Archive for the Category »Crônicas: «

A útima crônica (cronica)

A caminho de casa, entro num botequim da Gávea para tomar um café junto ao balcão. Na realidade estou adiando o momento de escrever. A perspectiva me assusta. Gostaria de estar inspirado, de coroar com êxito mais um ano nesta busca do pitoresco ou do irrisório no cotidiano de cada um. Eu pretendia apenas recolher da vida diária algo de seu disperso conteúdo humano, fruto da convivência, que a faz mais digna de ser vivida. Visava ao circunstancial, ao episódico. Nesta perseguição do acidental, quer num flagrante de esquina, quer nas palavras de uma criança ou num acidente doméstico, torno-me simples espectador e perco a noção do essencial. Sem mais nada para contar, curvo a cabeça e tomo meu café, enquanto o verso do poeta se repete na lembrança: “assim eu quereria o meu último poema”. Não sou poeta e estou sem assunto. Lanço então um último olhar fora de mim, onde vivem os assuntos que merecem uma crônica.

Ao fundo do botequim um casal de pretos acaba de sentar-se, numa das últimas mesas de mármore ao longo da parede de espelhos. A compostura da humildade, na contenção de gestos e palavras, deixa-se acrescentar pela presença de uma negrinha de seus três anos, laço na cabeça, toda arrumadinha no vestido pobre, que se instalou também à mesa: mal ousa balançar as perninhas curtas ou correr os olhos grandes de curiosidade ao redor. Três seres esquivos que compõem em torno à mesa a instituição tradicional da família, célula da sociedade. Vejo, porém, que se preparam para algo mais que matar a fome.

Passo a observá-los. O pai, depois de contar o dinheiro que discretamente retirou do bolso, aborda o garçom, inclinando-se para trás na cadeira, e aponta no balcão um pedaço de bolo sob a redoma. A mãe limita-se a ficar olhando imóvel, vagamente ansiosa, como se aguardasse a aprovação do garçom. Este ouve, concentrado, o pedido do homem e depois se afasta para atendê-lo. A mulher suspira, olhando para os lados, a reassegurar-se da naturalidade de sua presença ali. A meu lado o garçom encaminha a ordem do freguês.

O homem atrás do balcão apanha a porção do bolo com a mão, larga-o no pratinho – um bolo simples, amarelo-escuro, apenas uma pequena fatia triangular. A negrinha, contida na sua expectativa, olha a garrafa de Coca-Cola e o pratinho que o garçom deixou à sua frente. Por que não começa a comer? Vejo que os três, pai, mãe e filha, obedecem em torno à mesa um discreto ritual. A mãe remexe na bolsa de plástico preto e brilhante, retira qualquer coisa. O pai se mune de uma caixa de fósforos, e espera. A filha aguarda também, atenta como um animalzinho. Ninguém mais os observa além de mim.

São três velinhas brancas, minúsculas, que a mãe espeta caprichosamente na fatia do bolo. E enquanto ela serve a Coca-Cola, o pai risca o fósforo e acende as velas. Como a um gesto ensaiado, a menininha repousa o queixo no mármore e sopra com força, apagando as chamas. Imediatamente põe-se a bater palmas, muito compenetrada, cantando num balbucio, a que os pais se juntam, discretos: “Parabéns pra você, parabéns pra você…” Depois a mãe recolhe as velas, torna a guardá-las na bolsa. A negrinha agarra finalmente o bolo com as duas mãos sôfregas e põe-se a comê-lo. A mulher está olhando para ela com ternura – ajeita-lhe a fitinha no cabelo crespo, limpa o farelo de bolo que lhe cai ao colo. O pai corre os olhos pelo botequim, satisfeito, como a se convencer intimamente do sucesso da celebração. Dá comigo de súbito, a observá-lo, nossos olhos se encontram, ele se perturba, constrangido – vacila, ameaça abaixar a cabeça, mas acaba sustentando o olhar e enfim se abre num sorriso.

Assim eu quereria minha última crônica: que fosse pura como esse sorriso.”

Category: Crônicas:, Fernando Sabino  Tags:  Comments off
Confissão de amor (crônica)

Era aula de história. Nada a ver com poesia, mas padre Jeremias gostava de exibir sua bela voz declamando poemas para os alunos e exaltando os poetas.

Era um espanhol de Andaluzia, conhecia toda a Europa e gabava-se do seu currículo como professor.

— Lecionei na França, Itália, Inglaterra, Alemanha e em Portugal. E, em todos esses países, ensinei no idioma dos meus alunos.

Sim, padre Jeremias era também um poliglota. Naquele dia, após discorrer sobre poetas de Portugal, particularmente Camões, “o gigante da língua portuguesa!”, o bom padre virou-se subitamente para nós, perguntando:

— Alguém aqui sabe o que é o amor?

E vendo a nossa perplexidade:

— Não se nasce padre! Minha vocação para o sacerdócio revelou-se somente aos 20 anos.

Tal era o silêncio reinante naquela sala de aula de um dia qualquer de 1945 que a simples queda de um lápis sobre o chão de tábuas corridas teria provocado o ruído de um trovão. E continuou ele:

— Amei e fui amado. E, antes que vocês se entreguem a fantasiosas conjecturas, devo dizer que não houve entre nós o menor contato físico.

E após uma longa pausa:

— Alguns dias depois de nos conhecermos, ela veio a falecer de uma enfermidade hereditária que não vem ao caso contar. E no dia de hoje estaria fazendo 80 anos, que é também a minha idade. — Seu silêncio de luto foi tão sincero que nos enlutou a todos na sala de aula.

— E, por lembrar-me dela e da pureza do nosso amor, pensei em contar na sala de aula esse episódio da minha vida anterior ao seminário e ao convento. Que sirva ao menos para mostrar a vocês que um grande amor pode ser um amor sem palavras e sem ações amorosas. Pode ser o amor puro, imaculado como o manto de Nossa Senhora.

E padre Jeremias nos brindou com esta pequena e bela conclusão de sua confissão de amor:

— Conheci essa jovem por causa de um soneto de Antero de Quental, quando disse que os versos do poeta português me faziam lembrá-la. Os versos são esses:

Não era o vulgar brilho da beleza,
nem era o ardor banal da mocidade.
Era outra luz, outra suavidade,
que até nem sei se as há na Natureza.

— Essa comparação era um sacrilégio, já que o soneto de Quental é dedicado à Virgem Maria. Eu estava, com isso, comparando a beleza da jovem à beleza da Mãe de Deus. Mas foram esses versos, repito, que despertaram nela o seu amor por mim. E o meu amor por ela.

Procuro reproduzir com exatidão as palavras do padre Jeremias, que era fácil de ser imitado pela construção um tanto oblíqua de suas narrativas. Se não foi exatamente com essas palavras que se dirigiu a nós, posso garantir que foi
com palavras bastante parecidas.

Nesse momento, ao ouvir o sino que indicava o fim do seu tempo de aula, o velho padre concluiu:

— E tal era a pureza dessa jovem de Andaluzia, tal a pureza das minhas intenções, que tenho certeza de que a Virgem Maria jamais se incomodou com essa comparação entre elas.

E encerrou com voz um pouco trêmula:

— Para a próxima aula: a Revolução Francesa.

Category: Crônicas:, Manoel Carlos  Tags:  Comments off
Conversa de elevador (crônica)

Escrevo do quarto do resort onde estou hospedado para ministrar uma palestra daqui a pouco e falar de vendas e mudanças para representantes comerciais. Acordei cedo, fui ao restaurante tomar café e cumprimentei com um “bom dia” a todos os que fizeram contato visual. Eu não sabia quem era ou não do evento, portanto o melhor foi sorrir e cumprimentar geral.

Apesar de ter chegado ontem à noite e passado alguns momentos no jantar que a empresa promoveu no hotel, não consegui conhecer as pessoas e gravar suas fisionomias. Por isso achei que aquele grupo que estava tomando café com um crachá pendurado no pescoço fosse formado pelas mesmas pessoas da empresa que estavam no jantar da noite anterior.

De uma das mesas vi uma mulher sorrir e me convidar para sentar-me com seu grupo, e fui para lá equilibrando prato e xícara de café.

– Venha sentar-se conosco! – chamou a mulher, enquanto eu pesquisava no HD de minha memória se ela estava entre as pessoas com quem conversei na noite anterior. Sentei-me em uma mesa com mais 5 ou 6 pessoas e logo perguntei se o nosso evento era o único no hotel, pois vi que o restaurante estava meio vazio.

– Acho que não – respondeu ela. – Tem um outro grupo promovendo um evento aqui, pois ontem à noite eles estavam dando uma festa e um jantar.

– Xi… – exclamei – então eu sou do outro grupo!

Logo vi que aquelas pessoas não faziam parte do fabricante de malas que tinha  me contratado para a palestra. Eu estava numa mesa onde todos eram médicos reumatologistas participando que participavam de um simpósio. O café foi muito agradável, pois logo se interessaram pelo assunto que veio à tona: a necessidade que também os médicos têm de saberem promover e vender seus serviços de forma ética. Obviamente o assunto surgiu depois que introduzi minha “conversa de elevador”.

Todo profissional deve ter na ponta da língua uma “conversa de elevador”, e o palestrante não é exceção. Trata-se de um script curto e preciso, nem um pouco do tipo propaganda, que diz tudo o que você é, faz ou vende em poucas palavras e dentro do contexto do que está sendo conversado. A “conversa de elevador” é sutil, nada intrometida, e usa um gancho para se manifestar. “En passant”.

Imagine que você venda notebooks e esteja em um elevador de um prédio comercial, quando alguém comenta consigo mesmo ou com outro passageiro:

– Parece que vai chover…

É a deixa para você introduzir sua “conversa de elevador”:

– Ai! Nem brinca… preciso entregar alguns notebooks que vendi e com chuva fica mais difícil.

– O sr. vende notebooks? – pergunta o sujeito da chuva.

Não importa para que andar você estava indo; desça no mesmo que ele descer. É assim que negócios acontecem.

A conversa à mesa do café foi divertida e voltada a amenidades. Tudo o que fiz foi dizer meu nome, mas não achei que fosse conveniente distribuir cartões. Se você já leu algum livro de etiqueta deve saber que à mesa nunca se deve entregar um cartão, ou dar a mão para cumprimentar ou se despedir. Eu odeio quando estou em um restaurante, à mesa e com as mãos lavadas para comer, e chega alguém que faz questão de me cumprimentar com a mesma mão que trouxe da rua ou do banheiro.

Em momentos de contato informal para promover sua marca é preciso evitar ser inconveniente e “vendedor”, no mau sentido da palavra. Como assim no mau sentido da palavra? Pense em alguém que aproveita uma situação como a do café da manhã para vender uma rifa e você irá entender. Se quiser falar de seu trabalho vá introduzindo com conta-gotas sua “conversa de elevador” e principalmente procure fazer perguntas sobre o trabalho do outro. O que todo mundo gosta mesmo é de falar de si.

Eu estava terminando meu café quando um outro médico veio juntar-se a nós. Achando que eu fosse médico, apresentou à discussão do grupo à mesa o caso de um paciente seu. As opiniões começaram a pipocar aqui e ali e fiquei boiando naquele oceano de termos médicos. Aquele era o sinal para eu dar o fora antes que olhassem para mim como um estranho no ninho. Mas eu não podia sem um “grand finale”.

– Se vocês me dão licença – disse eu despedindo-me sem a mão para ninguém.
– Preciso me preparar para minha palestra… E quanto ao diagnóstico desse paciente, eu diria que é lupus. Não sou médico, mas assisto “House”.

E foi assim que me despedi, deixando aquele grupo de médicos com uma boa impressão e muitas gargalhadas. Enquanto me afastava da mesa ainda pude escutar o médico recém chegado dizer:

– E não é que pode ser lupus mesmo?

Category: Crônicas:, Mario Persona  Tags:  Comments off
Doce vinagre (crônica)

No supermercado a velhinha ao lado me fitava. E quando digo velhinha, imagine aquela gracinha que mais parece uma vovozinha saída de um desenho animado. Ela era assim. Uma figurinha doce, com olhinhos brilhantes e atentos à escolha que eu faria do vinagre.

Parado ali, diante de uma gôndola cheia de opções, não era qualquer vinagre que eu queria. Queria um de vinho, meu predileto. Salivava só de pensar. A maioria era de álcool e trazia uva apenas na cor do rótulo. Encontrei a marca que minha mãe comprava e coloquei no carrinho.

— Esse vinagre não vai lhe fazer bem. — escutei um fiozinho de voz, um misto de fragilidade e sapiência. — Se o senhor se preocupa com a saúde, deve levar o de maçã.

Como ela sabia que eu me preocupava com a saúde? Enquanto eu tentava identificar em sua roupa algo que a denunciasse como promotora de alguma marca, ela destilava os benefícios do vinagre de maçã. Não era promotora. Era só uma doce velhinha querendo me ajudar a alcançar sua idade.

— Use só vinagre de maçã — receitou ela, colocando em minha mão um cuja marca dizia ser a melhor.

Várias coisas influenciam nossa ação de compra, mas nada se compara à indicação. As grandes marcas — as mais duradouras — são construídas assim. Embora a propaganda ajude a manter uma marca viva graças à repetição de sua mensagem, é a indicação que a constrói sólida com o peso da credibilidade. Marcas construídas só com propaganda são frágeis. Marcas fortes não são construídas pelo que suas empresas papagaiam, mas pelo que o público pensa a respeito.

Para isso é preciso ter relevância. Se não tiver um significado que seja uma resposta a alguma necessidade, desejo ou expectativa, não será capaz de me influenciar, de deixar sua marca em mim.

A semente da velhinha encontrou solo fértil em minha preocupação de boa saúde, longevidade e bem-estar. O que ela dizia fazia sentido. O que ela era transmitia, credibilidade. O conjunto todo era relevante. Uma jovem promotora jamais me faria mudar do vinagre de vinho para o de maçã, mas a velhinha exalava experiência. Era impossível eu escapar da marca que deixou em mim.

O assunto, o momento e o lugar ajudaram na aderência. Na época eu já tinha quarenta anos de fermentação e estava ali preocupado com vinagre e bem-estar do paladar. Ela me acenou com vinagre e bem-estar, só que de outro tipo. Se a velhinha abordasse um adolescente, não iria colar, mas para um quarentão colou. Indicação, relevância e aderência são alguns elementos de uma boa marca. Repetição é outro.

Ela repetiu uma ou duas vezes seu discurso só mudando as palavras, mas não foi preciso repetir muito. Era relevante demais. Eu não teria uma vida longa e feliz se não passasse a usar imediatamente vinagre de maçã. Coloquei o vinagre de maçã no carrinho, agradeci à velhinha e devolvi o de vinho à gôndola. Daquele dia em diante, salada só com vinagre de maçã.

O mecanismo que uma marca usa para marcar é o mesmo de uma experiência de satisfação. Você saliva só de pensar naquela azeitona preta suculenta, bem temperadinha? A experiência anterior deixou uma marca. Mas pode ser esquecida, se não repetir a experiência de vez em quando. O composto relevância-repetição é o que garante o recall, a imediata e até involuntária recordação de uma marca.

Em minhas aulas costumo fazer um exercício com os alunos. Digo um produto e a classe grita uma marca sem pensar. As palavras “cerveja” ou “tênis” são imediatamente respondidas com uma marca, geralmente a mesma. Isso é poder de recall. Um bom trabalho da dupla relevância-repetição gravou em suas mentes a marca que veio à tona automaticamente. Marcas de grande relevância precisam de menos repetição do que as de pouca relevância para garantir o recall.

Quase dez anos depois daquele incidente, estava eu outra vez no supermercado. Na gôndola do vinagre, peguei instintivamente um vinagre de maçã e ia colocar no carrinho quando ouvi uma voz.

— Espera aí, Mario! — sussurrou o grilo falante que mora em minha mente — Há quase dez anos você só compra vinagre de maçã sem gostar. Você gosta mesmo é de vinagre de vinho, cara!

Olhei ao redor, nenhuma velhinha. Senti-me um garoto fazendo uma traquinagem quando lancei no carrinho duas embalagens de vinagre de vinho. A história do vinagre de maçã era relevante, mas o paladar hedonista falou mais alto porque agora falava sozinho. A velhinha não estava mais ali para garantir a repetição.

Category: Crônicas:, Mario Persona  Tags:  Comments off
Dulcineia – Dia Internacional da Mulher (crônica)

Sobre minha mesa, dois belíssimos volumes de “Don Quixote de La Mancha”, de Miguel de Cervantes Saavedra, me fitam. A edição que herdei de meu pai é de 1955, ano de meu nascimento, e traz ilustrações de Gustavo Doré. Que magia estes livros contêm? O que tornou Don Quixote um dos livros mais lidos do mundo? O fato de ter sido concebido em um cárcere, talvez. Por ser a aventura de um louco em busca de glória? Hummm… não sei… Quem sabe o que realmente nos seduz é saber que ele, um perdedor nato e fraco, se acha um campeão, o mais valente, o mais fidalgo? Pode ser. Gostamos de fracos vencedores, porque no fundo somos assim. Só falta vencer.

Mas o que seria de um cavaleiro sem inspiração? É aí que entra Dulcinéia, a musa inspiradora de Don Quixote. É aí que entra minha homenagem às mulheres, as musas inspiradoras dos homens. Mas quem é Dulcinéia? Quixote, por gentileza, poderia descrevê-la? Você a conhece melhor do que eu.

“O seu nome é Dulcinéia, sua pátria Toboso, um lugar da Mancha; a sua qualidade há de ser, pelo menos, Princesa, pois é Rainha e senhora minha; sua formosura sobre-humana, pois nela se realizam todos os impossíveis e quiméricos tributos de formosura, que os poetas dão às suas damas; seus cabelos são ouro; a sua testa campos elíseos; suas sobrancelhas arcos celestes; seus olhos sóis; suas faces rosas; seus lábios corais; pérolas os seus dentes; alabastro o seu colo; mármore o seu peito; marfim as suas mãos, sua brancura neve; e as partes que à vista humana traz encobertas a honestidade são tais (segundo eu conjeturo) que só a discreta consideração pode encarecê-las, sem poder compará-las.” 

[Pausa para você dar aquele suspiro e desarrepiar]

A verdade é que todo homem precisa de uma Dulcinéia, de uma musa, de uma inspiração. De alguém por quem valha a pena lutar até contra o vento dos moinhos. Uma amada, uma esposa, uma mãe, uma irmã — você elege a sua. Sem a sua Dulcinéia o homem é Romeu sem Julieta, queijo sem goiabada, azeitona sem sal.

Dulcinéia era a projeção que Don Quixote fazia de Aldonça Lourenço, uma campesina de Toboso. A Dulcinéia dos sonhos ele nunca encontra no livro, porque ela mora em sua mente e coração. A Dulcinéia de cada um é aquela que envelhece e você não vê as rugas; que ralha e você ouve um canto; que vira para o outro lado e dorme, e você enxerga um anjo. Ideal, virtual, uma projeção toda sua da real. Pois ela é perfeita, nunca menos do que a imagem que você vê. É por essa que o amor nunca arrefece. Porém, Quixote chora, por achar que Dulcinéia o despreza:

“Ó princesa Dulcinéia, senhora deste cativo coração, muito agravo me fizeste em despedir-me, e vedar-me com tão cruel rigor que aparecesse na vossa presença. Apraza-vos senhora, lembrar-vos deste coração tão rendidamente vosso, que tantas mágoas padece por amor de vós.”

Por amor a Dulcinéia, Don Quixote seria capaz de atravessar desertos, escalar montanhas, cruzar os mares, dar a volta ao mundo, enfrentar perigos e abater inimigos. Mas no livro ela não fica com ele. Talvez por saber que ele nunca iria parar em casa.

Category: Crônicas:, Mario Persona  Tags:  Comments off
Eu quero um refil! (crônica)

Meu último aniversário queimou mais uma espoleta da fita. Você jovem provavelmente não entendeu. É que quando criança eu tinha um revolver de brinquedo para brincar de mocinho, o que hoje você só vê na mão de menores brincando de bandidos. O revólver tinha um rolinho de espoletas, pequenas verrugas de pólvora grudadas numa tirinha de papel. À medida que eu atirava gastava as espoletas e logo precisava de um refil. Esta semana gastei minha espoleta 58. Preciso de um refil!

Quando você é jovem tem saúde para fazer o que quiser, mas não tem dinheiro. Depois, quando tem dinheiro não tem saúde. Por isso tento cuidar da minha, e o suco de abacaxi ajudou-me a perder dez quilos e a sentir-me meia hora mais jovem. Porém nunca pensei que chegaria à fase de estabilidade financeira passando fome. Aposto como você ficou interessadíssimo na receita de meu suco de abacaxi e nem percebeu a palavra “fome”, não é mesmo? Tudo bem, anote aí:

  • 1/2 abacaxi
  • 2 limões
  • 1 maçã
  • 1 dedão de gengibre
  • folhas de hortelã
  • bater bem e não coar nem adoçar
  • beber 3 copos nas refeições
  • comer metade do que costuma comer

“Dedão de gengibre” é medida de homem. Se você for mulher, use dois dedões para medir ou empreste o de seu marido. O último ingrediente é o mais importante, mas você não vai nem ligar para ele pensando que o abacaxi faz milagres. É provável que faça como as duas velhinhas do restaurante macrobiótico que frequentei quando jovem. Avisadas pelo guru local que para emagrecer deviam comer arroz e pão integrais, feijão azuki, açúcar mascavo, soja, bardana, raiz de lótus, tofu etc., elas só engordaram ainda mais, acrescentando tudo isso ao que já comiam.

É preciso esforço para perder peso na velhice, você não precisa fazer nada para perder a audição. Ela vem de graça, meio bênção, meio maldição. Bênção porque você passa a ouvir aquela rádio cheia de estática como se fosse alta fidelidade. Maldição porque já não pode ouvir a voz de sua amada, o que alguns também consideram uma bênção.

Enquanto seus cabelos são revigorados e começam a crescer nos orifícios, mas nunca onde deveriam, sua audição não só diminui, talvez por causa dos cabelos, mas também fica estranha. Ruídos que passavam despercebidos agora irritam, e conversar em uma sala com eco equivale a uma sessão de tortura chinesa. Uma por causa do baralhamento das vozes que chegam todas no mesmo volume; outra porque o seu interlocutor parecerá chinês mesmo: você não entenderá bulhufas.

Aquele som cristalino das conversas até ao telefone vira uma coisa pastosa e indecifrável. Ontem uma repórter do Globo News ligou querendo me entrevistar e gastou um bocado de interurbano até eu entender que seu nome não era “Carla”, mas “Clara”. Com a TV já ocorre um fenômeno interessante: você amplia sua rede social, partilhando seu som com os vizinhos. Para evitar isso procuro sempre filmes legendados, mesmo que sejam no mesmo idioma da voz.

Enquanto alguns sons da cidade somem, outros invadem sua privacidade. Nem preciso falar dos carros que passam tocando nas alturas e nem estão vendendo pamonhas. Veja o caso do sino da igreja que fica a cinco quadras de meu apartamento. Dependendo do vento, o carrilhão que toca às seis da manhã costumava me acordar. Resolvi o problema acordando antes, mas o sino continua a acordar meu filho, que é deficiente físico e mental, para lembrá-lo de fazer um xixi acima da capacidade da fralda. Aposto como o padre nunca precisou trocar lençóis.

O último som a me alfinetar tem sido o alarme da porta da garagem do prédio em frente. Ao invés de instalarem o sinalizador sonoro e luminoso na beira da calçada, como seria o normal, instalaram sobre a porta da garagem que fica no fundo de uma rampa que aponta para a janela de meu escritório como um megafone gigante. Para meu ouvido já confuso aquilo tem o efeito de um alarme de carro disparando a cada carro que entra ou sai. Com direito a meia hora de tortura quando a faxineira lava a rampa com a porta da garagem aberta.

Enfim, se você achava que o nome “melhor idade” tivesse sido dado para significar isso mesmo, está enganado. É melhor porque acaba logo, como a memória. Não falei da memória? Então esqueci. Mas estou me precavendo tomando magnésio todos os dias, que na Web dizem servir para curar tudo, de unha encravada a caspa. Outro dia eu estava a ponto de postar no Facebook de como o magnésio me deixa alerta, focado e com boa memória, quando minha empregada gritou da cozinha: “Seu Mario, o que o vidro de Toddy está fazendo no micro-ondas?”

Category: Crônicas:, Mario Persona  Tags:  Comments off
Lei Áurea (crônica)

Minha sogra, Irina Popov, é ucraniana. Os Popov se deixaram capturar pelos nazistas porque consideraram Hitler uma opção melhor do que Stalin. Bons tempos. Depois de amargar dez anos entre campos de trabalho e de refugiados, uma parte do grupo veio parar na Guanabara, a outra permaneceu na antiga União Soviética.

Evguéniy é um Popov de Kriviy Rig, na Ucrânia. Engenheiro aposentado, tem uma namorada, Lena, com quem divide uma datcha, um pedaço de terra, no quintal da casa dela. Lá, Génia planta as batatas que ambos comem no inverno. Em 1986, quando em visita aos parentes daqui, passeou pelos corredores dos supermercados exclamando ohs! e ahs! de fascinação.

Não entendia o porquê das diferentes marcas. Leite, para Génia, era leite. Carne era carne. Que mistério separava um Glória de um Nestlé, uma Becel de uma Doriana?

A sobrinha, Iratchka, enfrentou o tórrido verão do último dezembro carioca. Ginecologista em uma clínica de ultrassom em Lviv, no lado ocidental da Ucrânia, assistiu à queima de fogos em Copacabana e visitou Paraty.

Na despedida, refletindo sobre o que levaria dos trópicos, comentou saudosa: “Jamais pensei que um dia eu fosse experimentar o conforto de viver cercada de escravos!”.

Foi embora, deixando para trás a vergonha e a consciência da desigualdade social. A Revolução de 1917 socializou a pobreza, mas acabou com a servidão.

As relações entre patrões e empregados no Brasil seguem herdeiras de Casa Grande & Senzala, com senhor e servo dividindo o mesmo espaço comum. Nesse melê, as leis trabalhistas tendem a se tornar irrelevantes, as cargas horárias difíceis de ser mensuradas, bem como o direito de ir e vir. O que custa fazer um suco? Pegar uma roupa no chão? Como as mães faziam, antes das feministas e da competição do mercado.

A chegada dos filhos e o aumento da carga de trabalho transformaram a minha economia pessoal em uma microempresa privada. Hoje, sustento uma máquina que me permite representar e escrever sem que a retaguarda desmorone. Por entender que o pessoal de casa faz parte do meu processo produtivo, tentei aplicar nos contratos domésticos as regras salariais do setor empresarial. Sempre paguei FGTS, seguro-saúde, vale-transporte e hora extra.

Mas a pressão da vida adulta já me fez cometer abusos. Pode-se alegar que o Brasil só será um país desenvolvido no dia em que cada um lavar a sua louça, dobrar os lençóis e contar com uma ajuda bissexta na faxina.

Quando o transporte, a educação e a segurança pública, as creches e as lavanderias de esquina se tornarem uma realidade corriqueira. Por enquanto, o serviço doméstico ainda emprega um naco relevante da mão de obra sem formação superior do país.

O esforço de regular e definir os direitos desses prestadores de serviço é mais que bem-vindo. Sou abolicionista, pelo menos gosto de me ver assim, mas necessito da ajuda de terceiros para tocar o barco.

Uma legislação que profissionalize o legado maldito da escravidão já alivia a culpa da despedida da prima ucraniana. Mas não resolve a injustiça. Basta rever o discurso de Marlon Brando no clássico Queimada.

Category: Crônicas:, Fernanda Torres  Tags:  Comments off
Macumba (crônica)

Um amigo de ascendência judaica me chamou a atenção para o fato: a macumba virou artigo raro nas encruzilhadas cariocas. Cresci acreditando que elas eram eternas, parte intrínseca da nossa cultura. Eu acordava cedo na Rua Frei Leandro, 29, caminhava até a Alexandre Ferreira, em direção ao Colégio Souza Leão, e na esquina com o canal havia sempre um prato de barro com arroz, pipoca e farinha, adornado com flores, cachaça e velas; as mais carregadas exibiam galinhas mortas. Eu desviava, respeitosa, e seguia
em frente pedindo licença.

Meu conhecido é morador de Laranjeiras. Segundo ele, o costume ainda impera no acesso do Cosme Velho para o túnel. Um terreiro escondido na mata, entre o Largo do Boticário e o retorno do Rebouças, mantém viva a tradição.

A subida para Santa Teresa é outro foco de resistência.

Acredito que a razão do sumiço seja o avanço evangélico nas comunidades carentes. O monoteísmo radical dos brancos do norte condena o politeísmo africano. O culto trazido pelos navios negreiros foi confundido com a personificação do mal.

O pastor Marcos e muitos vídeos disponíveis na internet, com cenas explícitas de extorsão de fiéis, mostram que o diabo não privilegia credo.

A África, dada ao sincretismo, desconhece o maniqueísmo. As forças naturais manifestadas em seus deuses agem para além do bem e do mal e se reconhecem até nos ídolos alheios. O mesmo não acontece com a religião fundada pelos europeus do século XV, inconformados com a corrupção do catolicismo da Idade Média.

A Reforma não admite nuances, tanto que eliminou os santos de seu panteão. Mas fez grandes avanços ao permitir o casamento dos sacerdotes e se opor ao fausto romano. Séculos depois, a corrente religiosa que nasceu para dar fim à perdição acabou, ela mesma, caindo em tentação. No Novo Mundo, o puritanismo semeou o milagre da multiplicação dos dividendos e, humano, demasiado humano, repetiu os pecados que nasceu para exterminar.

No Brasil, as igrejas Universal, Batista, Adventista e Metodista souberam ocupar o vazio deixado pelo estado, criando alguma ordem social, moral, onde só existiam a má distribuição de renda, a miséria e a falta de saúde, transporte, educação e saneamento.

O encastelamento da Igreja Católica a afastou do dia a dia dos fiéis e contribuiu para a perda de território. As missas são impessoais e os padres têm um sotaque arcaico, um falar etéreo, indiferente ao drama terreno.

O candomblé sempre serviu de contraponto carnal para um espírito tão santo. Não mais. Os evangélicos não concordam com as regras da boa convivência religiosa que imperam no Brasil há 400 anos.

Admiro a eficiência das novas igrejas, reconheço seus resultados, mas lamento a intolerância. Eu me acostumei com a ideia de que o Brasil é um país multirracial, multicultural, multirreligioso. A terra da miscigenação. Que bom seria se, aqui, nascessem um adventismo, um calvinismo, um luteranismo, um ismo menos radical. Se os trópicos aliviassem o fundamentalismo cristão de seus praticantes.

E se os despachos voltassem a decorar as esquinas do Rio.

Category: Crônicas:, Fernanda Torres  Tags:  Comments off
Matusalém (crônica)

Não sei como, não sei quando, não sei por quê, fui incluída, à minha revelia, em um site de relacionamentos. Faz um mês que meu e-mail é invadido por desconhecidos interessados em estabelecer contato comigo. Eles mandam foto, informam a idade e ainda sugerem outros pretendentes, que poderiam engordar a minha lista de likes.

Na primeira vez que dei com a mensagem na tela, corri para as letras miúdas a fim de cancelar a inscrição. Procedi como indicado, mas apareceu um boxe exigindo a senha.

Eu não tinha a menor ideia do número da senha, eu não me lembro de ter cadastrado uma senha. Jamais, em hipótese alguma, eu me engajaria em um site de relacionamentos.

Sou sociofóbica, nasci em meados do século passado e suspeito da massa de anônimos que povoam o ciberespaço.

Cliquei em “Esqueceu sua senha?”, e esperei pela nova, a ser enviada. Demorou, demorou, e nunca chegou. Repeti o procedimento, e nada. Já a lista de Orlandos 40, Robertos 52, Álvaros 38, Pedros 47 e Paulos 56 só fazia aumentar.

Dei um reply para a entidade fantasma — cuja central de atendimento deve ser no México, na Rússia ou em Porto Rico —, exigindo a retirada do meu nome de circulação.

Não há número de telefone disponível, nem ser humano que dê atenção ao meu trauma, não há vacina para a praga.

A cada contato, o cérebro eletrônico me lê como usuária assídua e redobra a seleção de machos. Quem controla esse abuso? É o Procon?

É como as companhias telefônicas, que gostam de ligar no sábado de manhã, com pacotes de promoção e pesquisas de opinião. Elas agem como se fossem donas da sua linha, e não o contrário. As moças do telemarketing escutam horrores, coitadas. A última que me ligou escutou.

— Não é com você! — eu repetia — É com a sua empresa!

Solidária e solícita, a menina respondeu:

— Eu vou estar anotando a sua reclamação.

Parei no e-mail. Eu amo e-mail. Você escreve quando pode e recebe quando é conveniente. É uma troca pessoal e intransferível, serve de documento e ainda obriga o cidadão a escrever alguma língua direito, com sujeito, verbo e predicado.

Que vasculhem minhas cartas, espionem, gravem, anotem com quem conversei, mas que façam isso pelas costas, sem o meu consentimento. Usei o Twitter uma vez e saí batido, impressionada com o número de estranhos que passaram a me tratar como íntima.
Não achei prudente a exposição voluntária.

A internet foi, e é, o estopim das manifestações de massa que explodiram mundo afora. Como sou antiga e uso meu computador como máquina de escrever e correio, só soube do acontecido depois que aconteceu. Meu filho de 13, não, esse conhecia as cinco causas do Anonymous (os manifestantes mascarados), sabia da vaia coletiva, filmada da janela de um edifício depois do pronunciamento oficial da Presidência, e da assustadora ação da polícia na Lapa.

Peco pelo conservadorismo, leio jornal impresso e me informo pela Globo News. Ainda assim, ignorante, solitária e ultrapassada, troco toda a consciência pela glória da minha privacidade. Não nasci para o Facebook, o Instagram e o LinkedIn.

Estacionei no caráter enciclopédico, epistolar, matusalênico das novas tecnologias.

Category: Crônicas:, Fernanda Torres  Tags:  Comments off
Não É Só por Vinte Centavos. Nem pelo Quilo do Feijão (crônica)
Saí pra comprar feijão, apaixonada que sou pela especiaria. No sacolão mais próximo, me deparei com o pacotinho de um quilo por nove reais. Olhei feio pra vendedora, franzi a testa, torci o nariz. E saí, de mãos vazias, revoltada e assustada, como alguém que acabara de sofrer tentativa de furto.
Disse a mim mesma que a culpa era do dono do negócio, que pretendia extorquir os moradores da região, aproveitando-se do fato de seu estabelecimento ser o único do gênero ali nas redondezas. Até então, a culpa era apenas do proprietário do sacolão, que, em poucos instantes, na minha mente, tornou-se um criminoso da pior espécie.
Fôlego retomado, dirigi alguns metros até o próximo supermercado, um pouco mais longe de casa, certa de que ali os desejados grãozinhos marrons estariam sendo vendidos por um valor mais justo e razoável. Pra minha surpresa e decepção, o preço era exatamente o mesmo. E a vendedora, dessa vez, me desencorajou a andar até o terceiro mercadinho, dizendo que o aumento tinha sido geral.
Pensei em ir num outro bairro, a fim de me certificar da veracidade daquela informação, mas o que eu gastaria em gasolina tornaria o produto ainda mais oneroso. Sem falar no tempo que seria perdido no percurso, já que o trânsito era infernal naquele horário.
Voltei, então, pra casa, com o pacotinho de um quilo de feijão preto, um pouco menos caro que os grãozinhos marrons. Decidi que boicotaria o carioquinha e o jalo, meus preferidos, em sinal de protesto, até que os preços voltassem à normalidade. E assim o fiz.
Em casa, ainda resmungando comigo mesma, liguei a televisão e as notícias eram idênticas às dos últimos dias. Imagens de milhares de pessoas por ruas do Brasil e do mundo, portando cartazes e bandeiras, com reivindicações diversas, dirigidas aos nossos governantes. E os repórteres, ao menos boa parte deles, repetindo a ladainha de que o movimento havia começado em razão do aumento de vinte centavos na passagem de ônibus na região metropolitana de São Paulo, mas que, agora, não tinha mais uma “causa específica”.
Ora bolas. Que os protestos começaram na capital paulista, em razão do aumento de vinte centavos no transporte público, todo mundo sabe. Inclusive os abestados repórteres da maior emissora de televisão do país. Mas o que o governo finge não enxergar e a imprensa insiste em tentar camuflar é o fato de que os vinte centavos foram só a gota d’água que faltava pra fazer transbordar o balde de indignação e revolta que há tempos andava cheio, abarrotado por episódios de corrupção e mau uso do dinheiro público.
Naquele final de tarde, o meu balde (assim como o dos moradores da cidade de São Paulo, na semana anterior) transbordou, logo que me deparei com o preço do pacotinho de feijão, que mais parecia “filet mignon”.
Definitivamente, não é só por vinte centavos. Nem pelo quilo do feijão. E, ainda que fosse, tal fato não tornaria menos legítimas as manifestações populares que marcaram as últimas semanas no Brasil, a par, obviamente, dos atos de destruição praticados por delinquentes, que em nada se confundem com aqueles que, empunhando bandeiras e cartazes, dignaram-se a exigir o cumprimento de direitos básicos, assegurados constitucionalmente, mas ainda hoje não implementados de forma satisfatória.
É, o balde precisava mesmo transbordar. O grito precisava ser exalado. O gigante tinha que acordar. Resta torcer para que, com a vitória da seleção brasileira na Copa das Confederações, ele não volte a hibernar, embalado pela falsa sensação de que, agora, depois de alguns gols, tudo vai bem.
Category: Crônicas:, Sílvia Tibo  Tags:  Comments off
Copy Protected by Chetan's WP-Copyprotect.