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Programa de índio (crônica)

Acabo de chegar de duas semanas em Nova York com os filhos, um de 13 e o outro de 5. Fui exercer a maternidade extrema, sem marido e sem babá, debaixo de uma onda de calor de Madureira.

De 1992 a 1996, quando Nova York se tornou um segundo lar para mim, o SoHo ainda abrigava artistas. O Guggenheim abria uma filial na esquina da Prince com a Broadway, era possível ver Spalding Gray no palco, e no cinema Angelika e dezenas de galerias ditavam o perfil do bairro ao sul da Houston.

O primeiro sinal dos novos tempos aconteceu quando a Prada transformou o Guggenheim SoHo em sua mais arrojada filial. Os Rauschenberg, os Basquiat, os Jasper Johns e os De Kooning cederam espaço às bolsas, aos vestidos e aos sapatos de luxo da grife italiana.

Desde então, quem vive de arte migrou para o outro lado do East River, na região de Williamsburg, no Brooklyn, onde vivi e fui testemunha do primeiro restaurante coreano a se aventurar na vizinhança de poloneses. As grandes galerias foram parar em Chelsea, e o SoHo se rendeu ao prêt-à-porter.

Não importa em que direção se olhe, o Leblon nova-iorquino exibe vitrines de roupas e acessórios. Pequenas pontas de estoque liquidam, a preço de banana, o que, no mês passado, era vendido como joia. A fila anda.

Cheguei em plena queima de verão. O consumo agressivo beirava a insanidade. Resisto bem às tentações, mas é impossível deixar de vestir uma criança por um ano com um orçamento que, aqui, vale pouco mais que uma calça.

E assim se esvai a balança comercial…

Não sei se foi o cansaço, o calor, mas me incomodou a procissão furiosa de turistas, segurando sacolas de papelão bom, lotadas de caixas de plástico resistente e papéis de seda fina; camadas e camadas de invólucro despejadas no lixo do quarto de hotel, meia hora depois de deixarem a loja.

Nem o sensacional James Turrell, no Guggenheim, nem Richard Serra, na Dia Art Foundation, nem minha janela de australopiteco, no National History Museum, nem o Duende Verde cantando I’ll Take Manhattan, nem o passeio na High Line apagaram o choque com o ar de shopping mall do SoHo.

Nos dias de semana, eu deixava e buscava meu filho em uma escola em Battery Place, no extremo sul da ilha, perto da saída da barca para a Estátua da Liberdade. Jamais frequentei essa área, o centrão histórico, coração de Wall Street e foco dos ataques de 11 de setembro.

Uma tarde, para fazer hora, o pequeno me pediu para entrar no Museu do Índio, que ficava perto do curso do maior. O palacete é bonito, bem cuidado, todo informatizado e com uma boa coleção de objetos e vestimentas. Foi lá que descobri um tesouro de livro chamado The Ledgerbook of Thomas Blue Eagle. Trata-se de um diário ilustrado pelo próprio autor, com a descrição de sua infância na tribo, do contato com os primeiros brancos, da colonização e de seu aculturamento.

Acho que me identifiquei com o nativo. A memória ilustrada de Thomas Blue Eagle foi a mais doce surpresa da temporada no norte.

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Lei Áurea (crônica)

Minha sogra, Irina Popov, é ucraniana. Os Popov se deixaram capturar pelos nazistas porque consideraram Hitler uma opção melhor do que Stalin. Bons tempos. Depois de amargar dez anos entre campos de trabalho e de refugiados, uma parte do grupo veio parar na Guanabara, a outra permaneceu na antiga União Soviética.

Evguéniy é um Popov de Kriviy Rig, na Ucrânia. Engenheiro aposentado, tem uma namorada, Lena, com quem divide uma datcha, um pedaço de terra, no quintal da casa dela. Lá, Génia planta as batatas que ambos comem no inverno. Em 1986, quando em visita aos parentes daqui, passeou pelos corredores dos supermercados exclamando ohs! e ahs! de fascinação.

Não entendia o porquê das diferentes marcas. Leite, para Génia, era leite. Carne era carne. Que mistério separava um Glória de um Nestlé, uma Becel de uma Doriana?

A sobrinha, Iratchka, enfrentou o tórrido verão do último dezembro carioca. Ginecologista em uma clínica de ultrassom em Lviv, no lado ocidental da Ucrânia, assistiu à queima de fogos em Copacabana e visitou Paraty.

Na despedida, refletindo sobre o que levaria dos trópicos, comentou saudosa: “Jamais pensei que um dia eu fosse experimentar o conforto de viver cercada de escravos!”.

Foi embora, deixando para trás a vergonha e a consciência da desigualdade social. A Revolução de 1917 socializou a pobreza, mas acabou com a servidão.

As relações entre patrões e empregados no Brasil seguem herdeiras de Casa Grande & Senzala, com senhor e servo dividindo o mesmo espaço comum. Nesse melê, as leis trabalhistas tendem a se tornar irrelevantes, as cargas horárias difíceis de ser mensuradas, bem como o direito de ir e vir. O que custa fazer um suco? Pegar uma roupa no chão? Como as mães faziam, antes das feministas e da competição do mercado.

A chegada dos filhos e o aumento da carga de trabalho transformaram a minha economia pessoal em uma microempresa privada. Hoje, sustento uma máquina que me permite representar e escrever sem que a retaguarda desmorone. Por entender que o pessoal de casa faz parte do meu processo produtivo, tentei aplicar nos contratos domésticos as regras salariais do setor empresarial. Sempre paguei FGTS, seguro-saúde, vale-transporte e hora extra.

Mas a pressão da vida adulta já me fez cometer abusos. Pode-se alegar que o Brasil só será um país desenvolvido no dia em que cada um lavar a sua louça, dobrar os lençóis e contar com uma ajuda bissexta na faxina.

Quando o transporte, a educação e a segurança pública, as creches e as lavanderias de esquina se tornarem uma realidade corriqueira. Por enquanto, o serviço doméstico ainda emprega um naco relevante da mão de obra sem formação superior do país.

O esforço de regular e definir os direitos desses prestadores de serviço é mais que bem-vindo. Sou abolicionista, pelo menos gosto de me ver assim, mas necessito da ajuda de terceiros para tocar o barco.

Uma legislação que profissionalize o legado maldito da escravidão já alivia a culpa da despedida da prima ucraniana. Mas não resolve a injustiça. Basta rever o discurso de Marlon Brando no clássico Queimada.

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Macumba (crônica)

Um amigo de ascendência judaica me chamou a atenção para o fato: a macumba virou artigo raro nas encruzilhadas cariocas. Cresci acreditando que elas eram eternas, parte intrínseca da nossa cultura. Eu acordava cedo na Rua Frei Leandro, 29, caminhava até a Alexandre Ferreira, em direção ao Colégio Souza Leão, e na esquina com o canal havia sempre um prato de barro com arroz, pipoca e farinha, adornado com flores, cachaça e velas; as mais carregadas exibiam galinhas mortas. Eu desviava, respeitosa, e seguia
em frente pedindo licença.

Meu conhecido é morador de Laranjeiras. Segundo ele, o costume ainda impera no acesso do Cosme Velho para o túnel. Um terreiro escondido na mata, entre o Largo do Boticário e o retorno do Rebouças, mantém viva a tradição.

A subida para Santa Teresa é outro foco de resistência.

Acredito que a razão do sumiço seja o avanço evangélico nas comunidades carentes. O monoteísmo radical dos brancos do norte condena o politeísmo africano. O culto trazido pelos navios negreiros foi confundido com a personificação do mal.

O pastor Marcos e muitos vídeos disponíveis na internet, com cenas explícitas de extorsão de fiéis, mostram que o diabo não privilegia credo.

A África, dada ao sincretismo, desconhece o maniqueísmo. As forças naturais manifestadas em seus deuses agem para além do bem e do mal e se reconhecem até nos ídolos alheios. O mesmo não acontece com a religião fundada pelos europeus do século XV, inconformados com a corrupção do catolicismo da Idade Média.

A Reforma não admite nuances, tanto que eliminou os santos de seu panteão. Mas fez grandes avanços ao permitir o casamento dos sacerdotes e se opor ao fausto romano. Séculos depois, a corrente religiosa que nasceu para dar fim à perdição acabou, ela mesma, caindo em tentação. No Novo Mundo, o puritanismo semeou o milagre da multiplicação dos dividendos e, humano, demasiado humano, repetiu os pecados que nasceu para exterminar.

No Brasil, as igrejas Universal, Batista, Adventista e Metodista souberam ocupar o vazio deixado pelo estado, criando alguma ordem social, moral, onde só existiam a má distribuição de renda, a miséria e a falta de saúde, transporte, educação e saneamento.

O encastelamento da Igreja Católica a afastou do dia a dia dos fiéis e contribuiu para a perda de território. As missas são impessoais e os padres têm um sotaque arcaico, um falar etéreo, indiferente ao drama terreno.

O candomblé sempre serviu de contraponto carnal para um espírito tão santo. Não mais. Os evangélicos não concordam com as regras da boa convivência religiosa que imperam no Brasil há 400 anos.

Admiro a eficiência das novas igrejas, reconheço seus resultados, mas lamento a intolerância. Eu me acostumei com a ideia de que o Brasil é um país multirracial, multicultural, multirreligioso. A terra da miscigenação. Que bom seria se, aqui, nascessem um adventismo, um calvinismo, um luteranismo, um ismo menos radical. Se os trópicos aliviassem o fundamentalismo cristão de seus praticantes.

E se os despachos voltassem a decorar as esquinas do Rio.

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Matusalém (crônica)

Não sei como, não sei quando, não sei por quê, fui incluída, à minha revelia, em um site de relacionamentos. Faz um mês que meu e-mail é invadido por desconhecidos interessados em estabelecer contato comigo. Eles mandam foto, informam a idade e ainda sugerem outros pretendentes, que poderiam engordar a minha lista de likes.

Na primeira vez que dei com a mensagem na tela, corri para as letras miúdas a fim de cancelar a inscrição. Procedi como indicado, mas apareceu um boxe exigindo a senha.

Eu não tinha a menor ideia do número da senha, eu não me lembro de ter cadastrado uma senha. Jamais, em hipótese alguma, eu me engajaria em um site de relacionamentos.

Sou sociofóbica, nasci em meados do século passado e suspeito da massa de anônimos que povoam o ciberespaço.

Cliquei em “Esqueceu sua senha?”, e esperei pela nova, a ser enviada. Demorou, demorou, e nunca chegou. Repeti o procedimento, e nada. Já a lista de Orlandos 40, Robertos 52, Álvaros 38, Pedros 47 e Paulos 56 só fazia aumentar.

Dei um reply para a entidade fantasma — cuja central de atendimento deve ser no México, na Rússia ou em Porto Rico —, exigindo a retirada do meu nome de circulação.

Não há número de telefone disponível, nem ser humano que dê atenção ao meu trauma, não há vacina para a praga.

A cada contato, o cérebro eletrônico me lê como usuária assídua e redobra a seleção de machos. Quem controla esse abuso? É o Procon?

É como as companhias telefônicas, que gostam de ligar no sábado de manhã, com pacotes de promoção e pesquisas de opinião. Elas agem como se fossem donas da sua linha, e não o contrário. As moças do telemarketing escutam horrores, coitadas. A última que me ligou escutou.

— Não é com você! — eu repetia — É com a sua empresa!

Solidária e solícita, a menina respondeu:

— Eu vou estar anotando a sua reclamação.

Parei no e-mail. Eu amo e-mail. Você escreve quando pode e recebe quando é conveniente. É uma troca pessoal e intransferível, serve de documento e ainda obriga o cidadão a escrever alguma língua direito, com sujeito, verbo e predicado.

Que vasculhem minhas cartas, espionem, gravem, anotem com quem conversei, mas que façam isso pelas costas, sem o meu consentimento. Usei o Twitter uma vez e saí batido, impressionada com o número de estranhos que passaram a me tratar como íntima.
Não achei prudente a exposição voluntária.

A internet foi, e é, o estopim das manifestações de massa que explodiram mundo afora. Como sou antiga e uso meu computador como máquina de escrever e correio, só soube do acontecido depois que aconteceu. Meu filho de 13, não, esse conhecia as cinco causas do Anonymous (os manifestantes mascarados), sabia da vaia coletiva, filmada da janela de um edifício depois do pronunciamento oficial da Presidência, e da assustadora ação da polícia na Lapa.

Peco pelo conservadorismo, leio jornal impresso e me informo pela Globo News. Ainda assim, ignorante, solitária e ultrapassada, troco toda a consciência pela glória da minha privacidade. Não nasci para o Facebook, o Instagram e o LinkedIn.

Estacionei no caráter enciclopédico, epistolar, matusalênico das novas tecnologias.

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