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LIvro de Caroline Factum (literatura fantástica)

capa

 

Capítulo 1 – Não era um falcão?

 

20 de julho, 2 horas da tarde

– Tenha um bom dia, Sâmia. E procure não trabalhar tanto. Lembre-se de que a mente é complicada e a medicina ainda não possui pleno domínio do cérebro, mas os remédios ajudam e, se pensar positivo, em breve estará curada.

Com um leve sorriso, o médico acrescentou:

– Continue tomando os remédios. Não se esqueça de desviar seus pensamentos de qualquer fantasia que teime em aparecer.

– Tenha um bom dia, Dr. Donhill.

Eram sempre as mesmas palavras do Dr. Donhill e já passaram seis longos anos que o tormento não acabava.

“Sim, Sâmia, acredite que sua mente brinca com você.”

Até quando sua mente continuaria brincando com ela? Já havia perdido as esperanças, por mais que se esforçasse, por mais que tentasse acreditar que aquele tormento teria fim, já fazia muito tempo que não via progresso nenhum e todas as noites a insônia se fazia presente, para não mencionar os pesadelos que eram constantes nas poucas horas que adormecia. Já não se lembrava mais de quando fora a última vez que dormira uma noite inteira sem acordar com a sensação de que estava sendo estrangulada, e isso acontecia impiedosamente durante os últimos seis anos…

Assim que entrou no carro, deu o endereço ao taxista, retirou da bolsa um pequeno espelho para checar sua aparência e disse:

– Nada daquilo aconteceu! O Dr. Donhill disse que foi apenas minha imaginação.

Chegando em casa, foi direto ao banheiro e, enquanto esperava a banheira encher, disse ao espelho mais uma vez:

– Apenas sua imaginação, entendeu?

Se repetisse isso todos os dias, talvez acabasse se convencendo, afinal, já ouvira inúmeras vezes estudiosos falando que a força do pensamento era a ferramenta mais poderosa do universo. Sendo assim, os pesadelos desapareceriam e, então, poderia voltar a dormir oito horas inteiras como as pessoas normais.

– Se dormisse cinco, já seriam suficientes – disse para si mesma enquanto deixava seu corpo afundar na água quente, procurando não só lavar o corpo, mas a mente de todas as lembranças.

20 de julho, meia noite e vinte e cinco

Estava em uma festa. O lugar era completamente desconhecido. Havia uma multidão sem face que impedia uma visão mais clara; procurava alguém, e a urgência de encontrá-lo vibrava em todos seus poros.

Sâmia virou-se na cama, enterrando a cabeça no travesseiro.

Havia muita luz. A claridade intensa fazia seu olhar vagar sem um propósito, seu coração batia tão rápido quanto as asas de um pássaro rasgando o céu. A espera estava lhe torturando. Seus olhos buscavam aflitos.

Sâmia pôde sentir o hálito quente sussurrando atrás dela.

21 de julho, uma e vinte e cinco

A noite era escura e ela caminhava o mais rápido que podia pelas ruas desertas; estava desesperada. Já caminhava há mais de uma hora e não conseguia voltar para seu apartamento; era como se todo lugar familiar tivesse simplesmente desaparecido.

Ao dobrar mais uma esquina, o lugar se tornou ainda mais sombrio: quase já não podia enxergar, seu coração começou a bater mais rápido e sentiu desfalecer quando uma mão surgiu por entres os becos, agarrando seu braço. Tudo que ela viu foram aqueles olhos brilhantes e, depois, a voz terrivelmente familiar.

– Pensou que escaparia impune?

22 de julho, três e vinte e cinco

Ao chegar ao escritório onde trabalhava, ela notou que o prédio estava completamente vazio e sentiu um frio de alerta percorrendo seu corpo. Passou rapidamente por todas as salas em busca de um rosto familiar, mas foi em vão: o prédio estava realmente deserto. Dando meia volta, foi em direção à saída, mas agora ela estava bloqueada com uma enorme estátua coberta por um lençol. Sâmia sabia que estava em um sonho, um daqueles que se tem controle parcial da situação. Ela poderia fazer força para acordar, porém, a doce tortura de ver aquele rosto mais uma vez foi mais forte. Respirou fundo e puxou o lençol com uma determinação fora de seu controle habitual e, para seu horror, a estátua era exatamente como se lembrava. Já havia a visto milhões de vezes em livros de mitologia: o outro filho de Saturno, o que herdara o mundo dos mortos, só que dessa vez a face era bem mais cruel, lábios semiabertos em um sorriso de vitória.

Eram cerca de nove horas da noite quando Sâmia girou a maçaneta de seu apartamento após um dia de serviço e a saída antecipada da faculdade para se deparar com um par de olhos brilhantes em cima de sua mesa central. Seus pés recuaram, fazendo seu corpo tremer, e um arrepio gelado percorreu a espinha.

– Miauuuuuuuuu.

– Deus do céu! – disse, acendendo a luz. – Como conseguiu entrar?

O gato já saltara da mesa e desfilava graciosamente pela sala. Ela fechou a porta atrás de si e foi colocar os pacotes de compras na cozinha, surpreendendo-se ao notar que não havia derrubado nada com aquele susto. Também, quem poderia imaginar um par de olhos brilhantes esperando por você no meio da noite? Voltando para sala, abaixou-se e apanhou o intruso, aproximando-se de seu rosto.

– Como entrou aqui, hein, rapazinho?

Observou que as portas da sacada estavam fechadas.

– Deve estar trancado aqui o dia inteiro, já vou levá-lo de volta para casa.

Com o animal no colo, Sâmia se dirigiu ao apartamento ao lado e tocou. Enquanto esperava, admirava a beleza extraordinária do animal: um pelo dourado, quase fogo, tão macio que podia jurar que segurava uma pelúcia.

– Sim? – soou a voz abafada.

– Margarette, sou eu, Sâmia. Acabei de encontrar um de seus gatos em meu apartamento.

Abrindo a porta, a senhora exclamou:

– Minha querida, que bom lhe ver.

– Como vai, senhora?

– Entre,vamos, acabo de fazer uma torta e quero que experimente.

Margarette tinha 55 anos e era viúva, morava sozinha em seu apartamento e nutria extrema simpatia pela jovem desde o momento em que ela havia se mudado. A simpatia era recíproca e passariam muito mais tempo juntas se não fosse o trabalho de Sâmia como colunista no Diário de Nova York.

Embora a diferença de idade fosse grande, ambas se sentiam muito confortáveis: Margarette porque não havia tido filhas e Sâmia porque havia perdido a mãe com apenas nove anos de idade e, mesmo hoje sendo adulta, morando sozinha aos dezenove e tendo uma vida independente, nunca superou essa falta que uma figura materna fazia.

Margarette correu para a cozinha para apanhar o pedaço de torta sem ao menos prestar atenção no motivo que havia levado a amiga até a ela. Sua alegria era imensa ao poder partilhar ao menos alguns minutos.

Sâmia sentou-se no sofá enquanto ela se dirigia à cozinha; o gato dormia tranquilamente em seu colo e não se incomodou com a tagarelice de Margarette vinda do lado oposto.

– Mas me diga, querida, como andam as coisas? Chegou agora?

– Estão bem. Saí um pouco mais cedo da faculdade, fiz a última prova hoje. Em breve entro em férias no jornal e, sinceramente, não vejo a hora disso acontecer; preciso descansar! Cheguei agora mesmo, tinha passado no mercado para comprar algumas coisas.

– Já contei que Kevin chega em três meses?

– Sim, comentou há alguns dias.

Kevin era o filho mais velho de Margarette, estava há cinco anos trabalhando em Londres e agora havia decidido voltar para a América, transferindo a matriz de sua editora para a cidade natal. A mãe estava extremamente orgulhosa.

– Aqui está, querida – disse, colocando o prato sobre a mesa de centro.

– Obrigada. E aqui está seu fujão – disse, levantando o gato no colo e fazendo-o despertar.

Não era a primeira vez que Sâmia trazia os gatos dela de volta; suspeitava que ela os colocasse de propósito pela sacada, que era dividida entre os dois apartamentos, apenas para ter motivo de visitá-la.

– Esse gato não é meu – disse a senhora ao aproximá-lo do rosto.

– Não?

– Não, ele andava rondando o prédio; já o vi há cerca de três dias; sempre o deixo entrar e ofereço um pires de leite, mas ele logo se aborrece e vai embora.

– Então talvez esteja perdido – disse Sâmia, admirando a beleza do felino, com os olhos profundamente azuis.

– Eu converso com os animais, já lhe disse isso, não, querida?

– Sim, Margarette, já me disse – sorriu Sâmia.

– Eu já perguntei a esse rapazinho se ele quer morar aqui, mas ele disse que não.

– Ele disse que não? – perguntou sorrindo, colocando mais um pedaço da torta na boca.

– Te juro, menina. Quando perguntei, ele balançava a cabeça de um lado para outro, como se realmente estivesse dizendo “não”.

– E quando perguntei a ele se procurava alguém, ele disse que sim.

– Disse que sim? – questionou, erguendo as sobrancelhas e, nesse momento, Sâmia sentiu um vento gelado e, olhando em direção à janela, não foi uma surpresa constatar que estava fechada.

– Quando perguntei se procurava alguém, ele saltou desse mesmo sofá que está vendo agora e começou a arranhar a porta. Assim que a abri, ele se postou no meio do corredor e olhava para todas as portas, como se estivesse esperando que delas saísse alguém.

Sâmia deu uma risada forçada. Levantou-se para colocar o prato na cozinha.

– Deve ser um gato muito inteligente.

Seu mal-estar agora era constante: não sabia dizer bem o quê, mas por alguma razão essa história não a havia tocado de forma positiva.

– Minha menina, quando Kevin chegar, faço questão que o conheça, é um rapaz encantador, não digo isso porque é meu filho.

Margarette recolocara o gato no chão e se sentava ao lado da amiga que havia retornado.

– Espero poder conhecê-lo em breve também, Margarette.

– Gostaria que fosse conosco a nossa fazenda. Poderia passar alguns meses por lá… Como anda sua insônia?

– Continua de mal a pior, antes tinha pesadelos poucas vezes por semana e nunca me lembrava dos sonhos, agora já é o terceiro dia que estou sendo atormentada e, quando acordo, são tão reais que poderia tocá-los.

– O que anda sonhando, menina?

Ela corou, não sabendo o que responder. Margarette já era dada a efeitos sobrenaturais e sua casa vivia rodeada de velas e amuletos de sorte. Não queria instigar ainda mais sua imaginação, contando a ela sua experiência ou fazendo com que ela oferecesse para ler sua sorte ou algo assim.

– Sonho com um antigo namorado que me persegue.

As palavras saltaram de sua boca antes que pudesse perceber e ficou se perguntando por que se referiu a ele como namorado.

– Minha doçura, você vive sozinha demais, sua família longe, você precisa sair. Vive grudada com seus livros; nem ao menos vem me visitar. Seus sonhos significam que você quer um namorado novo, é seu inconsciente.

Sâmia sorriu bem humorada.

– Talvez! Já faz muito tempo que não tenho vida social, esse trabalho e a faculdade estão tomando todo meu tempo.

– Quando Kevin chegar, vamos à fazenda, tudo bem?

– Acredito que mereço um pouco de descanso, tenho apenas mais dois livros para trabalhar esse ano e, assim que terminar a resenha deste, ficarei livre por dois meses. Se eu terminá-lo agora em minhas férias, poderei viajar com vocês.

Sâmia olhou para o relógio e levantou-se dizendo:

– Margarette, embora não tenha tempo de passar com você o quanto gostaria, saiba que lhe tenho muito carinho e farei de tudo para conseguir viajar, mas agora preciso ir, quero terminar o quanto antes meu trabalho.

Margarette a acompanhou até a porta e se despediu.

– Tenha bons sonhos, querida, e saiba que quando Kevin chegar tenho certeza que ele fará com que você esqueça qualquer namorado que venha do passado para atormentá-la.

Balançando a cabeça negativamente, Sâmia gargalhou.

– Então a senhora já está fazendo planos pelas minhas costas, hein?

– E pelas dele também. Kevin não sabe de nada, mas tenho certeza que vocês dois, assim que se encontrarem, irão se apaixonar, casar e…

– Calma, calma… – ela disse sorrindo. – Tudo há seu tempo, sim?

– Não estou interessada em relacionamentos, Margarette.

– Não está agora, porque ainda pensa em seu antigo namorado, mas Kevin irá fazer com que o esqueça, eu tenho certeza.

Olhando para o outro lado da sala, observou o gato que saltara da poltrona para a cômoda e balançava a cabeça negativamente. Sâmia voltou seus olhos a Margarette e disse com uma urgência de partir:

– Vamos ver, sim? Tenha uma boa noite. – Com um sorriso, se afastou rapidamente, voltando a seu apartamento.

– Mas que ótimo, agora esta noite vou sonhar com gatos em vez de demônios – suspirou, dirigindo-se para tomar um banho.

Sâmia amadureceu rapidamente por um lado, embora, por outro, era considerada pelos médicos um tanto desequilibrada, tendo certos distúrbios que a medicina ainda não poderia explicar. Tudo começou aos seus treze anos, mas ela sabia que havia iniciado muito tempo antes.

Ela começou a apresentar sinais de desequilíbrio dentro de casa e seu rendimento escolar havia caído drasticamente. Seus pais, extremamente preocupados, fizeram com que ela realizasse todos os tipos de exame, embora apenas houvessem acusado que Sâmia sofria de um leve sonambulismo comum entre adolescentes, segundo os médicos. Os demais exames não encontraram nada de anormal e, no entanto, seu estado era cada vez pior: perdeu cerca de dez quilos, não se interessava por absolutamente nada e o pior de tudo é que nunca mais foi capaz de dormir.

Ela própria se denominava louca, mas se esforçava para parecer normal. Como era possível uma louca ter conseguido uma vaga tão almejada naquele jornal?

Começou a trabalhar muito cedo, ajudando os vizinhos em pequenos afazeres domésticos, depois sendo babá; aos dezesseis anos, começou a ajudar em um jornal local atendendo ao telefone. Sua vida havia mudado drasticamente: ela queria sair de casa e, para isso, sabia que, além de trabalhar, precisava de boas notas na escola: era uma exigência do Diário de Nova York, onde pretendia conseguir uma vaga.

Seu pai não era a favor de a filha trabalhar tão cedo, até deu a ela uma quantia absurda de dinheiro, a fim de que deixasse guardada no banco para quando quisesse qualquer coisa, parte que ele entregou sendo por direito após a morte da mãe. Contudo, nada a fez melhorar e o único interesse que ela demonstrava era trabalhar e se fazer útil. Depois de anos com a filha naquela maneira, achou que qualquer coisa que chamasse sua atenção valeria a pena.

Jacob também procurou auxílio médico quando Sâmia começou a apresentar aqueles distúrbios, ele amava a filha e se sentia culpado pelo estado dela. Sabia que por mais que ela tentasse ser gentil com Jane, sua segunda esposa, dentro dela havia uma revolta por substituir sua mãe.

Mas o que ele poderia fazer? Sua primeira esposa, Samantha, havia morrido em um acidente de carro quando Sâmia tinha apenas nove anos e seu irmão mais novo apenas nove meses; como ele poderia manter uma família sem uma mulher para cuidar dos filhos?

Embora soubesse que Jane causara certo desapontamento, ele não conseguia entender o que acontecera realmente com ela. Sâmia demonstrou toda revolta aos nove anos, logo quando ele se casou, mas foi apenas por alguns meses. Depois ela começou apenas a ficar silenciosa, guardando suas emoções e pensamentos para si mesma, porém, o mais estranho foi pouco depois que ela completou treze anos: a partir daí, ela ficou totalmente fora do controle: acordava gritando no meio da noite, parou de comer e estudar. O pai puxou várias vezes pela memória, enquanto frequentava as sessões de terapia familiar, mas não chegou à conclusão de nenhum fato. Se Jerry, filho com sua segunda esposa, tivesse nascido naquela época, ele até entenderia o ciúme de um novo irmão, mas Jane só descobriu que estava grávida meses depois do novo comportamento dela.

23 de julho, uma e vinte e cinco

– Não poderia carregar comigo o peso de ter uma morte em meus ombros – ela disse com voz firme, encarando aqueles olhos cinza.

– Uma vida justifica outra, não é? Típico dos mortais…

Foi a primeira vez que ela viu aquela face dura e sarcástica adquirir um ar de tristeza. Finalmente havia ganhado o último jogo e agora poderia voltar para casa e recomeçar sua vida; uma vida justifica a outra? Na época, achava que sim, a dela por uma família inteira…

Assim que completou dezoito anos, ela comunicou que iria se mudar. Sem dúvida, foi uma surpresa para a família, mas eles já haviam feito tudo que podiam para ajudar e, sem nenhum resultado, Jane jogou fora tudo que havia encontrado em seu quarto e pela casa, tudo que falasse de cultos, magia e misticismo, pois esse tipo de leitura era definitivamente arriscado para uma mente tão perturbada. Aliás, ela achava que esse tipo de leitura não deveria existir para nenhum tipo de mente.

Então, Sâmia se mudou com uma amiga apenas por dois meses, depois já poderia ter seu próprio apartamento e, diferentemente de outras crianças, ela guardou todo dinheiro que ganhou desde que decidiu que se mudaria, fora a boa ajuda que conseguiu com os móveis que herdou do avô. Embora o pai dissesse que tudo aquilo não passasse de coisas inúteis, para ela, que pretendia montar um lar, qualquer coisa era bem-vinda. Entulhou tudo na garagem por vários meses, e ninguém ousava tirar, temendo que fosse motivo de uma nova crise nervosa.

Obteve sucesso em seu trabalho e agora dividia uma pequena coluna com outros críticos literários. Ela gostava do que fazia: lia livros de magia e todo tipo de ficção e depois fazia uma crítica sobre eles; ainda ajudava os escritores em início de carreira, pois o jornal oferecia um espaço a escritores iniciantes. Muitos mandavam pequenos trabalhos, como contos, antes de procurar uma editora, e ela se encarregava de dar sugestões e fazer a revisão necessária. Assim, achando um trabalho em que valesse a pena investir, os superiores encaminhavam para algumas editoras com as quais tinham contato.

Mesmo sabendo que a magia deveria ficar fora da sua vida e que ela fora a causadora de toda má sorte que a acometeu nos últimos seis anos, ainda assim era o que ela gostava e o que ela sabia fazer de melhor. Era uma adulta responsável, se sustentava, ia mensalmente ao psiquiatra e quem a conhecia não poderia dizer os tormentos que ela vivia ou a fantástica história que viveu.

24 de julho, duas e vinte e cinco

Ruídos de taças tilintavam, o salão ecoava os risos, uma multidão presente. Ela não se perturbou em procurá-lo; sabia que estava entre os dançarinos em algum lugar. Por que procurar? Apareceria eventualmente.

E logo estavam dançando entre pessoas desconhecidas.

25 de julho, quatro e vinte cinco

– O que aconteceria se eu tivesse ficado?

Ele a observava em silêncio.

– O que teria acontecido?

Silêncio

– Responda!

– Pergunta errada – falou a voz fria.

– A pergunta é: por que eu permitiria que alguém como você ficasse em meu mundo?

Levando as mãos à cabeça, ela cobriu as orelhas, tentando abafar a voz, mas o som parecia estar dentro de seu ouvido, dentro dela. Cerrando os olhos, Sâmia sabia que estava enlouquecendo.

26 de julho, cinco e vinte e cinco

Era um fim de tarde e estavam juntos no topo de uma colina. Admiravam a paisagem, a brisa a tocar o campo florido. Tocando levemente seu queixo, fez com que ela olhasse em seus olhos.

– Adeus, Sâmia!

Seus olhos encheram-se de lágrimas e ela não fez menção de evitá-las.

– Não vá embora!

Seus olhos escureceram e o sorriso irônico reapareceu.

Você me deixou uma vez. Não perderia essa oportunidade agora.

Enquanto observava ele se afastar, as lágrimas transformaram-se em um choro desesperado e a sensação de perda era intensa. Logo, o único ruído presente eram seus soluços.

Sâmia acordou procurando-o em sua cama e notou que seu travesseiro havia se molhado pelas lágrimas derramadas.

Era ainda muito cedo e ela já esperava por um táxi em frente ao seu condomínio. Olhando para trás, notou a presença do suposto gato de Margarette observando-a no sofá da portaria. Ela deu alguns passos em direção à porta e parou para olhá-lo pela porta de vidro.

– Bom dia, Senhorita Rolfe já indo trabalhar?

Ela deixou escapar um grito abafado.

– Desculpe, não quis te assustar.

– Não foi nada, Daniel, estava distraída. Algum recado para mim?

– Até agora não. Tenha um bom dia. E, passando pela porta de vidro, dirigiu-se ao elevador.

Sâmia notou que Daniel reparou no gato e falava alguma coisa com ele enquanto esperava pelo elevador. Observou sua testa franzir ao ver o gato balançar a cabeça negativamente. Daniel continuou olhando para o gato com expressão estranha, quando o elevador fechou as portas, levando-o para cima.

Nesse momento, o gato se virou e saltou, passou pela porta, sentou-se nos degraus e começou a fitá-la.

O táxi acabara de chegar e ela entrou, ainda com os olhos fixos no animal. Podia jurar que, quando o carro começou a andar, o gato havia lhe piscado um olho.

– Sâmia? Sâmia Rolfe?

Ela olhou para o taxista e uma expressão familiar surgia vagamente.

– Sim, nos conhecemos?

– Derik O’nil, estudamos juntos, lembra?

Sâmia olhou atentamente agora que ele se virava para lhe estender a mão. Ela não podia acreditar. Por quantos dias não imaginava como seria esse reencontro e, agora que havia chegado, ele nada mais significava. Relembrou de quantas lágrimas amargas seu coração de adolescente havia derramado pelo taxista. Aos seus doze anos, não era ninguém comparada a ele, o garoto mais lindo e mais popular da escola.

– É claro que me lembro.

Sâmia tentou sorrir, mas seu pensamento voltou ao passado com certa mágoa. Ele nunca a olhava como mulher, nunca viu o quão madura ela era, sempre namorava garotas mais velhas, destruindo seu sentimento. Mas hoje ele estava ali, bem diante de seus olhos, e muito diferente do que era: já não era tão bonito. Ela começou a pensar se algum dia foi ou se ela havia projetado nele alguém tão inatingível, alguém a quem ela não era digna.

Ele continuava falando sem parar e tudo o que ela conseguia fazer era acenar com a cabeça.

– Vamos marcar para sair algum dia, o que acha? – ele falou, estendendo-lhe um cartão.

– Ah, claro, pode deixar. Obrigada, Derik.

Sâmia pagou e desceu do táxi que havia parado em frente ao seu trabalho. Ela entrou, mas Derik não saía de seu pensamento. Agora estava mais animada, talvez apenas precisasse de mais tempo. Se ela tinha esquecido Derik, por quem esteve apaixonada por mais de um ano, então iria esquecer também aquele demônio.

Ao chegar a sua sala, a empolgação de segundos atrás já estava passando. Se antes achava que poderia esquecê-lo, agora já duvidava, afinal, Derik esteve em seus pensamentos por um ano inteiro e ela o esqueceu alguns meses depois; agora, aquele demônio foi apenas um dia e, desde então, ele assombrava sua vida.

Ela não tinha muitos amigos, não tinha, na verdade, nenhum, com exceção de Magarette, que era sua vizinha. Ela não tinha ânimo para conversar; quando as pessoas falavam, as conversas ficavam enfadonhas, ela se distraía pensando em outros assuntos e, muitas vezes, deixava os demais falando sozinhos; chegava a ser constrangedor, mas ela não conseguia evitar. Nada que tinha nesse mundo lhe era interessante, embora todos os dias ela se esforçasse para parecer normal e viver bem. Alguns homens se aproximavam dela quando estava sozinha em algum restaurante, ou algum outro lugar, mas não os que a conheciam em seu trabalho, pois eles sabiam que ela era muito estranha e, como comentavam às escondidas, o que ela tinha de bonita tinha de desequilibrada.

Como era muito eficiente em seu trabalho, a diretoria não se incomodava com os comentários maldosos a seu respeito; para eles, pouco importava se ela falasse sozinha ou não falasse com ninguém, desde que entregasse sua resenha e sua crítica na semana prevista e, principalmente, que achasse o próximo best-seller, porque isso era sua especialidade: ela tinha o dom de advinhar qual dos inúmeros contos que recebiam seria um sucesso.

Ela também não se importava com alguns olhares maldosos, não usava seu tempo com nada que não fosse seu trabalho e, quando alguém tentava se aproximar, ela educadamente desviava ou dispensava tanto pretendentes a amigos como possíveis conquistas.

Sâmia não tinha uma hora especifica para almoçar. Às vezes, descia para o restaurante do prédio, outras atravessava a avenida e ia tomar um suco em algum café. Sempre levava suas anotações consigo, assim, era mais uma maneira de manter as pessoas afastadas; fingindo estar ocupada lendo, dificilmente alguém a interrompia.

Naquela tarde, ela foi até a esquina e se sentou do lado de fora para aproveitar o dia lindo de sol que fazia, pediu um suco e uma salada e começou a mexer em suas anotações; gostava de lugares abertos para escrever; começou escrevendo pequenos pensamentos e agora estava tentando trabalhar em um conto; é claro que não havia comentado com ninguém, já que ela ainda não havia terminado a faculdade e não deveria se arriscar de amadora. Mas sentia que algum dia poderia escrever uma boa história.

Sua mente, nesta tarde, estava particularmente perturbada: os pesadelos que andava tendo estavam muito nítidos, sentia o coração apertado e procurava, com todas suas forças, não pensar no que havia acontecido, ou em sua imaginação, porque nada tinha acontecido de verdade, isso não era real. Não podia ser.

Um trovão explodiu alto, assustando não só ela como as demais pessoas que ali também estavam sentadas. O que minutos antes era um belo dia de sol transformou-se num escuro de nuvens negras que cobriram o céu.

– Vai chover! – gritou alguém, mudando de lugar e indo para a área coberta.

Ela continuou ali, olhando o infinito e sentindo um vento muito forte que começara a soprar. Isso era muito estranho, nunca havia visto uma mudança de clima assim; a temperatura caiu de uma forma que já se tremia de frio ao permanecer ali.

– Não quer entrar?

Ela saiu dos seus pensamentos quando ouviu a voz do garçom, que já colocava a mão na cadeira para que ela levantasse.

Ela levantou e guardava seus papeis na pasta enquanto várias pessoas também se levantavam e iam para dentro do café. Os grossos pingos de água começaram, mas ela não conseguia se mover. Seus olhos pararam do outro lado da rua, de onde um estranho na calçada a olhava fixamente.

O dia já estava completamente nublado, dificultando a visão, e a temperatura caíra drasticamente. As rajadas do vento gelado batendo em seu rosto a faziam sentir que desta vez não estava sonhando.

O homem estava em vestes escuras e uma longa capa negra; ela não conseguia ver muito bem seu rosto; a forte chuva agora já impedia sua visão.

– Moça! Moça, algum problema?

O garçom voltara, agora segurando um guarda chuva. Ela voltou para onde o estranho estava, mas ele já havia desaparecido. Deixou-se conduzir pelo garçom e, somente quando entrou, se deu conta do quanto estava molhada e com frio.

– Um uísque, por favor.

Sâmia viu seu colega de trabalho sentar-se no bar, quase a seu lado. Ele sorriu levemente e ela tentou retribuir.

– Algo para beber?

– Apenas água, obrigada, eu perdi o apetite.

Sâmia pagou pela comida que pediu, mas nem chegou a tocá-la. Ficou ali com a garrafa de água, esperando que a tempestade passasse.

Ela levou uma mão à cabeça e, massageando a nuca, tentava se acalmar.

– Você não é doida, não é doida, você não viu nada, não viu nada.

Ela falava em sussurros, mas poderia até mesmo ter falado alto que ninguém teria notado, pois o barulho era intenso devido à multidão de pessoas que entrava para se abrigar da inesperada tempestade.

– Trabalha na previsão do tempo ou é vidente?

Sâmia levantou seus olhos e seu coração quase parou. O homem que vira do outro lado da rua estava ao lado de Douglas, que sorria com seu copo de uísque na mão.

O estranho sorriu e passou a mão nos longos cabelos dourados.

– Desculpe? – o estranho perguntou.

– O sobretudo – Douglas disse, apontando para o casaco.

– Para andar com um desses no dia lindo que estava fazendo há minutos atrás, ou trabalha na meteorologia ou é vidente.

– Acho que apenas sou um homem de sorte – respondeu o estranho, sorrindo e sentando-se a seu lado.

Agora estavam os três ali no balcão e ela não conseguia ver ou ouvir mais ninguém. Havia algo de estranho naquele homem, ele não parecia humano, e ela continuava a conversar consigo mesma.

– Vamos, Sâmia, não seja maluca, ele tem um sobretudo apenas, nem era uma capa.

Ela brigava com seu inconsciente quando Douglas estendeu a mão para ele e se apresentou.

– Douglas Anderson.

– Leander. Leander Simons.

Sâmia respirou aliviada: talvez ela apenas estivesse imaginando coisas, ele tinha nome e sobrenome! Não podia ser um daqueles… Mas e se ele estivesse mentindo?

– Trabalhamos no jornal aí em frente – Douglas disse, apontando para ela.

– Trabalha nesse prédio?

– Não, vim apenas ver uma pessoa.

Os olhos dele pararam nos dela, e um frio percorreu seu estômago.

“Por que ele tinha dito que veio ver uma pessoa e não se encontrar com alguém? Ver é uma coisa, se encontrar é outra bem diferente. Ver era apenas observar… Cala a boca, Sâmia!”

– Permita-me.

O estranho havia arrancado o casaco e colocado sobre seus ombros. Essa atitude inesperada a deixou sem reação.

– Obrigada, não é necessário…

– Eu faço questão, minha senhora.

As pernas de Sâmia amoleceram. “Minha senhora!” – ele dissera, ele era um deles! Era um demônio que viera buscá-la!

Lembrou-se com nitidez agora da última vez que fora chamada daquela maneira, o convite, aqueles olhos frios, aquela tortura embriagante…

– Com licença.

Sâmia saiu às pressas, passando entre o aperto de pessoas; estava sem ar, precisava voltar a sua sala, tomar seu calmante e respirar um pouco.

– Ela levou seu casaco – Douglas disse ao homem.

– Está tudo bem, eu pego outra hora.

– Ah, desculpe, não sabia que já se conheciam. Ela é assim estranha, de repente larga tudo que está fazendo e desaparece… – Douglas tentou justificar.

– Não nos conhecemos.

– Não? Mas… Não se importa com o casaco?

O estranho sorriu.

– Tenho certeza que iremos nos encontrar de novo.

– Preciso ir.

Leander saiu do bar e Douglas deu de ombros; gente estranha atraía gente estranha.

27 de julho às três e vinte e cinco

Ela olhou pela última vez o imenso tabuleiro de xadrez, observou os passos dele que se aproximavam dela.

– Me deixe voltar pra casa.

– Não vou impedi-la.

Ela voltou seu rosto para a porta que a levaria de volta a seu mundo e voltou a olhar para ele.

Seus pés não conseguiam mais se mover e ele pareceu notar.

– Aquele – disse, apontando para o luminoso portal – não é um mundo para alguém como você.

A voz não tinha emoção nenhuma e o rosto dele estava totalmente rígido; por um segundo ela achou que vira um traço de apreensão, mas logo havia desaparecido.

– É meu mundo, de onde nunca deveria ter saído.

Sâmia atravessou e, com ela, toda a dor e tristeza. Fez o que tinha que ser feito. Pela primeira vez tomara uma decisão adulta, mesmo que, a partir daquele dia, sua vida havia sido deixada para trás.

28 de julho às quatro e vinte e cinco

– Me dê sua mão.

Ela hesitou, mas depois acabou por aceitar e ele a ajudou a pular sobre as pedras de um rio que corria tranquilamente.

-Por que vem me ajudar? Estou jogando contra você, sabia?

– Estou ciente disso.

Os olhos dele agora eram sarcásticos e ela teve medo de estar ali sozinha ao seu lado, chegou a pensar que ele poderia matá-la afogada.

– Eu costumo salvar meus adversários de perigos insignificantes.

– Por quê? – ela perguntou em voz firme, tentando parecer destemida.

– Para que eles permaneçam intactos até a hora que eu possa destruí-los.

Ela sentiu que iria desmaiar: seu coração disparou diante daqueles olhos frios, se agarrou ao travesseiro e acordou com falta de ar.

Dois dias haviam se passado e nada daquele homem estranho voltar ao jornal procurando por ela. Douglas lhe dera o recado, dizendo que o rapaz dissera que iam se encontrar de novo, mas ele não aparecera.

Ela já estava mais tranquila. Depois de uma consulta marcada com urgência com o Dr. Donhill, ela se acalmou e ele a convenceu que o estranho era apenas um homem normal, que estava disposto a ajudar, emprestando-lhe o casaco; um homem normal e, principalmente, humano!

Era estranho que ele não tivesse aparecido, talvez estivesse ocupado com algum negócio…

Sâmia se levantou e apanhou sua pasta, ia descer um pouco e comer alguma coisa. Entrou no elevador e começou a ler suas anotações. Ela se distraía de tal modo, vivendo tão reclusa em seu mundo, que não via ou ouvia nada a sua volta. Quando chegasse ao térreo, não saberia dizer quantas vezes o elevador abriu as portas ou se alguém havia-lhe desejado boa tarde.

– Hoje não vai chover, poderá almoçar tranquila.

Ela prendeu a respiração e começou a olhar para os pés dele; viu as botas de couro negro.

Ela teve que admitir que ele não se vestia como os cavaleiros medievais, era uma pessoa aparentemente normal, apesar dos cabelos loiros caídos pelos ombros.

Sâmia parou seus olhos fixos nos dele e foi com alívio que percebeu que eles eram azuis, azuis e não cinza!

– Me desculpe, eu estava distraída.

O estranho sorria.

– Seu casaco está lá em cima. Foi muito gentil de sua parte; vou voltar e pegar.

Ela estendeu a mão para apertar o botão do seu andar, mas ele a segurou.

– Não se dê ao trabalho, outra hora que for mais conveniente.

Sâmia fazia força para não chorar. Por mais normal que a situação parecesse, ela tinha certeza absoluta que ele não era apenas um executivo qualquer arrumando uma desculpa para cortejá-la. Ele estava ali por motivos mais fortes.

O elevador parou e um casal entrou; estavam discutindo alto e não se importaram em manter sigilosa a conversa quando viram os dois ali.

– Eu quero saber o que você fez com o anel, Pâmela!

– Eu disse, eu já disse que perdi! – ela gritava ainda mais.

Sâmia recuou alguns passos e o estranho se aproximou de seu ouvido, dizendo:

– Ela vendeu o anel.

– Desligue esse celular agora, Roger!

Sâmia viu que o homem afastava a mulher com a mão, tentando ouvir o que lhe diziam.

Tudo aconteceu muito rápido: ele jogou o celular no chão e gritou:

– Você não vale nada! E, além disso, é burra! Vendeu o anel na loja de meu melhor amigo!

O elevador parou de novo e um grupo de executivos entrou enquanto o casal saiu ainda gritando pelo andar.

Sâmia permanecia muda e apertava sua prancheta com força contra o peito para evitar que ele percebesse o quanto ela tremia.

Assim que o elevador abriu e várias pessoas entraram e o grupo de executivos saiu, ela o perdeu de vista, passou apressada entre as pessoas, mas ele não estava em nenhum lugar onde poderia ser visto.

29 de julho à meia noite e vinte e cinco

Batidas desesperadas na porta e, assim que a abriu, ele caiu em seus braços; estava com o rosto coberto de sangue e seu corpo mutilado.

Estava sem voz, sem reação, e seu corpo tremia tentando se libertar daquele pesadelo. Sua testa foi se enchendo de gotas de suor, até que seu corpo despertou, ouvindo vozes que vinham do corredor.

– Está vendo? É esse animal aí! O senhor faça o favor de tirar esse bicho daqui. Meu filho é alérgico, não posso passar por aqui que toda vez ele começa a tossir sem parar.

– Sim, senhora, eu farei isso o mais rápido possível.

Reconheceu a voz, esperou alguns segundos e abriu a porta; conseguiu ver o zelador entrando no elevador e a senhora que arrastava o filho tossindo pela escada.

Fechando a porta, dirigiu-se à sacada. Viu quando o empregado colocou o gato na calçada e voltou a entrar no prédio. Ou estava tendo alucinações ou aquele gato estava mesmo tendo uma reação estranha.

Primeiro viu quando se colocou em pé somente com as duas patas traseiras e, depois, com uma pata dianteira segurava um graveto que apontava em direção à porta que havia se fechado. Suas patas trocavam passos como se estivessem em um duelo e ele soltava rugidos como se estivesse insultando o pobre homem.

Logo, deixou cair o graveto e, ainda andando com as duas patas, apoiou-se ao extintor na calçada. Cruzando as patas traseiras, encostou as costas e uma pata dianteira descansava na cintura.

Sentiu seu sangue gelar quando o gato a notou, fixando os olhos na sacada, olhando-a atentamente. Ainda de pé, levou uma pata dianteira em direção ao peito e, baixando a cabeça, curvou-se em uma reverência.

Sâmia entrou rapidamente, trancando a porta; dirigindo-se à cozinha, serviu-se de um copo de água, ingeriu duas pílulas na tentativa acalmar os nervos.

30 de Julho às duas e vinte e cinco

– Já pode acordar agora.

Ela abriu os olhos e lá estava ele sentado na beirada de sua cama, exatamente como ela se lembrava: aquela face pálida, os olhos cinza e os cabelos dourados caindo em desalinho pelos ombros.

Ela não pôde se mexer, apenas o olhava ali a sua frente.

– O que faz aqui?

– Senti saudades… Você não? – E seus lábios se abriram em um sorriso malicioso.

Sâmia levantou-se em um salto, acendeu a luz e olhou em volta. O quarto estava deserto. Olhou embaixo da cama com o coração pulsando em sua garganta. Havia sido tão real… Tomou um gole de água e voltou para cama já com os batimentos mais calmos. Ele se lembraria dela? Chegaria a sentir sua falta? Ela balançou a cabeça e a cobriu com o travesseiro; precisava de mais remédios; por mais que ele se lembrasse dela, a única coisa que ele poderia querer era vê-la morta.

Margarette estava com uma imensa cesta de vime coberta e se dirigia ao elevador quando Sâmia saiu dele.

– Sâmia, como está? Não a tenho visto ultimamente.

– Olá, Margarette. Sim, ando muito ocupada, tenho vindo em casa somente para dormir.

– Precisa de ajuda? – perguntou, apontando para a cesta.

– Não se incomode! A cesta é grande, mas o peso é pequeno – disse, levantando a toalha que a cobria.

Sâmia quase desmaiou ao ver o gato dentro da cesta. Não conseguiu esconder sua reação e deu dois passos para trás. Seu rosto havia se tornado branco como se todo seu sangue tivesse sido sugado.

– Sente-se mal, querida? – Margarette disse, tocando seu braço.

Com voz trêmula, ela respondeu:

– Está tudo bem, não se preocupe, não almocei, deve ser por isso.

– Então vá logo para casa e se alimente, menina. Depois conversamos, sim. Estou indo levar esse gato para a veterinária dar uma olhada nele. Sabe quem são os Lewis, não? Os que detestam gatos?

– Sim, a senhora Lewis estava conversando com o zelador sobre esse aí.

– Pois então, ela veio me falar que esse gato estava no parque quando o menino dela foi brincar e, como ele tem alergia, atirou uma pedra que felizmente não acertou, gritando para que fosse embora.

– E imagina o que aconteceu?

Sâmia teve medo de saber e aguardou a resposta em silêncio.

– Pois ela me disse que viu quando isso aconteceu e que o gato virou o traseiro para o pequeno e balançava de um lado para outro fazendo fusquinha e, se não bastasse isso, lhe mostrou a língua.

– Acredita, querida?

– Até mais, Margarette.

Sâmia ensaiou um sorriso que não apareceu e foi direto ao seu apartamento. Colocando a chave, ainda se virou e viu que Margarette entrava no elevador e o gato, virado para ela, acenava em despedida.

– É sua imaginação! É sua imaginação! – gritava, olhando para o espelho enquanto observava seu rosto banhado em lágrimas.

Não é possível, isso está indo longe demais! Por mais que tente me convencer que foi minha imaginação, como negar os últimos acontecimentos?

Não era somente ela que imaginava as coisas, Julia Lewins, seu filho, Daniel, o recepcionista e Margarette, algo deveria estar errado.

– Mas por quê? Por que depois de seis anos ele voltaria?

Poderia descrevê-lo detalhadamente: sua lembrança era perfeita, principalmente daqueles cabelos dourados em desalinho pela cabeça, o rosto pálido e os olhos misteriosos, o falcão que voava pelo tabuleiro, pousando na borda, tomando forma humana ao iniciar o último jogo…

– Era um falcão! Não era um gato! É isso!

Sentiu, então, um enorme alívio e o sangue que corria em euforia ao puxar pela memória a lembrança dele se transformando.

– Sâmia Rolfe, você anda levando muito a sério seu trabalho de crítica de literatura fictícia – disse em voz alta, sentindo-se melhor, e foi para sala onde começaria seu trabalho.

31 de julho às três e vinte e cinco

– Curve-se! – ele gritava com seus olhos de fogo.

Sentindo seu corpo curvar-se involuntariamente diante dele, observou, sem poder reagir, seus amigos sendo transformados em pedras.

– Agora poderá guardá-los para sempre.

Ele gargalhou diabolicamente, deixando cair a seus pés uma corrente com símbolos petrificados que outrora foram seus companheiros na mágica jornada.

1 de agosto às seis e vinte e cinco da tarde

Sâmia havia terminado o banho bem quente. Embora o verão tivesse chegado há algumas semanas, aquela noite estava extremamente fria. Ainda enrolada na toalha, aproximou-se do espelho e viu seu reflexo meio embaçado pelo vapor que envolvia o banheiro. Relembrou todos os sonhos que havia tido até então. Se ao menos tivesse alguém com quem conversar fora o Dr. Donhill, alguém que não acreditasse tudo ser esquizofrenia, ao menos tiraria um pouco da angústia trancafiada em seu peito. Na noite anterior, tinha certeza que alguém a observava. Acordou várias vezes sentindo uma presença, mas seus olhos nada puderam ver. Se ao menos o filho de Margarette chegasse agora, poderia aproveitar suas férias e viajar.

Levantou a mão e limpou parte do espelho para se ver melhor. Tinha tudo para ser uma pessoa feliz: tinha um rosto lindo, pele bem cuidada, nariz delicado, cabelos castanhos caindo pelos ombros e olhos escuros sem brilho. Era fácil para qualquer pessoa de bom senso saber que, apesar da beleza, ela não era feliz, seu olhar denunciava sua alma e os conflitos em seu coração.

Talvez devesse ir visitar seus irmãos e seu pai, nunca mais colocara os pés em sua antiga casa.

– Não, isso só pioraria as coisas.

Se voltasse àquele lugar, tinha certeza que seus pesadelos se tornariam ainda piores ou talvez o demônio viesse pessoalmente para assombrá-la. Ele com certeza a odiava por tê-lo vencido, por ter resgatado Jane, com certeza desejava vê-la enlouquecer até a morte.

Relembrou o dia que cometeu seu maior crime, quando encontrara aquele livro misterioso, com a capa de um material que, à primeira vista, parecia vidro, mas, ao tocar, era extremamente fina e leve; as folhas eram tão finas que temia que a qualquer momento fossem se rasgar, mas nada parecia abalar aquelas supostas frágeis folhas que guardavam um segredo maldito. E, por fim, relembrou a praga que rogara. Odiava a madrasta naquela época por ter invadido sua casa, tomando o lugar da mãe. Sim, ela havia desejado que ela morresse, e isso não aconteceu apenas uma vez, mas foi depois de encontrar o maldito livro que seu desejo se tornou realidade e sua vida se transformou num inferno.

Seu pai foi definhando e ela sabia que em breve morreria, e ainda para aumentar seu tormento descobriu que Jane estava grávida. Ela não poderia arcar com duas mortes e, então, ofereceu sua vida pela felicidade do pai e do irmão que ainda estava sendo gerado. Com isso, ela aceitou jogar um jogo mortal, saiu vencedora; teoricamente, sim, mas ela sabia que não havia vencedores em um mundo como aquele.

Seus dedos começaram a rabiscar imagens no espelho, enquanto seu pensamento vagava em um passado remoto. Primeiro desenhou um “J”, depois um “A”. Seu dedo corria tão rápido quanto seu pensamento entre a floresta que estivera, entre todas as apostas, os túneis que escolhera e os jogos que jogara.

– Jahean

Ela leu em pensamento o nome formado, mas não teve coragem de dizer em voz alta. Em um acesso rápido, fechou o punho e bateu com força no espelho, fazendo com que se partisse. Um filete vermelho agora escorria de sua mão, caindo sobre a pia branca.

– Droga!

Ela enfaixou a mão ferida e saiu para se vestir. Precisava se acalmar, logo estaria entrando em férias e iria esquecer tudo aquilo, precisava apenas se concentrar em seu trabalho, só isso.

Enquanto se vestia, se esforçava para lembrar mais detalhes daquele mundo mágico. Ela tinha que acreditar que isso nunca acontecera, mas, por outro lado, se tivesse certeza que tudo havia realmente acontecido, tiraria o peso das costas de ser doida.

As cenas que saltavam em sua mente, vagas, já estavam se dissipando. Apenas os sonhos recentes podiam dar uma visão perfeita do local, era produto do seu inconsciente.

– Mas o inconsciente não guarda fatos passados?

Segundo o seu médico, sim, e, se realmente foi um fato passado, foi porque realmente aconteceu. Exausta e com a cabeça para explodir, tomou mais dois calmantes e se estendeu no sofá, onde em pouco tempo dormia.

Ela estava tomando banho quando notou uma silhueta do lado de fora. Rapidamente puxou a cortina e teve a sensação que iria desmaiar. Lá estava ele, com os braços cruzados em frente ao peito encostado em sua pia, sorrindo.

Ela puxou a toalha e se cobriu o mais rápido que pôde, olhou para a porta que estava entreaberta pensando em como poderia correr dali sem esbarrar nele. Ele pareceu ler seus pensamentos, e inclinou levemente a cabeça em um meio sorriso.

– Tanta pressa?

– Que diabos está fazendo aqui?

Ele não respondeu, apenas continuava a olhando de cima a baixo e ela começou a se sentir inconfortável com aquela situação.

– Esteve me espiando durante o banho e não disse nada?

O sorriso dele agora aumentou, mostrando os dentes alvos.

– Pensei que soubesse que eu viria depois de tantos sonhos seguidos. Esperava por boas vindas e não um strip-tease.

O susto deu lugar a uma imensa tristeza, todos seus sonhos se misturaram e ela já não sabia mais o que era sonho ou realidade. Ignorando o comentário dele, tudo em que conseguia pensar era na saudade doentia, absurda que teimava em existir.

– Pensei que nunca iria te ver de novo.

– Eu também pensei.

A voz dele era séria agora e já não tinha mais aquele tom sarcástico que ela conhecia tão bem. Em passos lentos, ele foi se aproximando, sua mão tomou seu rosto e ele se aproximou ainda mais.

– Por quanto tempo mais vai fugir de mim?

“Não estou fugindo de você, mas, sim, de mim” – ela pensou, mas não disse.

A mão dele continuava em seu rosto, agora deslizando pelo pescoço e ela não podia evitar. Ele a puxou mais para perto e o corpo que já perdia o calor do banho agora voltava a esquentar.

Os beijos eram intensos. Ele a colocou sentada sobre a pia e puxou seu quadril para junto de seu corpo. Os batimentos se aceleravam a cada segundo. O calor que envolvia os corpos, a sensação era indescritível. A toalha deslizou e ela se viu arrancando aquela camisa de seda com certa violência.

Seus gemidos ecoavam deliciosamente, adicionados ao seu desejo ardente. Podia sentir seu clímax se aproximando mais e mais rápido.

Logo a calmaria, estava ofegante e ainda sentia seu corpo tremendo naqueles braços.

– Não vou permitir que vá embora uma segunda vez – ele sussurrou em seu ouvido e fechou os olhos, repousando a cabeça em seu ombro.

Sâmia acordou com a respiração alterada. Passando a mão pela testa, chegou a pensar que ardia em febre. Levantou-se e acendeu as luzes: já havia anoitecido.

Sentou-se no sofá e, olhando em sua volta, relembrou cada instante de seu último sonho, corou.

Sentiu-se aliviada por morar sozinha, esse era um momento em que qualquer pessoa perto dela notaria o acontecido.

Passando a mão pelos cabelos em desalinhos, suspirou fundo.

– Agora é demais. Nunca imaginei tal coisa, como posso sonhar com isso?

Ou tinha? Preferia achar que não, devia estar mesmo louca a ponto de desejar aquele que a aterrorizava tanto.

“Você ligou para o consultório do Doutor Donhill, favor, deixe sua mensagem após o sinal”.

– Doutor, aqui é Sâmia Rolfe, eu gostaria que retornasse a ligação assim que possível, é meio urgente, ando tendo aqueles pesadelos novamente, mas, desta vez, com uma frequência intensa: foi a décima terceira noite.

Sâmia sentiu um arrepio ao pronunciar a última frase. Respirou fundo e continuou:

– Gostaria que analisasse minha receita e aumentasse a dose dos calmantes. Obrigada.

Tomou um rápido banho, sentou-se no sofá com alguns livros.

Tinha que trabalhar. Deveria esquecer os sonhos ou nunca mais teria capacidade para fazer mais nada.

 

Capítulo 2 – Uma visita já esperada?

 

O telefone tocou apenas uma vez e Sâmia o apanhou rapidamente.

– Boa noite, Dr. Donhill.

– Sou eu, maluca! Ta doente?

– Oh, olá, Scott, não estou doente, apenas pedi para meu médico para trocar minha medicação, e pensei que fosse ele retornando.
– Como estão todos?

– Todos muito bem. Adivinha? Estamos indo para a Itália!

– Como?

– Papai foi transferido para passar seis meses na empresa lá. Eles vão pagar por tudo, não é legal?

– Bem, é sim, quando irão?

Ela estava bastante surpresa com a repentina mudança. Embora não vivesse mais com sua família, não gostava da ideia de tê-los tão distante, como em outro país. Sentiu até por Jane. Tinha aprendido a lidar com ela, deixando de lado toda insanidade sobre magia e, é claro, Sâmia também tinha total interesse em não tocar mais nesse assunto após sua dramática experiência.

– Embarcamos semana que vem, quer ir também?

– Não posso, Scott. Tenho que trabalhar, você sabe disso.

Mesmo que pudesse, ao lado deles seria o último lugar onde passaria suas férias. Sentimentos opostos rondavam seu coração: amava seu pai, adorava Scott e Jerry, seu irmão menor, tolerava Jane, mas viver com eles estava fora de seus planos. Vivia muito melhor sozinha e, além do mais, sua família não tinha ideia do quanto seu estado clínico havia avançado, não se lembrava mais da última vez que havia dormido sem a ajuda de calmantes.

– No que está trabalhando agora?

– Se chama O circular, já leu?

– É claro que sim, aquele com a garotinha ruiva que endoida o velhote.
– Sim, esse mesmo. Estou quase acabando a crítica.

– Quando vai tirar férias?

– Na verdade, começo amanhã, mas estou pensando em trabalhar nas férias, indo à Europa para fazer uma entrevista com a autora.

– Isso é que é trabalho divertido, escrevendo sobre livros, viajando pelo mundo, conhecendo gente bacana.

– Sim, é quase perfeito. O problema é que se passam muitas horas lendo, às vezes, a noite inteira para se fazer uma crítica válida. Não que ficar acordada tenha sido um problema pra mim, de qualquer forma.

– Ainda não consegue dormir? – perguntou a voz abafada de Scott, que acabara de morder uma maçã.

– Não se preocupe tanto com isso; está tudo bem. Assim que tiver minha medicação alterada, tudo ficará certo.

– Humm, sabe o que eu acho? – disse, mordendo mais um pedaço – Que num conxegue dormir pulque num para de pensá nele.

Sâmia pensou que talvez não estivesse ouvido bem, afinal, Scott estava falando com a boca cheia.

– De que está falando?

– Você sabe quem. O cara de quem costumava de contar histórias…

– Ora, Scott, isto foi apenas uma história, fantasia, não foi real, nunca foi.

– Mais uma razão para sonhar com ele: você se apaixonou por uma ilusão.

As palavras do irmão soaram como uma explosão dentro dela. Embora apenas com dez anos, conversava com ele como se fosse seu melhor amigo. Desde que saiu daquele mundo mágico, ele era seu confidente. Mesmo com cinco anos, na época era ele quem ouvia todas as loucuras que havia vivido.

“Não, não havia, isso nunca aconteceu!” – Sâmia expulsou seus pensamentos e ia revidar o comentário quando Scott a cortou.

– Escute, o motivo pelo qual eu liguei é que fui fazer o que me pediu e agora estou encrencado.

– Como assim?

– Perguntei pra Jane sobre o livro e ela disse que nunca viu tal coisa.

– Scott, é claro que Jane jamais iria dizer que jogou aquele livro fora.

– Espere, é verdade. Primeiro eu procurei no porão, onde estão todas as caixas que você deixou, e elas estavam todas fechadas… Olhei em cada cômodo da casa, então pensei que talvez ela tivesse dado fim antes de você empacotar as coisas.

– Não, eu coloquei junto com os outros livros: Os gnomos azuis, pequenas fadas, eu acho.

– Eu achei esses dois, mas O mundo dos jogos não estava lá, em nenhum lugar.

– Bem, então, achando que ela teria escondido sem que você soubesse, eu inventei que na escola a professora havia pedido para comprar esse livro, porque ela iria fazer um resumo e provar que a magia não existe e que as adoradas crianças não deveriam deixar-se levar por coisas estúpidas.

A voz de Scott era séria e Sâmia quase acreditaria nele se não o conhecesse bem.

Explodindo em risadas, ela disse:

– Não posso acreditar em sua astúcia, seu diabinho.

– Então – disse Scott, orgulhoso de sua artimanha-, ela ficou super feliz por ter uma professora que penssase como ela e prometeu comprar o livro pessoalmente. Eu disse que você tinha esse livro e perguntei se ela não havia jogado fora. Ela disse que não, e acredite, Sâmia, ela estava dizendo a verdade, assim com a mesma certeza que tenho que ela me mataria se soubesse que ando lendo livros de magia. Eu afirmo que ela não sabe onde está e até arrisco dizer que nunca chegou a ver esse livro.

Nada iria agradá-la mais do que usar um de seus livros para uma tese contra a fantasia.

– É verdade, Sâmia – suspirou.

– Mas o problema é que, por sua causa, eu to enroscado.

– Por quê?

– Porque ela foi pessoalmente comprar esse livro e, imagina só, nenhuma livraria jamais ouviu falar nele…

– É estranho que não consigo me lembrar do autor, só pensei nisso agora que resolvi fazer uma crítica sobre ele.

– Sâmia, você está me ouvindo? Eu to enroscado. Se Jane não conseguir encontrar esse livro, como sei que não vai porque já fomos a todas as livrarias pelo Submundo, o que é que vou fazer?

– O que você disse?

Sâmia sentou-se ereta no sofá e apertou o telefone contra o ouvido para ouvir melhor.

– O que é que vou fazer?

– Não! Você usou uma expressão.

Sâmia não teve coragem de repetir.

– Pelo Submundo? – disse Scott, rindo. Melhor que pelos céus, não? Sei lá… vi em algum livro, eu acho.

Sâmia começou a sentir o medo voltando, a sensação de insegurança de sua adolescência. Procurou esquecer a sensação, focalizando no problema do irmão.

– Você acaba de dizer que vão mudar, então não vai precisar mais comprar livro nenhum.

– Aí é que está o problema: eu disse que foi a nova professora que pediu, disse que tinha conversado com ela para saber coisas da escola nova e ela falou do livro. Era uma desculpa perfeita. Mamãe não ia contrariar a nova professora logo no primeiro dia.

– Bem, me deixa pensar. Bom, diga a ela que você se enganou com o título.

– Não vai dar certo, Sâmia. Depois de quinze livrarias buscando O mundo dos jogos, eu não posso dizer que era O tabuleiro de Xadrez.

Sâmia sentiu mais um arrepio com as últimas palavras de seu irmão, por que, de repente, ele estava citando coisas de sua alucinação? Respirou fundo. A culpa era toda sua por encher a cabeça dele com suas loucuras, ele provavelmente se lembrava das histórias mais do que ela.

– Muito bem, diga que é O mundo dos jogos, de Violet Johnson.

– Eu conheço esse livro, sua doida: é literatura e todos queriam nos vender esse. Ela sabe que não fala de magia.

– Ai, meu Deus. Sâmia pensava o mais rápido que podia.

– Pode me tirar dessa, foi você que me colocou.

Seus dedos batiam rápido no laptop em seu colo.

– Ok, achei! Diga que é de John Smith, O mundo do jogo, é parecido.

– Do que fala?

– Não faço a menor ideia; acabo de achar na internet, mas é sobre magia.

– Tem certeza?

– Acho que sim…

– Sâmia, e se ela quiser ler?

– Jane lendo livros de magia? – disse Sâmia rindo – Seria mais fácil o rei do Submundo vir me visitar… Seu sorriso morreu em sua última frase e ela começou a sentir muito frio. A frase escapara de sua boca antes que pudesse impedi-la, precisava tomar mais um calmante.

– Está certo, vou falar então. Preciso desligar agora, se cuida, viu?

Tentando controlar o nervosismo e suas mãos que tremiam o suficiente para que deixasse escapar o telefone, disse:

– Cuide-se também, tento te ligar semana que vem antes de viajarem. Agora também tenho que desligar. Diga “oi” para papai, Jerry e Jane.

– ok, beijos

– Até logo.

Colocando o laptop no sofá, ela correu ao banheiro e afundou sua cabeça em água fria. O que estava acontecendo com ela? Por que de repente tudo parecia tão real como antigamente? Por que diabos inventou de fazer uma crítica daquele maldito livro, o livro causador de sua patologia? Realmente não estava em seu juízo perfeito.

A água pareceu acalmar um pouco. Foi à cozinha, preparou um chá e, sentando-se novamente no sofá com suas anotações, se enrolou em um cobertor. A noite estava fria e o tempo nublado: tudo indicava que uma tempestade iria desabar a qualquer momento.

Talvez devesse assistir a um filme em vez de trabalhar. Não, ela precisava terminar logo, faltavam apenas algumas páginas. A tempestade começara e o vento batia na janela, fazendo-a vibrar.

Sorrindo para si mesma, pensou que talvez vivesse há tempo demais sozinha e que deveria adotar um gato de estimação. Ao se lembrar do gato, a sensação incômoda reapareceu.

Balançando a cabeça negativamente, voltou a olhar sua tese.

Fez algumas notas e voltou a pensar: “como o livro havia desaparecido daquela forma?” Assim como havia surgido, ele desaparecera. A última vez que o viu foi antes de cair naquele mundo. Ou tinha guardado numa caixa logo após voltar e nunca mais a abriu? Teria o rei ficado com ele para que nunca mais ela pudesse voltar?

– Será que eu conseguiria voltar?

Balançou a cabeça e pensou o que diria Dr. Donhill se soubesse em que ela estava pensando naquele momento.

Olhou para sua mesa central e viu o relógio que acabara de mudar, exatamente meia noite. Seu medo aumentou. Lá fora o vento uivava, e a água caindo com toda força trazia a sensação que tudo iria desabar. Da porta de vidro que dava para a sacada, uma sombra que crescia em sua direção, primeiro uma, depois duas, três, quatro patas…

Sâmia fechou os olhos com força e seu corpo todo se paralisou. O trovão explodiu, fazendo um barulho ensurdecedor. Agora o barulho havia cessado, mas ela não conseguia abrir os olhos, ela sentia a presença dele chegando, se é que já não estava ali. O frio subia por toda sua espinha, arrepiando a nuca. Ela mordia os lábios com força para ter certeza que estava acordada.

– Sim, você está – disse uma voz masculina.

Sâmia abriu os olhos quando ouviu a voz suave e voltou a fechá-los ainda mais rápido que da primeira vez. Sim, ela o vira. Não, não era Jahean, era o estranho do casaco e com o casaco! Poucos segundos foram suficientes para reconhecê-lo exatamente como viu da primeira vez.

– É sua imaginação, é sua imaginação – ela repetia em um sussurro, abrindo um pouco os olhos segundos depois, para fechá-los novamente.

– Desaparece, criatura dos infernos! Eu to sonhando! Eu to sonhando!

O estranho estava sentado bem a sua frente com as pernas tranquilamente cruzadas.

Sâmia, a essa altura, já se perguntava que pecados teria cometido para ser punida daquela forma, se já não bastasse não ter uma vida como as outras pessoas agora os demônios saíam do inferno para persegui-la. Nem ao menos desmaiar ela conseguia, ao menos morreria sem sentir, mas não, sua punição era tamanha que ela estava totalmente consciente.

– Minha senhora, eu devo lhe dizer que tenho a noite inteira para permanecer aqui, então, se pudesse colaborar falando comigo, lhe pouparia uma noite incômoda sentada nesse sofá.

Sâmia abriu os olhos e o olhou longamente.

– Você não é uma alucinação, não é mesmo?

– Nem de longe – sorriu o homem.

Ele se levantou e o corpo dela retraiu no sofá à medida que ele caminhou dois passos e, depois, apontou para a sua mesa de centro.

– Se importa?

Sâmia não podia acreditar no que estava vendo: um homem que, de maneira alguma, parecia normal, que tinha lhe emprestado um casaco, que o recuperou de volta sabe se lá como, agora aparecera por mágica em sua sala e estava pedindo permissão para comer uma maçã.
Ele não esperou pela resposta dela: apanhou a fruta e a mordeu com vontade.

– Fiz uma longa viagem, queira me perdoar.

Ela ficou ali olhando ele terminar de comer sem conseguir dizer nada e sem conseguir tirar os olhos dele. Suas alucinações já tinham ido longe demais, assim que acordasse ou ele saísse, ia se internar.

Quando ele terminou, olhou em volta procurando por um cesto de lixo! E, vendo que só encontraria um na cozinha, colocou uma mão sobre a outra, fazendo os restos do que fora sua maçã desaparecer.

Ele sorria olhando fixamente pra ela. Ela abriu a boca para tentar dizer alguma coisa quando o grande espelho da parede se partiu em centenas de pedaços, fazendo-a saltar. Ele olhou para a moldura vazia e, ainda mastigando, disse:

– Me perdoe, usei energia demais, não estou acostumado a usar magia na Superfície.

Ele bateu palmas duas vezes e ela assistia hipnotizada a todos os cacos voltando para o lugar e, em segundos, seu espelho estava novamente intacto. Seus olhos foram automaticamente para a fruteira: havia uma pera, uma ameixa e um cacho de uvas. Sim, ele havia comido a maçã. Ela tinha certeza que havia colocado uma fruta de cada pela manhã, então, se não estava era porque ele realmente estava ali.

Sâmia cobriu as orelhas com ambas as mãos.

– Estou sonhando, estou sonhando – ela falava e chorava ao mesmo tempo, implorando para ele desaparecer.

– Minha senhora, eu preciso que me escute.

– Estou sonhando, estou sonhando! – ela repetia sem abrir os olhos.

Ele se aproximou e se sentou ao seu lado, fazendo com que ela levantasse a cabeça e olhasse para ele. Delicadamente, retirou um lenço do bolso e entregou a ela.
Sâmia estendeu a mão trêmula e viu a letra “J” gravada no lenço de seda. O estranho, parecendo ler seus pensamentos, disse:

– O lenço é dele, mas eu não sou ele, como já deve ter notado.

Ela olhou mais uma vez para a inicial gravada e o devolveu. O estranho hesitou, mas acabou por pegá-lo de volta.

– Quero que vá embora agora mesmo.

– Minha senhora, preste atenção: eu não vou embora até conseguir o que vim buscar e não me importa o quanto tenha que esperar.

Sâmia deu um longo suspiro. Tudo bem, ela era doida e tinha alucinações, mas não era burra. Se ela não aceitasse falar, ele continuaria ali e tudo o que ela queria era que ele fosse embora.
Ela deu mais um suspiro e disse:

– O que quer?

– Minha senhora, primeiro quero me desculpar. Como disse, não tenho experiência com o portal e…

– O que você quer de mim? – ela perguntou com certa insistência.

– Não estou aqui para lhe fazer mal e não quero causar uma má impressão, não precisa se colocar na defensiva.

Sâmia olhou fundo em seus olhos, acreditou que ele não queria lhe matar ou qualquer coisa do tipo, mas tudo que ela menos queria era amizade com gente daquele mundo.

“Tente ser educada“ – disse para si mesma.

– Vou fazer um chá – disse, levantando-se.

– Não, senhora, não é preciso.

Ela então se virou e disse séria:

– Qual seu nome?

O estranho se levantou e estendeu a mão.

– Leander. Esqueça o Simons; disse apenas porque estudei que é um costume daqui se apresentar assim, mas Leander, com certeza.

Ela não tocou a mão oferecida e disse:

– Muito bem, Leander, você vem a minha casa e deseja me falar, então espere que eu faça um chá. Se quiser falar comigo, terá que ser do meu jeito.

Leander ficou surpreso com a reação daquela jovem. Há um minuto ela estava apavorada com sua chegada e, agora, ela se mostrava firme. Mesmo com medo, ela se fazia forte. Ele fizera a escolha certa, essa jovem era perfeita para ajudá-lo em seus planos.
Sâmia voltou com o chá e lhe entregou uma xícara. Leander aceitou educadamente. Ela tomou um generoso gole para se acalmar e disse:
– Muito bem, diga a que veio e depois vá embora.

– Minha senhora, não é tão simples assim… eu…

– Sâmia, me chame de Sâmia.

– Temos o costume de tratar as pessoas com…

– Não me importa seus costumes, está em minha casa e em meu mundo. Se quiser falar comigo, me chame de Sâmia.

Leander teve vontade de rir, embora sua expressão fosse séria. Sem dúvidas, ela tinha mais potencial do que havia ouvido.

– Sâmia, certo. Como disse, meu nome é Leander, sou um habitante de Sunset e tenho um dos maiores cargos perante sua majestade.

Ele deu uma pausa e continuou:

– Jahean, o imperador do Submundo.

Sâmia tremeu ao ouvir o nome dele. Já não mais podia acreditar que estava sonhando, ele realmente existia e depois de seis anos um de seus homens havia vindo visitá-la.

Ele observava a expressão de seu rosto tentando entender o que se passava naquela mente e procurando reações que o nome de seu rei causaria nela, porém, ela era realmente boa em disfarçar seus sentimentos, nem ao menos um piscar de olhos. Ele continuou:

– Vim à Superfície para buscar por ajuda por um pequeno problema que estamos enfrentando ou iremos enfrentar em breve.

– Continue.

Leander se ajeitou mais no sofá e procurou olhá-la nos olhos para que ela realmente entendesse o que ele queria dizer.

– Sua majestade Jahean cometeu um erro terrível.

– Deixe-me adivinhar – Sâmia interrompeu- ele se arrependeu de tentar me matar e agora manda você para se desculpar? Pois não aceito, pode ir embora.

– Minha senhora, me desculpe, mas Jahean nem ao menos sabe que estou aqui, e, com certeza, serei punido rigidamente se ele descobrir.

Sâmia agora estava confusa, então não era ele que perturbava seu sono?

– Continue.

Leander notou que havia despertado o interesse dela, então se apressou em dizer:

– Tentarei ser breve, Sâmia, eu vim aqui porque Jahean resolveu se casar e conto com sua ajuda para impedir que ele cometa esse disparate.

Teria entendido direito? Ele resolvera se casar? E o que ela tinha com isso?

– Você deve estar se perguntando o que tem com isso, mas eu lhe peço que me ajude e prometo recompensá-la de alguma forma.

– Me recompensar? Eu odeio teu rei, ou seja lá o que ele for em seu mundo. Ele é o causador dessa subvida que tenho. Eu não me importo com o que ele faz com a vida dele, não me importo com ele da mesma maneira que ele não se importa nem nunca se importou comigo!

Leander cruzou as mãos e, pensativo, as levou à boca e disse:

– E seria esse o motivo para não esquecer alguém que detesta tanto?

– Por que não esqueço? É o que tenho tentado fazer nesses últimos malditos seis anos! Acha que posso? Se pudesse eu teria esquecido!

– Minha jovem, confesso que a tenho observado durante vários meses e posso afirmar que sua vida não está de acordo com os padrões normais.

– Padrões normais? Essa é ótima. Eu sou completamente doida, graças ao desgraçado daquele demônio que você chama de rei.

Leander passou os olhos pelo apartamento em silêncio. Embora fosse um assunto urgente, ele teria que ter muita calma para convencê-la.

– Eu faria qualquer coisa para esquecer o que vivi.

Sua última frase despertou o interesse de Leander, seus olhos brilharam e ele se sentou ereto no sofá.

– Faria qualquer coisa?

– Faria.

– Me ajude então – disse, segurando as mãos dela.

– Diga que aceita me ajudar e eu farei com que seu passado deixe de existir.

Sâmia olhava as mãos dele sobre a suas e a ansiedade em seu olhar. Poderia confiar nesse homem? Não estaria a mando de Jahean para lhe atormentar?
Ela retirou suas mãos e se levantou.

– O que exatamente quer que eu faça?

Leander se animou e também se levantou.

– Venha comigo, seja minha convidada. Temos três meses para fazer com que ele veja o erro que está cometendo.

– Como é que é? Você acha que eu vou voltar exatamente pro lugar que eu quero esquecer?

– Sâmia, por favor, será apenas por três meses, eu posso fazer com que seu passado seja apagado. Podemos voltar no tempo, por uma causa justa, é claro. Mas há outras formas, poções, interferência mental, enfim, eu posso fazer com que esqueça que esteve lá, com que seu passado seja apagado por completo e posso te deixar seguir sua vida como desejar.

Ela hesitou. Se apagasse seu passado, se voltasse aos seus treze anos, como seria sua vida agora? Teria seu apartamento? Seu emprego? Se ela voltasse no tempo a ponto de impedir que sua mãe morresse?

– Posso escolher o tempo que quero voltar?

– Estou limitado à data que visitou meu mundo.

Isso não ajudaria em nada. Se não pudesse ter sua mãe de volta e apagasse sua experiência, apenas deixaria de ser doida para ser revoltada.
Vendo sua hesitação, Leander insistiu:

– Imagine sua vida como está hoje. Sim, isso eu posso fazer. Sei que gosta de sua maneira de viver, posso deixar exatamente como está. A diferença é que não vai ter pesadelos ou lembranças que a atormente.

– Sem remédios?

– Sem remédios – ele afirmou com um sorriso.

– Sente-se.

Eles voltaram a se sentar e agora ele explicava o que esperava que ela fizesse.

– Como eu disse, Jahean decidiu se casar e sei que sua presença lá tornaria tudo mais confuso. Ele já está confuso com tudo isso, acredite em mim.

– Por que não quer que ele se case?

– Porque o casamento é eterno em nosso mundo e deve ser feito para a felicidade eterna. É para ser o paraíso e não um purgatório.

Casamento eterno? Sâmia sentiu um aperto em seu peito; ela também estava confusa.

– Quando ele me vir, quem estará em um purgatório serei eu. Ele simplesmente me odeia.

– Ele não te odeia, eu posso garantir.

– Se ele me mandar embora?

– Ele não vai mandar.

– E se ele mandar?

– Se ele mandar e eu não puder interceder ou se nosso plano não funcionar, eu manterei minha promessa, cuidarei para que tenha uma vida sadia. Mas apenas se não der certo. Você não pode desistir em hipótese alguma.

Ela começou a pensar. Ela ganharia das duas formas. O que tinha a perder?

– Por que não quer que ele se case?

– Eu já lhe disse: Rafaela não serve para ele.

– Me diga a verdade, quero saber em que estou me metendo.
Leander não pensava em explicar detalhes, mas também não poderia deixar a jovem sem resposta.

– A princesa Rafaela havia sido prometida ao Príncipe AL, eles são primos, e Jahean é muito amigo da mãe de Al, porém, ele desistiu do casamento para não haver uma desavença entre dois reinos. Jahean teve a brilhante ideia de se casar com ela.

– O quê?

– Sâmia, isso não é importante, o importante é o que nós temos que fazer.

– Não é importante? Eu quero entender bem essa história, quero saber agora mesmo por que Jahean comprou um problema que não era dele.

– Eu lhe disse: ele tem muita estima pela Rainha, a considera como sua própria mãe.

– E agora ele decide se casar só porque é amigo da mãe da noiva?

– Mãe do noivo – corrigiu Leander. – Eu acredito que ele deve ter motivos pessoais. Como disse, ele anda muito confuso há muitos anos, deve ter pensado em ajudar a Rainha, sim, mas também tomar uma decisão que já deveria ter tomado.

– Por quê?

– Não se cansa de fazer perguntas?

Sâmia não respondeu e ele continuou:

– Como rei dos reis, senhor absoluto do Submundo, ele já deveria estar casado. Só que Rafaela é definitivamente a escolha errada.

– Ela o ama?

– Rafaela? Está brincando? Rafaela só ama a si mesma, é insuportável. Acredite em mim, Sâmia, eu não faria nada para prejudicar Jahean, nunca, mesmo que significasse a minha morte.

Ela estava curiosa com a intensidade que Leander falava. Havia alguma coisa estranha nisso tudo que ela ainda não conseguia entender direito.

– Então aceita minha proposta?

– Uma última pergunta.

– Diga.

– Por que se importa tanto com ele?

Leander passou a mão pelo cabelo e suspirou.

– Devo a ele minha vida. Ele me ajudou uma vez e agora é hora de retribuir, mesmo que ele não saiba que precisa ser ajudado.

– E então?

– Mas o que acha que eu posso fazer? Chegar lá e dizer: “Olá, Jahean, lembra-se de mim? A menina que tentou matar? Então, vim aqui para lhe pedir que não se case…”

– Não, é claro que não!
– Sâmia, por favor, entenda que ele não tentou te matar.

– Você não estava lá! Não sabe o que ele fez!

Leander não respondeu. Depois de um longo silêncio, disse:

– Eu só quero que tente se aproximar dele, ignore-o até o início. Ele ficará tão confuso quanto você quando descobrir que está vivendo sobre o mesmo teto que ele. Deixe o tempo passar, eu cuidarei de tudo para que se aproximem e, quando ele confiar em você o suficiente, você dirá a ele sua opinião. Não peça que ele não se case, apenas diga o que pensa sobre passar a eternidade com alguém que não se ama.

Ela estava indecisa e ele começava a temer que tudo seria em vão. Se ela não aceitasse, ele não conseguiria pensar em nenhuma outra forma de acabar com aquele casamento.

– Que garantias eu tenho que vai cumprir sua promessa?

Leander sentiu-se ofendido.

– Minha senhora, há leis em meu mundo tão rígidas quanto no seu. Ninguém tem permissão de interferir na vida dos mortais, mas eu estou disposto a conseguir o objeto necessário para que isso aconteça e, nem que eu pague com minha existência, eu farei o que lhe prometi.

– Está certo.

– O quê? – perguntou surpreso.

– Eu aceito. Sou doida, vivo sob efeito de remédios, minha infância destruída, que eu tenho mais a perder?

– Obrigado, Sâmia! Ele a abraçou em um impulso e ela, surpresa pela reação dele, não sabia como reagir.

Assim que ele a soltou, disse:
– Quanto tempo precisa para se aprontar?

– Não muito.

Ela o deixou na sala e foi em direção ao quarto, de onde pegou uma pequena mala e, colocando-a em cima da cama, pensava.

“Vou levar pouca coisa, porque sei que assim que ele me vir vai me fazer voltar”.

Ela estava feliz com a ideia. Sentiu que podia confiar em Leander, afinal, Jahean a faria ir embora e ela ganharia sua vida de volta. Era apenas uma questão de horas para que ela tivesse uma vida digna. Colocou algumas peças de roupas e fechou a mala, depois tornou a abri-la.

– E se ele não a mandasse embora assim tão rápido?

Era melhor ter com o que se distrair: colocou um caderno, algumas canetas, cópias dos papéis em que estava trabalhando e o novo livro que trabalharia no segundo semestre. Colocou também seu estojo de tintas, com o qual se distraia pintando quadros e tornou a fechar a mala.

Ligou para Scott e disse que resolvera viajar aquela noite mesmo para uma oportunidade única de trabalho. Ligou também para Margarette e disse que já estava no aeroporto, em caso de ela querer se despedir e encontrar aquela criatura lá. Prometeu trabalhar muito e que voltaria pronta para viajar com ela e seu filho. Avisou, ainda, o escritório que trabalharia nas férias e que, assim que terminasse o próximo livro, entregaria tudo para poder viajar.

 

Capítulo 3 – Férias no Submundo

 

Leander olhou em volta, procurando alguma coisa.

Assim que ela voltou, viu a reação dele e perguntou:

– Algo errado?

– Parou de chover.

– E?

– Você não tem nenhuma fonte ou qualquer coisa assim?

Ela ficou parada, olhando para ele sem entender.

– É que preciso de água para a transportação.

– Abra a torneira… – ela disse, olhando na direção da cozinha.

– Não, não, precisamos de algo maior.

– Aquela tarde no café você fez chover, não foi?

– Sim, mas não posso abusar do uso de magia; toda magia é reportada ao meu mundo e não quero despertar o interesse de Jahean para onde estou agora.

– Tem uma fonte no jardim do prédio.

Os dois desceram e, assim que chegaram ao jardim, que àquela hora estava deserto, ela não acreditou no que teria que fazer. Leander havia colocado os dois pés dentro da fonte e agora estava todo encharcado.

– Você não espera que eu entre aí, não é?

– Prometo que não vai se molhar.

– Você está todo molhado!

– Venha, por favor, lhe dou minha palavra.

Sâmia segurou sua mão e entrou. Ia começar a gritar, dizendo que estava se molhando, quando se sentiu seca. Seus olhos não se adaptaram totalmente à escuridão, mas logo podia ver sombras projetadas na parede pelas velas nos candelabros.

Leander deu alguns passos a frente e abriu uma porta, pedindo para que entrasse.

Ela observou encantada. Primeiro uma antessala com poltronas estofadas, uma mesa central com frutas, algumas decorações. Mais para trás, outro cômodo dividido por um arco esculpido em gesso, a cortina rendada e depois estava a cama, como a de uma princesa. Estava em um filme de época? Um sonho? O quarto era exatamente como nos filmes medievais, a pintura da parede parecia gravar em sua alma a imagem dos anjos, estava em um castelo!

Logo sua alegria deu lugar ao desespero. Estava no castelo de um demônio que ia querer matá-la pela manhã.

– Assim que amanhecer, vou comunicar ao rei que está aqui. Não se preocupe, está tudo sob controle, tudo que precisa está neste quarto: toalhas e roupas de cama no armário, banheiro logo ali – disse, apontando para uma porta.

– Precisa de mais alguma coisa?

– Acho que não – ela respondeu, quando, na verdade, o que queria pedir era para ir embora. Mas havia dado a sua palavra e não poderia voltar atás.

– Vou deixá-la descansar, então. Mas preciso que aprenda algo e bem rápido, em caso de algum imprevisto.

– Quero que pense em mim com toda força, pense em meu nome.

– Não entendo.

– Faça de conta que não estou aqui e sinta o desespero, a urgência de falar comigo.

– Assim? – disse, fechando os olhos e pensando nele.

– Precisa se esforçar mais. Caso precise de mim e eu não esteja aqui, se pensar em mim e usar toda sua mente para isso, eu estarei aqui.

– Vou treinar.

Sâmia rezou para que nunca precisasse chamar por ele, mas precisava aprender, caso encontrasse Jahean sozinha e ele tentasse matá-la de novo.

– Se fizer isso agora não vai me deixar dormir – disse Leander, sorrindo.

– Não se preocupe, vai passar bem a noite, e pela manhã venho bem cedo para lhe dizer o que vamos fazer.

– Está certo.

– Obrigado, Sâmia – disse, apertando sua mão e fechando a porta atrás de si.

Ela deu mais uma olhada pelo quarto, mas estava exausta e decidiu que o melhor era dormir. Tirou da mala uma camisola branca super transparente e, se olhando no espelho, se perguntou por que havia trazido aquilo, ou melhor, por que só havia trazido aquilo? Deveria ter sido a tensão de tudo que aconteceu. Bem, ela não podia voltar para casa para buscar outra camisola, então fechou a porta à chave e se deitou.

No andar de baixo, Jahean remexia em alguns papéis em cima de sua mesa. Passou a mão pelos olhos cansados e olhou o relógio; faltava pouco para as duas. Decidiu que revisaria a lista de convidados apenas mais uma vez.

Voltou a pegar a pena e a fazer anotações quando bateram na porta.

– Entre – o rei respondeu ainda de costas.

– Por que ainda está acordada, Alethea? – ele disse sem se virar.

– Trouxe um chá, majestade, para que possa dormir melhor.

Jahean se virou ao ouvir a voz.

– Obrigado, Aédi, pensei que fosse Alethea.

– Ela deve estar dormindo, majestade. Notei que passou o dia agitado e mal tocou em seu jantar.

Jahean não respondeu, não gostou de ser interrompido pela criada que estava sempre atrás de lhe agradar, chegava a ser um incomodo.

Ela colocou a bandeja sobre a segunda mesa e ele notou que havia dois cálices.

– Quantas bocas acha que tenho, Aédi?

– Ah, meu senhor, este aqui é para a senhora, notei que chegou muito tarde e pensei que gostaria de um chá.

– Rafaela está aqui?

Aédi fez esforço para parecer inocente, mas saboreava cada palavra que dizia.

– Creio que não, meu senhor, essa senhora chegou ainda há pouco com Leander. Imagino que vêm de longe para chegar a essa hora.

– Leander trouxe uma dama para meu castelo?

A criada não respondeu, mas seu coração disparava em felicidade. Não suportava Leander e, se ele havia trazido uma mulher para o castelo sem que o rei soubesse, com certeza ele estaria em apuros.

– Me desculpe, majestade, pensei que fosse sua convidada.

– E onde estão?

O rei já havia se levantado e ia em direção à porta.

– Leander desceu para seu quarto e a jovem está no andar de cima.

– Meu rei, me perdoe por não avisá-lo, mas para estar aqui na Ala Sul imaginei que fosse alguma convidada especial.

Jahean ignorou o comentário dela. Se ela não fosse tão competente em seu trabalho, com certeza já a teria dispensado. Ele conhecia bem seus criados e não suportava a maneira como ela agia, sempre procurando parecer bem a seus olhos quando, na verdade, queria apenas provar que era a melhor e receber um tratamento especial.

Leander, por sua vez, deveria ter enlouquecido para trazer mulheres para seu castelo, e ainda na Ala Sul. O rei tinha que ver isso de perto. Ao notar os passos da criada logo atrás dele, ele parou e a olhou nos olhos:

– Vá dormir.

– Mas, meu senhor…

– Eu disse “vá dormir”.

– Boa noite, majestade.

Ele pôde ver a decepção nos olhos dela, mas isso não importava agora, tudo que queria era saber que loucuras povoavam a mente de Leander.

Assim que chegou ao andar dito, ele começou a abrir as portas de todos os quartos para verificar e, à medida que encontrava vazio, batia a porta com força.

Sâmia, que estava quase pegando no sono, ouviu os ruídos aumentando, ficando cada vez mais próximos e se levantou imediatamente. Seu coração dava sinal de que algo errado estava acontecendo. Os ruídos foram ficando cada vez mais próximos, seus batimentos cardíacos eram tão intensos que ela podia sentir pulsando na garganta, e sentiu que iria desmaiar, quando a maçaneta de sua porta girou em vão.

Com certo alívio, lembrou que estava trancada, mas seu alívio durou apenas um segundo. Com certeza mandariam abrir a porta, e onde estaria Leander? Pensou nele o mais que pode, mas seu pensamento foi interrompido quando viu a silhueta familiar atravessando a porta ainda fechada. Ela não teve mais duvidas: era Jahean.

Tentou se manter firme no chão e não desmaiar, quando a mão puxou violentamente a cortina que dividia os cômodos.

Os olhos dele pararam nela, e seu semblante de raiva passou a surpresa. Ele permanecia parado ali sem dizer nada, apenas olhando para ela.

– Sâmia?

Ela não teve coragem de responder. Ele se aproximou com alguns passos e voltou a falar:

– Como chegou aqui?

– Por uma fonte…

Foi tudo que ela conseguiu dizer. Ela fora sincera, mas, pelos olhos dele, ele não tinha entendido tão bem assim.

– O que está fazendo em meu mundo? Em meu castelo?

Ele cruzou os braços e deu um passo para trás em um sorriso sarcástico.

– Me deixe adivinhar: meu homem de confiança acaba de me mostrar que não deve ser tão confiável assim…

– Leander! – a voz dele agora era tão alta que a faz tremer.

Eles ficaram se olhando. Ela sem conseguir se mexer e ele aguardando a chegada do seu ministro.

Em um segundo, bateram a porta. Sâmia observou a chave girando sozinha e teve certeza que era Jahean a abrindo com o pensamento, mesmo sem desviar os olhos dela. Leander entrou.

– Majestade, eu posso explicar… Eu pedi a…

– Leve ela de volta.

– Majestade, eu…

– Agora.

Jahean se virou para sair e Leander o deteve.

– Majestade, eu não posso levá-la, ela quer ficar e está aqui por vontade própria.

Ele se virou vagarosamente e a encarou.

– Você quer ficar? – ele perguntou, erguendo as sobrancelhas.

Leander deu um olhar significativo para que ela dissesse que sim e ela respirou fundo e disse:

– Quero – sua voz saiu tão baixa que parecia mais um sussurro.

– É mesmo? E o que a faz pensar que permitirei que alguém como você faça parte do meu mundo.

– Alguém como eu? O que está querendo dizer?

O rei voltou a olhar para Leander e disse:

– Livre-se dela agora.

– Escuta aqui, seu desgraçado, você acha que sou algum objeto descartável para que ele se livre de mim?

Leander estava chocado e, ao mesmo tempo, se deliciava com a situação. Ela era muito corajosa para falar assim com o rei, e ele, por sua vez, parecia disposto a continuar discutindo com ela, coisas que só acontecem quando a pessoa tem algum significado, pois ninguém perde tempo com alguém insignificante, nem mesmo no Submundo.

– Vejo que continua sem modos.

– Não para alguém como você!

Ele sorriu e agora a olhava com malícia. E ela se deu conta que estava com aquela camisola transparente!

– Outras partes, no entanto, tiveram significativa mudança – comentou para logo se dirigir à saída.

Os olhos dela se estreitaram em fúria e Leander soube que aquele era o momento de interromper.

Passou por ela e disse ao seu ouvido:

– Volte a deitar; depois eu volto aqui.

E seguiu o rei que já havia deixado o quarto.

Seguindo rapidamente pelas escadas, Jahean ia em direção ao seu quarto e Leander, logo atrás, pedindo que esperasse.

– Jahean, escute, por favor, eu peço.

Assim que chegou ao quarto, ele bateu a porta antes que Leander entrasse, mas o ministro tornou a abri-la.

– Por favor, Jahean, me escute, ao menos me escute.

O rei passou a mão pelo rosto, deu um longo suspiro e se sentou.

– Seja breve.

Ele, então, se colocou a sua frente e disse:

– Ela está aqui para me ajudar.

– Para te ajudar?

– Sim, majestade, eu a trouxe para que me ajudasse a entender as mulheres da Superfície.

Os olhos de Jahean dançavam entre o interlocutor a e sua lista de noivado.

– Que andou bebendo, Leander? Ou devo assumir que perdeu a razão?

– Majestade, foi sugestão sua: me pediu que me inteirasse dos comportamentos femininos da Superfície.

– Sugestão minha? E quando me ouviu dizer “Sâmia Rolfe”?

– Jahean, entenda, ela já esteve aqui, é confortável com a magia, onde encontraria outra jovem disposta a me ajudar sem ter um ataque de nervos?

Os dedos do rei batiam repetidamente na mesa. Leander não poderia deixar que ele pensasse, precisava convencê-lo a qualquer custo.

– Meu senhor, faço isso por Elizabeth, como vou convencê-la a vir aqui se não entender como os mortais agem e pensam?

O rei agora passava a mão pelo queixo, e Leander torcia as mãos, nervoso.

– Logo ela, Leander? Em toda Superfície não tinha outra mulher disponível?

Ele não respondeu. Tinha que escolher bem as palavras, qualquer deslize agora seria fatal.

– Eu prometo, majestade, que ela não vai lhe incomodar. Posso até dizer a ela que não lhe dirija a palavra, ela está aqui unicamente para me auxiliar enquanto me preparo para cumprir suas ordens.

– Tenho que dizer que estou muito decepcionado com você.

Leander sentiu um aperto no peito e se sentou ao lado dele.

– Por favor, majestade, eu não faria nada que lhe trouxesse aborrecimento, vou colocá-la na Ala Norte, se permitir. Não vai nem notar que ela está aqui, é unicamente por Elizabeth, eu lhe garanto.

– Se ela me trouxer algum tipo de aborrecimento…

– Não vai, Jahean.

– Se ela ficar bisbilhotando o que não deve…

– Vou providenciar tudo, majestade.

– Se ela me criar qualquer tipo de contratempo…

– Eu prometo, senhor, que não vai.

– Que seja.

Leander teve o impulso de se ajoelhar e lhe beijar a mão, mas se conteve. Se fizesse isso, poderia despertar suspeitas no rei. Ele era muito inteligente e saberia que o motivo de ela estar ali era maior que contar detalhes do mundo mortal.

– Eu agradeço, meu senhor.

Leander virou-se para sair, mas o rei o chamou.

– Não tão rápido, quero que me diga o que fez para convencê-la a vir.

– Ela veio de boa vontade, senhor.

– Não teste minha inteligência, Leander, aqui é o último lugar onde ela gostaria de estar.

– Talvez não a conheça tão bem, senhor.

Leander já havia se arrependido do que disse ao ver os olhos de Jahean se estreitarem.

– E você a conhece melhor que eu?

Os olhos do rei agora eram de desconfiança e sarcasmo.

– Não, majestade, não foi o que quis dizer.

– Teve contato com ela durante esses seis anos?

– Não! Eu lhe dou minha palavra, senhor, só falei com ela hoje.

– Leander, se eu tiver algum motivo para pensar que está mentindo para mim, eu…

– Ela tinha pesadelos, eu prometi acabar com eles se me ajudasse.

– Pesadelos?

– A vida dela ficou bem diferente do que era antes de vir aqui.

– É mesmo? – Jahean voltou os olhos para os papéis enquanto ouvia.

– Ela achava que tinha imaginado tudo, tomava remédios, coisas da Superfície…

– E você só falou com ela hoje e ela já lhe faz confissões?

– Jahean, nunca lhe dei motivos para duvidar de mim.

– Me deu esta noite.

– Eu nunca tive contato com ela, apenas hoje, mas a tenho observado há alguns meses. Sabia que ela passava por pesadelos e fiz a proposta. Como disse, ela não vai incomodar, eu…

– Já chega! Deixe-me dormir. Não quero mais uma só palavra sobre essa sua ideia absurda. Ela está sob sua responsabilidade e tudo que ela fizer ou disser você responderá por isso.

– Sim, majestade. Boa noite.

Leander correu para o quarto de Sâmia que, já trocada com a mala na mão, estava pronta para ir embora.

– Não, Sâmia, onde pensa que vai?

– Eu não vou ficar aqui com alguém que me odeia! Você ouviu, ele não me quer aqui.

– Sâmia, temos um trato! Não pode voltar atrás com sua palavra. Depois de hoje, se for embora assim, seus pesadelos ficarão ainda piores.

– E como pensa em me manter aqui? Escondida no guarda-roupa?

– Não! Ele concordou que ficasse.

– Concordou? O que disse a ele? – ela perguntou com mais medo que surpresa.

– Disse a verdade: que veio aqui para me ajudar.

– E ele se convenceu tão rápido assim?

– Sâmia, por favor, eu me entendo com ele. Peço que faça apenas a sua parte.

Ela voltou a se sentar, desanimada.

– Começamos mal…

– Mas amanhã será melhor, eu lhe prometo.

– Durma, amanhã conversaremos mais.

Sâmia dormiu bem mais do que havia imaginado. Passava das dez quando ela acordou. Esqueceu onde estava e, aos poucos, tudo foi voltando a sua mente. Então Jahean realmente existia? Ah, se o Dr. Donhill a visse agora, continuaria lhe dando calmantes?

Abriu a janela e deixou o vento morno tocar seu rosto. Uma bela manhã de verão. Sua visão era de um vasto campo florido e da floresta. Seus olhos não conseguiam chegar muito longe, uma espécie de névoa guardava o reino. Disso ela se lembrava muito bem; seja lá o que fosse aquilo, continuava guardando o lugar.

– Sunset – disse em voz alta. Só agora descobrira o nome daquele lugar. Podia jurar que era o Mundo dos Jogos e, por falar em jogos, onde estaria aquele imenso tabuleiro?

Leander provavelmente a colocara em uma parte do castelo que não dava visão, poupando-lhe daquela amarga lembrança. Ele era gentil e bem diferente de Jahean.

– Bom dia.

– Leander! Bom dia – ela disse, virando-se para ele.

– Pensei que a encontraria com raiva pela minha demora, mas vejo que acaba de acordar.

– Me desculpe, mas, depois de ontem, minha mente simplesmente desligou.

– Não se preocupe, fez bem em descansar. Vou cumprir algumas obrigações e passo aqui em meia hora para levá-la para almoçar e conhecer o castelo. Aqui o dia começou há muito tempo.

Assim que ele saiu, Sâmia se olhou no espelho; ainda estava com aquela camisola! Agora seu ressentimento havia aumentado. Leander a vira daquela forma e, em nenhum momento, havia faltado com respeito ou percebera algum olhar malicioso. Agora Jahean, em apenas um segundo, conseguia ser tão, tão inoportuno!

Ele fazia isso apenas para provocá-la, já havia feito seis anos antes. Era a maneira de ele aumentar ainda mais seu medo e, se ele havia concordado em deixá-la ali, não era à toa, com certeza iria tornar a vida dela um inferno.

Ela abriu o guarda-roupa e, para sua surpresa, estava cheio dos mais variados tipos de vestidos e sapatos. Ficou em dúvida se deveria usar aquilo ou alguma coisa que havia trazido. Resolveu que pensaria nisso depois, e foi tomar um banho para acalmar os nervos.

Leander bateu e, após a permissão do rei, entrou.

– Por onde andou a manhã inteira?

– Fui à Terra Baixa, majestade, como me pediu ontem à tarde.

– Ah, sim, é verdade. E Agnes como está?

– Muito bem, senhor, mandou lhe dizer que virá visitá-lo em breve, assim que passar a época da colheita.

– Ordens para essa tarde?

– Preciso que Elias assine aquele contrato de comércio. Ele já fez isso?

– O rei Elias está em Dubin, majestade, mandou um mensageiro essa manhã e disse que, assim que voltar, passará aqui para falar sobre o acordo.

– Chegou uma carta de Nevin hoje de manhã. Ele diz que estará muito ocupado para aparecer na festa de noivado – disse o rei sorrindo.

– Já era esperado, meu senhor – respondeu Leander, apanhando sua prancheta.

– Algo mais, majestade?

– É tudo. Continue com os preparativos e fique atento com a Ala Norte , Alethea me disse que esta manhã já chegaram alguns convidados. Acredito que nos próximos três dias o movimento será intenso.

– Isso é tudo.

Capítulo 4 – O Castelo

Quando Leander retornou para ver Sâmia, ele a encontrou enrolada numa toalha.

– Sâmia, pensei que estaria pronta.

– Eu não sei o que vestir, o que devo usar?

– Tudo que está neste quarto é para seu uso pessoal, escolha o que quiser. Vou executar mais algumas ordens e volto em minutos para te levar.

Embora estivesse num lugar que detestasse com aquele homem que detestava, ela não podia negar a satisfação que tinha por ver todos aqueles trajes, a decoração. Estava vivendo um conto de fadas. Por quantas vezes em sua infância se imaginou morando em um castelo com um lindo príncipe, mas o que conseguira era estar em um castelo com um demônio; isso sim.
Ela se encheu de raiva pelos sonhos frustrados e puxou um vestido qualquer.

Leander e Sâmia atravessaram o longo corredor e alcançaram a escadaria. À medida que avançavam, ela se encantava ainda mais com o que via: as paredes em pedras rústicas eram iluminadas por grandes tochas fixadas em um ornamento de mármore, embora estivessem apagadas durante o dia.

Começaram a descer a escadaria de madeira forrada com um carpete vinho; pelas paredes havia decorações em gesso, antigos cavaleiros e damas que passeavam com suas aias.

Ela contou o total de três lances de escada e, como que lendo seus pensamentos, Leander falou:

– Essa é a área real do castelo; na Ala Sul ficam apenas quem o rei considera pessoas especiais, ou seja, ninguém – ele disse em um sorriso amistoso.

– Não é verdade – ele continuou – os reis e rainhas dos demais reinos ficam nessa Ala quando chegam, já os demais nobres ficam sempre entre a Norte e a Oeste; a Ala Leste é praticamente reservada aos criados e ao exercito pessoal.

– Você está no terceiro andar; o quarto do rei fica no segundo e, o dia que quiser me encontrar, estou aqui – disse, apontando para a primeira porta do lado esquerdo no primeiro andar.

– Aqui chamamos de Área Transitória. Pode ser confuso no começo, pois, se começar contar do Hall de Entrada, você não estaria no terceiro andar e, sim, no quinto, mas, se começar a contar a partir do primeiro piso reservado aos quartos, estará no terceiro. Aqui chamamos assim, pois não estamos no Hall e nem nos dormitórios; temos aqui várias salas, algumas de jogos.

Sâmia sentiu seu corpo retrair e Leander, percebendo o que havia dito, apressou-se em dizer:

– Mas é claro que prefiro te mostrar algumas esculturas.

E a levou para outra sala para mostrar algumas coleções. Por um momento, ele esquecera que o tormento dela havia começado jogando os jogos do rei.

Na sala de refeições, o rei, sentado à mesa, conversava com sua governanta.

– Alethea, mande servir o almoço e não se esqueça de checar se todos os convidados das Alas Norte e Oeste estão sendo bem recebidos.

– Claro, Majestade.

– Tem certeza que não precisa de ajuda? Entendo que com o noivado está tendo muito mais ocupações.

– Não, meu Senhor, está tudo na mais perfeita ordem.

O rei se levantou e estava saindo quando Aédi, que ouvia a conversa, o chamou.

– Meu Senhor, a jovem que está com Leander…

– Sim?

– Ela precisa de uma ama, posso servi-la?

Jahean a olhou demoradamente. Era óbvio que ela nada mais queria além de descobrir o que Leander fazia com uma mortal no castelo. Por outro lado, conhecendo Aédi sabia que qualquer coisa que Sâmia fizesse ele seria o primeiro a saber.

– Que seja.

– Obrigada, majestade.

Ele não a ouviu agradecer, já fazia suas botas ecoarem pelo castelo rumo a seu escritório.

Leander fez as apresentações à governanta que olhava Sâmia curiosamente. No entanto, extremamente discreta e competente como era, não deixou transparecer nenhuma emoção; foi gentil em seus cumprimentos e mandou que o almoço fosse servido a eles e depois foi cumprir as ordens do rei. Aédi entrou assim que viu que eles se encontravam sozinhos.

– Leander, sua majestade me ordenou que servisse de ama a sua convidada.

Sâmia olhou para aquela mulher a sua frente e imediatamente soube que algo estava errado. Seus olhos eram sarcásticos como os do rei e seu tom de voz era nada mais que arrogância.

– O quê? Não, eu mesmo cuidarei para que ela tenha uma dama de companhia.

– Creio que não me entendeu, estimado Leander, foram ordens do rei, não acredito que esteja contestando uma ordem de sua majestade, certo?

Leander estreitou os olhos e Sâmia teve certeza de suas suspeitas. Ali estava uma criatura que tornaria sua estada ainda mais desagradável.

– Foi o que pensei – ela disse, perante nenhuma resposta de Leander e saiu da sala, dizendo que iria ao encontro de Sâmia dentro de duas horas para instruí-la sobre os costumes do castelo.

– Quem é essa mulher? – Sâmia perguntou assim que a criada saiu.

– A maldade em pessoa – disse Leander, contrariado.

– E claro que a melhor amiga de Jahean.

Leander pareceu surpreso e virou-se para ela.

– Não, tem uma opinião errada sobre o rei, ele não é amigo de Aédi e tampouco gosta dela.

– É mesmo? E por que a escolheu para me acompanhar? No mínimo para me manter longe do caminho dele.

– Talvez, mas eu acredito que a ideia tenha partido dela e não dele. Ela é do tipo que não se aguenta enquanto não se intera de todos os assuntos e se satisfaz apenas quando está passando informações sobre as pessoas.

O almoço transcorreu tranquilo, e Sâmia ainda não podia acreditar que estava novamente naquele mundo. Por mais que fosse difícil para ela admitir, desta vez a estada estava muito mais agradável: ela estava dentro do castelo e não perdida na floresta, rodeada de demônios e lutando por sua vida.

Outra coisa que chamou a atenção dela instantaneamente foi os peões do tabuleiro que conheceu no passado e não estavam mais ali. Eles tinham cerca de um metro e meio e tinham vida própria. Ela nunca chegou a pensar que existissem pessoas naquele mundo além de Jahean, e agora, com tudo que havia visto desde que chegara, ela começava a achar que nunca mais veria as peças de tabuleiro ou o leão que encontrara na floresta bem como nenhuma das outras criaturas com quem compartilhou horas de desespero.

“Ele deve ter criado tudo apenas para me atormentar” – ela pensava enquanto observava o movimento dos criados.

Também havia Leander, que parecia ser tão gentil, tão diferente daquele maníaco que a aterrorizava apenas por prazer.

– Tenho uma hora antes de voltar as minhas obrigações, quero lhe mostrar o jardim.

Sâmia sorriu. Ele sim era um homem que sabia tratar as mulheres. Agora que já estava começando a se acostumar de estar ali novamente, pôde perceber o quanto ele era bonito, apenas um pouco mais baixo que o rei, mas com um corpo escultural e os longos cabelos loiros; e aqueles olhos azuis que, quando sorria, tinham um brilho ainda mais intenso.

Eles deixaram a Sala de refeições e passaram pelo Hall de Entrada, era imenso. Ela ficou se perguntando quanto tempo eles deveriam perder somente em percorrer cada cômodo. Na entrada do castelo havia duas enormes portas de madeira abertas e, ao lado de cada uma, estava um guarda lindamente uniformizado.

– Isso parece um sonho.

– Olha só! Para quem não queria vir, até que sua estada não está sendo assim tão desagradável.

Leander sorria.

– É, mas não posso esquecer por que estou aqui e essa é a parte mais desagradável.

– Venha, vou lhe apresentar um dos guardas.

Assim que se aproximaram, os guardas fizeram reverência aos dois e Leander os apresentou.

– Estes são Dione e Leonas. Se precisar de qualquer coisa que venha de fora, como roupa, sapatos ou qualquer objeto de uso pessoal, peça a Leonas – disse, apontando ao guarda de sua direita.

– Ele fará com que chegue até você o que pedir. Além de fazer parte da guarda real, é um dos nossos melhores homens.

Leander colocou a mão no ombro de Leonas, que sorria satisfeito.

– Obrigado, senhor.

Eles desceram os degraus de pedra e foram em direção ao jardim.

O gramado era de um verde claro e muitas flores decoravam o local, a fonte branca se destacava no meio de tantas cores.

– Nunca imaginei que aqui pudesse ser tão lindo…

– Há muito mais para ver, mas não tenho muito tempo, embora não nos faltará oportunidade.

– Não ultrapasse aquelas árvores – Leander disse, apontando ao norte.

É claro que ela não tinha a menor intenção de voltar ali, era exatamente o último lugar para onde ela iria; já tivera muita sorte de sair viva uma vez.

– O caminho é difícil e acabaria se perdendo – ele continuou.

Mas ela sabia que não era somente o risco de se perder que havia naquela floresta.

Eles se sentaram nos bancos e ficaram conversando mais um pouco, enquanto apreciavam o lindo dia de sol. A vista do castelo do lado de fora era muito maior do que se lembrava. Embora nunca estivesse chegado tão perto, não imaginava que seria daquela forma. Tentou contar os andares, mas os perdiam de vista.

– Há alguma coisa mais que precise antes de eu ir?

– Poderia arrumar uma sala para mim? Não precisa ser grande, um lugar onde eu possa pintar alguns quadros.

– Mas é claro que sim; até amanhã terá o que precisa, mas agora preciso ir, não quero aborrecer Jahean. Vou levá-la de volta e lhe mostrar a biblioteca.

Sâmia se animou. Ela adorava ler e, sendo um castelo, podia imaginar quantos milhares de livros não teria disponível. Ela tinha certeza que o plano de Leander não daria certo: Jahean nunca se aproximaria dela e ela seria muito grata por isso. Então, tudo que tinha que fazer era passar três meses lendo, pintando e fazendo seu trabalho. Assim, quando o prazo terminasse, ela estaria de volta e completamente curada.

 

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Livros de Veronica Roth (literatura fantástica)

Veronica Roth – Divergente – Vol.1
Veronica Roth – Insurgente – Vol 2
Veronica Roth – Convergente – Vol 3

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Livros de Anne Rice (literatura fantástica)

Anne Rice – A Dádiva do Lobo
Anne Rice – A Hora das Bruxas Vol. I
Anne Rice – A Hora das Bruxas Vol. II
Anne Rice – Lasher
Anne Rice -Talto
Anne Rice – Violino

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Livros de Bernhard Hennen (literatura fantástica)

A Cacada Dos Elfos – Elfos – Vol 1 – Bernhard Hennen
As Estrelas Dos Albos – Elfos – Vol 2 – Bernhard Hennen
Pedras Dos Albos – Elfos – Vol 3 – Bernhard Hennen

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Livros de CSLewis (literatura fantástica)

CSLewis – Como Cronicas de Narnia – Vol I – O Sobrinho fazer Mago
CSLewis – Como Cronicas de Narnia – Vol II – O Leão, a Feiticeira e O Guarda-Roupa
CSLewis – Como Crônicas de Nárnia – Vol III – O Cavalo e Seu Menino
CSLewis – Como Cronicas de Nárnia – Vol IV – Príncipe Caspian
CSLewis – Como Cronicas de Narnia – Vol V – A Viagem Do Peregrino Da Alvorada
CSLewis – Como Cronicas de Nárnia – Vol VI – A Cadeira de Prata
CSLewis – Como Cronicas de Nárnia – Vol VII – A Ultima Batalha

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Livros de J.K. Rowling (literatura fantástica)

J.K. Rowling 1 – Harry Potter e A Pedra Filosofal
J.K. Rowling 2 – Harry Potter e a Câmara-Secreta-revisado
J.K. Rowling 3 – Harry Potter e o Prisioneiro de Askaban
J.K. Rowling 4 – Harry Potter e O Calice de Fogo
J.K. Rowling 5 – Harry Potter e A Ordem da Fenix
J.K. Rowling 6 – Harry Potter e O Enigma do Principe
J.K. Rowling 7 – Harry Potter e As Reliquias da Morte
Ivan Finotti e Juliana Calderari – O Destino de Harry Potter

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Livros de J.R.R. Tolkien (literatura fantástica)

A Lenda De Sigurd & Gudrun – J. R. R. Tolkien
As Cartas de Tolkien (incompleto)- J. R. R. Tolkien
A Sociedade do Anel – Vol 1 – J. R. R. Tolkien
As Duas Torres – Vol 2 – J. R. R. Tolkien
O Retorno do Rei – Vol 3 – J. R. R. Tolkien
Arvore e Folha – J. R. R. Tolkien
As Aventuras de Tom Bombadil – J. R. R. Tolkien
Contos Inacabados – J. R. R. Tolkien
Mestre Gil de Ham – J. R. R. Tolkien
Os Filhos De Hurin – J. R. R. Tolkien
O Hobbit – J. R. R. Tolkien
O Senhor dos Aneis (volume unico) – J. R. R. Tolkien
O Silmarillion – J. R. R. Tolkien
Roverandom – J. R. R. Tolkien

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Livros de Lauren Kate (literatura fantástica)

Lauren Kate – Fallen vol.1 Fallen
Lauren Kate – Fallen vol.2 Tormenta
Lauren Kate – Fallen vol.3 Paxão
Lauren Kate – Fallen vol.4 Êxtase
Lauren Kate – Fallen vol.5 Apaixonados

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Livros de Marion Zimmer Bradley (literatura fantástica)

A Senhora Da Magia – As Brumas De Avalon – vol 1 – Marion Zimmer Bradley
A Grande Rainha – As Brumas De Avalon – vol 2 – Marion Zimmer Bradley
O Gamo-Rei – As Brumas De Avalon – vol 3 – Marion Zimmer Bradley
O Prisioneiro Da Árvore – As Brumas De Avalon – vol 4 – Marion Zimmer Bradley
A Dama do Falcao – Marion Zimmer Bradley
Filha da Noite – Marion Zimmer Bradley
O Sol Vermelho – Marion Zimmer Bradley

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Livros de Trudi Canavan (literatura fantástica)

Trudi Canavan – A Trilogia do Mago Negro – Livro 01 – O Clã dos Magos
Trudi Canavan – A Trilogia do Mago Negro – Livro 02 – A Aprendiz
Trudi Canavan – A Trilogia do Mago Negro – Livro 03 – O Lorde Supremo

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