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A lápide (conto romantico)

Você vem arrastando os pés na relva, sem muita vontade, sem muita coragem. Mas precisa desse ritual – seu coração o exige – muito mais do que você é capaz de admitir.

Posso vê-lo de meu escaninho no arvoredo. Disfarçada estou nas silhuetas de negros ciprestes. Você se ajoelha diante do túmulo mil vezes renegado. A brisa lhe alvoroça os cabelos claros como os meus dedos teriam feito.

– Olá, meu amor.

Ah, sim, diga essas palavras que eu esperei tanto para…

– Sei que não tenho vindo vê-la. Estive no seu… funeral… e nada mais. Não ousava…

Sua voz se torna um soluço amargo, e você se deixa prostrar diante da lápide, apoiando sua cabeça a ela, envolvendo-a com seus braços, como se a força da sua vontade pudesse dar vida à pedra áspera. Não, não é daí que virá o calor de que você…

– Passei cada dia desde que você partiu aguardando seu retorno, acreditando a cada manhã que eu iria despertar e me virar e encontrá-la ao meu lado, seus cabelos espalhados no travesseiro e suas mãos… suas mãos…

Sim, minhas mãos nos seus lábios. Lábios doidos por tabaco do sul e narguilé do leste, que posso enxergar, mas cujas palavras doloridas parecem-me distantes como sonhos de infância. O que foi feito daquela parte de mim que sabia apreciar a curva sutil de suas costelas sob a pele sem lençóis, o quadril sem querer sinuoso para meus olhos e a boca cheirando a fumo e cevada?

– Todos aqueles festins, aqueles falsos amigos, aquela gente traiçoeira à nossa volta, os nossos vícios… Era tão difícil não enlouquecer. Eu nunca lhe disse o quanto era importante para mim, querida. Nunca lhe confessei que seu rosto junto ao meu na noite era a única coisa capaz de preservar minha sanidade.

As lágrimas brotam por entre suas pálpebras muito apertadas. Por que veio a esta hora, amor, quando é crepúsculo, e o céu está de luto, e eu estou alerta, tendo idéias com as nuvens cor de sangue? Qual é de fato seu propósito… e qual é o meu?

Noto que você adormeceu, rosto colado ao epitáfio, feito um indigente. É em seus sonhos que os homens vêem aquilo por que mais anelam. A visita derradeira dos amados que partiram.

É agora. Eu me aproximo. Mal ouço meus próprios passos. Sou uma sombra ou menos do que isso. Estou de cócoras, quase roço sua orelha com minha boca gretada, uma ferida na cera branca do meu rosto. Só nesta proximidade me é possível ouvir seu murmúrio adormecido.

– Não vá embora. Não de novo.

Eu não irei. Nunca fui. Sempre estive aqui à sua espera. Eles arranjaram tudo para que ninguém nunca venha a saber que esse túmulo está vazio. Eles têm seus truques… Não encontraram problemas para tomar meu ataúde à mãe-terra e cobrir novamente a vala vazia. Trabalham sempre à noite, velozes, silenciosos. Ninguém viu; ninguém verá. Não estou bem certa… da razão pela qual me escolheram. Eles têm seus pretextos. Talvez minha arte, ah, querido, você devia vê-los recitando meus versos com lágrimas nos olhos. Poetas, escultores, músicos e pintores, todos eles donos de talentos divinos. Os antigos já diziam: a vida é breve, mas a arte não morre. Tampouco os artistas. É pela arte que o ser humano, insignificante para o Universo, faz seu nome ecoar no mundo, tornando-se imortal para sua própria raça.

Você deve ter sentido meu hálito junto ao seu pescoço. Gelado. Pois percebo que desperta, lento, desnorteado, e volta para mim seus grandes olhos castanhos, que não têm um laivo de verde nem uma esmola de mel, mas nunca chegaram a ser pretos como os meus.

Você nem sabe o que dizer.

– Estou perdido… Enlouqueci…

– Não, meu amor…

Você, porém, não me escuta, não me vê. Ergue-se, brusco. Ganha distância. Está assustado? Deve ser por causa das minhas longas saias roídas pelas traças ou os torrões de terra que adornam meus cabelos sem toucado ou o azul de meus lábios antes róseos. Creio que não sou mais tão bela quanto antes.

Ainda tento fazer-me compreender:

– Eu fui reconhecida, e meu mérito, premiado. Fui abençoada, meu amado, com a imortalidade. Eles me fizeram maior do que a morte. E eu retornei para você, apenas por você.

Você não entende. É cego, é surdo à verdade. Conheço o terror em seu olhar. Está recuando, repelindo-me, odiando-me!

– Você me queria quando não podia ter-me. Eu cá estou… e você me rejeita?

– Afaste-se de mim!

Você corre com todas as suas forças. É apenas um homem. Sinto o odor do suor frio com lágrimas espalhando-se pelo vento. Você não me quer. Não como sou agora. Eu, contudo, ainda o quero; agora, mais do que nunca.

Decido, alcanço-o, minha mão abafa seus gritos com força inaudita, por que tem de gritar? Eu não me julgara assim poderosa. Sou uma poeta que chora sua sina, uma fera que subjuga sua presa e um fantasma que caminha para longe de seu fim.

– Você não sabe, não aceita, mas eu ainda o amo, amo-o além da vida e além da morte. Vou mostrar-lhe a grandeza deste amor.

Você está em meus braços como deve, coberto por meus beijos como precisa, amado por mim como quero. Consumido em minha fome por seu corpo. Há segredos maiores do que a frágil vida, meu adorado, e mais soberanos do que a morte. O fim não conclui, liberta. E irá libertá-lo, como a mim.

Autor: Camila Fernandes

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Desejos da Alcova (conto romantico)

Doutor, há tempos és meu terapeuta e sabes que não há na cidade quem levante suspeita sobre minha fidelidade, honestidade e retidão de caráter. Há doze anos sou casado com Amélia e por ela tenho vivido deste então. A consulta de hoje é para que eu lhe conte o que vivi nestes doze anos e, principalmente, nos últimos meses e dias. Não posso me furtar o direito de confessar que a monotonia do enlace me vinha perturbando. Amélia sempre foi mulher recatada e este foi um dos encantos que me fizeram cortejá-la. Doze anos após, tanto recato me vinha esfriando e indignando, afinal, sou seu esposo, dono do seu corpo sem poder usufruí-lo por completo. Sua decência a impedia de me deixar explorar as fantasias e os desejos que sempre senti em relação à sua boca e “cul”. Demasiadamente pudica, inovações eram tidas como um atentado à sua moral e religiosidade.

Sou advogado e há três meses tenho despachado em meu novo escritório, na Rua de cima. A clientela tem aumentado, o que me fez contratar uma secretária para auxiliar-me.

Dona Patrícia é mulher vistosa, de longas penas e fartos lábios. Não que eu a tenha reparado sistematicamente, mas suas qualidades se fazem perceber sem que se queira. Eficiente em seu trabalho e na arte de embaralhar minha mente, tem um cruzar de pernas que me provoca sudorese. Ora, sua mesa fica de frente para a minha e não há como não notar. Mesmo trabalhando tão próximos, Dona Patrícia faz questão de manter as formalidades e a distância profissional. No entanto e por tanto, quando deseja dirigir-se a mim, o faz pelo ramal telefônico. Um castigo e tortura, visto que sua voz faz-me transportar a outras situações, remetendo minha imaginação a coisas, das quais, desejo fugir.

Não sei se tenho enlouquecido, mas vejo no olhar de Dona Patrícia uma ponta de saliência que me obriga a fazer o sinal da cruz umas dez vezes por dia.

Mas devo confessar que na segunda feira recebi um telefonema, quando o relógio marcava doze e trinta da tarde. Dona Patrícia havia saído para o almoço, quando uma voz igualmente excitante chamou pelo meu nome ao telefone. Disse admirar-me e não mais ser capaz de conter seu desejo. Identificou-se como Amanda, mas não fiquei seguro de que esta fosse mesmo sua identidade. Enquanto ouvia seus devaneios, sua voz materializava-se, diante de mim, no corpo de Dona Patrícia. Eu estava certo de que era ela. Tinha tomado coragem, se libertado das insinuações e partido para ação efetiva. Queria encontrar-me no final daquela tarde. Hesitei e fiz valer minha reputação de homem correto.

Quando voltou do almoço, Dona Patrícia não fez qualquer alusão ao telefonema, mas seus olhares ainda me diziam muito. Certeza absoluta, não pude ter. Mas em mim não tinha dúvidas de que ela era a dona da voz ao telefone!

Ontem, no mesmo horário, a cena se repetiu. A voz ligou e me fez anotar o endereço do hotel Paradis de L’amour, devendo estar lá meia hora após o expediente. Não me permitiu negar o convite. Desligou antes que eu o pudesse fazer. A curiosidade e excitação apoderou-se do meu corpo e mente. Quis ir, quis não ir, decidi que fosse !

Entrei de maneira que não pudesse ser percebido por ninguém e fui direto à suite que a voz me havia indicado. A porta estava entreaberta e o quarto na penumbra. Apenas uma luz suave vinha do banheiro, como que para me indicar a direção da cama. Lá estava ela. A voz materializada em corpo de mulher, deitada seminua em uma cama de finos lençóis. Mas pasme, seu rosto não se fazia conhecer. Estava envolto na penumbra do quarto e revelava apenas os lábios voluptuosos e vermelhos. De sua boca não saiu voz. Apenas sua mãos sinalizaram o que deveria ser feito. Chamou-me à alcova, desnudou-me e acariciou-me com mãos que me traziam novidade, mas que me provocava a sensação de que as conhecia. Não me apeguei a estes detalhes e minha retidão foi sufocada pelo imenso desejo que sentia naquele momento. Ela me fez experimentar tudo aquilo que sempre desejei fazer com Amélia. Todos os beijos, posições e novidades possíveis de se testar em duas horas de prazer e exploração de sentidos.

Terminado o tempo no paraíso carnal, fui convidado com gestuais a retirar-me quarto. Assim o fiz. Estava atrasado para uma reunião no Conselho. Mais tarde, ao chegar em casa, não tinha olhos para dirigir à Amélia. Tão dedicada, amorosa, fiel…fui dormir, após beijar a sua fronte.

No outro dia, não tinha olhos para dirigir à Dona Patrícia. Mas ela parecia insinuar ter adorado a tarde do dia anterior. No entanto, passamos o dia assim, como se não conhecêssemos aquele quarto de hotel.

 Uma vez mais chego em casa, e lá está Amélia. Não tendo palavras para dirigi-la, ela mesma tratou de fazer. Qual foi a minha surpresa quando ela perguntou-me:

– Rodolfo, minha desenvoltura naquele quarto de hotel fez o meu marido emudecer?

Era ela, doutor! Era ela!

AutorMarcos Sodré

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Epitáfio (conto romantico)

A tarde é vermelha, pinta os campos e o lago de dourado e aquece o seu rosto que eu encontro a espreitar o meu. Tenho um espelho nas mãos. Encaro-me nele, investigo as rugas que já se insinuam. Mas não você; tudo o que vê em mim é jovem e fresco. Detrás de mim, sussurra-me ao ouvido:

– Você é tão bela.

Belo é ter seus braços sobre meus ombros, agasalho humano, e seus dedos nos meus cabelos, o melhor dos pentes. Tudo é perfeito em nós.

– Não mude nunca.

E você se ergue no espreguiçar sossegado de quem sabe apenas gozar a vida. Mas eu tenho um espelho nas mãos. E nele o que vejo é a marcha invencível das décadas nublar de súbito tudo o que sou. Tudo o que você ama.

Serei velha um dia, amor. Quem há de querer uma velha?

Creio que o assusto quando atiro o espelho no lago. Sorrio e você pensa que é piada – o disfarce do meu desespero.

– Não mudarei, meu querido – e o que digo é uma jura.

Escurece, o campo é perigoso à noite, você tem também a sensação de que somos vigiados? São apenas as sombras das árvores. Recolhemos a toalha e a louça. Ainda sinto o gosto da torta de amoras no seu último beijo à minha porta. Mais um chá sob a macieira domingo que vem? Até domingo, então; você pode esperar, mas eu não.

Eu serei velha.

No espelho do meu quarto, já sou. O preto dos cabelos desbota para o branco, a pele escorre cinza sobre os ossos e os olhos brilham ainda, mas no fundo de duas covas cavadas no meu rosto pela mão do tempo. O tempo maldito.

Cubro o espelho com um lençol. Não quero um cadáver a me encarar a noite toda. Fito minhas mãos: ainda são as de uma moça. Suspiro, por ora livre do meu pesadelo desperto. Mas não durmo, pensando no amor, que é caro, no medo, que é grande, e na decadência, que é certa.

Entretanto, é manhã, e eu me levanto sem ter sonhado. Passar o dia a bordar e coser ou respirar na praça; não, quero estar de pijama, acorrentada à escrivaninha, papel e tinta diante de mim numa sentença que cumpro em versos. Amanhã, levá-los ao editor. No jornal sempre há espaço para a minha poesia.

Sento-me. Sirvo-me de chá verde. Papéis novos sobre a mesa. Uma carta. Do meu amor? Não há remetente, endereço ou mesmo perfume. Abrindo-a, desdobro uma nota escrita por mão pesada, inábil, agressiva:

Deseja ser jovem para sempre?

Eu concedo esse desejo.

Hoje, na esquina da Rua do Poço com a do Alfaiate, à meia-noite.

Venha só. Não terá outra oportunidade.

Não assina.

Meu coração quer me arrebentar o peito, bate furioso, tremem-me as pernas como as de uma debutante apaixonada. Apaixonada pelo quê? Uma possibilidade, um sonho… uma mentira?

Mando vir mais chá. Que seja egípcio: karkadeh me distrai por ser vermelho como sangue. Não quero almoço. Passo o dia a mordiscar biscoitos. Mais alguns versos e estarei curada.

Deseja ser jovem para sempre?

Mas nada sai da minha pena. Suponho espetá-la no braço e daí fazer brotar boas quadras, honestas e intensas, mas tenho medo da cicatriz. Quem sabe uma anedota hoje em lugar de um soneto.

Eu concedo esse desejo.

Logo estou bebendo aguardente da garrafa que mora debaixo da cama. Esqueço depressa o copo, beijo o gargalo, amante de vidro. A carta não tem nome, mas tem olhos, espia-me de lado, afronta-me…

Hoje, na esquina da Rua do Poço com a do Alfaiate, à meia-noite.

Apanho-a, envelope e tudo, amasso-a no punho fechado, atiro-a longe. Mas ela ainda existe dentro do meu escritório, num canto de parede, num canto de memória:

Venha só. Não terá outra oportunidade.

Chega a noite e eu tomei minha decisão. Lavo as olheiras, tenho um vestido discreto, o cinza não chama atenção à noite. Um xale nos ombros.

Levo meia hora a pé até a Rua do Poço. Conheço tão mal a cidade. O frio, a escuridão, o silêncio, tudo sacode meu corpo em calafrios progressivos. Este é um lugar solitário, cama dos desvalidos, parque dos delinqüentes. Estou só e é tarde. Sou louca por ter vindo. Sou louca, não resta dúvida; mereço ao menos recompensa pelo meu atrevimento.

Por isso, avanço para a esquina onde já me espera o remetente.

A dois metros dele eu me detenho. O homem é calvo, nem tão velho para o ser pela idade, a cabeça enterrada no corpo muito magro – demais, talvez, para pensar em me fazer mal. Parece tão frágil nas pernas longas e finas, nas costas arqueadas. Sinto pena do seu corpo. Mas tenho medo da sua face – não consigo vê-la assim tão longe do poste mais próximo.

– Eu vim – digo-lhe. – Por isso, fale: o que pode me oferecer?

Agora é ele quem se adianta, o lampião de gás revela no seu rosto uma testa fechada, um nariz de abutre e uns olhos sem cor, duros como a vida. A boca é um rasgo cruel na face cor de cera, que se abre para responder:

– Tudo.

Ele é tão… feio. Sinto pena e algum nojo; recuo e não desisto.

– E qual é o seu preço?

Agora ele apenas me sorri. Meu coração quer fugir pela boca. Seu sorriso é horrível como só a morte. Seus dentes são amarelos, terminam em punhais, punhais em toda a sua boca, dentes em ponta como os de um cão, de uma serpente, de um tubarão, ou todos juntos. E todos juntos avançam para mim.

Eu…

Eu tenho um sonho, amor, no qual você é triste. O dia é nublado, como poderia ser de sol? Eu me deito numa cama de cetim. Estou no meu vestido azul, aquele que eu deveria usar nas missas. Chovem rosas sobre o meu corpo, lentas como as horas de espera por você. Não nos veríamos só no domingo?

Você me atira uma flor. Tudo é tão devagar. O tempo já não passa em meu leito macio. Venha deitar-se comigo… Mas você se vira, dá-me as costas, caminha para longe. E tudo se torna chuva.

Meus olhos se abrem vagarosos. Silêncio. Escuridão. Meus dedos tateiam paredes muito estreitas.

Entendo…

Meu caixão é forrado de cetim.

Autor:Camila Fernandes

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Gotas na janela (conto romantico)

A chuva diminuíra. As gotas iam descendo devagar. Outras, mais velozes, em ritmo diferente. Ora fazendo caminhos compridos e retos, ora, tortos. Algumas vezes rápidos ao longo do comprimento. Havia aquelas que se juntavam a outras na caída.

Assim ia ela, agora, com um torpor no corpo e na mente, um tanto distraída, a observar o vidro da janela. Seguia os riscos delicados, em meio ao embaçamento que se criava pelo calor dentro do ônibus. Já passara o momento de mais desespero. Havia se preocupado muito. A chuva ia diminuir e a água da inundação ia descer. Três horas fazia que estavam parados. O ônibus não podia seguir por causa de alagamento no vale do Anhangabaú. Notícia dada por alguém, que passara e que, sem medo de enxurrada, zombava dos céus que despencavam em muita água. Dentro, muita gente sentada e em pé; todos no mesmo calor. Fora, a chuva já caíra sem dó.

Moça nova, quase menina, balconista de loja, com mais do que um balcão pela frente. Tinha também algumas especiais ilusões que uma vaidade indicava: unhas feitas, maquiagem leve no rosto, esfumaçada já, cabelo preso em rabo na nuca com graça, brinco e anel no dedo. A roupa que se quis bonita tentava esconder a vida que levava em bairro simples. Ia cansada, mas não muito. A juventude só mede o cansaço pelo físico. Ainda tinha toda uma vida para sonhar em sua imaginação.

Estamos todos numa situação nada engraçada, pensava. Ilhados e aprisionados no meio da cidade. Parece que há carros inundados. Inutilizados, sem dúvida. Estava enjoada do vidro da janela, que não se podia abrir. Tímida, evitava os olhos dos outros passageiros. Com semblantes de quem se enfastia do trabalho, canseira de sobrevivência. Trabalhar, tanta correria. O povo brasileiro é assim mesmo, acomodado. Ou sabe viver. Algumas pessoas pareciam conformadas.  Outras pessoas ainda tentavam conversar ou falar de alguma questão para a qual não se tinha resposta. Passando o tempo. Até começaram a trocar palavras, num diálogo marcado pela cumplicidade. Numa eventualidade, que se pode até chamar de tragicômica. Ruas e esquinas demais adivinhadas pelas pupilas, linguagem e gestos.

Então, virou-se mais atentamente em volta para perceber as pessoas. Com semblantes de quem se enfastia da vida, canseira de sobrevivência. Pó, rugas, esgarçado tecido na bermuda, na saia, na blusa. Desbotado nos olhos, nos cabelos e nos rostos. O mesmo cenário de sempre. Vida dura.

Foi então, que viu uma face. Quase num susto. Olhos acesos olhando para ela. Um moço moreno de meio sorriso nos lábios. E agora? Que fazer? Em sua direção, sem dúvida. Era comigo. De soslaio, percebeu de novo a pupila como um raio a lhe atingir. Como não vira antes? E se visse, que iria fazer? Claro que nada… Nem dava para fugir. E agora?

Baixou os olhos, envergonhada. Passou a mão por alguns fios de cabelos longos e crespos que ainda lhe caíam na face. Sabia que não era feia. Tinha um fã na loja. O gerente, casado, safado, queria sair com ela. Gostava de seus olhos castanhos.

Voltou-se para os caminhos da água delicada a cair pelo vidro. Não dava para, de novo, ficar presa naquele pedaço de janela. Uma aflição lhe invadia o peito. Começou a transpirar mais. A respiração ficou mais apressada.  Até que ele era bonito. Será que ele gosta de cinema? Seria tão bom ir com alguém ao cinema. Ver um filme romântico, daqueles que tem paisagem e beijo.  Olhou de novo. E lá estava ele, sem disfarçar. Tantas pessoas em volta e ele a me fixar desse jeito.

O ônibus começou a andar, enfim. Devagar, mas andou. Não muitos quarteirões depois, uma parada.  Muita gente desceu. Ainda chovia. Sufocava. Mas fora havia ar. Todos se movimentaram, com barulho, ao perceber a oportunidade de sair dali.

Estava paralisada. Ele também se encaminhou para a porta. E para sua surpresa, ao passar onde estava afundada, estendeu-lhe um pedaço de papel, dizendo: “Prazer em conhecê-la. Ligue-me”.

Tentou sorrir. Sem conseguir falar nada, percebeu, que, além de paralisada, também estava muda.

Olhou para os caminhos na janela. Gotas de água de chuva. Pequenas e cúmplices. Nem acreditava… Não, não acreditava que era verdade, apesar do pedaço de papel na mão.

Ainda menina, através de certa desesperança, sorriu. E sentiu assim misturada uma esperança que se acendera.

Olhou a janela e, em meio às gotas que ainda se equilibravam pelo vidro, desenhou um coraçãozinho líqüido, pequeno: Quem sabe?

Autor: Ana González

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Ninguém Manda nos Sentimentos (conto romantico)

(Continuação de Na Longa Caminhada Da Vida – Visão do outro lada da história. Vitória, namorada de Edson)

“Querido diário, talvez eu tenha sido dura demais. Ter feito o que fiz com o Gabriel foi um erro. Ninguém manda nos sentimentos e, se eu mandasse nos meus, preferiria não sentir o que estou sentindo.”

00h. Minha cabeça não parava de girar, como se eu fosse a maior culpada de toda essa história, a história em que, na realidade, fui a maior vítima. Pois é Deus, a cruz da vida de todos nós está aí exposta aos quatro cantos. Mundo infeliz! Ou se é a maior megera ou você, literalmente, é a coitadinha. Ninguém escolhe o resumo de sua própria obra, de seus próprios passos. E se eu pudesse… O que eu faria? Desde domingo não ouvia a voz de Edson e não sentia o cheiro do D&G que dei de presente a ele. Como isso me fazia falta. Cansei!

O EcoSport do meu pai estava na garagem. Definitivamente, ficar em casa não me ajudaria, então, tomei a iniciativa de ir até Edson. Liguei a chave e fui. Poucos quarteirões e lá me vi parada e preocupada. “Querido, estou de frente à sua casa”, foi o conteúdo do SMS que enviei a ele.

Senti os passos do meu noivo ecoarem como pessoas desesperadas dentro de mim.

 – Está frio, entra! – sua voz tênue me acalentou. Seu beijo afagou minha alma.

O cheiro daquele homem estava espalhado por todo o espaço do quarto. A cama tinha seu cheiro, os lençóis, os travesseiros e a minha pele estava envolta pelo cheiro da pessoa mais importante na minha vida àquele momento.

 – Vim aqui porque eu precisava pedir perdão pelo que fiz com Gabriel. Ele não tem culpa de ser o que é! Ninguém escolhe ser gay – refleti por um instante e notei que o semblante de Edson estava rude. Da mesma forma que eu quero amar você, eu não sei explicar o que me fez agir daquela forma… – e era verdade, tão verdade que foi a atitude mais infantil que tive em toda a minha vida. Implantar uma folha de um arquivo pessoal de uma pessoa dentro de uma assembléia e ver todos rirem da sua cara? Não faz sentido.

– Perdão você deve a ele e não a mim. Eu estou aqui, e ele? – seco. Difícil seria conter as lágrimas que teimavam em deter minha coragem de expor os meus sentimentos.

 – Você está certo.

Fui me aproximando na tentativa de receber aqueles ternos abraços de antigamente. O ontem àquelas alturas já era o ‘antigamente’. Ele me abraçou. Uau! Meu homem me abraçou!

– Vitória, eu amo você, mas nós precisamos de um tempo – Que tapa na cara! Me desvencilhei dos braços dele e o fitei amargamente.

– Como assim Edson? Não existe razão pra nos separarmos! Foi tudo um grande mal entendido e o Gabriel que é o homossexual e não você! – meus olhos fervilhavam.

 – Só estou pedindo um tempo pra refletir, somente isso Vitória! Até quando você vai ser egoísta e pensar somente nos seus interesses? – me largou de vez e se afastou.

 – Você disse meus interesses? – indignada. Eu luto pelos nossos interesses! Nosso interesse em ter um casamento duradouro, nosso interesse em ter um filho, nosso interesse na nossa felicidade. Eu sou a egoísta? A que pensa em ter uma família com você? – as palavras saíam como tempestade de dentro de mim e, a raiva me tomava vagarosamente em seu calor. Amanhã teremos o jantar do feriado às oito horas, não esquece!

Não esperei que ele continuasse com delongas e explicações. Peguei minha bolsa e saí de lá de dentro com passos firmes.

Aquela noite durou duas primaveras. Não fosse pelo som de Adele repetido um trilhão de vezes teria durado uma eternidade. Não grudei os olhos.

12h. Sem cabeça para o trabalho. Sem cabeça para nada. Calada em pensamentos que se voltavam ao homem que eu mais amei e, sem dúvida, dediquei amor por duas vidas. Recebi um SMS. “Amor, reserva às 12h30 no Outback Steakhouse do Shop. Eldorado.”

E lá estava a tonta, a desalmada e a ordinária, humilhando amor. O vi sentado, como sempre, bem vestido à moda dos homens cultos: camisa social branca com riscas azuis claras, colete preto e jeans estreito.

– Fiquei aflito, pensei que não viria! – soltou um sorrido tímido. Como estava frio naquela tarde. Apesar do verão, o frio era de dar horror.

– Você me conhece, não conhece? – joguei. Qual a sua intenção? Dizer que está tudo bem e que tudo o que aconteceu hoje não passou de um erro? Porque se for, eu juro que esqueço tudo. Eu juro! – fingi um sorriso esperançoso.

– Eu amo o Gabriel. Eu amo você, mas não dá pra continuar do jeito que está. Eu nunca estivesse tão de frente com a verdade como estou agora… – os olhos dele estavam trêmulos e a voz saía fraca. Era verdade! Saquei tudo.

– Você é gay! Você é gay! Eu não acredito! Estava sendo enganada todo esse tempo? – me senti a mulher mais ridícula da face da terra. Você me enganou! Você me usou pra não assumir um sentimento dentro de você, seu medíocre! – me excedi.

 – Vitória! – ele abafou o grito. Nunca enganei você, eu nunca enganei você! – levantei. Estava sendo insuportável toda aquela cena. Eu não nasci pra ser atriz, não ia fingir que nada estava acontecendo. Percebi que ele também havia se levantado. Espera! – pediu. Eu sempre amei você, nunca menti pra você – olhei fixamente nos olhos dele e, sem demora, dei um tapa no rosto de Edson Crespi.  Ele ficou me encarando abobado com o que acontecera. E saí pisando firme e derramando lágrimas por todo o meu rosto.

Peguei o celular e fiz uma breve ligação. “Oi Suzana, não volto pro trabalho, não estou bem… Sim… Conversamos depois…”. A ligação ficou muda.

Nossa! Nossa! Geralmente somos traídas com outras mulheres, mulheres! Mas eu fui traída com outro homem! Desgraçado, filho de uma puta! Que inferno eu estava vivendo.

Deitei na maior ‘depre’ no sofá dentro do meu quarto. Graças a Deus era grande, confortável e muito bem mobiliado. O meu refugio. Passei a tarde aos prantos e olhando slides de como eu havia sido feliz com o único homem que amei. Um namoro que começou aos quinze anos e teve fim aos dezenove. Quase cinco anos de história de amor e de luta. E de máscaras.

A porta se abriu.

– Filha, posso entrar? – assenti. Meu pai, um homem grisalho, alto, branco e simpático. Meu herói. Se aproximou de mim, estendeu a mão e limpou uma lágrima que caía.

– Como sabe? – como ele soube do que havia acontecido com o Edson?

– Eu não sei – refletiu por um breve instante. Eu sempre percebi! Mas você não pode culpar ninguém pelos sentimentos que saem de dentro da gente, querida – engasguei.

– Pai, ele me usou pra esconder um sentimento homossexual! – indignada.

 – Não filha! Ele nunca viveu um sentimento homossexual até falar com você. Ninguém controla esse tipo de sentimento – ele me abraçou e deu um beijo na minha testa. Fiquei imaginando como ele poderia entender sobre esses assuntos? Meu pai nunca foi muito ligado em assuntos gays. Levantei e fui até o espelho. Encarar frente a frente a minha essência e notei que meus cabelos estavam horríveis. Bagunçados e castanhos, meus olhos azuis claros estavam sem cor e minha pele de branca estava pálida.

Ouvi duas batidas na porta e se abriu novamente. Olhei cuidadosa e vi quem não queria ver.

– O que está fazendo aqui? – limpei a garganta e não mostrei expressão. Ele pegou em minhas mãos – ai que saudade! – e me levou para o sofá maior.

– Você tem que entender que não quero magoar você Vitória, o que sinto por você é perfeito. Não posso, agora, guardar nada de você, mas também não posso mentir pra mim – olhou bem dentro dos meus olhos. Eu te amo Vi…  Entende isso? – assenti com a cabeça e, ainda sem expressão, o soltei.

– Preciso me arrumar, pode sair? – sussurrou um sim e sumiu.

20h15. Eu me recompus. Me maquiei, vesti o meu melhor vestido e me arrumei. Lá estavam as pessoas importantes da assembléia em um jantar comemorando um feriado, uma desculpa para discutirem assuntos internos relacionados à igreja.

O jantar estava perfeito. Mesa grande e cheia, fartura e sorrisos. E no meu dedo uma aliança que simbolizava, além de tudo, um compromisso com uma pessoa que eu amava. Levei a taça de água à mão e um talher e chamei atenção.

 – Um minuto. Quero falar algumas palavras – todos me olharam com atenção e suspense. Eu quero fazer um brinde – me levantei e falei devagar cada palavra. Quero fazer um brinde a todos que amam, a todos que tem um amor correspondido. Um brinde aos erros e acertos da nossa vida, às falhas e às fraquezas. Um brinde ao amadurecimento e à felicidade. Agradeço a todos por estarem aqui, principalmente ao Edson e, quero brindá-lo porque hoje tomei a decisão de excluí-lo da minha vida. Um brinde! – todos os sorrisos foram desfeitos. Ninguém acreditara naquilo. Nem mesmo eu.

“Querido diário, é insuportável amar. É insuportável lidar com tanto amor. Com tanto amor jogado fora. Fui enganada, enganada! Se eu pudesse mudaria essa história.”

Dedico esse conto a uma amiga recantista, Luciana Vettorazzo Cappelli. Ao incentivo e carinho. Um brinde a você!

Autor: Hilton Cordeiro

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O Beijo Dela (conto romantico)

O beijo dela. Fui pego de surpresa. Primeiro o nome.

Começava num rosnado e terminava em melodia. Rrr, vibrava, sotaque italiano. Depois, duas eles bem molhadas. Rafaella.

E essa coisa interessante que aconteceu primeiro nos meus ouvidos foi parar dentro das minhas calças. Ela viu o volume. Eu falei uma besteira. Levei um tapa no rosto, daqueles de arder na alma, e então o beijo.

O beijo dela.

Em um momento eu era um Apolo que ofuscava o brilho dos homens e incendiava o coração das mulheres. No outro, era uma sombra que a acompanhava com canina devoção. Um cão. Escorraçado e afagado. Conduzido àcoleira. Comendo migalhas.

Ganindo de mágoa e babando de euforia.

Ela era loura, vigorosa, indecifrável, capaz de torcer o nariz para uma gargantilha de brilhantes e sorrir com malícia ao ganhar uma flor de calçada. Mas estou invertendo a ordem dos acontecimentos. Os primeiros presentes foram simples. Ela os apreciou. E, a cada vez, me recompensou.

O beijo dela acabou com minha paz. Porque eu quis mais e ela, também. Agrados mais sofisticados. Mais caros. Ela virou minha vida do avesso. Virou meus bolsos do avesso.

Aparecia apenas quando queria. Chegava me empurrando, me arranhando, me jogando sobre a cama, rasgando as minhas costas com as unhas, tomando meu fôlego, me matando. Matando devagar. Sugando.

Depois, me xingava. Ia embora. Eu chorava em silêncio.

Eu a amava.

Eu a odiava. A bruxa peçonhenta. A fada encantadora.

Mulher incrível, inevitável, insuportável. Nunca dizia se voltaria. E eu esperava seu retorno, impaciente, dependente. Agitado em meu quarto como um tigre em exígua jaula. Muito café. Muitos cigarros. Muitas olheiras. Ela podia aparecer de madrugada e se eu não ouvisse a campainha ela não poderia entrar…

Meu corpo não enfrentava o dia sem uma noite ao lado dela. Sobre ela. Debaixo dela. Como fosse. Ela agarrava minha masculinidade, exaltava-a e então a destruía. Destruía-me. Fumava meu corpo como um cigarro barato e atirava a guimba no lixo.

Não há escravo sem mestre. Eu não existia mais sem ela. Sem o beijo dela. O beijo que me viciou, me deturpou, me extingüiu.

Ontem eu quis saber se havia outro. Ela riu. Meu amor era piada para ela. Disse que teria quantos amantes quisesse. Que eu não era homem para ela. Fraco.

Pequeno. Insuficiente.

Chamei-a de vadia e ela me estapeou a boca. Um fio de sangue muito ralo. Ela lambeu meu lábio partido e me chamou de menino.

Ela tinha poder sobre mim, um poder rude e cáustico.

Mas me disse uma palavra terna. Menino. Isso bastou para fragilizar o elo.

Mas ela vai voltar hoje para reforçar o vínculo. Sabe que deve fazer isso ou vai me perder. Ou enlouqueço e me atiro pela janela.

Ela vai chegar jogando a bolsa sobre a mesa, me empurrando para o quarto. E vai me dar um único privilégio, deixando-me deitar sobre seu corpo. E vai me insultar gritando enquanto empurro meu sexo dentro do dela. E eu vou amá-la. Um homem deve fazer o que é necessário.

Na hora em que ela gritar como uma soprano em êxtase eu vou agarrá-la pelos cabelos. Os cabelos muito longos, muito louros. E vou fazer com eles uma forca dourada. E passá-los com delicadeza em torno do seu pescoço arfante. Apertar com força. Deixar que as unhas vermelhas lacerem meu peito enquanto o corpo exuberante se debate sob o meu, querendo fugir, querendo viver. Porque um homem deve fazer o que é necessário.

E então Rafaella deixará de ser. E eu voltarei a ser o vira-lata magro, sem coleira, sem nome, mas livre.

Que os tabacos e uísques e drogas do mundo me aprisionem. Que eu possa ser um viciado, um perdido.

Serei um miserável de sorte se, mergulhado em outra decadência, eu possa me esquecer de Rafaella.

E do beijo dela.

Autor: Camila Fernandes

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O Beijo!

Eu queria paz, um lugar acolhedor, um cantinho para pensar e repensar minha vida, sair da rotina, dar um tempo no trabalho e nada melhor que um passeio junto à natureza, no meio do nada, um lugar onde as pessoas se recolhiam para ficar em harmonia.

Meu íntimo precisa se acalmar, respirar ar puro, refletir sobre o que fiz da minha vida, aonde cheguei e para onde ir.

Vejo-me agora sentada aqui de frente ao lago, onde pessoas andam tranquilamente e eu  apenas a admirar tudo à minha volta…

Foi então que eu o vi caminhando entre as árvores, com um ar ausente quase etéreo, formava um belo conjunto com a natureza ao seu redor.Olhando com mais atenção achei que já conhecia aquele homem, seus traços me eram familiar, seu andar, seus cabelos, e finalmente seus olhos, foi então que me vi transportada para um passado distante, sim eu conhecia “você”… As lembranças que eu tinha eram de um jovem adolescente feliz junto a mim, sorrindo, vivendo intensamente cada momento a meu lado.Um sorriso brincou no meu rosto diante das lembranças que fervilhavam em minha cabeça, e foi assim que você me viu…

No instante que nossos olhos se encontraram você parou, vi o reconhecimento, foi imediato, vi as mesmas lembranças em você e um sorriso iluminou também seu rosto.

Senti todo meu corpo tremer quando vi que você vinha em minha direção, minhas mãos estavam frias, me vi estática, paralisada.

Naquele momento milhares de dúvidas fervilhavam em minha cabeça, não sabia como reagir a esse encontro, o que dizer como me portar, você foi tão importante em minha vida, e a mesma nos afastou aos poucos, como dando um tempo para que a gente se descobrisse e hoje era o dia de pôr as cartas na mesa, perguntas que não queriam calar, minha vida nesse instante era um grande “PORQUÊ”

Porém todas as perguntas se calaram no instante em que você tocou meu rosto e me chamou pelo nome, me senti novamente uma adolescente, livre, inteira…

Nenhuma palavra precisava ser dita, era como um encontro de almas, todas as dúvidas se calaram era apenas eu e você, nada ao redor importava.Senti a aproximação, sua respiração acelerada, fechei meus olhos, a única coisa que sabia era que meu coração está disparado e que de tão próximos respirávamos o mesmo ar, então senti seus lábios junto aos meus, um beijo, cálido, mas profundo, me senti mergulhar num abismo de sensações, me perdi em seus braços, me entreguei a esse momento como se ele fosse o último, e queira Deus que seja, pois morrer dessa maneira seria entrar nas portas do paraíso.

Sou novamente aquela adolescente apaixonada, vivendo o único momento onde fui feliz, o dia que te conheci e me entreguei a um beijo tão avassalador como esse.Um beijo que durou apenas alguns minutos, mas que me fez viajar para quando andávamos de mãos dadas, quando a única coisa que importava era o som do seu sorriso, o tom da sua voz ao dizer que me amava, de como era bom encostar – me em seu peito, e de como foi mágico o  dia em que me entreguei a você.Ficamos tempo demais longe um do outro, sinto que agora não posso deixar você partir nunca mais, sinto que minha vida começa agora a seu lado, tudo numa fração de um beijo!

Então olhos nos olhos, um momento de timidez, um breve sorriso, expectativa no ar, nenhum dos dois ousa falar, até por receio de que se quebre o encanto, um suspiro…

– Onde você estava todo esse tempo?!

Com um leve sorriso você me responde:

 Estive sempre guardado em seu coração, esperando o momento certo para voltar e ocupar meu lugar na sua vida,  estava com saudade!

Vemo-nos sorrindo um para o outro, finalmente juntos e agora espero que para sempre…

Mais um beijo para selar nosso encontro… Nos perdemos novamente um nos braços do outro …

Autora: Leninha

 

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O jogo da meia-noite (conto romantico)

Meia-noite. O jogo acontecia quando eles voltavam sóbrios, ansiosos por serem só dois amantes sob um dossel, sem multidão.

Diante da penteadeira ela limpava o rouge, o rímel, a pinta artificial na bochecha esquerda que cobria a pinta real cor de canela. Ele, na cama, esperava sob os lençóis.

Vinha limpa e indecente, meias de liga, espartilho negro, nem parecia uma veste escravocrata do corpo – era a desenvoltura de gata no cio que o desmentia. Tinha na mão a pluma de avestruz que as vedetes usam no chapéu e ciciava:

– Você está do lado errado da cama. Vai sair ou tenho de o forçar?

O lado esquerdo era dela, era onde dormia. Por isso ele estendia ali o corpo nu. Para ser docemente coagido a mudar-se. Dizia não meneando a cabeça, sorriso de sátiro à espreita da ninfa. Primeiro eram os beijos. Depois a pluma, cócegas que o faziam convulsionar mas não fugir, então os tapas nas nádegas e por fim os arranhões, amável rastro das unhas de meretriz e atriz que ela era. Atriz em vários palcos, puta dele só. A noite era longa: corridas pelo apartamento, absinto francês, muita sujeira para a camareira no dia seguinte.

Lola, Lola tão tola, despida, girou com a garrafa até a varanda numa dança de fazer corar avós para atiçar seu homem, e ela foi, passou as cortinas, ele a segui-la com os olhos pela sacada. E a balaustrada tão baixa.

Apartamento grande, herança de pai, alegria de filho notívago que desmaiava a cada madrugada, trazido do teatro para casa por amigos menos ébrios. Que noites, que dramas, comédias, canções. E Lola, que foi para sua cama como um raio e sacudiu seu mundo, mulher, terremoto, furacão que ficou na sua mente desde então menos equilibrada e mais feliz.

A cama com dossel, jacarandá esculpido e envernizado, leito imenso, bom para a orgia. Alcova ampla, portas-balcão levando à sacada onde a juventude admirava um horizonte letárgico ficar mais vermelho toda tarde, calmaria interrompida nunca por arranha-céus, mas ocasionalmente pelo som distante dos bondes dos trabalhadores. Que bom ser jovem, não trabalhar, fingir que estuda e ter varanda. E ter mulher constante, mas sempre inédita.

Foi culpa do absinto. Da balaustrada baixa. Ou de Lola cansada do jogo. O bailado a levou longe demais. Além da sacada, seu corpo beijou os paralelepípedos. A Fada Verde escapou do vidro, lambeu a calçada. Seus olhos ficaram pasmados no último instante. Seu corpo lá embaixo. Dentre os fios pretos do cabelo, um vermelho e grosso que crescia pela rua.

E agora, como fica o quarto sem seus pés descalços no soalho? O corredor é mudo sem sua voz afinada cantando impropérios.

Como fica a vida se o relógio anuncia a meia-noite e ela não vem?

Cômodos vazios.

Ele está na cama, do lado esquerdo. O perfume dela ficou em tudo. No divã, duas putas largadas. Cheias de formas, seios, quadris, não conseguem alegrar a casa que Lola, sozinha, enchia de vida. Elas desmaiam, dormem. Ele, não. Seu corpo mal-saciado arde em vício, compulsão de amor endemoninhado, convulsão de narcóticos comprados de um mau boticário. De que vale ser sóbrio? Vale-lhe mais sonhar asneiras de apaixonado. É meia-noite. Hora do jogo. Lola, tão tola, tão depressa…

Sua voz sai como a de um velho:

– Querida, foi tão cedo.

Rola sobre os lençóis. Mas pára.

– Foi mesmo, amor.

O rosto dela voltado para o seu. Na cama. No lado direito. No espartilho negro. Ela é bela. Ela é profundamente…

– …pálida. – Ele a toca no rosto; é real. – Lola – repete infantil, prendendo o nome na língua embriagada na ilusão de prender também a amante ao seu lado.

– Você está do lado errado da cama. Vai sair ou tenho de o forçar?

Mas a mulher não o beija nem o afaga. Não; ela se levanta, meias pretas de liga, botinas de salto. Não dá valor às perdidas no divã. Quer as cortinas que esvoaçam. A varanda.

– Venha! Venha dançar!

E ele vai. Para além da balaustrada, onde os corpos que voam beijam as pedras da rua.

Autor:Camila Fernandes

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O mar (conto romantico)

O mar refletia o azul do céu. As águas se moviam formando ondas que vinham chocar-se com os corais. O som era relaxante apesar de se misturar com a conversa das pessoas.

Júlio estava deitado na praia. Os olhos fechados. Sua mente era um branco total.

Júlio queria ser feliz. Mas esse não era um pensamento, era uma aspiração.

A felicidade verdadeira andava por aí, mas ele não encontrava porque buscava algo que não era ela.

Depois que uma onda estourou em um rochedo Júlio pensou sem palavras: “Eu existo, apenas isso.”

O sol começava se por atráz da montanha. O céu ficava vermelho e o mar também.

Era algo muito belo que Júlio não se preocupava em ver.

Ele relaxava cada vez mais.

De repente algo cutucou em sua cabeça. Ele abriu os olhos e viu sua namorada sorrindo docemente.

As gaivotas sobrevoavam a água e as pessoas andavam de um lado para o outro.

O casal estava sentado na areia.

Aline perguntou:

– Você me ama?

Júlio respondeu:

– Amo.

– Duvido.

– Duvidando ou não a verdade é essa.

– Então responde olhando nos meus olhos. Você me ama de verdade?

– Eu te amo.

– Você está me dizendo isso só para me enganar.

– Pense o que quiser.

– Você parece distante. No que está pensando?

– Estou pensando em como as coisas são tão bonitas. As vezes me emociono de pensar nisso.

– Gostaria de sentir isso que você está sentindo.

– Talvez você sinta e não saiba.

– Como eu poderia sentir uma sensação tão boa e não saber?

– Talvez porque você sente essa sensação a vida toda e por isso já está costumada. Enquanto que eu estou sentindo esta sensação pela primeira vez.

Aline encostou a cabeça no ombro de Júlio enquanto olhavam as águas avermelhadas.

Naquele momento Júlio sentiu uma gratidão muito grande por tudo que existe.

Autor: Jefferson Ulisses

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O moço do saxofone (conto romantico)

Eu era chofer de caminhão e ganhava uma nota alta com um cara que fazia contrabando. Até hoje não entendo direito por que fui parar na pensão da tal madame, uma polaca que quando moça fazia a vida e depois que ficou velha inventou de abrir aquele frege-mosca. Foi o que me contou o James, um tipo que engolia giletes e que foi o meu companheiro de mesa nos dias em que trancei por lá. Tinha os pensionistas e tinha os volantes, uma corja que entrava e saía palitando os dentes, coisa que nunca suportei na minha frente. Teve até uma vez uma dona que mandei andar só porque no nosso primeiro encontro, depois de comer um sanduíche, enfiou um palitão entre os dentes e ficou de boca arreganhada de tal jeito que eu podia ver até o que o palito ia cavucando. Bom, mas eu dizia que no tal frege-mosca eu era volante. A comida, uma bela porcaria e como se não bastasse ter que engolir aquelas lavagens, tinha ainda os malditos anões se enroscando nas pernas da gente. E tinha a música do saxofone.

Não que não gostasse de música, sempre gostei de ouvir tudo quanto é charanga no meu rádio de pilha de noite na estrada, enquanto vou dando conta do recado. Mas aquele saxofone era mesmo de entortar qualquer um. Tocava bem, não discuto. O que me punha doente era o jeito, um jeito assim triste como o diabo, acho que nunca mais vou ouvir ninguém tocar saxofone como aquele cara tocava.

— O que é isso? — eu perguntei ao tipo das giletes. Era o meu primeiro dia de pensão e ainda não sabia de nada. Apontei para o teto que parecia de papelão, tão forte chegava a música até nossa mesa. Quem é que está tocando?

— É o moço do saxofone.

Mastiguei mais devagar. Já tinha ouvido antes saxofone, mas aquele da pensão eu não podia mesmo reconhecer nem aqui nem na China.

— E o quarto dele fica aqui em cima?

James meteu uma batata inteira na boca. Sacudiu a cabeça e abriu mais a boca que fumegava como um vulcão com a batata quente lá no fundo. Soprou um bocado de tempo a fumaça antes de responder.

— Aqui em cima.

Bom camarada esse James. Trabalhava numa feira de diversões, mas como já estivesse ficando velho, queria ver se firmava num negócio de bilhetes. Esperei que ele desse cabo da batata, enquanto ia enchendo meu garfo.

— É uma música desgraçada de triste — fui dizendo.

— A mulher engana ele até com o periquito — respondeu James, passando o miolo de pão no fundo do prato para aproveitar o molho. — O pobre fica o dia inteiro trancado, ensaiando. Não desce nem para comer. Enquanto isso, a cabra se deita com tudo quanto é cristão que aparece.

— Deitou com você?

— É meio magricela para o meu gosto, mas é bonita. E novinha. Então entrei com meu jogo, compreende? Mas já vi que não dou sorte com mulher, torcem logo o nariz quando ficam sabendo que engulo gilete, acho que ficam com medo de se cortar…

Tive vontade de rir também, mas justo nesse instante o saxofone começou a tocar de um jeito abafado, sem fôlego como uma boca querendo gritar, mas com uma mão tapando, os sons espremidos saindo por entre os dedos. Então me lembrei da moça que recolhi uma noite no meu caminhão. Saiu para ter o filho na vila, mas não agüentou e caiu ali mesmo na estrada, rolando feito bicho. Arrumei ela na carroceria e corri como um louco para chegar o quanto antes, apavorado com a idéia do filho nascer no caminho e desandar a uivar que nem a mãe. No fim, para não me aporrinhar mais, ela abafava os gritos na lona, mas juro que seria melhor que abrisse a boca no mundo, aquela coisa de sufocar os gritos já estava me endoidando. Pomba, não desejo ao inimigo aquele quarto de hora.

— Parece gente pedindo socorro — eu disse, enchendo meu copo de cerveja. — Será que ele não tem uma música mais alegre?

James encolheu o ombro.

— Chifre dói.

Nesse primeiro dia fiquei sabendo ainda que o moço do saxofone tocava num bar, voltava só de madrugada. Dormia em quarto separado da mulher.

—- Mas por quê? — perguntei, bebendo mais depressa para acabar logo e me mandar dali. A verdade é que não tinha nada com isso, nunca fui de me meter na vida de ninguém, mas era melhor ouvir o tro-ló-ló do James do que o saxofone.

— Uma mulher como ela tem que ter seu quarto — explicou James, tirando um palito do paliteiro. — E depois, vai ver que ela reclama do saxofone.

— E os outros não reclamam?

— A gente já se acostumou.

Perguntei onde era o reservado e levantei-me antes que James começasse a escarafunchar os dentões que lhe restavam. Quando subi a escada de caracol, dei com um anão que vinha descendo. Um anão, pensei. Assim que saí do reservado dei com ele no corredor, mas agora estava com uma roupa diferente. Mudou de roupa, pensei meio espantado, porque tinha sido rápido demais. E já descia a escada quando ele passou de novo na minha frente, mas já com outra roupa. Fiquei meio tonto. Mas que raio de anão é esse que muda de roupa de dois em dois minutos? Entendi depois, não era um só, mas uma trempe deles, milhares de anões louros e de cabelo repartidinho do lado.

— Pode me dizer de onde vem tanto anão? — perguntei à madame, e ela riu.

— Todos artistas, minha pensão é quase só de artistas…

Fiquei vendo com que cuidado o copeiro começou a empilhar almofadas nas cadeiras para que eles se sentassem. Comida ruim, anão e saxofone. Anão me enche e já tinha resolvido pagar e sumir quando ela apareceu. Veio por detrás, palavra que havia espaço para passar um batalhão, mas ela deu um jeito de esbarrar em mim.

— Licença?

Não precisei perguntar para saber que aquela era a mulher do moço do saxofone. Nessa altura o saxofone já tinha parado. Fiquei olhando. Era magra, sim, mas tinha as ancas redondas e um andar muito bem bolado. O vestido vermelho não podia ser mais curto. Abancou-se sozinha numa mesa e de olhos baixos começou a descascar o pão com a ponta da unha vermelha. De repente riu e apareceu uma covinha no queixo. Pomba, que tive vontade de ir lá, agarrar ela pelo queixo e saber por que estava rindo. Fiquei rindo junto.

— A que horas é a janta? — perguntei para a madame, enquanto pagava.

— Vai das sete às nove. Meus pensionistas fixos costumam comer às oito — avisou ela, dobrando o dinheiro e olhando com um olhar acostumado para a dona de vermelho. — O senhor gostou da comida?

Voltei às oito em ponto. O tal James já mastigava seu bife. Na sala havia ainda um velhote de barbicha, que era professor parece que de mágica e o anão de roupa xadrez. Mas ela não tinha chegado. Animei-me um pouco quando veio um prato de pastéis, tenho loucura por pastéis. James começou a falar então de uma briga no parque de diversões, mas eu estava de olho na porta. Vi quando ela entrou conversando baixinho com um cara de bigode ruivo. Subiram a escada como dois gatos pisando macio. Não demorou nada e o raio do saxofone desandou a tocar.

— Sim senhor — eu disse e James pensou que eu estivesse falando na tal briga.

— O pior é que eu estava de porre, mal pude me defender!

Mordi um pastel que tinha dentro mais fumaça do que outra coisa. Examinei os outros pastéis para descobrir se havia algum com mais recheio.

— Toca bem esse condenado. Quer dizer que ele não vem comer nunca?

James demorou para entender do que eu estava falando. Fez uma careta. Decerto preferia o assunto do parque.

— Come no quarto, vai ver que tem vergonha da gente — resmungou ele, tirando um palito. — Fico com pena, mas às vezes me dá raiva, corno besta. Um outro já tinha acabado com a vida dela!

Agora a música alcançava um agudo tão agudo que me doeu o ouvido. De novo pensei na moça ganindo de dor na carroceria, pedindo ajuda não sei mais para quem.

— Não topo isso, pomba.

— Isso o quê?

Cruzei o talher. A música no máximo, os dois no máximo trancados no quarto e eu ali vendo o calhorda do James palitar os dentes. Tive ganas de atirar no teto o prato de goiabada com queijo e me mandar para longe de toda aquela chateação.

— O café é fresco? — perguntei ao mulatinho que já limpava o oleado da mesa com um pano encardido como a cara dele.

— Feito agora.

Pela cara vi que era mentira.

— Não é preciso, tomo na esquina.

A música parou. Paguei, guardei o troco e olhei reto para aporta, porque tive o pressentimento que ela ia aparecer. E apareceu mesmo com o aninho de gata de telhado, o cabelo solto nas costas e o vestidinho amarelo mais curto ainda do que o vermelho. O tipo de bigode passou em seguida, abotoando o paletó. Cumprimentou a madame, fez ar de quem tinha muito o que fazer e foi para a rua.

— Sim senhor!

— Sim senhor o quê? — perguntou James.

— Quando ela entra no quarto com um tipo, ele começa a tocar, mas assim que ela aparece, ele pára. Já reparou? Basta ela se enfurnar e ele já começa.

James pediu outra cerveja. Olhou para o teto.

— Mulher é o diabo…

Levantei-me e quando passei junto da mesa dela, atrasei o passo. Então ela deixou cair o guardanapo. Quando me abaixei, agradeceu, de olhos baixos.

— Ora, não precisava se incomodar…

Risquei o fósforo para acender-lhe o cigarro. Senti forte seu perfume.

— Amanhã? — perguntei, oferecendo-lhe os fósforos. — Às sete, está bem?

— É a porta que fica do lado da escada, à direita de quem sobe.

Saí em seguida, fingindo não ver a carinha safada de um dos anões que estava ali por perto e zarpei no meu caminhão antes que a madame viesse me perguntar se eu estava gostando da comida. No dia seguinte cheguei às sete em ponto, chovia potes e eu tinha que viajar a noite inteira. O mulatinho já amontoava nas cadeiras as almofadas para os anões. Subi a escada sem fazer barulho, me preparando para explicar que ia ao reservado, se por acaso aparecesse alguém. Mas ninguém apareceu. Na primeira porta, aquela à direita da escada, bati de leve e fui entrando. Não sei quanto tempo fiquei parado no meio do quarto: ali estava um moço segurando um saxofone. Estava sentado numa cadeira, em mangas de camisa, me olhando sem dizer uma palavra. Não parecia nem espantado nem nada, só me olhava.— Desculpe, me enganei de quarto — eu disse, com uma voz que até hoje não sei onde fui buscar.

O moço apertou o saxofone contra o peito cavado.

— E na porta adiante — disse ele baixinho, indicando com a cabeça.

Procurei os cigarros só para fazer alguma coisa. Que situação, pomba. Se pudesse, agarrava aquela dona pelo cabelo, a estúpida. Ofereci-lhe cigarro.

— Está servido?

— Obrigado, não posso fumar.

Fui recuando de costas. E de repente não agüentei. Se ele tivesse feito qualquer gesto, dito qualquer coisa, eu ainda me segurava, mas aquela bruta calma me fez perder as tramontanas.

— E você aceita tudo isso assim quieto? Não reage? Por que não lhe dá uma boa sova, não lhe chuta com mala e tudo no meio da rua? Se fosse comigo, pomba, eu já tinha rachado ela pelo meio! Me desculpe estar me metendo, mas quer dizer que você não faz nada?— Eu toco saxofone.

Fiquei olhando primeiro para a cara dele, que parecia feita de gesso de tão branca. Depois olhei para o saxofone. Ele corria os dedos compridos pelos botões, de baixo para cima, de cima para baixo, bem devagar, esperando que eu saísse para começar a tocar. Limpou com um lenço o bocal do instrumento, antes de começar com os malditos uivos.

Bati a porta. Então a porta do lado se abriu bem de mansinho, cheguei a ver a mão dela segurando a maçaneta para que o vento não abrisse demais. Fiquei ainda um instante parado, sem saber mesmo o que fazer, juro que não tomei logo a decisão, ela esperando e eu parado feito besta, então, Cristo-Rei!? E então? Foi quando começou bem devagarinho a música do saxofone. Fiquei broxa na hora, pomba. Desci a escada aos pulos. Na rua, tropecei num dos anões metido num impermeável, desviei de outro, que já vinha vindo atrás e me enfurnei no caminhão. Escuridão e chuva. Quando dei a partida, o saxofone já subia num agudo que não chegava nunca ao fim. Minha vontade de fugir era tamanha que o caminhão saiu meio desembestado, num arranco.

(O texto acima foi publicado no livro Antes do Baile Verde, José Olympio Editores – Rio de Janeiro, 1979, e relacionado entre Os cem melhores contos brasileiros do século, uma seleção de Ítalo Moriconi, Editora Objetiva – Rio de Janeiro, 2000, pág. 233.)

Autor: Lygia Fagundes Telles

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