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Conversa de elevador (crônica)

Escrevo do quarto do resort onde estou hospedado para ministrar uma palestra daqui a pouco e falar de vendas e mudanças para representantes comerciais. Acordei cedo, fui ao restaurante tomar café e cumprimentei com um “bom dia” a todos os que fizeram contato visual. Eu não sabia quem era ou não do evento, portanto o melhor foi sorrir e cumprimentar geral.

Apesar de ter chegado ontem à noite e passado alguns momentos no jantar que a empresa promoveu no hotel, não consegui conhecer as pessoas e gravar suas fisionomias. Por isso achei que aquele grupo que estava tomando café com um crachá pendurado no pescoço fosse formado pelas mesmas pessoas da empresa que estavam no jantar da noite anterior.

De uma das mesas vi uma mulher sorrir e me convidar para sentar-me com seu grupo, e fui para lá equilibrando prato e xícara de café.

– Venha sentar-se conosco! – chamou a mulher, enquanto eu pesquisava no HD de minha memória se ela estava entre as pessoas com quem conversei na noite anterior. Sentei-me em uma mesa com mais 5 ou 6 pessoas e logo perguntei se o nosso evento era o único no hotel, pois vi que o restaurante estava meio vazio.

– Acho que não – respondeu ela. – Tem um outro grupo promovendo um evento aqui, pois ontem à noite eles estavam dando uma festa e um jantar.

– Xi… – exclamei – então eu sou do outro grupo!

Logo vi que aquelas pessoas não faziam parte do fabricante de malas que tinha  me contratado para a palestra. Eu estava numa mesa onde todos eram médicos reumatologistas participando que participavam de um simpósio. O café foi muito agradável, pois logo se interessaram pelo assunto que veio à tona: a necessidade que também os médicos têm de saberem promover e vender seus serviços de forma ética. Obviamente o assunto surgiu depois que introduzi minha “conversa de elevador”.

Todo profissional deve ter na ponta da língua uma “conversa de elevador”, e o palestrante não é exceção. Trata-se de um script curto e preciso, nem um pouco do tipo propaganda, que diz tudo o que você é, faz ou vende em poucas palavras e dentro do contexto do que está sendo conversado. A “conversa de elevador” é sutil, nada intrometida, e usa um gancho para se manifestar. “En passant”.

Imagine que você venda notebooks e esteja em um elevador de um prédio comercial, quando alguém comenta consigo mesmo ou com outro passageiro:

– Parece que vai chover…

É a deixa para você introduzir sua “conversa de elevador”:

– Ai! Nem brinca… preciso entregar alguns notebooks que vendi e com chuva fica mais difícil.

– O sr. vende notebooks? – pergunta o sujeito da chuva.

Não importa para que andar você estava indo; desça no mesmo que ele descer. É assim que negócios acontecem.

A conversa à mesa do café foi divertida e voltada a amenidades. Tudo o que fiz foi dizer meu nome, mas não achei que fosse conveniente distribuir cartões. Se você já leu algum livro de etiqueta deve saber que à mesa nunca se deve entregar um cartão, ou dar a mão para cumprimentar ou se despedir. Eu odeio quando estou em um restaurante, à mesa e com as mãos lavadas para comer, e chega alguém que faz questão de me cumprimentar com a mesma mão que trouxe da rua ou do banheiro.

Em momentos de contato informal para promover sua marca é preciso evitar ser inconveniente e “vendedor”, no mau sentido da palavra. Como assim no mau sentido da palavra? Pense em alguém que aproveita uma situação como a do café da manhã para vender uma rifa e você irá entender. Se quiser falar de seu trabalho vá introduzindo com conta-gotas sua “conversa de elevador” e principalmente procure fazer perguntas sobre o trabalho do outro. O que todo mundo gosta mesmo é de falar de si.

Eu estava terminando meu café quando um outro médico veio juntar-se a nós. Achando que eu fosse médico, apresentou à discussão do grupo à mesa o caso de um paciente seu. As opiniões começaram a pipocar aqui e ali e fiquei boiando naquele oceano de termos médicos. Aquele era o sinal para eu dar o fora antes que olhassem para mim como um estranho no ninho. Mas eu não podia sem um “grand finale”.

– Se vocês me dão licença – disse eu despedindo-me sem a mão para ninguém.
– Preciso me preparar para minha palestra… E quanto ao diagnóstico desse paciente, eu diria que é lupus. Não sou médico, mas assisto “House”.

E foi assim que me despedi, deixando aquele grupo de médicos com uma boa impressão e muitas gargalhadas. Enquanto me afastava da mesa ainda pude escutar o médico recém chegado dizer:

– E não é que pode ser lupus mesmo?

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Doce vinagre (crônica)

No supermercado a velhinha ao lado me fitava. E quando digo velhinha, imagine aquela gracinha que mais parece uma vovozinha saída de um desenho animado. Ela era assim. Uma figurinha doce, com olhinhos brilhantes e atentos à escolha que eu faria do vinagre.

Parado ali, diante de uma gôndola cheia de opções, não era qualquer vinagre que eu queria. Queria um de vinho, meu predileto. Salivava só de pensar. A maioria era de álcool e trazia uva apenas na cor do rótulo. Encontrei a marca que minha mãe comprava e coloquei no carrinho.

— Esse vinagre não vai lhe fazer bem. — escutei um fiozinho de voz, um misto de fragilidade e sapiência. — Se o senhor se preocupa com a saúde, deve levar o de maçã.

Como ela sabia que eu me preocupava com a saúde? Enquanto eu tentava identificar em sua roupa algo que a denunciasse como promotora de alguma marca, ela destilava os benefícios do vinagre de maçã. Não era promotora. Era só uma doce velhinha querendo me ajudar a alcançar sua idade.

— Use só vinagre de maçã — receitou ela, colocando em minha mão um cuja marca dizia ser a melhor.

Várias coisas influenciam nossa ação de compra, mas nada se compara à indicação. As grandes marcas — as mais duradouras — são construídas assim. Embora a propaganda ajude a manter uma marca viva graças à repetição de sua mensagem, é a indicação que a constrói sólida com o peso da credibilidade. Marcas construídas só com propaganda são frágeis. Marcas fortes não são construídas pelo que suas empresas papagaiam, mas pelo que o público pensa a respeito.

Para isso é preciso ter relevância. Se não tiver um significado que seja uma resposta a alguma necessidade, desejo ou expectativa, não será capaz de me influenciar, de deixar sua marca em mim.

A semente da velhinha encontrou solo fértil em minha preocupação de boa saúde, longevidade e bem-estar. O que ela dizia fazia sentido. O que ela era transmitia, credibilidade. O conjunto todo era relevante. Uma jovem promotora jamais me faria mudar do vinagre de vinho para o de maçã, mas a velhinha exalava experiência. Era impossível eu escapar da marca que deixou em mim.

O assunto, o momento e o lugar ajudaram na aderência. Na época eu já tinha quarenta anos de fermentação e estava ali preocupado com vinagre e bem-estar do paladar. Ela me acenou com vinagre e bem-estar, só que de outro tipo. Se a velhinha abordasse um adolescente, não iria colar, mas para um quarentão colou. Indicação, relevância e aderência são alguns elementos de uma boa marca. Repetição é outro.

Ela repetiu uma ou duas vezes seu discurso só mudando as palavras, mas não foi preciso repetir muito. Era relevante demais. Eu não teria uma vida longa e feliz se não passasse a usar imediatamente vinagre de maçã. Coloquei o vinagre de maçã no carrinho, agradeci à velhinha e devolvi o de vinho à gôndola. Daquele dia em diante, salada só com vinagre de maçã.

O mecanismo que uma marca usa para marcar é o mesmo de uma experiência de satisfação. Você saliva só de pensar naquela azeitona preta suculenta, bem temperadinha? A experiência anterior deixou uma marca. Mas pode ser esquecida, se não repetir a experiência de vez em quando. O composto relevância-repetição é o que garante o recall, a imediata e até involuntária recordação de uma marca.

Em minhas aulas costumo fazer um exercício com os alunos. Digo um produto e a classe grita uma marca sem pensar. As palavras “cerveja” ou “tênis” são imediatamente respondidas com uma marca, geralmente a mesma. Isso é poder de recall. Um bom trabalho da dupla relevância-repetição gravou em suas mentes a marca que veio à tona automaticamente. Marcas de grande relevância precisam de menos repetição do que as de pouca relevância para garantir o recall.

Quase dez anos depois daquele incidente, estava eu outra vez no supermercado. Na gôndola do vinagre, peguei instintivamente um vinagre de maçã e ia colocar no carrinho quando ouvi uma voz.

— Espera aí, Mario! — sussurrou o grilo falante que mora em minha mente — Há quase dez anos você só compra vinagre de maçã sem gostar. Você gosta mesmo é de vinagre de vinho, cara!

Olhei ao redor, nenhuma velhinha. Senti-me um garoto fazendo uma traquinagem quando lancei no carrinho duas embalagens de vinagre de vinho. A história do vinagre de maçã era relevante, mas o paladar hedonista falou mais alto porque agora falava sozinho. A velhinha não estava mais ali para garantir a repetição.

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Dulcineia – Dia Internacional da Mulher (crônica)

Sobre minha mesa, dois belíssimos volumes de “Don Quixote de La Mancha”, de Miguel de Cervantes Saavedra, me fitam. A edição que herdei de meu pai é de 1955, ano de meu nascimento, e traz ilustrações de Gustavo Doré. Que magia estes livros contêm? O que tornou Don Quixote um dos livros mais lidos do mundo? O fato de ter sido concebido em um cárcere, talvez. Por ser a aventura de um louco em busca de glória? Hummm… não sei… Quem sabe o que realmente nos seduz é saber que ele, um perdedor nato e fraco, se acha um campeão, o mais valente, o mais fidalgo? Pode ser. Gostamos de fracos vencedores, porque no fundo somos assim. Só falta vencer.

Mas o que seria de um cavaleiro sem inspiração? É aí que entra Dulcinéia, a musa inspiradora de Don Quixote. É aí que entra minha homenagem às mulheres, as musas inspiradoras dos homens. Mas quem é Dulcinéia? Quixote, por gentileza, poderia descrevê-la? Você a conhece melhor do que eu.

“O seu nome é Dulcinéia, sua pátria Toboso, um lugar da Mancha; a sua qualidade há de ser, pelo menos, Princesa, pois é Rainha e senhora minha; sua formosura sobre-humana, pois nela se realizam todos os impossíveis e quiméricos tributos de formosura, que os poetas dão às suas damas; seus cabelos são ouro; a sua testa campos elíseos; suas sobrancelhas arcos celestes; seus olhos sóis; suas faces rosas; seus lábios corais; pérolas os seus dentes; alabastro o seu colo; mármore o seu peito; marfim as suas mãos, sua brancura neve; e as partes que à vista humana traz encobertas a honestidade são tais (segundo eu conjeturo) que só a discreta consideração pode encarecê-las, sem poder compará-las.” 

[Pausa para você dar aquele suspiro e desarrepiar]

A verdade é que todo homem precisa de uma Dulcinéia, de uma musa, de uma inspiração. De alguém por quem valha a pena lutar até contra o vento dos moinhos. Uma amada, uma esposa, uma mãe, uma irmã — você elege a sua. Sem a sua Dulcinéia o homem é Romeu sem Julieta, queijo sem goiabada, azeitona sem sal.

Dulcinéia era a projeção que Don Quixote fazia de Aldonça Lourenço, uma campesina de Toboso. A Dulcinéia dos sonhos ele nunca encontra no livro, porque ela mora em sua mente e coração. A Dulcinéia de cada um é aquela que envelhece e você não vê as rugas; que ralha e você ouve um canto; que vira para o outro lado e dorme, e você enxerga um anjo. Ideal, virtual, uma projeção toda sua da real. Pois ela é perfeita, nunca menos do que a imagem que você vê. É por essa que o amor nunca arrefece. Porém, Quixote chora, por achar que Dulcinéia o despreza:

“Ó princesa Dulcinéia, senhora deste cativo coração, muito agravo me fizeste em despedir-me, e vedar-me com tão cruel rigor que aparecesse na vossa presença. Apraza-vos senhora, lembrar-vos deste coração tão rendidamente vosso, que tantas mágoas padece por amor de vós.”

Por amor a Dulcinéia, Don Quixote seria capaz de atravessar desertos, escalar montanhas, cruzar os mares, dar a volta ao mundo, enfrentar perigos e abater inimigos. Mas no livro ela não fica com ele. Talvez por saber que ele nunca iria parar em casa.

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Eu quero um refil! (crônica)

Meu último aniversário queimou mais uma espoleta da fita. Você jovem provavelmente não entendeu. É que quando criança eu tinha um revolver de brinquedo para brincar de mocinho, o que hoje você só vê na mão de menores brincando de bandidos. O revólver tinha um rolinho de espoletas, pequenas verrugas de pólvora grudadas numa tirinha de papel. À medida que eu atirava gastava as espoletas e logo precisava de um refil. Esta semana gastei minha espoleta 58. Preciso de um refil!

Quando você é jovem tem saúde para fazer o que quiser, mas não tem dinheiro. Depois, quando tem dinheiro não tem saúde. Por isso tento cuidar da minha, e o suco de abacaxi ajudou-me a perder dez quilos e a sentir-me meia hora mais jovem. Porém nunca pensei que chegaria à fase de estabilidade financeira passando fome. Aposto como você ficou interessadíssimo na receita de meu suco de abacaxi e nem percebeu a palavra “fome”, não é mesmo? Tudo bem, anote aí:

  • 1/2 abacaxi
  • 2 limões
  • 1 maçã
  • 1 dedão de gengibre
  • folhas de hortelã
  • bater bem e não coar nem adoçar
  • beber 3 copos nas refeições
  • comer metade do que costuma comer

“Dedão de gengibre” é medida de homem. Se você for mulher, use dois dedões para medir ou empreste o de seu marido. O último ingrediente é o mais importante, mas você não vai nem ligar para ele pensando que o abacaxi faz milagres. É provável que faça como as duas velhinhas do restaurante macrobiótico que frequentei quando jovem. Avisadas pelo guru local que para emagrecer deviam comer arroz e pão integrais, feijão azuki, açúcar mascavo, soja, bardana, raiz de lótus, tofu etc., elas só engordaram ainda mais, acrescentando tudo isso ao que já comiam.

É preciso esforço para perder peso na velhice, você não precisa fazer nada para perder a audição. Ela vem de graça, meio bênção, meio maldição. Bênção porque você passa a ouvir aquela rádio cheia de estática como se fosse alta fidelidade. Maldição porque já não pode ouvir a voz de sua amada, o que alguns também consideram uma bênção.

Enquanto seus cabelos são revigorados e começam a crescer nos orifícios, mas nunca onde deveriam, sua audição não só diminui, talvez por causa dos cabelos, mas também fica estranha. Ruídos que passavam despercebidos agora irritam, e conversar em uma sala com eco equivale a uma sessão de tortura chinesa. Uma por causa do baralhamento das vozes que chegam todas no mesmo volume; outra porque o seu interlocutor parecerá chinês mesmo: você não entenderá bulhufas.

Aquele som cristalino das conversas até ao telefone vira uma coisa pastosa e indecifrável. Ontem uma repórter do Globo News ligou querendo me entrevistar e gastou um bocado de interurbano até eu entender que seu nome não era “Carla”, mas “Clara”. Com a TV já ocorre um fenômeno interessante: você amplia sua rede social, partilhando seu som com os vizinhos. Para evitar isso procuro sempre filmes legendados, mesmo que sejam no mesmo idioma da voz.

Enquanto alguns sons da cidade somem, outros invadem sua privacidade. Nem preciso falar dos carros que passam tocando nas alturas e nem estão vendendo pamonhas. Veja o caso do sino da igreja que fica a cinco quadras de meu apartamento. Dependendo do vento, o carrilhão que toca às seis da manhã costumava me acordar. Resolvi o problema acordando antes, mas o sino continua a acordar meu filho, que é deficiente físico e mental, para lembrá-lo de fazer um xixi acima da capacidade da fralda. Aposto como o padre nunca precisou trocar lençóis.

O último som a me alfinetar tem sido o alarme da porta da garagem do prédio em frente. Ao invés de instalarem o sinalizador sonoro e luminoso na beira da calçada, como seria o normal, instalaram sobre a porta da garagem que fica no fundo de uma rampa que aponta para a janela de meu escritório como um megafone gigante. Para meu ouvido já confuso aquilo tem o efeito de um alarme de carro disparando a cada carro que entra ou sai. Com direito a meia hora de tortura quando a faxineira lava a rampa com a porta da garagem aberta.

Enfim, se você achava que o nome “melhor idade” tivesse sido dado para significar isso mesmo, está enganado. É melhor porque acaba logo, como a memória. Não falei da memória? Então esqueci. Mas estou me precavendo tomando magnésio todos os dias, que na Web dizem servir para curar tudo, de unha encravada a caspa. Outro dia eu estava a ponto de postar no Facebook de como o magnésio me deixa alerta, focado e com boa memória, quando minha empregada gritou da cozinha: “Seu Mario, o que o vidro de Toddy está fazendo no micro-ondas?”

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O Problema é Seu (crônica)

Gostei tanto do YouTube que estou adorando brincar de TV. Até comprei uma câmera digital para substituir a velha VHS, além de outra, pequenininha assim, só para levar em viagens e filmar ideias. Sinto-me nos tempos do Autorama. Não conhece? Era um videogame de corrida de carro que a gente jogava quando ainda não existia videogame.

Mas não pense que foi fácil comprar a câmera. Não foi. Comprei em um shopping de São Paulo, à noite, na véspera de embarcar para Juazeiro do Norte, no Ceará, onde mais de 800 pessoas me aguardavam para uma palestra. Antes mesmo de começar a filmar eu já tinha o roteiro para uma novela.

No shopping, perdi algum tempo observando as câmeras enquanto o vendedor falava com um amigo ao telefone. Nem aí comigo. Foi só quando parei de olhar para as câmeras e fiquei olhando fixamente para ele que se tocou. Deve ter pensado que, ou era cliente, ou era assédio. Pediu ao amigo do telefone para aguardar, apertou o aparelho contra o peito e disparou a manjada:

— O senhor deseja alguma coisa?

Pode? Para uma pergunta óbvia, uma resposta óbvia:

— Sim, quero comprar uma câmera.

Ele pediu para eu aguardar, enquanto finalizava a conversa com o amigo. Esperei, mas não gostei.

Expliquei que queria uma câmera com entrada para microfone externo. Era o que me interessava. Ele mostrou uma e apontou para o furinho azul, segundo ele uma entrada de microfone. Perguntei, questionei, investiguei, relutei e, finalmente, comprei.

No hotel, com os manuais espalhados sobre a cama e a câmera na mão, descobri que o vendedor havia se enganado e me enganado junto. O tal furinho azul servia para tudo, menos para microfone. Na hora fiquei azul igual ao furinho. Sem um número de telefone na nota fiscal ou em qualquer lugar, o recurso foi conectar meu notebook e sair em busca do site da rede de lojas e do endereço daquela em particular.

Faltavam 5 minutos para a loja fechar quando consegui falar com o vendedor. Ele reconheceu o erro, pediu um milhão de desculpas e combinamos a devolução da câmera e do dinheiro. A loja não tinha o que eu queria e eu não queria o que a loja tinha. Pediu para eu passar lá no dia seguinte, justamente quando eu estaria a um Brasil de distância dali. Minha passagem estava marcada para a manhã seguinte, bem cedo.

Foi assim que minha câmera, que nem minha seria, foi conhecer o nordeste. Levei a pequenina passear na terra do Padre Cícero. Voltei de viagem e fui obrigado a dormir mais uma noite no mesmo hotel em São Paulo, antes de ir à loja reaver meu dinheiro e devolver a câmera, agora com alguma quilometragem da viagem.

No dia combinado — um domingo — rumei em direção ao Shopping. Cheguei cedo fui obrigado a pegar um cinema para fazer hora, até a loja abrir às duas da tarde. “O Plano Perfeito”, era o nome do filme, o que soava a gozação, pois meu plano de comprar uma câmera tinha sido tudo menos perfeito. Finalmente chegou a hora de devolver a câmera.

Devolvi? Não. Troquei. O vendedor foi além das minhas expectativas. Para compensar o erro, encontrou em outra loja da rede a câmera que eu queria, pediu para mandarem para lá e ainda deu um desconto irresistível. Terminei fazendo o que tinha ido fazer ali: comprar uma câmera com entrada para microfone num furinho prateado e preto. Só tinha desta cor.

É assim que funciona. Errar é humano, até no atendimento. Corrigir o erro e resolver o problema do cliente é ir além. O rapaz precisou conversar com metade dos gerentes da empresa, correu riscos, ousou, se desdobrou, mas resolveu meu problema. Eu não precisava que me devolvessem o dinheiro, precisava que resolvessem meu problema, que atendessem minha necessidade. Precisava de uma câmera com entrada para microfone. E saí com uma.

Em nenhum momento o vendedor tentou culpar a mim ou a quem quer que fosse por causa de seu engano. O problema era dele, única e exclusivamente dele. Manteve o controle da situação sem revelar os bastidores e as consequências de seu erro. Assim deve ser. O problema de quem atende é de quem atende, não de quem é atendido. O cliente não deve se estressar ou sentir insegurança no atendimento. Isto porque, dependendo do serviço que adquire, pode temer pela própria vida.

Como aconteceu num voo regional que peguei em Brasília para voar num avião homônimo, pequeno, bimotor fabricado pela Embraer. A aeronave taxiava em direção à cabeceira da pista para decolar quando minha atenção foi atraída pelas dificuldades do comissário. Logo todos os passageiros estavam olhando para o rapaz que socava uma das portinholas do bagageiro sobre as poltronas.

Ele não conseguia fechá-la e seu nervosismo aumentava à medida que nos aproximávamos da cabeceira para a decolagem. Resmungou, praguejou, deu alguns socos, antes de dizer, em voz alta, a última coisa que alguém gostaria de ouvir na hora da decolagem:

— Também, não é pra menos! Uma peça é fabricada na Holanda, outra na Inglaterra, outra no Brasil… e ainda querem que este avião funcione?!

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O que fazer quando o mundo não acaba (crônica)

Muita gente esperava pelo fim do mundo que não veio na data marcada. Sim, digo muita gente, porque existe um desejo secreto em cada um de nós de não precisarmos voltar a trabalhar na segunda-feira. Ou você não reparou que o fim do mundo da profecia Maia caiu numa sexta? E agora, o que fazer já que o mundo não acabou?

Bem, segunda-feira você volta a pegar no batente, seu carnê do crediário continua uma brochura e seu salário continua terminando no dia 21, bem antes do fim do mês e do mundo. Mas pense nas coisas boas que ainda podem acontecer! Quais? Bem, não sei fazer previsões, mas sei que você ainda pode recomeçar com uma nova configuração.

Para tanto sugiro a leitura de “Mind Set! – Eleven Ways to Change the Way You See – and Create – the Future”, de John Naisbitt (autor de “Megatrends”), lançado no Brasil há alguns anos com o pasteurizado título de “O Líder do Futuro – 11 conceitos essenciais para ter clareza num mundo confuso e se antecipar às novas tendências”.

A ideia do título original em inglês é de uma nova configuração mental para você enxergar o futuro com maior clareza e preparar-se para ele. O autor propõe uma espécie de “reset” e a instalação de 11 “mindsets”, que não vou traduzir porque se você ainda não saiu da lição do “the book is on the table” é melhor incluir um“mindset zero” tipo “Aprender inglês”.

1. Most Things Remain Constant
2. The Future Is Embedded In The Present
3. Focus On The Score Of The Game
4. Understand How Powerful It Is Not To Have To Be Right
5. See The Future As A Picture Puzzle
6. Don’t Get So Far Ahead Of The Parade That They Don’t Know You Are In It
7. Resistance To Change Falls For Benefits
8. Things That We Expect To Happen Always Happen More Slowly
9. You Don’t Get Results By Solving Problems, But By Exploiting Opportunities
10. Don’t Add Unless You Subtract
11. Consider The Ecology Of Technology

Agora vamos à minha paráfrase nem um pouco canônica, enriquecida com palpites de minha autoria.

1 – Na vida tudo é passageiro, menos o cobrador e o motorista. 

Apesar de muita coisa mudar, há coisas que não mudam. As pessoas continuarão a comprar, vender, trabalhar, criar filhos etc. Invente algo para as pessoas fazerem o que já costumam fazer. Só que diferente.

2 – O futuro é uma azeitona na empada presente. 

Conhecer história e acompanhar o presente é essencial para se entender o futuro. O segredo é saber filtrar opiniões — inclusive as minhas — e parar de engolir tudo o que a sociedade e a mídia derramam em sua mente. Apesar do ditado popular, a voz do povo nunca foi a voz de Deus.

3 – Fique de olho no placar. 

Empresas dizem que vão fazer isso e faturar aquilo. Não acredite. O garoto que vende balas no semáforo lucra mais que aquele CEO que a capa da revista diz ser a última bolacha do pacote. No fim do dia o garoto volta pra casa com 100% de lucro. O CEO volta devendo mais para os bancos.

4 – Fazer xixi fora do penico nem sempre é ruim. 

Inovadores são os que desafiam o “status quo” e ousam fazer aquilo que ninguém acredita dar certo. Não se preocupe em estar 100% nos trilhos. Nem o professor que ensinava matemática a Einstein acreditava nele. É por isso que nem eu acredito em mim. Quem sabe assim dá certo!

5 – O futuro é um quebra-cabeça. 

Esqueça o pensamento sequencial, lógico, racional. Pense aleatoriamente. Dois mais dois pode dar quatro, mas não precisa deixar o segundo dois assim montado no primeiro. Deixe um pouquinho mais longe e o resultado é melhor: vinte e dois.

6 – Nem o porta-bandeira fica longe do bloco. 

Grandes ideias fracassaram por estarem muito à frente de seu tempo. Mantenha-se numa posição em que possa ser visto pelo mercado. Não siga este conselho se estiver devendo na praça.

7 – Se a macarronada for boa a gente até gosta da sogra. 

A resistência à mudança desaparece quando os benefícios são visíveis. Se as pessoas que você lidera não estiverem aceitando benefícios que são claros para você, o problema pode estar na sua comunicação.

8 – Devagar com o andor que o santo é de barro. 

Aquilo que você espera acontecer sempre demora mais do que você espera. Sua casa ainda não é no estilo Jetsons e seu carro ainda não voa. O videofone foi inventado há quarenta anos, mas foi só com a Internet que ele começou a fazer sentido.

9 – Quem resolve problemas ganha salário; quem explora oportunidades ganha comissão. 

Resolver problemas é trabalhar no ontem, mas buscar oportunidades é viver o amanhã. Uau! Esta eu vou emoldurar!

10 – Um é pouco, dois é bom, três é demais. 

Você só pode acrescentar um novo craque no time se tirar alguém ruim. Quando eu era menino, o professor de educação física me colocava no gol para completar onze. Depois me tirava quando chegava qualquer um. Na empresa não vai ser diferente.

11 – Não se esqueça da ecologia da tecnologia.

Nem tente inventar um par de sapatos modelo único para todas as mulheres. A tecnologia possibilita muitas coisas, mas elas não farão sentido se não levarem em conta os anseios da natureza humana.

Pronto, espero que estes onze “mindsets” ajudem você a se preparar para o futuro. Se não ajudarem, um eu tenho certeza de que irá ajudar. O “mindzet zero”.

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