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Caramba (fantasia)

Sonhei sonho louco. Veio um líder e convenceu as massas: Doem tudo o que tiverem para os corruptos. Seus poucos bens se tiverem, alguma poupança amealhada em trabalho duro em penosos anos. Doem tudo ou quase tudo.  

Guardem o mínimo de comida para si e os seus. Vamos embuchar os malditos corruptos com o que mais gostam o dinheiro. Haveremos de produzir tanto e tanto que eles um dia irão se fartar. 

E muitas pessoas que não estavam no poder, gente do comum, correram a ficar ao lado deles. Esses também se fartaram no louco fausto. Porém surgiram empresários que com enorme dificuldade conseguiam mais matéria prima e de sua produção apenas ínfima parte ia para suprir as necessidades do povo. O resto enviavam para os corruptos, faziam acreditando que o líder estava certo. Não questionavam o fim dessas atitudes, apenas faziam produzindo com maior esmero.  

E o povo depois de mais um dia de labuta não iam a nenhum templo, não olhavam para o céu clamando. Apenas reuniam entre si e pela primeira vez sentam o cheiro do seu próximo. Ah, era um cheiro bom de verdade um cheiro que sempre estivera ali, mas que fora embotado pelas mas vivências de tantas e tantas gerações.  

Bastava nesses encontros noturnos e de barrigas quase vazias se olharem, se tocarem. Então nascia uma música entre eles, e cantavam e cantavam e sorriam com forças redobradas.  

Voltavam e no outro dia produziam mais e mais. O escárnio dos corruptos que lhes levava o trabalho penoso não doía. Os amores verdadeiros foram também renascendo e os filhos dessas ligações logo cresceram. Quando já estavam adultos, juntamente com os pais puderam presenciar uma coisa estranha. Começou a surgir entre os corruptos uma espécie de câncer até então desconhecido. Às vezes surgia no ânus como foi o caso do deputado Nilton Cardoso e de sua excelentíssima ex- esposa Maria Lúcia, outras vezes no rosto como o que nasceu em cima do bigode do Sarney. No Lula nasceu terrível pústula nos dedos, no Zé Dirceu nos lábios, no Collor nos olhos, no Renan Calheiros na língua. Assim foram acometidos rapidamente, questão de dias em todos os corruptos maiores ou menores. Pegaram eles desesperados todos os aviões disponíveis no Brasil, suas imensas fortunas e foram se tratar nos Estados Unidos. Os jornais depois publicaram em furo bombástico que eles contaminaram por lá quase toda a população americana. Quando todos se foram, no outro dia era sete de setembro. O povo verdadeiro e bom finalmente comemorou a pátria livre e cada um viveu para sempre com o que é de seu e sempre e sempre a serviço do próximo. A bandeira ostentava orgulhosa novo dístico: O Brasil é você! Duro foi depois acordar.

Autor: Carlos A Funghi

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Uma Fábula: De Lagartas e Maracujás (fantasia)

Em uma terra que não mais existe e num tempo tão longínquo  que coisas e pessoas careciam de nome, existiu uma grande floresta negra e úmida que ninguém jamais ousou atravessar  e que guardava no centro uma pequena aldeia muito linda, com flores, pássaros, árvores, riachos, pequenos e grandes animais, dias brilhantes e noites amenas.

As pessoas, porém, não eram felizes porque um antigo ancião vaticinara que, um dia, a grande floresta cresceria ainda mais e engoliria toda a aldeia, suas flores, suas árvores, seus riachos, seus pequenos e grandes animais, seus dias brilhantes, suas noites amenas e os humanos que nela também habitavam.

Entre os habitantes  havia um menino tão franzino quanto  medroso, que crescera e virara um homem de peito largo, sorriso miúdo e olhos espertos. Como quase tudo na aldeia também não tinha nome o que tinha era a curiosidade maior do que todos os medos que guardava. Com curiosidade e alegria procurava conhecer tudo à sua volta – as flores, as árvores, os pássaros, os pequenos e grandes animais: olhava cada coisa por muito tempo para ver os detalhes, as cores, os sulcos, as formas. Cheirava cada coisa que avistava para conhecer-lhe os odores, tocava-as para sentir a texturas e temperaturas, lambia, a sentir-lhes o gosto – fazendo  isso sempre e muito, com cada coisa que avistava. O homem sem nome gostava de cantar e, enquanto perdia-se em conhecer as coisas cantava, cantava, cantava … melodias que ninguém ensinou, umas tristes, outras não, mas sempre cantava e sorria enquanto olhava tudo, tocava tudo, cheirava tudo, lambia tudo.

Na mesma aldeia morava a moça bela  e estranha que havia sido tirada do  reino de seu pai por um fauno e levada para o meio da floresta para ser escrava. Após largo tempo, usando de artimanhas, logrou fugir do fauno, mas não encontrou o caminho de casa que já não era. Perdida, encontrou a pequena aldeia, seus habitantes e o homem feliz por quem se apaixonou mas nada falou, porque ainda temia ser encontrada pelo fauno. Apenas olhava aquele homem de peito largo deslocar-se de um canto para o outro, divertindo-se com as músicas que ele cantava, enchendo-se de felicidade e curiosidade quando ele vinha contar o que descobrira.

Um dia, o homem sem nome, perdido na sua insaciável curiosidade, aproximou-se  muito aos limites que separavam a linda aldeia da trevosa floresta e foi ouvido por uma das muitas bruxas que ainda habitam as mais escuras, densas   e frias matas. A bruxa se encantou pelo homem curioso e feliz e o homem curioso que era quis conhecer melhor a bruxa. Ele não sabia o que era uma bruxa e nem que era tão feia, porque ela, para atraí-lo, tomara uma poção que a deixara menos medonha, depois fez outra poção que entregou para o homem curioso que cheirou e provou e assim, enfeitiçado, nem percebia que se afastava da sua aldeia, das suas flores, árvores, pássaros, riachos, animais e da moça perdida, adentrando,  cada vez mais, o reino da bruxa, em meio à névoa, lodo e lama, que ele, enfeitiçado, nem via. Mas, às vezes, quando ia passando o tempo e o efeito da poção mágica da bruxa malvada, ele lembrava da moça perdida, e tinha saudades. Lembrava da antiga aldeia, dos pássaros, das árvores, dos riachos, dos pequenos e grandes animais e queria voltar para ver tudo isso de novo. Às vezes, conseguia fugir e encontrava a moça perdida, e falava com ela, e cantavam juntos, e juntos brincavam com os pequenos animais  e sorriam um para o outro, os dois para tudo o que viam, mas a bruxa o fazia voltar para o seio da floresta e dava-lhe um pouco mais da poção diabólica que o fazia permanecer por mais tempo em meio à névoa, a umidade, o lodo e a lama.

O homem, de peito largo, sorriso pequeno e olhos espertos já não cantava mais e a floresta não tinha nenhum encanto. Queria voltar, mas a  bruxa, feia e má, o prendia.

Por duas vezes, a moça perdida, que amava o homem curioso, o retirou da floresta e por duas vezes ele voltou para a morada da bruxa. Quando isso acontecia, a moça perdida sentava-se junto às flores e árvores e pássaros e pequenos animais e chorava. Chorava muito e as lágrimas dos seus tristes olhos transformavam-se em pequenas e coloridas conchas que ela depois recolhia e usava de adorno em suas vestes encantando a todos que apreciavam-lhe a beleza que nem imaginavam, era feita de pura tristeza.

Uma noite a moça perdida ouviu no seu coração que o homem curioso que já não era feliz, a chamava – correu ao seu encontro auxiliando na fuga que, desta vez, pensava ser definitiva.

Naquela noite, na pequena aldeia, caiu, pela primeira vez, imensa tempestade, muitos foram os raios, o céu rugia, os humanos, desesperados, corriam de lado a lado, sem ter e nem saber para onde ir , chocando-se uns com os outros.

A moça perdida entendeu que a bruxa descobrira o acontecido e lançava contra todos a sua ira, clamando vingança. Se encheu de coragem e foi ter com a bruxa que em meio a ameaças prometeu poupar a população e ao próprio homem curioso, que preferia morto a feliz, se ela, a moça perdida o devolvesse. A moça perdida, sabendo que não poderia ser feliz com o homem curioso, sob ameaça da bruxa, disse que não lhe poderia devolver, mas poderia deixá-lo ir, se assim quisesse. A bruxa concordou. A moça perdida, que agora também era triste, sem poder contar ao homem curioso que fizera um trato com a bruxa, ao aproximar dele, mostrou-se, igualmente, bruxa: vociferou, babou, ameaçou e expulsou dali o seu homem curioso que nesta hora, sen entender,  se mostrou triste, queria ficar …

e, assim, partiu.

A moça perdida voltou a  chorar, mas desta vez, as lágrimas não viraram conchas coloridas ao contrário,  corriam-lhe a pele e na pele se apegavam, formando crostas espessas e viscosas. Ao mesmo tempo, para sempre triste,  lembrava os abraços do peito largo do homem curioso, lembrava os lábios de pequeno sorriso, lembrava os olhos espertos e nessa lembrança, sem água ou alimento, definhava.

O homem curioso também já não era feliz, mas fortalecido pela coragem da moça perdida que o libertara da bruxa – fera,  recusou-se a voltar para a floresta escura, sombria e úmida. Recusou os novos chamados da bruxa e as novas poções que ela lhe oferecia. Sempre curioso, encontrou na pequena aldeia, uma pequena trilha e por ela seguiu, procurando outras aldeias, outras flores, outras árvores, outros pássaros, outros pequenos e grandes animais, outras cores, outros cheiros, outros gostos e, assim, perdeu-se também pelas inúmeras grandes e pequenas aldeias que existiam além da sua e além da floresta densa e amaldiçoada.

Quando a bruxa má percebeu que nunca mais teria o homem curioso, a quem mantinha apenas por capricho e pelo prazer que sentia em impedir-lhe olhar, cheirar, tocar, lamber e – cantar, fez o céu rugir mais uma vez e lançou sobre o homem curioso um poderoso feitiço, dando-lhe raízes, prendendo-o definitivamente ao solo e feito em planta não poderia mover-se ou cantar – mas conservando ainda a curiosidade que nasceu consigo, em grande esforço, esticava os galhos, tentando alcançar a terra, outras plantas, árvores e flores, descia e subia por tudo o que pudesse alcançar, ao final de algum tempo, nasceram-lhe lindas flores, grandes como seu peito, arroxeadas como as chagas que ainda trazia no coração, mas de beleza tão exuberante como outrora havia sido a sua própria alma, atraindo a admiração de quem a pudesse contemplar. Caídas as flores, surgiram-lhe os primeiros frutos: redondos como os olhos da moça perdida, amarelo como o sol dos dias radiantes de sua antiga aldeia, rugosos e azedos como seu coração agora ressequido e, pela primeira vez, naquele antigo e distante reino, uma coisa ganhou o nome: maracujá.

A moça perdida, na primitiva aldeia, definhou até o tamanho de uma pequena folha, já ninguém lhe poderia reconhecer porque já não possuía a antiga beleza, as lágrimas por tanto tempo choradas e aderidas á pele, como crostas roubaram-lhe as formas e, sem poder mover-se como antes, rastejava  por entre as árvores e flores. Feia assim, foi rejeitada por todos e, pela segunda vez, no antigo e longínquo reino, uma coisa ganhou nome: lagarta.

Ninguém percebeu quando deixou a aldeia e, como por instinto, sem saber, seguiu a mesma trilha por onde antes, saíra o homem curioso. Atravessou florestas, riachos, outras pequenas e grandes aldeias  até encontrar uma estranha árvore, que não buscava o céu, como as outras, mas ao que estava  volta.

Parecia árvore sem o ser, não tinha tronco forte ou galhos robustos e hirtos, mas apenas um sem número de tentáculos que a tudo buscava enquanto exalava um exótico odor que fazia vir à lembrança o mesmo odor do homem curioso atraindo a pequena e rastejante criatura que, ao alcançar-lhe as folhas, assim como o faria, se pudesse, o homem curioso, olhou atentamente, apreciou a cor, tocou e sentiu a textura, aspirou o odor e, recordando o seu homem curioso, lambeu e beijou, sentindo, ao mesmo tempo, todas as possíveis sensações e, mais ainda, o sabor dos lábios de sorriso pequeno do seu homem curioso e, assim, impelida pelo  faminto coração e pelo insitinto, pôs-se a devorar as folhas e  os finos galhos.

O homem curioso, agora transformado em planta, se deixava devorar, como antes permitiu-se devorar pelo amor da moça perdida, sentindo nas pequenas e insistentes mordidas o mesmo prazer que antes sentiu com os muitos beijos que recebeu da moça perdida e que agora recordava.

Como vaticinara o velho, o antigo reino há muito desapareceu na terra, tragado pela trevosa floresta deixando como  única lembrança, o  que dele resta no nosso mundo: um pé de maracujá incessantemente devorado por uma lagarta que jamais voltará a ser borboleta porque já o fora antes, em metamorfose invertida.

Autor: Rogerio Lenac

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Uma deusa alugada (fantasia)

Certa vez estava andando por uma rua movimentada quando me deparei com uma beldade. Nunca tinha visto um par de pernas tão perfeitos como aquele. Me peguei olhando, ou melhor, analisando de baixo pra cima de cima pra baixo aquele monumento que estava ali, a poucos metros de mim.

Por um breve momento ela me flertou. Naqueles poucos segundos, tudo a minha volta parou. Não escutei nenhuma buzina, freadas, conversas, não via ninguém a minha frente, não pensava em nada. Minha atenção estava inteiramente voltada a ela. Uma semi-deusa tinha cruzado meus caminhos. Céus! Quanta sorte!

Ela passou por mim e deixou aquele cheiro doce no ar. Senti minhas narinas entupidas de tanto frescor, tanto prazer. O vento de suas passadas rápidas me despenteou e mudou a direção do meu caminho. Meus instintos masculinos me obrigaram a segui-la. E assim fui, cego, zonzo, tropeçando por aquela rua não mais movimentada…

Depois de alguns quarteirões ela percebeu que eu estava a seguindo. Dobrou várias esquinas e dava disfarçadas olhadas pra trás constantemente. Ela queria sacar minhas intenções. Ahh se ela soubesse o quanto estava disposto a lutar por um minuto ao lado dela…

Íamos por ruas e ruelas que nunca tinha andado antes. A curiosidade me impelia. A compulsão me empurrava. Aquele quadril apertado em uma saia rosa me hipnotizava. Seus cabelos deixavam um aroma excitante no ar. Tudo isso funcionava como uma isca, e a presa dessa caçada era eu.

Acelerei meu passo a fim de frear aquele anjo e acabar com toda aquela tensão. Ela também se apressou. Estávamos brincando de cão e gato. Ela virava à esquerda, eu também, ela corria e eu corria atrás, ela atravessava a rua e eu a seguia.

Num dado momento minha excitação me deu tanta força que comecei a correr tão rápido ao encontro daquela mulher e, quando ia tocá-la ela se virou e me desarmou num só olhar.

Seus lábios eram carnudos e estavam adornados com o vermelho mais puro que já vi. Daquela distância pude sentir o calor daquela face. Seus cabelos loiros pareciam brincar com o vento. Aqueles olhos apaixonantes me prenderam e ela me disse:

– Moro aqui. Se quiser, pode entrar…

Demorei muito pra entender aquilo e quando recuperei a consciência, ela não estava mais na minha frente. A porta da casa dela estava entreaberta. Céus! Ela me convidou para entrar!

Entre alguns passos largos e algumas salivadas cheguei até a porta e… Entrei num Paraíso. Logo na sala eu avistei a oitava maravilha do mundo. Aquela pedaço de mau caminho estava dentro de uma lingerie branca deitada no sofá. Aquilo era a mais sólida manifestação do pecado.

– Você não quer se sentar aqui? – perguntou melosa.

Seria um crime inafiançável ignorar aquele convite. Sentei no sofá e me pus a admirar aquelas coxas torneadas, aqueles seios saborosos. Que conjunto, meu Deus!

Ela se inclinou próxima de meu rosto sem cor, segurou minhas mãos trêmulas e me acalmou com um longo e molhado beijo. Quando percebi que a coisa ia esquentar, coloquei a mão no bolso a procura de um preservativo. Não encontrei!

A lei de Murfy nunca falha nessas horas! Como eu podia estar despreparado num momento daqueles?!

Disfarcei minha preocupação perante a beldade, pedi licença e fui até o toalete. Joguei água na cara e disse pra mim mesmo olhando no espelho:

– Você não vai perder essa chance.

Foi depois disso que tive a grande idéia. O plano era ir até a farmácia mais próxima e comprar um preservativo. Mas como eu iria sair dali? Logo veio a solução: Sairia pela janelinha do banheiro e correria até a farmácia, depois voltaria pra ter aquela mulher encantadora em meus braços.

Serei tão rápido que ela nem notará que saí daqui.

Foi o que fiz. Saí afoito pela estreita janela e corri pelo gramado lateral da casa. Foi ai que encontrei meu sogro rindo e me aplaudindo:

– Eu até que desconfiava de você, jovem! Mas você me surpreendeu! Pensei que cairia nos encantos da moça! Bem-vindo à família.

Respirei fundo e respondi enxugando a testa:

– Jamais, seu Antenor, jamais…

AutorJáder Rodrigues

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Quando o susto cresce mais que o espanto (fantasia)

Ouviu-se um estrondo ensurdecedor. A cama movia-se desconcertadamente. Mário despertou temeroso, mal conseguiu organizar as ideias, já estava pronta a conclusão, esperando o seu desespero, certamente aquilo era assunto de algum fantasma, a mando de alguém invejoso.

— Nyadayeo.!!!!(socorro!) – Gritou Mário, segurando-se na sua cama, igual mulher em dia parto. E foi quando o espanto cresceu mais que o próprio susto, espreitou para todos os cantos de sua cama, e nada. Sussurrou:

— Mafalda…! – E a voz estava tão tímida que nem se ouvia. Olhou para si mesmo, em confessada decepção. Como podia ser, logo ele, tão garboso, tão crente em si mesmo, ter tamanho medo. Ajeitou-se um pouco mais, recompôs-se, que aquela não era a postura que convinha a um filho de um régulo, tão afamado. Em tom mais sonante, quase como quem cobra satisfação, indagou:

— Quem ousa, perturbar o meu sono assim?

E somente o silêncio dignou-se a respondê-lo. Abanou a cabeça, esboçou um sorriso, e viu o quanto havia sido tolo. Até que ouviu uma voz, tremula, quase que em choro.

— Ajuda-me!!! Ajuda-me Mário!!!
Mário encolheu-se em seus lençóis, mais encolhido que um caracol.

— Não te ajudo!!! —exclamou — Eu não me meto nos assuntos do além. Mas digo-te uma coisa, e é melhor escutares bem, se levas-te a minha mulher é melhor saber que não vou lhe aceitar de volta. Já vieram uns assim como tu, e lhe devolveram dia seguinte, alegando insuficiência de verbas. É que sabes, ela é muito espaçosa. As vezes até penso que ela é peso mais pesado que a própria mercadoria.

— Para de falar bobagens seu parvo! – Gritou a mulher.

Mário espreitou para o lado esquerdo da cama, ainda coberto pelo lençol. Tinha somente a face descoberta.

— És tu mesmo Mafalda? Vá responda-me Mulher!
— Tira-me do chão Mário!
— Haha..! Mulher você é gorda! E é melhor acreditar no teu marido. Juro! Verdade verdadeira. Faltou quase para pouco para te levarem. Ias de uma vez para todas, quem sabe assim, eu enriquecia.

Autor: Drume Draan

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O sapo Chinês (fantasia)

Sonho… Essa é a primeira palavra que me vem à cabeça quando penso em Charles, ele era forte, astuto, um pouco esforçado… Ele era um sapo… Um sapo sonhador, melhor dizer assim. Talvez você, ao ler estas linhas, poderia tentar imaginar como era esse pequeno sapo, acho pouco provável que acerte, não era um sapo comum, não era um desses que a gente encontra na rua, ele era um pouco mais humano.

 Todos os dias que o vi, Charles estava conversando com sua amiga, a qual chamava de Lady Clér, uma pedra pequena e insignificante que escondia uma beleza notável. Morava nas margens do rio Flan, perto da casa do primo de Charles, mas que não ficava muito longe da sua. O sapinho e a linda pedra adoravam conversar, passavam tardes inteiras juntos, falavam sobre tudo, moscas, vermes, coisas saborosas como essas, porém, tinha um assunto no qual, segundo me falavam, no qual eles sempre paravam e pensavam, eles se indagavam sobre o que os rodeava e debatiam-se ao perguntar, um ao outro, qual o sentido da vida? Talvez essa seja um pergunta cruel de mais para aqueles dois amigos, pelo que sei, eles logo mudavam de assunto, ao saber que não seria eles quem responderia essa maldição de esfinge.

 Num dia de segunda, estavam eles no fim da tarde, como de costume conversando, chegaram ao velho ponto da velha pergunta, pensaram e decidiram ir mais além, tentar procurar um pouco mais de respostas. À direita do lado Flan, onde Lady Clér morava, existia um montanha muito alta, tão alta que impressionava a todos que ali moravam, imaginaram então que o sentido da vida estivesse no topo daquela imensa montanha, para se saber a resposta, caberia apenas alguém subi-la, Chamaram mais amigos para um possível escalada, eles imaginaram convocar um grupo, mas ninguém se importou, achou loucura escalar aquela montanha, entoa, restou apenas à Charles a tarefa, Lady Clér até que tentou ir junto com ele, mas seria um peso a mais para o pobre sapinho, então, Charles subiria sozinho.

 Era para os preparativos durarem uma semana, porém, não durou três dias, a ansiedade mesclava com a curiosidade do que poderia existir no alto daquele monte de terra. Pronto, tudo acertado, precauções feitas, fizeram suas preces, suas orações, despediram-se e não mais que de repente saiu o sapo sonhador em busca da grande resposta.

 A jornada começou, mais ou menos, duas horas da tarde quando, forte e confiante de que nenhum perigo aconteceria – imagino que sua ansiedade era tamanha que deve ter ido o mais rápido possível – já tinha se passado três horas e muitos e muitos metros. Chegando a um certo ponto, Charles deparou-se com uma caverna, já estava cansado, observou em volta e notou que só poderia seguir sua jornada se entrasse naquela caverna, medo ele tinha, é claro, mas o que poderia fazer, era entrar ou voltar, era uma caverna muito escura e longa, ele seguia tocando em suas paredes para poder se guiar, com uma coragem que não se sabia de onde vinha, foi indo caverna à dentro, quando – num susto – encontrou uma porta, ele a examinou por alguns instantes e, sem demora, bateu. Bateu por um bom tempo, até que algo a abriu, era um homem alto, voz consoladora, cabelos brancos, o pequeno sapo ficou impressionado, pois, nunca tinha visto um homem de tão perto ou que morasse naquela montanha, com voz trêmula começou:

 – Olá meu bom homem, estou subindo essa montanha, porém, não conseguirei continuar se não passar por sua caverna, por favor, peço-lhes que me deixe passar. Falava de cabeça baixa.

 – Calma, amigo, claro que deixarei você passar, te ajudarei e não se intimide entre, por favor, falava enquanto acenava para Charles entrar na caverna. Vejo também que está cansado, continuava, Por favor, acompanhe-me no jantar, ficarei honrado.

 – estou com fome e cansado, por isso, não recusarei seu convite, obrigado, mas como o senhor se chama?

 – Pensei que não fosse perguntar, meu nome é Nelson Mandela, e você, como se chama?

 – Me chamo Charles, somente Charles.

 – Diga-me Charles, o que faz você, um sapo tão pequeno, escalar uma montanha tão alta?

 – Estou atrás de uma resposta!

 – Que tipo de resposta, filho, qual a pergunta. Talvez eu possa te ajudar, falava Mandela com um interesse cada vez maior.

 – Se o senhor sabe, meu bom homem, por obséquio, diga-me para que minha viagem seja mais curta, estou atrás do sentido da vida, creio eu que encontrarei no alto da montanha a resposta.

 – É, realmente é uma pergunta muito interessante, porém, eu sei respondê-la. Falava altivamente.

 – Como, então diga-me. Interessou-se Charles.

 – O sentido da vida é a LIBERDADE, o sentido da vida é a vida meu rapaz.

 – Como assim? Perguntou Charles.

 – Vamos pense comigo, durante 27 anos estive preso, almejei a liberdade, sonhei com a liberdade do meu povo, hoje que a consegui, tenho nas minhas mãos o sentido à minha existência.

 – É um ponto de vista senhor Mandela, exclamou Charles, porém, eu sou livre e ainda sim não encontro sentido para a vida.

 – Muito bem rapaz, entendo-te, acho que não te ajudei como queria, mas tenho certeza que, no decorrer da sua viagem, achará uma resposta suficiente, boa sorte, falavam enquanto jantavam. Após o jantar, Mandela convidou Charles para dormir, que recusou.

 Despedida feita, Charles saiu da caverna pelo quarto onde Mandela lhe mostrou, sendo esse o único caminho para continuar a viagem, ele subiu mais alguns metros até começar a chover muito forte, uma verdadeira tempestade, o sapinho se abrigou numa pequena e rasa gruta, lá ele passou a noite até cessar a chuvarada, teve frio e medo e, é claro, um grande remorso por não ter dormido na casa daquele homem. Ele se sentiu preso, impossibilitado em continuar, pensou então em liberdade.

 Passado a noite inteira, ele acordou quando o céu não tinha nenhuma nuvem chuvosa, comeu algumas moscas, e retornou a caminhar, andou uma tarde inteira até encontrar outra caverna, sem pensar muito, pois sabia que era o único modo de prosseguir em viagem, entrou sem hesitar, contando com suas experiências em cavernas, como da noite passada, ele andava adentro até encontrar outra porta, maior que a anterior, olhou por alguns segundos, acho que Charles estava com muito medo, mas não queria transparecer, bateu e algum tempo depois foi atendido, era um homem alto e estranho, lunático, olhou fixamente para Charles, de cima a baixo – que ficou constrangido – e perguntou:

 – Acaso não vistes por aí meu amigo?

 – Que amigo, espantou–se o sapo.

 – Um príncipe…!

 – Não, nunca vi um príncipe de perto, desculpou-se.

 -Ah sim (…) Quem é você? Exclamou o homem.

 – Sou Charles, o sapo, e você, quem é?

 – Chamo-me Antoine de Saint-Exupéry, o que faz a essa hora da manhã em minha casa? Digo, desculpe, onde estão meus bons modos, por favor, entre Charles, acrescentou Exupéry.

 – Obrigado, desculpe incomodá-lo a esta hora é que eu sou um viajante e estou escalando essa montanha, porém, não conseguirei continuar minha viagem se não passar por sua caverna, por isso, peço-lhe que me deixe passar…

 – Ah Claro, vou te ensinar o caminho que leva ao topo da montanha, mas com uma condição, que você fique para almoçar, Charles, prontamente, aceitou, pois estava com muita fome. Enquanto almoçavam, Exupéry perguntou:

 – Diga-me, o que faz um sapo tão pequeno, escalar uma montanha tão alta?

 – Estou atrás de uma resposta!

 – Que tipo de resposta, conte-me. Interessava-se Exupéry.

 – Se o senhor sabe, por favor, diga-me para que minha viagem seja mais curta, eu quero saber qual o sentido da vida e acredito que a resposta esteja no topo da montanha.

 – Essa é a pergunta, então sua jornada está acabada, eu sei qual o sentido da vida, falava Exupéry com tom heróico,.

 – Então, por favor, diga-me, respondeu Charles.

 – Essa é fácil, o sentido da vida é AMIZADE.

 – Entendo, respondeu Charles, mas não creio que essa seja a resposta, pois tenho uma grande amiga e nisso não vejo o sentido da vida. Respondeu o sapo de imediato.

 – Mas então, por que você acha que a resposta está no topo da montanha.

 – Eu não sei, eu apenas sinto, falava Charles.

(…)
– Muito interessante, falou Exupéry, poderia fazer um favor pra mim, quando souber a resposta venha aqui em casa, tudo bem? Pra me dizer.

 – Sim virei. E continuavam a almoçar, cativaram-se. Depois de algum tempo Charles despediu-se:

 – Obrigado amigo, voltarei em alguns dias e lhe contar a resposta.

 – Adeus, disse o homem, faça também só mais um favor pra mim, quando chegar lá em cima olhe para o céu e veja se o carneiro comeu ou não a flor, obrigado.

Charles ouviu, mas não entendeu, também não perguntou, entrou apressadamente onde Exupéry tinha lhe ensinado, depois de escalar mais e mais forte, totalmente determinado, viu de longe uma cobra, sentiu medo e se escondeu, ficou por varias horas, momentos intermináveis, sentiu-se só, nunca quisera tanto que sua amiga estivesse por perto. Ali, ele deu um novo sentido à amizade, até adormecer. No outro dia de manha a cobra já tinha ido embora, Charles respirou bem fundo e correu, depois de tanto correr, já quase chegando no topo, avistou uma casa, muito simples, de palha e que não oferecia muita segurança, Charles poderia facilmente passar sem entrar, pois tinha um caminho que iria em direção ao topo da montanha, mas, como viu que estava muito perto, decidiu bater na porta, só por curiosidade, batia e batia mas ninguém respondia, já impaciente resolveu ir embora, quando já estava se afastando, um homem veio em sua direção, estatura mediana, velho e muito pensativo, Charles o via mas não falava nada – ele devia estar surpreso – o homem se aproximou até tocar seus ombros:

 – Pode falar garoto, que faz, um sapo vir até minha casa?

 – Desculpe senhor, me desculpe, desculpe. Falava Charles com grande nervosismo.

 – Por favor, não fique nervoso, não me deixe sem jeito, vamos até minha casa, falava o homem enquanto segurava seu ombro em direção à sua casa, ela era modesta e sem muitos atrativos, o sapo comeu e bebeu de tudo o que ele tinha posto na mesa.

 – Diga me, querido sapo, você tem nome, qual?

 – Meu nome é Charles, senhor!

 (…)
Oh sim, se queres saber, o meu é William Shakespeare, e continuou, o que faz nesse lado tão alto da montanha?

 – Estou atrás de uma resposta.

 – Que tipo de resposta, talvez eu possa ajudá-lo.

 – Desculpe, não acho que o senhor possa me ajudar, o que procuro, a resposta que procuro está somente no alto dessa montanha, o que estou atrás é de qual o sentido da vida? Essa é a pergunta.  

– Muito bem, acho que você não terá mais que seguir viagem, eu sei a sua resposta. Falava presunçosamente Shakespeare,

 – Então me diga, e direi se é verdadeira sua resposta. Contrapôs o sapo.

 – O sentido da vida é o AMOR, o grande sentido da vida é entregar-se ao amor, sem ele, você não encontrará sentido algum à vida.

 (…)
-(por um momento Charles ficou pensativo) e se desculpou:

 – Não senhor, acho que essa não é a resposta, conheço pessoas que amam, e mesmo assim enfrentam problemas, e, muitas vezes, não se sentem felizes, continuava o sapo, já vou embora, quero chegar ao topo antes do anoitecer.

 – Tudo bem garoto, boa sorte, espero que descubra sua resposta, e que depois que a encontrar, venha aqui em casa para me contar. Gritava o homem enquanto Charles saía correndo.

 – Tudo bem, eu vou voltar… Respondia Charles, correndo o mais rápido possível pela montanha sem olhar pra trás. Nesse momento, acho que Charles já tinha esquecido completamente as dores e os incômodos, acho que naquele momento, finalmente, ele tinha achado a resposta.

 Inevitavelmente, Charles já se sentia só, seguindo rumo à montanha, ele viu uma pedra, que por alguns segundos, delirou, achando ser sua amiga, não estava acostumado a sentir-se só, pensava e pensava, e tentava imaginar como ela estaria. Quando finalmente avistou o alto da montanha, olhou fixamente, até resolver subir, eram mais ou menos uns cinco metros, ele já não ligava para o cansaço, apenas, alegrava-se, quando subiu, olhou por alguns momentos ao redor, à primeira vista não viu nada de interessante, apenas um lugarzinho pequeno, cheio de altos e baixos, sem nenhuma flor, de repente, se enfureceu, correu por todo o lugar, revirando pedras, procurando a resposta, fez isso até cansar, sentou numa pedra, a vista de lá de cima era deslumbrante, mas ele nem atentou para isso, montou sua barraca, e decidiu ficar lá por alguns dias, comeu, e foi dormir, ficou inquieto por um bom tempo, sem conseguir, e começou a refletir, se lembrou dos homens que encontrou pelo caminho, lembrou-se de Lady Clér, e pensava no que o trouxe à aquele lugar, sua busca por uma resposta que nem existia, até que adormeceu, a noite toda, ficou virando pela barraca, até que um pouco antes do sol nascer, acordou, ficou sentado, olhando como o sol nascia lá de cima, enquanto o sol não vinha ele pensava como era sua vida lá em baixo, de como era livre, de como era viver com amigos, de como era bom amar. Então percebeu que aqueles homens estavam certos, o sentido da vida está nesses três elementos, caiu em alegria e felicidade, sentiu-se renovado novamente, como no início.

 Apressadamente, decidiu voltar, logo, desceu até a casa do velho homem que ele havia encontrado, porém, encontrou apenas uma casa abandonada, velha, como se a vários anos não estivesse passado ninguém ali, correu em direção a caverna do segundo homem, andou e andou até entrar pelo buraco da caverna, e, mais uma vez, ele encontrou apenas uma paredes mal feitas, cheio de teias de aranha, sem móveis, sem porta, sua decepção era visível. Depois de mais três horas correndo chegou a primeira caverna, lembrou do homem que falava sobre liberdade, e encontrou apenas uma caverna abandonada, era como se nunca tivesse alguém entrado lá, ele ficou sem saber o que fazer, não conseguia compreender, existia uma apertura em seu coração, correu mais, até ficar de noite, onde, finalmente, chegou a terra, havia demorado três dias pra subir e menos de um para descer, correu onde sua amiga, que estava dormindo, olhou por alguns momentos e a acordou:

 – Acorde minha amiga, falava ele sem fôlego, seu amigo Charles voltou.

 – Charles, é você, finalmente voltou, estava com tanta saudade, por que demorou tanto, estava preocupada, conte-me, conseguiu chegar ao topo? Achou a resposta?

 – Sim consegui, falou o sapo ainda visivelmente cansado.

 – Então me diga… Charles então contou tudo o que tinha acontecido deixando Lady Clér curiosa e maravilhada, ela entendeu a resposta.

 Hoje eles não fazem mais essa resposta, entendem que o sentido da vida não está numa só palavra, mas, em pequenas coisas que nos tornam felizes. Se você, algum dia, estiver passando pelo lago Flan, procure esses dois, com certeza eles estarão lá, pergunte sobre essa história que contei à você, eles terão o maior prazer em recontar, e então você verá que o sentido da vida é muito maior que possas imaginar, olhe pra tudo o que tem, e seja mais feliz. E mais uma coisa, dê lembranças minhas à eles, diga que estou com saudades.

AutorDewis Caldas

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O cavalo alado que não sabia voar (fantasia)

Num reino havia um Cavalo Alado que não sabia voar. Um dia passou um passarinho branco, Kevin falou:

– Será que aquele passarinho é um anjo? – Perguntou e o passarinho disse: 

– Não, eu vim aqui para te ajudar – Ajudar em que? – a voce voar, Então eles fizeram um acordo mais Kevin tinha medo que caise do céu mais ele tirou o seu medo Por que o seu sonho era voar.

 No 1º dia Kevin teve que acordar 1:00 da manha e fazer de tudo para voar.

 A primeira regra era tentar mexer as asas e levantar. Ele fez isso mais não funcionou. Na segunda regra era esticar a cabeça, mexer as asas e levantar as patas da frente. Ele fez isso também mas não conseguia por que suas asas estavam machucadas mas o passarinho deu uma solução: Era fazer ginastica então o passarinho marcou para Sexta feira. Na sexta ele chegou alegre porque ele já estava pronto e a terceira regra era levantar a cabeça até o céu e mexer as asas. E a ai ele conseguiu. E no outro dia ele saiu voando e agora ele nunca mais iria ficar triste só por que não sabe voar.

AutorBelzinha

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Noite de verão (fantasia)

Apenas um sonho.

Mais um de meus pesadelos na noite escura.

Uma noite igual a muitas que eu passava deitada no gramado do parque.

Observando as estrelas.

Gostava das estrelas,queria ser uma delas.Sempre quis ser.

Talvez porque estrelas não apanhavam,não precisavam fugir de casa no meio da noite,nem dormiam no frio.

Estrelas não sentiam fome,não precisavam de amigos,não choravam…

A meia noite chegou enfim.

Parabens para mim,parabens para mim.

Sentia falta da minha mãe dizendo que eu ja era uma mocinha.

Afinal não se faz 15 anos todo dia não é?

Mas agora eu também não estava sozinha.

Tinha a lua,as cigarras,Susi (uma gata que eu havia achado) e Nina,uma morcega muito simpatica que dera cria recentemente.

Parabens para mim,parabens para mim.

Faça um pedido–Diz uma voz conhecida atrás de mim.

Viro-me e vejo Lot amigo das ruas,companheiro leal.Sorrio e digo meu maior desejo.

Quero ser uma estrela!

Pedido concedido.–Diz ele antes de se transformar e me morder.

Sinto meu sangue se esvair,minha vida o acompanha.Vejo a lua e minhas adoradas estrelas escurecerem.

Seus olhos se tornam mais dóceis,ele corta o pulso com os dentes,encosta-o em minha boca.Bebo,sufoco,cuspo,vomito.Sinto frio,ele me abraça dizendo.

Calma Luana,logo você será uma estrela,nada mais de sofrer ou chorar terá a vida que merece.

O frio passa,abro os olhos e o vejo parado,seus olhos castanhos-mel me fitam sem piscar.
Sinto-me forte,um vazio toma conta do meu coração,pouco me importa.Sorrio mais uma vez e dessa vez sei que é para sempre.

Ele me abraça e dessa vez me leva para longe,onde só as estrelas habitam.

Eternidade…Parabens para mim,parabens para mim…

Autor: Well

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Memória curta (fantasia)

Não sei ao certo quando esse meu problema de memória começou. Não me lembro. Só sei que com tenra idade minha cabeça encheu-se e começou a transbordar. A cada memória nova que tinha, uma antiga tinha que sair. Mais ou menos parecido como quando recebemos aquelas mensagens do computador: “espaço insuficiente no disco” e daí temos que apagar alguns arquivos velhos para salvar os novos.

Com a minha memória, entretanto, não era assim tão simples, uma vez que não era eu a escolher o arquivo a ser deletado, o acontecimento a ser esquecido. As vezes era coisa sem importância como uma piada, um filme ou um sonho, as vezes compromisso importante. As vezes coisa recente, as vezes diletas memórias de uma passado longínquo.

No começo, confesso, enfrentei grandes problemas, mas depois com o passar dos tempos e tendo criado um método que se baseava em associações e anotações comecei a levar uma vida tão normal quanto possível. Isso se pudermos considerar normal uma vida ditada por cabeça tal qual a minha, formada de um mosaico de memórias aleatórias.

É lógico que procurei a medicina, mas médico algum, brasileiro ou estrangeiro conseguiu sequer me presentear com um diagnóstico, muito menos tratamento. Se era doença, era eu o primeiro enfermo dessa natureza.

A escola, tive que abandonar e me dedicar a atividades mais rotineiras, à que pudesse me acostumar, habituar-me. Coisas que depois de algum tempo já fazia por instinto. Como um cão.

É claro que não foi uma vida das mais fáceis, mas julguei haver sinas piores. Isso até que a conheci.

Era sem dúvida a flor mais bela que já havia nascido no meu canteiro e a mais perfumosa. Apaixonei-me de imediato e me dediquei de corpo e alma. Não chegamos a passar muito tempo juntos, mas as memórias contidas nesse curto período me eram as mais caras, ainda que por causa delas tivesse tido que enfrentar sérios problemas. Tal quando comecei a esquecer das pessoas, mesmo as de mim mais próximas, ou quando me esqueci por completo não só meu endereço, mas todos os caminhos de minha própria cidade. Era como se tivesse me mudado de país e tudo e todos eram estranhos, exceto ela.

Teria esquecido de tudo e morreria satisfeito se só dela me lembrasse, mas antes que com doces lembranças eu pudesse encher o meu disco rígido cerebral, a perdi. Levada de mim ela foi por uma doença rápida e implacável, não como a minha, mas não menos desconhecida. Um dia estava bem e no outro amanhecera morta. Seu rosto, de traços suaves, a pele alva como cal e seu corpo coberto pelas flores que preenchiam os espaços vazios do caixão, eram minhas últimas recordações.

Essas memórias, reconheço, as queria apagar, mas como já bem disse, não cabia a mim tal escolha. Tal domínio sobre o que ficava e o que saia de minha cabeça era a outrem reservado.

Meu próximo passo foi, no entanto, decisão toda minha. Admito que talvez tivesse agido diferente não fosse ter acordado naquele dia e percebido com profunda dor, que o rosto que me aparecia em sonhos e emoldurado na parede do meu quarto já não tinha mais um nome. Me esquecera do nome dela e com certeza teria esquecido tudo mais sobre nós dois, caso não tivesse com um tiro no peito, tirado minha própria vida.

Autor: Travesso da Jubé

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Loucura (fantasia)

Estava lá Luciana em sua casa, numa tarde de começo de inverno fria e chuvosa, assim como ela sentia se fria. Faltava alguns dias para completar um mês, isso mesmo, trinta dias onde sua vida parecia não ter mais alegria nem calor, como aquelas tardes ensolaradas de verão; dias em que passava em frente a tela do seu monitor tentando, chorando, olhando e esperando. Sem nenhum brilho no olhar, sombrios, vazios.

E, rememorando cada segundo de tudo o que havia vivido, como havia chegado até este ponto. Afinal, era uma mulher de bom senso, madura, mãe de família. Como perdera o controle da situação deste forma ? Como se entregara a esta experiência no mínimo louca. Simples no amor não havia mesmo controle, e a razão e a loucura são separadas por uma linha muito fina.

Acontecera do nada, como sempre estava lá ela em seu site habitual de jogos, isso mesmo jogos on line, com pessoas de verdade atrás de alcunhas, mas tinha uma em especial que a incomodava o via todos os dias por ali, muitas horas do dia e pensava consigo mesma : Poxa esse cara não deve fazer nada, fica ai o dia todo, deve jogar muito. Qualquer dia entro na sala dele, porém nunca tinha coragem, dia após dia, Luciana apenas observava., porém dizia a si mesma mais tarde eu entro. Até que um dia num gesto impensado clicou ali, quando viu estava no jogo e bem ali a sua frente ninguém menos que o próprio, motivo de curiosidade de todo este tempo.

Começou a tremer e a suar , céus ela não conseguiria , após alguns erros e praticamente perder o jogo sozinha, no rodapé de seu monitor um amigo a chama, resolve abrir a janela e ele está nela junto com o amigo que chamou, a cumprimenta e educadamente pede se pode adiciona-la em sua lista de contatos. Ela aceita, sem entender direito a atitude, pois estava jogando há pouco tempo e já fazia parte de um clube o qual esta mesma pessoa fazia parte, o por que pedir permissão se ele tinha acesso a estes endereços. Na mesma hora vem o convite, o qual é aceito prontamente. Dali pra frente começa a nascer algo inexplicável, começam a dividir problemas, alegrias, ansiedades, tudo. Ela estava radiante, vivia dias de plena felicidade, pois ele dizia que a amava o tempo todo, sempre a espera-la em todos os momentos.

Todos os dias no mesmo horário Luciana abria seu programa de conversa e aguardava ansiosamente até que ele chegasse lhe dissesse algo como “oi” “tudo bem”, se ela estava triste ou com problemas ele percebia e não deixava que ela escondesse, passavam boa parte do dia e da noite juntos, se falavam no telefone pois ele dizia que a voz dela era linda queria ouvi-la o tempo todo. Porém com toda essa magia, Luciana procurava se manter alheia a estes carinhos por assim dizer, pois entre eles havia uma barreira enorme, cruel, a diferença de idade que beirava em torno de vinte anos, porém quando estavam se falando ela parecia não existir, se tratavam de igual para igual pois ele nunca permitia que ela falasse nisso, era motivo de descontentamento nele. E, nessa brincadeira toda havia promessas de muitas coisas, e Luciana, mulher feita procurando brincar e se manter alheia; até que um dia veio a pergunta por parte dele “ o que está acontecendo comigo?” “o que você está fazendo comigo ?” só que à esta altura, ela já não sabia responder, o que dizer a não ser “ também não sei “. entretanto no seu íntimo Luciana sabia que algo muito forte estava nascendo e lutava a cada segundo para combater até que suas forças se exauriram e ela cansada se rendeu a este : como podemos definir amor ou loucura? Pois afinal dizem andam juntos , lado a lado. Era sabido que ele nada havia prometido a não ser deixar rolar, e estavam deixando. Mas, como tudo tem um mas, um certo dia ele vem e diz oi, ela pergunta: vamos jogar ; pois afinal passavam todo o tempo no site jogando, todos viam e percebiam, não comentavam mas percebiam, ele por sua vez, não disfarçava na frente de ninguém pois dizia que não tinha nada a esconder. Ele responde: estou jogando com a Sônia, faz expressão de contrariado, pois a mesma havia sido uma ex. que segundo havia dito fazia um mês que havia sumido, Luciana resignada se propõe a ficar aguardando que ele termine, a noite ele a chama mas já estranho, ela não pode deixar de notar e perguntou ai começou a desmoronar o castelo de sonhos que ela sozinha havia feito, ele responde : a Sônia quer voltar, não sei o que faço, vou amanhã em sua casa conversar com ela. A tristeza invade Luciana, ela não podia acreditar naquilo, lia e relia aquelas linhas, pois um dia antes tanta coisa contrária havia sido dita, não isso não estava acontecendo, não era possível pois havia dito a ela que não a queria mais, que havia passado. Bem, Luciana que a esta altura já o amava demais à ponto de renunciar aconselha: vá vê-la de coração aberto, converse, tenha calma ,se dê essa chance. Mais tarde, chorou pois sabia que estava entregando-o a outra pessoa, mas não tinha o direito de se impor na vida daquele garoto, também a barreira falou mais alto, a razão gritou dentro de si faça o melhor à todos, esta batalha você perdeu.

Dia seguinte a notícia, voltei para Sônia, ela disfarça esboça alegria e convence de que está feliz , que o quer feliz, mas no fundo de seu coração sabe, que no momento ninguém o amaria mais do que ela. Dias se passam sombrios, a senhora chora o tempo todo a falta, sentia sem chão , perdida, não sabia o que fazer , pra onde ir, apenas se lembrava e chorava. Como se não bastasse ter que conviver com está tristeza toda com o passar dos dias vem a decepção, a pior de todas; uma intriga muito bem armada, sórdida , cruel, fez com que ele se irritasse muito com ela, e, com razão pois nada havia prometido a não ser deixar fluir a emoção, ele a questionou, ofendeu, pediu para que ela se defendesse, disse que estava dando a chance. Pobre dela, como poderia defender-se? Isto significaria ter que dizer o quanto o amava e lutava contra, que jamais havia feito qualquer comentário a respeito, a não ser com sua confidente e esta não falaria de forma alguma à ninguém. Assim sendo, afastou-se dele de forma resignada, humilhada, pagando pelo que não havia feito, e, por isso passa os seus dias em frente ao monitor, sempre vendo-o de longe e chorando, dia após dia, esperando a ferida aberta em seu peito cicatrizar. No entanto, ela não consegue avaliar se sofre mais com a distancia dele, ou pela perda do carinho que recebia diariamente, da atenção que buscou a vida toda. Agora sabe realmente o que é esse sentimento que lhe rouba o ar a distancia, que a faz flutuar com o simples toque da mão em seus cabelos, que dispara o coração ao ouvir a voz, será amor ou loucura, os dois talvez.


Muitos dias se passaram, como a tristeza era repetida não se tem a noção de quanto tempo, mas, certo domingo, Luciana havia convidado um amigo em comum para o almoço, tocam a campainha, ela vai atender, ao abrir a porta sente as pernas amolecerem. Deus pensou não é possível, ele estava ali diante dela, sem saber muito bem o que estava fazendo os convidou a entrar, tratou o bem porém com a formalidade de um amigo, almoço servido, todos satisfeitos, resolvem jogar o que os uniu. Determinada as duplas, coincidentemente, ficam em duplas opostas, portanto ele se senta ao seu lado na mesa, e justamente embaixo da mesa sua mão encontra a dela gelada, céus ela estava apavorada se pudesse saia correndo dali ao invés disso buscava forças em si mesma para se controlar, ele aperta a mão dela como se quisesse dizer algo. Terminou uma partida, ele pede para usar o toilete que na casa dela fica no pavimento superior, ela o conduz pois afinal é uma pessoa educada e como era a primeira vez dele em sua casa era obrigada a fazer tal gentileza. Suspira sobe as escadas a frente dele para indicar o caminho, chegando ao corredor quando se volta para trás com intuito de retornar ao andar de baixo um braço esticado em direção a parede a impede de fazê lo, e antes mesmo que pudesse esboçar qualquer reação um braço a envolve pela cintura e traz pra junto de si, a outra mão delicadamente segura seu rosto.

Completamente atordoada ela levanta os olhos e encontra um par a fita la por alguns segundos apenas , a mão que segurava seu rosto agora acaricia os cabelos e a beija com muita paixão, o que era aquilo pensa: estou no céu, no paraíso, tamanha a felicidade que sentiu por alguns minutos ela não pensou em nada, aliás nem sabia mais onde estava. Quando se separaram ele apenas disse preciso falar lhe muito, mas não pode ser aqui quero muito estar à sós com você, não quero e não vou mais lutar , nem fugir , muito menos controlar. Nossa! É comigo mesmo que isto está acontecendo, é concluiu, se não tem mais ninguém aqui deve ser comigo mesmo. Combinaram então se encontrarem na segunda pela manhã, logo a primeira hora pois tinham muito o que dizer um para o outro. Alguém pode imaginar para nossa protagonista como foi aquela noite, terrível. Ela não dormiu, pulou da cama antes mesmo que o dia amanhecesse, afinal precisava estar bem para ele e faria o melhor possível. Lentamente começa a se aprontar: Banho, cremes, cabelos, serviu café da manhã aos filhos e despediu se deles, só então terminou sua produção com a roupa simples e maquiagem leve porém tudo com muito cuidado.

Vai ao encontro dele pois se demorasse mais um minuto morreria de agonia, chega ao local marcado dez minutos antes do horário , nota que ele também está a espera la. Aquela distancia de cinco metros entre ela e ele parecia não ter fim tão ansiosa que Luciana estava, um braço a envolve seu corpo se estremece ele se assusta e perguntava se tudo aquilo era verdadeiro ela apenas consente com a cabeça. Rumam a um hotel, pois não pretendiam fazer nada a não ser se entenderem a princípio, mas queriam estar em paz para poder conversar. Enfim sós e antes que ela pudesse fazer qualquer coisa é puxada para junto de seu peito como se quisesse se fundir a um só corpo, chegou a perder o ar e antes mesmo que recuperasse o fôlego teve um beijo roubado de forma muito apaixonada.

Separam se alguns minutos depois, ela procura seus cigarros, precisa se acalmar pois tremia dos pés a cabeça, como era possível uma mulher experiente estar se portanto como uma adolescente, não conseguia entender. Acendeu seu cigarro, recobrou o sentido e perguntou o que ele tinha para dizer de tão urgente e importante, ele começa a narrar tudo o que se passou desde a intriga, o fim de seu namoro com Sônia, enfim o que foram estes dias distante dela, foram monótonos, tristes intermináveis sentia uma falta enorme dela e não sabia exatamente o por que mas queria muito estar junto dela e finalmente ele insiste com ela em querer saber o porque na ocasião não se defendeu, pois depois ele reunindo os fatores havia concluído que nada daquela intriga condizia com ela, entretanto ele insistia no porque do silencio dela. Você não consegue imaginar mesmo? Pergunta Luciana com uma ponta de irritação em sua voz. – Não mesmo . Responde ele em sua inocência de menino. Pacientemente Luciana segura o rosto de seu amado entre as mãos com o seu rosto já banhado em lágrimas, olha bem dentro daqueles olhos que tanto sonhou um dia poder fazê- lo e simplesmente responde por que o amo mais que tudo, aliás dizia a todo momento que te amava e você nunca deu ouvidos, calei me porque sabia que acreditaria ser uma brincadeira, mas o momento que você perguntou era sério e defender me significaria confessar, ceder aos meus medos, ter a coragem de assumir o que considero uma loucura. Ele carinhosamente pousa os dedos na boca de Luciana para que ela não diga mais nada, apenas murmura : – Acontece que eu sou louco, esqueceu. E, a beija com muito amor e paixão, nesta hora Luciana apenas o acaricia, os corpos se unem pois não querem mais se separar, mas sim juntos serem transportados a uma dimensão aonde não existem os corpos, apenas as almas a se entregarem, e o tempo que consta marcado em um pedaço de papel não existe mais, o amor venceu esta barreira.

Autor: Rofan

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Fênix (fantasia)

Esfrega os olhos. O ar parado, sufoca. Em volta, o caos. Cinzeiros virados, cinzas espalhadas, carteiras vazias de cigarro, copos de café caídos, folhas de papel amassadas jogadas à esmo.

Há quanto tempo está ali? Dois dias? Dez? Já não sabe mais. Nem importa. Deixou de fazer diferença desde… não lembra.

Sobre a mesa o jornal aberto na página de eventos anuncia “Jovem artista em Premiére de Autógrafos”. Quando isto? Já foi? Olha a data, confere com o calendário do micro. A notícia é de nove dias atrás. Nove! Há nove dias está ali. A noite é hoje. Noite? Que horas são?

Ergue-se. Trôpega, caminha até a cozinha. Percebe agora que a dieta de água, café e maçãs não é muito saudável. Está enjoada. Abre a torneira da pia, mergulha a cabeça sob o jato de água. Precisa manter-se sóbria.

Não bebe, mas os remédios a oprimem, deprimem. Está de ressaca psicológica. Náusea.

Atordoada, consegue atravessar o caos em que está mergulhada a sala e segue pelo corredor até o banheiro. Aos poucos, a lembrança do que houve, retorna. E distante, porém nítida, a voz dele soa em sua mente:

– Todos me adoram!

– É? E onde eles estavam antes?

-Eu não era ninguém!

– E hoje? Você é quem?

– Você é possessiva! Não gosto de gente assim!

E nos ecos dessa triste lembrança, a porta bateu com força deixando-a para trás com a raiva e a decepção. Sabia que aquele era o definitivo adeus. O que nunca foi dado mas sempre pressentido.

Ecos. Sacode a cabeça para espantar os pensamentos, as lembranças. Com o movimento, a vertigem. Apoiando-se à pia, vê seu reflexo no espelho. Os olhos que a fitam estão marcados pela mágoa, inchados pelo choro. O rosto vincado pelas noites insones denuncia o cansaço de toda uma vida. Abre o armário, pega a tesoura. Aos poucos, o longo cabelo cai aos tufos dentro da pia, forrando-a de cachos castanhos e dourados…

Abre a ducha. Sem experimentar a temperatura como sempre faz, entra sob a água e se deixa ficar. Para que o banho frio expulse do corpo todos os seus demônios, todo o resto de mágoa que ainda tiver por dentro.

Sem se enxugar, vai para o quarto deixando atrás de si um rastro de água e indiferença. Veste o jeans, coloca a camiseta. Está magra, a inevitável dieta fez com que perdesse mais peso e a cintura da calça denuncia a fragilidade do seu corpo.

Calça as botas e busca na bolsa as chaves da moto. Apesar do ar sufocante dentro de casa, faz frio lá fora. Veste a jaqueta e sai.

Na estrada, debruçada sobre a moto, vê os últimos meses passarem com a velocidade do vento que agora aposta corrida com ela. E de novo, o som distante daquela voz:

-Tenho medo, sei que não vou conseguir

– Vai sim, você consegue! Eu acredito em você!

– E se os outros…

– Esqueça os outros! Faça por você!

Foram dias, noites, madrugadas de longas conversas, intensas discussões, deliciosas descobertas… E quando o mundo dava voltas em parafuso deixando-o confuso, era no seu colo que ele buscava refúgio. E como mãe carinhosa que ouve do filho todos os seus temores, assim ela o ouvia e amparava.

Fácil gostar dele. Ela quase se encantou. Ele sabia, sentia, conhecia o efeito que causava, mas a mantinha próxima apenas o bastante para algum socorro. Ciente disso, ela observava. Sabia o que estava por vir. A experiência a prevenia contra as armadilhas da vida. De pessoas como ele.

Mesmo assim, quantas vezes esquecida de si própria, de sua vida tão cheia de inadiáveis questões, esteve ela à disposição de seus caprichos! Vezes tantas apenas como etérea presença, pois que ele chegava, mal a percebia, e logo se ocupava de outros afazeres ou outras conversas, deixando-a totalmente alheia a tudo.

Ele dissera um dia “sempre que puder… esteja por perto”. E ela estava.

Já percebera que sua presença era apenas uma âncora para que ele se sentisse seguro. Poderia ser qualquer outra pessoa, não faria diferença para ele, desde que estivesse ali, disponível, para quando precisasse.

Naquele dia, à porta da sala, esperava que ele a atendesse. Novidade, porta fechada. Sempre estivera aberta para ela e agora, é preciso que se anuncie. De dentro, por trás da porta trancada, o imperativo da voz denuncia irritação “Espera! Estou ocupado!”

A surpresa a mantém parada no mesmo lugar, olhos fixos na porta. De repente lembra do vira-latas que ronda a lixeira do prédio. À cata de restos, resigna-se a olhar de orelhas baixas cada um dos que chegam para depositar o lixo. E fica ali à espera de alguma migalha. Ou de um afago.

Como ela. À espera de uma resposta.

Um minuto. Dois. Três, que lhe pareceram horas. No virar-se para partir, a porta entreabre:

– Hey, o que foi agora?

– Como…

– Você é impaciente! Não percebe que estou ocupado?

– Sim, eu sei mas…

– Você é ciumenta, não admite que eu fale com mais ninguém!

– Eu?? Mas eu não…

Pelo desvão, ouve a música. A mulher lá dentro espia com um meio-sorriso nos lábios, como um desdém. Não. Impossível definir a expressão. Está enganada, elas não se conhecem.

– Estou conversando com MINHA amiga, o que você quer?

– Eu?…

Já não sabia. Queria alguma coisa? Não lembrava mais. O “minha amiga” soou como um sinal. O sinal do navio que parte. Era o seu sinal.

As coisas em volta começaram a desvanecer. Paredes, quadros, chão. Flutuando no vazio, atônita, tentando entender o que ele dizia, adivinhando o que significavam os movimentos de seus lábios que agora estavam em “slow-motion” como num terrível filme “noir”.

Pior que a indiferença, era a vergonha…

Acabou a estrada. Pelas avenidas, circula entre os carros com a perícia de esguia serpente.

Na mais movimentada das avenidas da cidade, o trânsito congestionado denuncia o local do evento. Em frente ao elegante clube, uma fauna de repórteres, fotógrafos e curiosos se amontoa para ver chegar as celebridades. Noite de gala. Holofotes, câmeras, carros de luxo. O sucesso do jovem artista é reconhecido internacionalmente.

Desce da moto. Com o capacete preso ao braço, caminha até a esquina. Misturada à multidão que se amontoa, observa os convidados chegarem. Honras de chefe de estado para o pretenso tradutor de almas.

A limusine estaciona com dificuldade. Os convidados já chegaram e aguardam pelo homenageado da noite. E ei-lo ali, a menos de 3 metros de distância dela. Em traje a rigor, com a desenvoltura de quem nunca viveu outra vida que não esta de luxo e glória, ele ajeita rapidamente a casaca e graciosamente reclina-se para dentro estendendo a mão.

Tomando-a, a mulher desce em seguida. Jovem, bela e sorridente. A amiga.

Empurrada pela multidão, ela esbarra no cordão de isolamento. E é aí que ele a nota. Por breves segundos seus olhares se cruzam. Tão rapidamente, que só ela percebe o tremor em seu sorriso e o olhar turvar-se na surpresa. Mas ele se tornou um mestre na arte de dissimular e logo se recompõe. O sorriso ressurge, ele e sua companheira sobem os degraus rumo ao clube de fãs que o espera.

Não sem antes ele responder a um repórter ” – Sim, ela é responsável por tudo, sem ela eu não estaria aqui!” apontando para a sorridente mulher que está a seu lado e fugindo do olhar surpreso que recai sobre si vindo da figura perdida em meio à multidão.

Silêncio.

Há muito a multidão dispersara, foram-se os holofotes e os carros de luxo. O som que vem dos salões denuncia uma longa noite pela frente. Os enormes degraus que dali se estendem, bailam estranha melodia que só ela percebe.

A garoa intensifica-se, já escorre pelo rosto como fina chuva de inverno. E na lenta percepção do que ainda está acontecendo à sua volta, sente delicada mãozinha a puxar-lhe pelo braço. Um menino, grandes olhos negros, pés em sapatos cujo antigo dono era bem menor, tiritando sob a garoa, pergunta baixinho “compra uma flô?”.

Ela inclina a cabeça aturdida, como se não tivesse entendido. E ele, percebendo a oportunidade, repete “compra uma flô?” e antes que ela possa responder, ele começa a cantarolar, com os olhinhos fixos nela e com os lábios trêmulos de fome e frio:

– “se eu puder falar de amor

– me deixa primeiro tocar o céu

– sentir do sol o seu calor

– e de tua boca o sabor de mel”

E continua naquela cantilena melodiosa e solitária, enquanto no rosto da Mestra, a última lágrima morre num sorriso.

Autor: Flora

O que vê de longe, não escuta. Mas sabe, pelo abraço da mulher, que outro pobre diabo encontrou a Fênix.

Ela ressurge. Ele nasce.

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