, por um momento, fez renascer meu coração que, de uma certa forma, se encontrava fechado para novas emoções.

Olhos castanhos se foram deixando-me completamente vazio mergulhado em profunda solidão. Sigo minha viagem através da bela Toscana, minha paixão fica para trás perdida em uma estação de trem qualquer. Eu fico aqui dentro de mim, completamente só com minha solidão. Sozinho sentindo minhas emoções fervendo, observo da janela do trem o brilho pálido da Lua refletido nas águas inquietas do mar Tirreno. Talvez em outra estação eu esqueça essa paixão, paixão que agora tornou-se lívida dentro de mim, como o brilho pálido da Lua, mergulhada na escuridão da noite lá fora…

* – “È caldo oggi, vero?” – Quente hoje, verdade?
* – “Vero è troppo caldo questa será?” – É muito quente esta tarde, verdade?
* “Ciao bello, sono certo che tu hai sentito la mia passione!…” – Adeus rapaz, estou certo que tu sentiste a minha paixão!… Um beijo.

Autor: Edmar Bernardes Da Silva

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Adão, Um Anão (conto de ficção)

A noite já estava entrando em trabalho de parto quando pela estrada enlameada vinham os dois amigos: Tonhão e Malaquias, o Gambá. O primeiro mais próximo do céu. O outro mais próximo da terra. Mas tais diferenças em suas estaturas, ao contrário do que possa parecer, mais os uniam. Eram amigos de todas as horas: boas e más. Amigos para o bem ou para o mal feito. Amigos para qualquer coisa. Amigos de copo e do copo. Copo sempre cheio da branquinha, ou da amarelinha, ou da “de raiz”, ou da “de cabeça”. A cor ou denominação era de pouca importância para ambos. Importância, sim, era o teor alcóolico: quanto maior, melhor! Muito provável é que os dias de suas vidas não eram medidos mais pelo nosso antiqüíssimo calendário Gregoriano, mas sim pelo calendário Alambicano. Os dias e anos nesse novíssimo e estranho calendário eram marcados por garrafas. Uma das diferenças entre um e outro calendário era os feriados de qualquer natureza, onde o expediente alcoólico era dobrado: em vez de uma, duas garrafas de cachaça! Portanto, muitas e muitas garrafas de vida tinham eles. Vinham pela estrada, já encachaçados. Volta e meia, um tropeção. Sem outra alternativa – a enchente havia derrubado a ponte do rio Feio -, retornaram a Cafundó de Minas, que, dessa forma, ficara isolada até de suas vizinhas mais próximas.

Cafundó de Minas era uma cidade pequena, sem recursos e atrasadíssima. As ruas descalças e esburacadas. Todas elas.

Estações climáticas lá praquelas bandas só duas: poeira-calor ou lama-frio, ou vice-versa, como queiram. Agora seus habitantes sofriam com a estação lama-frio. As fortes chuvas arrancavam, impiedosamente, a pele das ruas, e elas sangravam em abundância, sem parar. Tais ferimentos, entretanto, cicatrizavam-se com a chegada da outra estação: poeira-calor. Médicos e dentistas não existiam de jeito nenhum. Mas improvisava-se: o ferreiro virava dentista; qualquer um que lidasse com animais virava médico. Uma pequena igreja – grande se comparada à maioria das casas – ajudava a suavizar a penúria em que viviam seus moradores. Mesmo assim, com todas essas dificuldades, vivia-se lá. Vivia-se mais da resignação e da fé – “Deus dá o frio, conforme o cobertor”, costumavam dizer – do que de qualquer outra coisa palpável.

Robustecendo toda essa resignação e fé o pároco da cidade, por registro italiano: o roliço e bem-humorado Corleone. Delegado, advogados, juiz de Direito, nem pensar. Autoridades locais, só mesmo o referido padre e o prefeito, Rolinha.

Entretanto, sinalizando a chegada do progresso, a gigantesca televisão em preto-e-branco do prefeito Rolinha. Muitas válvulas, mais de dez! No início, até romarias fizeram à casa dele para saber da estranha e moderna novidade. Ouviram dizer que de dentro daquele “apareio” tinha gente de todo jeito e que essa gente fazia “de um tudo”! Infelizmente, o que conseguiram ver foram muitos chuviscos. “Eu sabia, sô, que tudo num passava de mintira. Onde já se viu gente fazeno todo tipo de istripulia dentro de uma caxa? Só pudia mesmo sê coisa do prefeito. Mintiroso que só ele!”. Esses eram os comentários ouvidos por toda parte. Só desilusões: progresso… pra que isso? Se não funcionava, não prestava pra nada…. Muitas desilusões, sem dúvida. Dessa forma, o moderno aparelho passou a ser mero enfeite na casa do prefeito.

Não possuía outra utilidade senão essa, pois parecia que até mesmo os sinais eletromagnéticos enviados pelas poderosas redes transmissoras não conseguiam localizar Cafundó, perdida no vasto território mineiro.

Já próximos à entrada da cidade – alheios a toda essa questão da modernidade e progresso -Tonhão e Gambá caminham com mais cautela, pois a estrada estava um verdadeiro sabão. Vão encolhidos e ligeiramente inclinados pra frente: mãos fechadas dentro dos bolsos das calças. Com a lama, a chuva trouxera também o frio. Avistam um pequeno casebre iluminado por uma luz bem fraquinha. Tonhão, sem maiores delongas, diz:

_ Gambá, vamo pidi poso, nesse rancho aí?

_ Sei não, Tonhão…

Decidido, Tonhão arremata:

_ Pois eu vô. Se ocê quisé me acumpanhá muito bem, se quisé ficá na chuva é pobrema seu!

Para lá se dirigiu Tonhão, acompanhado pelo indeciso Gambá. Chegam. Batem palmas. Chamam pelo dono:

_ Ô de casa! Ô de casa!

Nada de ninguém aparecer. Resolvem entrar. A porta estava somente encostada, para sorte de ambos. Empurram-na e entram. Tudo quieto. Silêncio. Dirigem-se para o local de onde estava vindo a claridade: era uma lamparina. Seus vultos balançam, dançam, crescem e diminuem ao sabor daquela claridade. Olhos bem apertados para melhor enxergar. Atenção redobrada, afinal de contas entraram sem a permissão do dono. Acostumam-se à pouca claridade e qual não foi a surpresa de ambos quando se depararam com um anão deitado sobre alguma coisa que se parecia com uma cama. Aproximam-se.

Tonhão, bem devagarinho, sacoleja aquele pequenino corpo. Nada. Repete a mesma ação, agora com mais força. Nada outra vez. “Pode sê qui ele teja é cum o globo chei de cachaça!”, pensa ele. Encosta sua enorme mão no rosto do anão.

Gelado, gelado. Gelado, também, ficou ele. Diz, meio assustado:

_ Gambá, esse anãozim tá é morto, sô!

_ Ave Maria, cruiz credo! – diz Gambá, benzendo-se e fazendo rápido e de qualquer jeito o sinal da cruz.

_ E agora? O que nóis vamô fazê, hein? – pergunta Tonhão.

_ Sei não! O jeito é isperá essa chuva doida passá e pegá o rumo de casa!

Continuam a conversa:

_ Casinha danada de pequena, sô – observa Gambá.

_ Mais o que ocê quiria que fosse? Um castelo? Quem mora em castelo é só gigante, ara! Ocê num tá veno que o omi é anão! Pra ele, que era piquininin, tá bão dimais da conta, uai. Complementa, com ar professoral:

_ Pra ele quarque mêi metro é chão que num acaba mais. Era chão, né? O coitadim morreu. Uma gamela daquelas grandona pra ele era iguar uma lagoinha: dava até pra ele tomá banho! Óia só o tamanico dele.

_ É Tonhão, ocê tá certo. Ele é mesmo danado de miúdo – concorda Gambá.

Aproximam-se mais do corpo do anão, que estava deitado com a barriga pra cima, o braço direito pendente, os olhos abertos. O semblante, porém, era calmo. Provavelmente, morrera sem sofrimento. Pelo menos isso…

_ Num te falei, Gambá? Ispia aqui só o que ele fazia de cama – diz Tonhão, admirado.

_ Eita, Tonhão, mais ocê é sabido dimais da conta, sô!

A cama do anão era uma tampa de baú! Um bauzão, que teria sido, talvez, até do Barão de Cocais – segundo alguns, raiz da árvore genealógica de todos os mineiros. A tampa do referido baú, muito bem trabalhada e fornida. Fora feito com muito luxo e pompa, sem dúvida nenhuma. Passados, sabe-se lá quantos anos e aquele baú ainda ostentava toda a glória de longínqua recordação. O colchão era uma espuma envolvida por um pano quadriculado nas cores azul e branco. Talvez as cores do seu time de futebol: o Cruzeiro Esporte Clube.

O medo parece tomar conta de ambos. Tonhão, pela sua estatura, tenta demonstrar coragem. Gambá, a seu turno, não sai de perto de Tonhão e sugere ao amigo:

_ Tonhão, vamo vê se nóis acha uma vela por aí?

_ Vamo sim, Gambá. Só cum essa lamparina num tá dano pra enxergá quais nada.

Deixam o pequeno defunto e municiados com a lamparina vão até a um pequeno cômodo contíguo ao quarto do anão. Parecia ser a cozinha ou algo semelhante. Sobre uma mesa encontram uma caixa de fósforo e um maço, quase vazio, de velas. Acendem uma vela, que fica com Tonhão. Procuram firmar as vistas para fazer um reconhecimento do lugar. Os olhos de Gambá deparam-se com algo: um armário. Armário bem velho, que mal se agüentava de pé. Encaminham-se para lá.

Além de estarem com frio, tinham fome. Tonhão abre o armário. Bem escondidinha, lá estava uma garrafa. Como ambos eram analfabetos, não sabem ao certo, qual o seu contéudo. Curiosidade. Tonhão toma a frente. Destampa a garrafa. Faz a leitura que sabe fazer muito bem e sem erros: a leitura olfativa. Aquele cheiro doce e familiar da cana-de-açúcar: cachaça! O nome da branquinha, para todos os efeitos alcoólicos: “Poderosa”. Nada para matar a fome, só a sede, mas contentam-se, quando lembram de um sábio ditado popular, que assevera: “Em época de crise, melhor lamber do que cuspir!”. Muito alegremente tomam posse daquele tesouro. Para eles, líquido tesouro. Tonhão entorna um bom gole e comenta:

_ Era disso mesmo que nóis tava pricisano. Eita coisa mais boa, sô! Já bebeu dessa, amigo Gambá? – pergunta, satisfeito, Tonhão.

_ Dessa aí ainda não! Mais isprimento ela agorinha. Pass’ela pra cá, mano véio!

Gambá bebe um grande gole. Automaticamente, faz uma careta – como se estivesse bebendo pela primeira vez na vida – e cospe no chão. Limpa a boca com a manga da camisa encharcada. A cachaça estava aprovada. Era muito boa, mesmo!

_ Intão, saúde pra nóis e bão descanso pro nosso amigo aí, que nóis num sabe nem o nome. O danadim também gostava do que é bão… Cachacerim, coitadim… – diz Tonhão, que gostava de rimar – bem ou mal – quase tudo que falava.

_ Acho que era de bão arvitre nóis botá um nome nele. Ocê num acha? – pergunta Gambá.

_ A quá! Isso é bobage, sô!

Gambá, esclarece:

_ Tonhão, afinar de conta a cachaça que nóis tamo tomano era dele. O nome é só uma homenage póstima, de nóis pra ele. Eu acho que ele ia apriciá muito.

_ A pois, intão vamo pensá num nome – diz Tonhão, coçando a cabeça.

Ficam em silêncio uns poucos minutos procurando um nome que se adequasse ao pequenino defunto. Tonhão arrisca:

_ O nome tem que terminá com im, mode que ele é miúdo: Tõizim, Joãozim, Pedrim, Paulim…

_ Tonhão, ocê me discurpe, mais eu num concordo não, sô! As veiz ele pudia sê um home grande de esprito, de coração. Mió mesmo um nome acabado em ão. Qui tar… , qui tar…

Gambá passa a mão no queixo fino coberto por uma barbicha rala e feia. Barbicha que tenta a todo custo cobrir seu pobre rosto carcomido por inúmeras e pequenas crateras, nefasta herança da varíola. Faz isso de propósito para criar, em Tonhão, certa expectativa. Finalmente, conclui:

_ Adão!

_ É! Esse nome é bão. Rima com quais tudo: Adão, o anão, era um home danado de bão. Tá veno, sô! Rimô. Então esse vai sê o nome dele pra nóis: Adão.

Depois de alguns goles voltam para onde estava o defunto. Sob os efeitos da “Poderosa”, os dois amigos conversam mais animadamente e sentem-se donos do casebre:

_ Tonhão, ocê tem medo de difunto?

_ Eu? Nem um cadim! A gente tem que tê medo, Gambá, é de gente viva. É cada um que aparece, que eu vô te contá… Só qué fazê o mar e judiá da gente – diz Tonhão, querendo demonstrar ao amigo uma coragem que, intimamente, sabia não possuir.

_ Pois eu tenho. Muito! Inda bem que ocê num tem medo, né? – diz confiante, Gambá.

A chuva aumenta sua fúria, e uma rajada de vento frio apaga a lamparina e a vela. Escuridão total. O medo toma conta de Tonhão e Gambá. Corre-corre dos diabos! Dois gritos cortam aquele pequeno espaço, do chão ao teto, de janela a janela e de porta a porta:

_ Ai, minha Nossa Senhora Aparecida. Me acode, senão eu me cago todim!

_ Me valei, meu São Jorge Guerrero!

Apelos aos santos de devoção de cada um deles. Apelos de última hora. De desespero, de aflição e de muito medo, também. Como já estavam bem encachaçados, os dois amigos correm de um lado pra outro derrubando tudo que se interpusesse no caminho de suas fugas. Só param quando se chocam. Caem cada qual para um lado. Recuperados, apalpam daqui e dali em busca da caixa de fósforo. Acham e acendem a lamparina e a vela. Luz, enfim. Grande alívio.

_ Ê, Gambá! Vai sê medroso assim lá nos quinto dos inferno! Cruiz credo… – diz Tonhão, como se, também, não tivesse corrido feito um louco. Um louco com medo…

Gambá, por sua vez, faz um muxoxo. Fica mudo e quieto em seu canto. Acendem, cada qual, o seu cigarro de palha. Mais algumas goladas da “Poderosa”. Entreolham-se, pensativos. De repente, Gambá, balbucia:

_ Ai, minha Nossa Senhora!

_ O que foi agora, Gambá! Tenha a santa paciência. Vai me dizê que o difunto mexeu…

_ E mexeu mesmo. O braço dele tava caído de banda, agora tá enriba dos peito! Se num tá acreditano, ispia bem pr’ocê vê!

Tonhão passeia seus olhos – duas bolas de fogo – sobre o defunto. Fogo – que arde sem queimar – avivado pela “Poderosa”. Não é que o seu amigo, Gambá, tinha razão! Um frio percorre-lhe todo o corpo. Todos os seus pêlos querendo libertar-se de sua humana prisão. Quer gritar, e não consegue. Completando todo esse seu íntimo drama, outra golfada de vento apaga a vela e a lamparina. O medo quer tomar conta de seu corpanzil de quase dois metros de altura. Movido mais pelo instinto do que por outra coisa, corre. Não sabe por onde pode estar seu amigo Gambá. Com isso, também, não se preocupava. Queria mesmo era sair de perto do defunto, que parecia não estar gostando daquela situação de inércia total em que se encontrava. Na correria pisa no rabo de um gato, que solta um miado aterrador, fazendo aumentar seu medo.

Esse já se igualava ao seu tamanho: enorme. Sai tropeçando daqui e dali até que cai. Cai e bate com a cabeça num enorme e pesado ferro de passar roupa – insaciável devorador de brasa – que estava num canto daquele pequeno cômodo.

Fica, por alguns instantes, desacordado. Recobra os sentidos com uns tabefes no rosto desferidos por Gambá. Esse não perde a chance para passar adiante a humilhação sofrida há poucos minutos e, todo satisfeito, diz:

_ Corajoso, hein? Uma ova! Nóis só é diferente no tamãi, mode que, no medo, nóis somo iguarzim, iguarzim: dois cagão de marca maior. Ara, se não!

Tonhão levanta-se, batendo nos peitos da camisa, na frente e atrás das calças, como se as estivesse limpando. Ambos muito ressabiados. Tonhão, mais que Gambá. O silêncio é quebrado por Gambá.

_ Tonhão, ocê já foi a argum intêrro de anão?

_ Eu?! Não! Mais tarveiz daqui a pôco, quem sabe… – diz Tonhão apontando com o queixo para o corpo inerte do anão.

_ É, tarveiz, tarveiz… Acho que ninguém nunca foi. Se ninguém nunca foi, é pruquê ninguém nunca viu um anão sê interrado. Né mesmo, sô?

_ É, pensano bem, ocê tem razão…

_ Diz os mais antigo que eles tudinho disaparece. Que eles é incantado!

_ Eles, quem, Gambá?

_ Os anão…

_ Bobagem, Gambá. Crendice boba de gente véia…

Inconformado, continua Gambá:

_ Pois eu acho que nesse particulá os véio tem toda razão…

Tais coisas faladas com tamanha convicção acabaram por deixar Tonhão com a pulga atrás da orelha. Coça a cabeça, toma mais outra golada da “Poderosa”, cospe no chão, esfrega a botina em cima… Tem uma idéia. Diz ao medroso amigo:

_ Gambá, só tem um jeito de nóis passá a limpo toda essa cantilena dos anão…

_ E qualé intão, Tonhão? – retruca, curioso, Gambá.

_ Amarrano ele, ora essa!

_ Ah! tá bão! Amarrano ele onde, sô? – pergunta, desconfiado, Gambá.

_ Nocê!

_ Ni mim?! Ocê tá é ficano doido da cabeça. Ora essa.., ni mim…

_ Intão, tá bão. Intão, in nóis dois. Qui tar? – contra-argumenta Tonhão.

Gambá, medroso por natureza, depois de muitas negativas, acaba concordando. Com um pedaço de corda, que encontraram pela casa, amarram-se ao defunto anão: canelas dos vivos versus as canelinhas do morto. Conversam ainda algum tempo e bebem até o último gole da “Poderosa”. Só caíram nos braços de Morfeu, após autorização expressa do deus Cachaceu, dulcíssimo deus tropical, habitante intranqüilo das entranhas da nossa cana-de-açúcar. Incansável viajante desse fino berço para os pequenos, médios, grandes e colossais alambiques. Depois para as garrafas e garrafões. Viagem complicadíssima, de variadas etapas, que só termina nas sangüíneas serpentinas de seus muitos e fiéis adoradores. O dia já estava prestes a abrir seus claros olhos, quando Tonhão acorda assustado com o Gambá agarrado à sua barbaça. Gaguejando, Gambá ainda consegue dizer:

_ Tô, Tô, Tonhão, o, o, o “Adão”…

_ Que “Adão”, home de Deus! – diz Tonhão, ainda sob os domínios dos deuses Morfeu e Cachaceu.

_ O anão, o defunto anão… Ele sumiu, Tonhão! Ai, minha Nossa Senhora!

Tonhão passa a mão pelo rosto, alisando a ruivíssima barba, e lembra-se, num átimo, de tudo que acontecera na noite anterior. De um salto põe-se de pé a correr para a rua buscando o caminho de casa, no que foi acompanhado de bem longe por Gambá. As pernas – assim como o medo – de Tonhão eram muito grandes. Impossível acompanhá-lo.

Os moradores de Cafundó de Minas, principalmente, o padre Corleone estranharam o fato de Constantino – esse era o nome do anão – estar ausente à missa das oito, de domingo. Estranheza aumentada por ser ele católico fervoroso e praticante: às missas não faltava nunca – a de domingo, então, nem pensar! Nos trabalhos comunitários da Igreja, sejam quais fossem, lá estava o prestativo Constantino: sempre alegre, respeitoso, cordial, amigo de todos! Enfim, ele procurava ser um verdadeiro cristão. Como ser humano que também era costumava tomar um cálice da “Poderosa” às refeições. Cálice de anão, haja vista e, somente, às refeições!

Busca daqui, busca dali, e nada de ninguém encontrá-lo. Inexplicável desaparecimento. Nenhuma notícia, nada, nada.

Unânime inconformismo. Encontraram sim, em sua casa, duas botinas: uma, número 44, e outra, número 36. Elas, com certeza, não poderiam ser de Constantino, que calçava uma botinha de criança, número 30! Certo, também, é que naquela madrugada, numa cidadezinha não muito distante dali, nascia Adão. Coincidência ou não, um anão…

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