Archive for the Category »Manoel Carlos «

Confissão de amor (crônica)

Era aula de história. Nada a ver com poesia, mas padre Jeremias gostava de exibir sua bela voz declamando poemas para os alunos e exaltando os poetas.

Era um espanhol de Andaluzia, conhecia toda a Europa e gabava-se do seu currículo como professor.

— Lecionei na França, Itália, Inglaterra, Alemanha e em Portugal. E, em todos esses países, ensinei no idioma dos meus alunos.

Sim, padre Jeremias era também um poliglota. Naquele dia, após discorrer sobre poetas de Portugal, particularmente Camões, “o gigante da língua portuguesa!”, o bom padre virou-se subitamente para nós, perguntando:

— Alguém aqui sabe o que é o amor?

E vendo a nossa perplexidade:

— Não se nasce padre! Minha vocação para o sacerdócio revelou-se somente aos 20 anos.

Tal era o silêncio reinante naquela sala de aula de um dia qualquer de 1945 que a simples queda de um lápis sobre o chão de tábuas corridas teria provocado o ruído de um trovão. E continuou ele:

— Amei e fui amado. E, antes que vocês se entreguem a fantasiosas conjecturas, devo dizer que não houve entre nós o menor contato físico.

E após uma longa pausa:

— Alguns dias depois de nos conhecermos, ela veio a falecer de uma enfermidade hereditária que não vem ao caso contar. E no dia de hoje estaria fazendo 80 anos, que é também a minha idade. — Seu silêncio de luto foi tão sincero que nos enlutou a todos na sala de aula.

— E, por lembrar-me dela e da pureza do nosso amor, pensei em contar na sala de aula esse episódio da minha vida anterior ao seminário e ao convento. Que sirva ao menos para mostrar a vocês que um grande amor pode ser um amor sem palavras e sem ações amorosas. Pode ser o amor puro, imaculado como o manto de Nossa Senhora.

E padre Jeremias nos brindou com esta pequena e bela conclusão de sua confissão de amor:

— Conheci essa jovem por causa de um soneto de Antero de Quental, quando disse que os versos do poeta português me faziam lembrá-la. Os versos são esses:

Não era o vulgar brilho da beleza,
nem era o ardor banal da mocidade.
Era outra luz, outra suavidade,
que até nem sei se as há na Natureza.

— Essa comparação era um sacrilégio, já que o soneto de Quental é dedicado à Virgem Maria. Eu estava, com isso, comparando a beleza da jovem à beleza da Mãe de Deus. Mas foram esses versos, repito, que despertaram nela o seu amor por mim. E o meu amor por ela.

Procuro reproduzir com exatidão as palavras do padre Jeremias, que era fácil de ser imitado pela construção um tanto oblíqua de suas narrativas. Se não foi exatamente com essas palavras que se dirigiu a nós, posso garantir que foi
com palavras bastante parecidas.

Nesse momento, ao ouvir o sino que indicava o fim do seu tempo de aula, o velho padre concluiu:

— E tal era a pureza dessa jovem de Andaluzia, tal a pureza das minhas intenções, que tenho certeza de que a Virgem Maria jamais se incomodou com essa comparação entre elas.

E encerrou com voz um pouco trêmula:

— Para a próxima aula: a Revolução Francesa.

Category: Crônicas:, Manoel Carlos  Tags:  Comments off
Ronda (crônica)

Não pelos bares, como fiz muitas vezes na juventude, acompanhado de amigos boêmios, quase sempre pelo prazer de andar pelas ruas paulistanas jogando conversa fora. Hoje minhas rondas são pelas livrarias e pelos cafés de Ipanema e Leblon, e começam, e muitas vezes também acabam, na Argumento da Rua Dias Ferreira, onde tenho uma turminha fiel de amigos. Hoje sou raro no Severino, já que comecei a escrever mais uma novela. Não fosse isso e lá estaria, como sempre, dia sim, outro também. Ou, como dizia um médico que conheci no interior de São Paulo, ao me receitar um xarope para a tosse: uma colher de sopa nos dias pares e outra nos dias ímpares, em vez de dizer: diariamente. Preciosidades de um doutor de província.

Nesta semana voltei ao Severino para tomar uma taça de vinho na comemoração de mais um aniversário da Carla, minha querida amiga. Perguntei, sem querer fazer graça:

— Vinte e cinco anos?

Ela riu, charmosa como sempre, olhos brilhantes:

— Põe mais dez nessa conta. Trinta e cinco!

— Não dá para acreditar.

Gabriel, o marido, não deixou passar a oportunidade:

— Essa juventude é por conta do bom trato que ela tem em casa.

A tarde foi perfeita: o bom vinho, as lascas de grana padano, um Nat King Cole muito oportuno cantando Noche de Ronda, que o encarregado da seção de CDs teve a felicidade de escolher para tocar. Mas principalmente pelos bons amigos e pelo sucesso que Carla faz em nossos corações, com sua graça espontânea e sua honesta aceitação da vida e do tempo que passa:

— Nunca menti a minha idade. Sei que pareço ter menos de 35, que poderia mesmo dizer não 25, mas 30, e que todos acreditariam numa boa, mas pergunto: pra quê? A quem estaria enganando se não posso enganar a mim mesma, que sei que são 35?

Quando uma mulher é objetiva, penso eu, não há homem que a supere. E, quando uma mulher é objetiva e charmosa, aí então não há coração que lhe seja indiferente. Penso em ter na novela que escrevo uma coleção de mulheres para boas atrizes interpretarem.

Penso em ter uma Carla também. Pergunto:

— Você me autoriza a incluí-la como personagem da minha novela?

— Claro.

Esse “claro” é um dos vícios de linguagem da nossa amiga. Ela ri e se admira quando lhe falo nisso.

— Nunca reparei que repito muitas vezes essa palavra.

Brinquei:

— Apenas nos dias pares e nos dias ímpares.

E prometi:

— Assim que eu criar o perfil dessa personagem, mostro para você, para que aprove.

— Não precisa. Faça essa Carla do jeito que você quiser. Pode até usar o meu nome.

— O.k. Fechado. Vou ter uma Carla na minha história. Você vai ser o modelo.

Ah, para quê? Foi um tal de pedido dos amigos que cheguei a me arrepender do prometido. Todos, sem exceção, queriam ser personagens da novela. E de preferência com o próprio nome, para que pudessem provar serem eles os inspiradores.

Ah, o prazer de ser personagem! Trocar a realidade pela ficção, onde ninguém sofre e ninguém morre de verdade! E se pode ter 25 ou 35 anos para sempre!

Category: Crônicas:, Manoel Carlos  Tags:  Comments off
O tempo passa! (crônica)

Não sei que locutor esportivo cunhou este bordão: “O tempo passa!”, para anunciar os minutos que faltavam para o encerramento de um jogo de futebol. Era um aviso que carregava qualquer coisa de fatídico, sinistro. Como quem diz: não percam o tempo porque ele passa inexoravelmente, e deve ser agora ou então nunca mais! Parecia até um dos versos de O Corvo, do Edgar Allan Poe.

Quem fazia essa advertência no rádio? Certamente um locutor de uma emissora de São Paulo, pois a lembrança que tenho da voz que o proclamava é antiga, de quando eu ainda não morava no Rio, e aqui já vivo há mais de quarenta anos. Para citar o autor que eu não conseguia lembrar quem era, acabei por consultar meu amigo Marcelinho, simplesmente neto do grande comentarista Luiz Mendes! E ele me disse que o jargão era uma criação do Fiori Gigliotti, locutor esportivo paulista, como eu desconfiava.

Alguns dos meus leitores certamente serão assim também: não descansam enquanto não se lembram do autor de uma frase ou um verso. Ficam brigando com a memória. Eu sou demais. Às vezes lembro o esquecido no meio da noite e salto da cama, anotando a informação. Sim, porque, se não faço isso naquele momento, já não me lembrarei do que estava perdido e foi finalmente recuperado da memória.

Minha mulher me diz, apagando as luzes e indo para a cama:

— Mas por que tem de colocar o nome do autor? Diga que era um locutor esportivo e pronto. Vem logo dormir.

E foi assim, misturando o ontem com o agora, que acabei ligando para o meu amigo, já quase de madrugada, e conseguindo o nome do autor. Esquisitices da idade? Pode ser.

Minha mãe dizia que envelhecer nos tira muita coisa, mas nos dá o que jamais teríamos de outra maneira.

— Não se pode improvisar a experiência e a sabedoria — dizia ela, referindo-se à sabedoria da vida cotidiana.

Um presente do Tempo, que não aceita recusa. Para muitos, um presente de grego. Da mesma forma, só a idade nos possibilita o prazer do amor sem disfarce e sem defesa. De peito aberto. Confessional. Como no poema Campo de Flores, do Drummond. Ao ser surpreendido por um novo amor, o poeta exclama e proclama:

“Deus, ou foi talvez o diabo, deu-me este amor maduro, e a um e outro agradeço, pois que tenho um amor”.

Futebol, tempo, amor, Drummond. Cabe tudo numa vida ampla, ainda que nem sempre feliz. Envelhecer é didático. Nos faz compreender o que fomos e como fomos na infância, na juventude e na chamada idade adulta.

Sem auxílio de terapia.

O tempo passa! E como! Somos crianças até os 10 anos, jovens até os 25 e depois só nos resta amadurecer e viver o tempo que nos permitirem.

Meu professor de literatura, que era dado a grandes tiradas filosóficas, dizia:

— É como pegar na mão um punhado de areia. Por mais que a gente aperte, ela há de ir escapando entre os dedos, até nos deixar a mão vazia.

Minha mãe, se isso ouvisse, diria:

— A mão pode ser, mas nada impedirá que o coração esteja transbordando de amor até o fim.

O tempo passa!

Category: Crônicas:, Manoel Carlos  Tags:  Comments off
Copy Protected by Chetan's WP-Copyprotect.