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Narciso (conto de ficção)

Narciso não me amava realmente. Preferia a minha irmã. (Quando saíamos em grupo, só tinha olhos para ela, só se ria com as graças dela, só dançava com ela.) No entanto, foi comigo que casou. Por causa do meu nome. Apenas por causa do meu nome. Chamo-me Rosa. Rosa dos Campos. Ridículo, não é? (A minha irmã teve mais sorte: baptizaram-na Clara. Porém, esta vantagem veio a tornar-se no principal obstáculo na sua vida amorosa. Ela, que só tinha olhos para Narciso, que só ria com as graças dele, e que só dançava com ele quando saíamos em grupo, não aceitou bem que o nome fosse o único obstáculo ao casamento deles. Ridículo, não é?) E no entanto foi a evidência que determinou a escolha do meu marido: Um Narciso do Prado não se casa, ainda que a ame, com uma Catarina, uma Sofia, nem mesmo com uma Clara, como a minha irmã. Escolhe para noiva uma Violeta, uma Margarida ou então uma Rosa; uma Rosa, como eu.

E foi assim que a Rosa dos Campos que eu era se tornou na Rosa do Prado que agora sou. O meu nome, desde que casei, nunca mais me pareceu ridículo. Aceitei-o como se aceita uma coroa, a recompensa pelos anos de paciência passados só a contemplar Narciso quando ele só tinha olhos para a minha irmã; a ver Narciso dançar quando ele só dançava com a minha irmã; a rir apenas das graças de Narciso quando ele só as dirigia a minha irmã, ainda que estivéssemos em grupo.

Não foi por uma qualquer cega fidelidade aos jogos de palavras que Narciso casou comigo. Foi antes devido à sua total devoção à botânica. Na verdade, Narciso tem apenas uma paixão, uma única, mais devoradora ainda do que uma simples paixão: as suas flores. Foi a elas que sacrificou a minha irmã, a minha irmã Clara. Poderia tê-la amado, tê-la amado loucamente, apaixonadamente. Mas Narciso não era homem para mudar de paixão. Narciso sabia o que queria. Narciso sabia o que não queria.

Narciso não queria que a imagem de Clara se insinuasse, ainda que inconscientemente, nos seus pensamentos todos concentrados numa epistaminia, numa estivação ou num calículo. Narciso não queria que a imagem de um estame reclinado, de uma antera apicifixa ou de um cálice tubular se insinuasse, mesmo inconscientemente, nos seus pensamentos todos concentrados num beijo que desse a Clara, numa carícia que fizesse a Clara.

Narciso quis as flores, apaixonadamente. E então aceitou a mulher, mas moderadamente. (Clara, despeitada, deixou a Europa.)

E foi assim que eu, Rosa do Prado, me pude insinuar, graças ao meu nome, no coração da paixão de um homem. Mas permaneci na sua periferia, pois era parco o amor de Narciso por mim.

Pouco me importava, já que para ele eu era, ou pelo menos assim o acreditei nessa altura, a mulher ideal.

Hoje, sei tudo sobre a bractéola, o ginóforo e a ginândria, sobre o eleuterógeno, o perianto. Sei essas coisas e muitas outras. Mas pouco se me dá. Hoje, não me servem de nada.

Narciso e eu vivíamos juntos. Era tudo o que contava para mim. Vivíamos juntos, mas a seu modo. Várias vezes por dia saía da estufa ao fundo do jardim onde trabalhava, chegava a casa para aí passar uma hora, cinco ou vinte minutos, mais raramente uma noite; as noites, Narciso dedicava-as principalmente à caça. Era na sua opinião o melhor momento para acabar com os caracóis e as lesmas que, atraídos pela humidade, saíam dos esconderijos para atacar as suas plantas. A maior parte das vezes Narciso voltava para casa de mãos a abanar e furioso por não ter podido experimentar os diferentes venenos à base de metaldeído tramados contra os seus inimigos. Quando regressava com os primeiros alvores do amanhecer, servia-lhe uma grande tigela de café, acompanhado de tostas com manteiga e um pedaço de chocolate preto e acho que ele ficava contente.

Para não falhar nenhuma das suas visitas a casa, e muitas vezes aparecia de improviso, postava-me junto à janela, um livro de botânica nos joelhos. Vigiava cada uma das suas chegadas. Vigiava-o de dia, vigiava-o de noite. Narciso comia e sorria-me. Lia e sorria-me. Mudava de camisa e sorria-me. Penso que me sentia feliz. Não, não penso, tenho a certeza de ter sido feliz.

Mas isso era dantes. Antes era feliz. Mesmo que ele comesse e saísse de novo. Lesse e saísse. Mudasse de camisa e saísse. Era feliz ao vê-lo chegar. Era feliz ao pensar no seu próximo regresso.

Às vezes, Narciso voltava da estufa com uma flor de presente, uma flor só para mim. A primeira que me ofereceu, lembro-me perfeitamente, foi uma drosera aliciae. Nunca tinha visto nenhuma e sentia-me um pouco ansiosa pois, apesar de Narciso me ter dito “é uma planta para principiantes, vais ver, é fácil”, temia decepcioná-lo por não saber ocupar-me dela. As plantas carnívoras exigem realmente, e por mais que o meu marido dissesse o contrário, uma atenção muito especial, uma atenção de longe superior à que eu dedicava aos gerânios que floriam quase sem a minha ajuda no beiral da janela.

Tinha tanto medo de não ter “mãos verdes” que os gerânios eram as únicas flores que me arriscava a plantar. E se a minha drosera aliciae murchasse? E se eu não conseguisse estar à altura do meu nome, daquilo que o meu marido esperava de mim? E se ele descobrisse a minha incompetência, o que aconteceria?

Dediquei pois toda a atenção à minha drósera, à transparência das suas centenas de pérolas peganhentas, outras tantas ciladas aos insectos que se arriscavam a poisar nas suas folhas. Esperava com impaciência o sol que ela parecia apreciar, palpava a humidade do composto várias vezes ao dia, verificava a sua consistência, a sua porosidade, arejava conscienciosamente a sala para evitar os bolores e, verificando ao fim de algumas semanas que a minha drósera digeria bem as moscas, as minhas angústias foram-se atenuando. E desapareceram quase por completo quando consegui a minha primeira estaca radicular.

Orgulhosa deste sucesso, pude aceitar os presentes de Narciso sem tremer. Ofereceu-me outras dróseras, fáceis de cuidar, como a capensis, a anglica ou a filiformis. Eram bonitas, muito mais bonitas do que a nepentes que mais tarde vim a receber como presente e que comecei a preferir. É certo que com estas novas carnívoras Narciso me encorajava a progredir na escala das dificuldades, pois que as nepentáceas exigem um maior domínio da técnica botânica. Vi nisso portanto um sinal de reconhecimento, quase um sinal de amor; mas não era apenas por isso que a minha preferência ia para elas. É que o modo como apanhavam os insectos me calhava melhor.

As moscas desapareciam como por encanto no fundo dos funis formados pelas folhas compridas. Caíam simplesmente no fundo de um poço com paredes escorregadias que os impediam de voltar a subir. Era isso que eu apreciava, que a morte sobreviesse longe do meu campo de visão; com as dróseras era impossível. Mesmo que nem sempre assistisse ao lento cerrar das folhas viscosas envolvendo as vítimas, não podia escapar ao espectáculo desses bichos decompondo-se debaixo dos meus olhos dias a fio e era coisa que não me agradava. As nepentáceas capturavam discretamente, secretamente, passivamente. A passividade delas convinha-me. Suportava-a melhor.

Das estacas caulinares às mergulhias, dos fungicidas às auxinas de enraizamento, as minhas plantas multiplicavam-se e um dia também o meu ventre cresceu. Narciso, mais frequentemente que de costume, vinha dormir comigo. Destapava a minha pele esticada e desenhava nela flores, sempre diferentes.

Das mais raras às mais comuns, as mais belas flores carnívoras enrolavam-se à volta do meu umbigo. Sentia-me orgulhosa da minha byblis liniflora, da darlingtonia california, mas deu-me um ataque de fúria no dia em que Narciso me quis enfeitar com uma dionaea muscipula, vulgarmente conhecida por dionéia caça-moscas. Era para mim insuportável, e todos me compreenderão, ver a armadilha das mandíbulas de tal planta escancarada sobre o meu ventre. Narciso, não querendo contrariar-me, abandonou a ideia. Foi a primeira vez que o senti zangado comigo, mas foi coisa de pouca dura.

No fim da gravidez, perdeu todo o interesse em desenhar plantas carnívoras na minha barriga. Obstinava-se a pintar exclusivamente narcisos. Gostava demasiado deles para não estar convencido de ter aí semeado algum. Tinha razão. Mas o pequeno Narciso morreu à nascença.

Se a criança tivesse sobrevivido, será que eu ainda aqui estaria agora? Durante muito tempo pensei que não. Mas agora que conto o que se passou, já não estou assim tão certa. A sua presença não teria podido mudar o curso das coisas.

Narciso deve ter ficado ressentido por eu não lhe ter dado a sua flor. Instalou-se definitivamente na estufa e apetrechou-a de modo a nunca mais ter necessidade de voltar a casa.

Deixei então de sentir a energia, a vontade de me ocupar das minhas plantas. Começaram a aparecer umas pequenas manchas de bolor acinzentadas, depois uns pequenos fungos escuros, que acabaram por se instalar definitivamente nas minhas dróseras, nas nepentáceas, nas serraceneáceas. Os pulgões, as cochonilhas-lapa atacavam-lhes as folhas. E eu deixava-os à vontade. Narciso já não estava ali para apreciar a saúde das plantas e para me felicitar, pouco me importava que morressem. De nada me serviria lutar a golpes de insecticida e de quintozeno para as manter em vida. Era de mim que devia ocupar-me. E ocupar-me de mim, era cuidar de Narciso. Decidi consagrar à tarefa todas as minhas energias.

Narciso aceitava com um murmúrio as refeições que lhe levava sem que mo tivesse pedido. Aproveitava cada uma das minhas curtas visitas para dar uma vista de olhos ao trabalho dele, e com o correr do tempo reparei no desaparecimento progressivo de todas as suas plantas carnívoras. Ao fim de um mês, não havia uma única na estufa.

 Que teria Narciso feito delas, era coisa de que não fazia a mínima ideia. Mas, tendo observado que nenhum embrulho, nenhum caixote, tinha saído da estufa, que ninguém dos correios tinha vindo buscá-las para as entregarem a outros apaixonados da botânica, acabei por concluir que se tinha desembaraçado delas enterrando-as. Quando e onde as teria enterrado? Não procurei sabê-lo, concentrava-me unicamente na intensidade do sofrimento que o devia habitar e que o tinha levado a sacrificar a sua preciosa colecção. Uma colecção que ele prezava mais do que tudo no mundo. Não percebo nada de psicologia, mas agradava-me pensar que através deste gesto ele se infligia um castigo por ter deixado morrer o seu pequeno Narciso; um castigo por ter sido capaz de criar plantas e não aquele botão de gente. Agradava-me pensar que deixara de me considerar a única culpada. E agradava-me, evidentemente, imaginar que o desaparecimento de todas aquelas carnívoras significava o fim de uma paixão. Acabei assim, à força de me comprazer nas minhas pobres análises psicológicas, por me persuadir que encontraria para Narciso outra paixão em substituição daquela: eu.

Sabia que o meu trabalho de sedução seria longo e fastidioso, mas pouco me importava. Não tinha mais nada, nada de melhor, para fazer.

Narciso permanecia encerrado na estufa, voltando a sua atenção para plantas mais clássicas, mais fáceis de cuidar do que as carnívoras. Ensaiava culturas in vitro,quimeras periclinais, enxertos, toda a espécie de enxertos – à inglesa, de coroa, de placagem, de incrustação, de ganzepe… – experimentando-os em todo o tipo de plantas que tivesse à mão: arbustos, cactos, roseiras, citrinos. A estufa era enorme, perfeitamente alimentada em água e aquecida, e longos anos de actividade intensa tinham aumentado os seus recursos vegetais. Narciso não tinha descanso, passava de uma planta a outra, mas sem nunca se consagrar inteiramente a uma ou a outra. Uma dispersão que me oferecia, pensava eu então, a ocasião de levar a cabo os meus planos. Era apenas uma questão de perseverança. E isso não me faltava.

Levava as refeições a Narciso três vezes por dia. Ele olhava, cheirava, provava, saboreava, comia, lambia o prato até à última migalha, mas permanecia silencioso. Silencioso também face aos meus esforços vestimentares, face aos meus novos penteados, face às minhas discretas tentativas de sedução. Permanecia silencioso, até ao dia em que, estávamos no mês de Abril, reparando na minha gola branca a realçar o verde do vestido, o seu olhar se iluminou. Disse: “Não está mal”. “Não está mal”, eram as primeiras palavras que ele me dirigia há cerca de um ano.

De regresso a casa, olhei-me no espelho. Olhava-me com os olhos dele: a minha cara surgiu-me imediatamente como um botão de rosa emergindo de uma corola. Compreendi que a minha vitória passaria por esta imagem que lhe desse de mim, e decidi conformar-me. Iria tornar-me na sua flor entre as flores, aquela a quem se dedicaria inteiramente. Nunca mais abandonei aquela gola e acentuei o aspecto florido das minhas roupas. Bordava-as de flores campestres, recortava os bolsos em forma de sol e cosia trevos, centáureas ou boninas a servir de botões. Talhava as orlas dos vestidos em ondas largas e profundas, pespontava espessuras de várias camadas de tecido como um acolchoado de folhagem. Ridículo, dir-me-ão, ou mesmo loucura, haverá quem pense. Mas não é verdade que Narciso tinha desposado uma Rosa, uma rosa a que deveria assemelhar-me para adquirir o estatuto de mulher ideal? Foi seguindo esta lógica que, passo a passo, e não unicamente graças à costura, me fui aproximando do meu objectivo.

Não o devia ter feito. Mas não o sabia ainda. Devia ter-me ido embora. Mas não o quis. Hoje quereria, mas já não o posso fazer.

A costura ocupava o meu tempo. Todos os dias me levantava impaciente, com pressa de apanhar o breve relance que Narciso lançaria aos meus novos achados. Aos poucos, foi renascendo entre nós a confiança. Continuava a falar pouco, mas a minha presença deixou de o importunar e pude, pouco a pouco, ir aumentando a duração das minhas visitas.

Certa tarde, quando lhe levei o chá, em vez de sair passados poucos minutos, decidi sentar-me e tomar uma chávena. Tinha amadurecido longamente o meu gesto, não era nenhum acto impulsivo. Tinha escolhido cuidadosamente o dia e o momento para me mostrar tão audaciosa. Nessa manhã, Narciso tinha-se regozijado, deixando escapar um breve “oh”, com o êxito de um enxerto complexo numa orquídea. Isso augurava um dia de bom humor, que poderia utilizar em meu proveito; e, tal como previra, Narciso não se opôs à minha iniciativa. Pude assim ficar uma hora inteira, sentada, a vê-lo trabalhar. Encorajada por este primeiro avanço, repeti a experiência no dia seguinte e nos dias que se seguiram, prolongando de cada vez a duração das visitas. Assistia agora a todas as operações de propagação que Narciso efectuava nas suas árvores de fruto, sentada na cadeira de vime que ele instalara para mim no centro da estufa. Via-me assim entronizada no meio de uma floresta de pereiras japonesas, de ameixeiras, de macieiras anãs e de cerejeiras cultivadas em floreiras. Fora-me dado o lugar de uma rainha e sentia-me rainha.

Mas apenas rainha de dia, pois, ao cair da noite, voltava sozinha para casa. Graças ao meu posto de observação privilegiado, tornei-me perita em enxertos e em porta-enxertos – M27, M9 para as macieiras; Myrabolano 29-C, Marianna 26-4, Brompton, para as ameixeiras; Colt e Santa Lúcia para as cerejeiras. Observava Narciso a deslocar os vasos em função da orientação do sol, a acentuar o nanismo das árvores enxertando-as não a 10 mas a 30 centímetros do colo, a praticar enxertias de borbulha e enxertos laterais à inglesa.

Assistia a tudo em silêncio. Nada tinha a dizer, e muito menos a aconselhar. Hoje, digo a mim própria que deveria ter sugerido a Narciso que tentasse novas experiências. Gostaria de ver como teria resultado o enxerto de uma nespereira eriobotrya japonica no espinheiro crataegus monogyna, ou o da pereira nashi no marmeleiro cydonia oblonga. Lamento não lho ter pedido, não me ter sabido impor. Mas tinha medo de cometer algum erro, de ter de voltar ao ponto de partida. Um ponto bem mais invejável do que este que agora ocupo. Mas não o sabia então. Como poderia tê-lo adivinhado? Uma terça-feira, seis meses atrás… Nem sei como hei-de explicar… Costumava sair da estufa ao fim da tarde para ir preparar o jantar. Mas nesse dia, nessa terça-feira, quando quis levantar-me da minha cadeira de vime para ir embora, não consegui fazê-lo. Levantei-me e voltei a cair no assento. As minhas pernas, ou antes os meus pés, não me respondiam, deixara de os sentir. Levantei-me uma vez mais, para mais uma vez me afundar na cadeira, como que paralisada. Estava paralisada. Gritei, gritei com toda a força, para que Narciso me ouvisse, viesse em meu socorro, descolasse os meus pés do solo, me ajudasse a andar. Mas quando se aproximou de mim, ajoelhou-se, palpou-me os calcanhares, a barriga das pernas, depois ergueu a cabeça e disse-me com um sorriso: “Não é nada, está tudo bem”.

Desde esse fim de tarde, nunca mais deixei a minha cadeira de vime. A paralisia progredia lentamente, atingindo as coxas, a bacia, o busto e depois o pescoço. Hoje, consigo mexer um pouco a cabeça, mas por quanto tempo ainda?

Queria que Narciso cuidasse de mim, que cuidasse exclusivamente de mim e, desde essa terça-feira, o meu desejo realizou-se finalmente. Narciso passava todo o seu tempo ao pé de mim, ou melhor ainda tinha Narciso a meus pés. Vaporizava-os com um betume de cicatrização e todos os dias pela manhã, pelo menos durante os primeiros dias, contava as raízes que me nasciam nos dedos dos pés e nos calcanhares. Examinava as modificações na minha pigmentação. A minha pele enverdecia e em breve começaram a romper dos poros umas pequenas folhas. Assaltava-me muitas vezes o temor de que Narciso recorresse à enxertadeira, à podoa ou à serpete para rectificar os meus rebentos, mas não. Limitou-se a usar fitas de polietileno para atar os meus braços e os prender melhor acima da cabeça. O meu crescimento era rapidíssimo, ramificando-me sem que nenhum parasita, nenhuma doença viesse perturbar o meu desabrochar. Fui vítima apenas de uma subida prematura de seiva. Narciso ficou inquieto, receou pelos meus renovos, mas não foi nada de grave.

Há oito dias, depois de ter retirado o plástico com que me cobre durante a noite, Narciso saiu.
Desde então, nunca mais voltou.
Há oito dias que Narciso se foi embora.
É Primavera e sinto que vou florir.

Narciso não estará aqui para me ver. Narciso foi-se embora. (Terá sido aquela carta que o carteiro enfiou debaixo da porta a causa da sua partida?) Apercebo-me de uns fiozinhos rosados no topo dos gomos do cotovelo. Amanhã vou florir. (Narciso leu a carta a chorar. De alegria, pareceu-me. Não, na verdade acho que era mesmo de alegria.) Amanhã vou florir e aqui estou eu, especada como uma parva. Não sei sequer o que vai surgir de mim. Rosa canica ou multiflora? Lilás, amendoeira com flores prunus persica? Dália, peónia ou cerejeira? Narciso não me disse nada. (Deixou cair o envelope da carta, esquecido a meus pés. Foi com dificuldade que consegui reconhecer a letra de Clara, minha irmã Clara, pois as pálpebras mal se podem abrir).

Amanhã darei uma flor, talvez duas. Mas mais não, tenho demasiada sede. Estou a secar. O gota a gota não funciona.

Ontem caíram-me dois dedos da mão esquerda.

Nasceu-me um fungo na narina direita, que me impede de respirar.

Narciso partiu. Nunca mais voltará.

Narciso sabe o que quer; Narciso sabe o que não quer.

Sabe que quer uma mulher, arrebatadamente.

Tinha de abandonar a sua flor. Evidentemente.

Autor: Brigitte Martinez

Tradução de José Lima

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Máquina de Amar (conto de ficção)

Estava acordado há exatamente oitenta e cinco horas e trinta e oito minutos. Não serei tão preciso quanto aos segundos, que pareciam passar com uma velocidade assombrosa, mais rápido que o som ou mesmo a luz. Os olhos vermelhos e as pupilas dilatadas indicavam que, além de sono, Pedro estava sob efeito de cafeína e estimulantes. Não poderia parar agora, não quando tudo estava quase no fim. Quase pronto, salvo alguns parafusos, porcas e retoques finais.

Sobre a mesa, as inúmeras ferramentas que usava estavam espalhadas, juntamente com a trigésima oitava xícara consecutiva e fumegante de café, para a qual ele se dirigia e bebia um longo gole a cada bocejo. A mão esquerda segurava uma chave de fenda, e a direita alisava o aço frio no qual trabalhava.

Um amor. De aço inoxidável, fibras de carbono e inteligência artificial primitiva.

Olhou para o relógio pela enésima vez, enquanto as caixas de som do computador estouravam na voz do jurássico David Bowie. Sexta-feira, duas e vinte e três da manhã. Ruas lotadas de voluptuosas prostitutas, musculosos encrenqueiros e abastados festeiros. Todos aproveitando o início do fim de semana. Sexo, drogas e rock ‘n’ roll. Pedro tinha todas as opções, excetuando-se a primeira. Por enquanto.

Provara o amor de uma prostituta pela primeira vez aos dezesseis. Sozinho, partira para a noite, depois que a mãe se entorpeceu de soporíferos e desabou na cama, praticamente em coma. E lá foi ele, provar do etéreo sabor do sexo. O sabor doce que todos falam e que a masturbação afirma ser a melhor das sensações. Se, com apenas uma canhota era capaz de se atingir tamanho êxtase, o que se dirá de uma vagina por completo? Pagaria o que fosse necessário, e tudo seria apenas dele por algumas horas.

 Pegou o dinheiro da bolsa da mãe, e, com os pensamentos de uma noite de completa loucura e luxúria, partiu para a penumbra da capital urbana.

Não foi difícil encontrar o produto. Ruas apinhadas, produtos a mostra para todos os gostos. Dos dez aos cem: meninas cheirando a leite, com maquiagem carregada e vocabulário chulo, cobrando uma prata por minuto de sexo oral em um canto obscuro; mulheres de vinte e poucos anos com aspecto de quarenta, disputando lugar com travestis, puxando facas e tesouras na briga pelo melhor ponto da esquina, vestindo apenas roupa íntima, usando cílios falsos, loções vagabundas e batons borrados; velhas, magras, gordas, novas.

Parou, pensou e analisou. Recebeu propostas de homens e mulheres, de crianças e vovós. Recusou todas. Continuou andando, apreensivo, as mãos suando. Medo. Medo do desconhecido, medo da escuridão. Primitivo medo, que só conseguia superar com um abajur.

Uma delas se aproximou. Não mais de vinte e cinco. Cabelos cacheados, pele morena, lábios carnudos e tingidos de vermelho. Levantou a blusa, pôs os seios à mostra. Trinta reais, meia hora. Cinqüenta, uma hora. O preço.

Ele aceitou. Pagou rapidamente, e, juntos, foram para o motel.

Tamanha decepção! Seios lindos, perfeitos, mas só. Pela escuridão e pelo pouco tempo, não teve a oportunidade de ver as cicatrizes quando ela elevou a blusa na rua. Grandes e gritantes, percorrendo todo o corpo da mulata. Vinham de cima a baixo, do umbigo ao dedão. Grandes e escandalosos, tornavam o toque a pele áspero. Mas ele não pensou nisso. A pele era o menor de seus problemas.

Ela o acariciou. Nem com amor nem com prazer. Com obrigação. A obrigação de quem foi paga para fazer aquilo acontecer. Não, o senhor Pênis não queria nada menos que carinho. Não quis acordar ante a mão suada e friorenta, com unhas postiças e cicatrizes escandalosas da prostituta. Ele simplesmente se recusava.

A puta ajoelhou-se, abaixou-lhe as calças e, mesmo sem progresso, enfiou o senhor Pênis em sua boca. Pedro não gostou. Não era como os filmes pornôs prometiam. Ele não gemia, com as mãos na nuca, e nem ela o acariciava como os diretores dos filmes mandavam que as atrizes fizessem. Ela simplesmente continuava ali, como se tivesse lambendo um dedo cortado. Sem amor, sem tesão. Sem nada. Só obrigação.

Já foi dez minutos, meu filho! Como é que é, vai ou não vai? – ela perguntou, impaciente, levantando-se e cruzando os braços.
Pedro levantou as calças, e, amedrontado, correu.

Foi embora do motel, voltou para casa, caiu na cama, afundou o rosto no travesseiro e chorou. Deixou a prostituta sem ação e a consciência pesada. Será que, no fim das contas, era como os gays que aprendeu a repudiar desde a infância? Não achou que aquilo fosse verdade, e creditou todo o fracasso de sua empreitada ao nervosismo. Tentaria de novo. Esperaria mais um pouco, até que a mãe ganhasse mais dinheiro. Dessa vez, tudo iria acontecer maravilhosamente bem. Ele tinha certeza.

Não aconteceu.

Dessa vez, uma loira, catorze ou quinze anos, pele macia e olhos azuis, sorridente. Como um anjo. Mas nem toda a beleza que Pedro demorara quase quarenta e cinco minutos escolhendo fez com que o senhor Pênis levantasse e fosse à luta. Pedro, desacreditado, voltou para casa.

Só tinha prazer quando usava as próprias mãos. Tentou mais três vezes, e, em todas, não teve êxito. Uma velha, uma gorda e um travesti. Pelos cálculos, gastou quase mil pratas em três meses, e não teve um minuto sequer de prazer.

Foi quando percebeu que o problema não era ele. Eram elas. As putas, machos e fêmeas. Elas não tinham amor. Tinham só obrigação. Essa era a diferença.

Resolveu investir em si mesmo. Entrou em um programa de reeducação alimentar, começou a praticar exercícios físicos e procurou um dermatologista para acabar com o problema de acne que o perseguia desde o início da puberdade.

O ânimo durou dois meses. Dois meses de fracasso. A mudança na alimentação o deixava irritadiço, os exercícios não surtiam efeito e a acne nunca lhe pareceu tão grotesca. “Antes de melhorar, tudo piora”, era o que diziam o nutricionista, o professor da academia e o dermatologista. Mas Pedro não se convenceu. Largou tudo, desistiu. Ninguém o notava. Fingiam que não existia, que era um ser insignificante. Como um cão manso. Todos sabem que está lá, mas não incomoda ninguém.

Passou os próximos anos solitário, escondido do mundo em seu quarto cada dia mais escuro e sujo, jogando RPG’s online e criando avatares de homens poderosos. Pelo menos no mundo virtual seria conhecido. Faria fama, ficaria rico.

Pelo menos.

A mãe morreu. A irmã teve um filho. A III Grande Guerra teve início. O mundo viu a queda da América do Norte, detonada por bombas chinesas. As pirâmides de Gizé finalmente cederam ao peso do tempo. As favelas cariocas ficavam cada dia maiores, sufocando o espaço do asfalto.

Pedro não viu nada disso. Vinte e dois anos depois, tudo o que ele sabia se resumia aos números de ataque, defesa e magia de seu avatar.

E robótica.

Pedro estudava robótica pela internet quando se cansava de seu jogo. Começou com cinco ou dez minutos por dia, lendo artigos sobre como construir seu próprio porta-lápis de metal e vendo matérias sobre R2-D2 e C3PO. Com o passar do tempo, foi se aprofundando nos assuntos. Aprendeu a construir uma luva térmica, uma câmera de vídeo, a reprodução de uma pata de cachorro, e também de um pé humano. Descobriu sobre inteligência artificial, sobre moldes e sobre metal inoxidável. Agora, até mesmo saía de casa para comprar seus produtos, ou roubá-los na calada da noite. O dinheiro que ganhava com a venda de armas e roupas excedentes ao seu avatar mal o sustentava.

Fazia seus projetos lentamente. Ainda não eram seu vício. O jogo, sim. Não desgrudava dele.

Em uma das inúmeras campanhas no RPG, ele conheceu WHITE_WIZARD. Uma bela avatar, de formas avantajadas e olhar safado. Começou a conversar. Ele se apaixonou. Fez declarações de amor, falando que queria conhecê-la, casar-se com ela e ter filhos. Não no mundo virtual, mas sim no real. Migraram para a sala de conversação, onde trocaram fotos. Ela era realmente bela, parecida com o avatar. Ele não. Era gordo, com olheiras profundas, barba mal-feita e rosto de marginal.

Depois desse dia, WHITE_WIZARD nunca mais apareceu no mundo virtual.

Ele não se conformava. Ela tornara-se sua obsessão. Passava as madrugadas, os dias, as tardes e as noites vagando pelas planícies do mundo virtual em busca dela. Subia montanhas no dorso de dragões, consultava feiticeiros das trevas que o empobreciam com promessas de devolvê-la em três dias. Nada adiantava, ela não aparecia. Nunca mais apareceu.

Então lhe veio a idéia. De súbito, enquanto olhava para a foto dela. Teria ela, só para ele. E ela sim seria diferente das putas que aprendeu a odiar. Ela lhe daria amor.

Começou com o projeto, que durou cerca de dois meses. Dois meses de uma compulsão crescente, fazendo-o até mesmo deixar de lado seu mundo virtual e fantástico.

Tudo estava quase pronto. Faltavam apenas os detalhes. Detalhes impertinentes, que o fizeram ficar acordado por pouco mais de três dias seguidos. Polimento aqui, desenho ali, lâmpadas, parafusos, porcas, pregos e buchas. Não faltava muito agora. WHITE_WIZARD estava quase pronta. Com suas asas brancas, seu vestido longo, suas botas azuis e, na cintura, sua espada embainhada e sua lira. Tudo de metal, feito com perfeição e pintado com precisão. Nem mesmo o sono fazia-o tremer o pincel ou errar na textura do polimento.

Afinal, um amor não pode ser feito de qualquer jeito.

Coçou os olhos, espreguiçou-se. Deu a última polida nos lábios – a parte mais importante – e, afastando-se, viu finalmente toda a beleza de sua obra.

Tinha os cabelos no lugar, pintados de branco, os olhos como duas bolas brilhantes de luz, que tinham um tom de ciano semelhante à da menina-dos-olhos da original. Cerca de um metro e sessenta e cinco, magra e atraente. O olhar safado fora perfeitamente reproduzido, e o rosto tinha cinco expressões diferentes: seriedade, alegria, gargalhada, timidez e prazer. Não tristeza. Nunca tristeza. Essa era uma palavra que não existia, não para WHITE_WIZARD. Tudo o que vinha dela era feliz.

Puxou o cabo USB que vinha da cabeça de sua amada e conectou-a no computador.

O quadro de opções abriu-se. Agora seria fácil. Tinha tudo ali, ao alcance das mãos. Sua própria criatura, seu próprio amor, à mercê de suas vontades, sorrindo quando necessário, sentindo prazer quando ele quisesse. E nunca triste, nem raivosa, nem frígida. Seu próprio Frankenstein, mas não rebelde como o original. Programada para amar. Para amá-lo.

Clicou em “Ligar Inteligência Artificial”.

– Olá. Pedro. Sou. WHITE. WIZARD. A. Suas. Ordens.

A voz era metálica, intercalada, mas ainda assim era linda. Os lábios moviam-se com precisão, e o barulho interno das roldanas mal era notado.

– Menu. De. Opções. Aberto. Escolha. Uma. Opção.

Ele obedeceu. Acabara de ligá-la, e a criatura já lhe dava ordens.

– Opção. Escolhida. Comando. De. Voz. Ativado. Aproxime-se. Do. Alto. Falante. E. Diga. Claramente. Sua. Ordem.

– Claro que sim… – ele sussurrou, um sorriso abrindo-se em seus lábios, mostrando os dentes amarelados e cariados pelo tempo.

   Aproximou-se. Pigarreou. A voz sairia clara, para não deixar nenhuma sombra de dúvida. Finalmente, sua ordem seria ouvida.

– Me ame.

Claramente. Limpidamente. Única e exclusivamente.

Esperou, enquanto a inteligência artificial processava a informação.

– Comando. Não. Identificado. Por. Favor. Tente. Novamente.

Tudo bem, ele pensou. Problemas acontecem. Abaixou o volume da caixa de som, pigarreou novamente e, encostando os lábios no alto-falante, falou com a voz mais clara que possuía.

– Me ame.

– Comando. Não. Identificado. Por. Favor. Tente. Novamente.

– Me ame!

– Comando. Não. Identificado. Por. Favor. Tente. Novamente.

– ME AME! ME AME! ME AME!

– Comando. Não. Identificado. Por. Favor. Tente. Novamente.

– ME AME, SUA MERDA DE MÁQUINA! É TÃO DIFÍCIL ASSIM?

– Comando. Não. Identificado. Tente. Novamente.

Gritou, puxando os cabelos dos lados da cabeça com força. Não, pirar não era a solução.

Respirou. Fechou os olhos. Relaxou. Contou até dez. Tentou novamente, como ela ordenara.

– Me ame.

Esperou, apreensivo. Todos os cálculos feitos, todo o tempo perdido. Não. Não podia falhar. Não depois de tanto tempo.

– Comando. Não. Identificado. Por. Favor. Tente. Novamente.

Dessa vez o grito ensurdecedor veio acompanhado de agressividade. Jogou a máquina no chão, mas ela nem ao menos pareceu sentir. Continuou olhando-o com aqueles olhos ciano, estáticos e belos, esperando uma ordem de seu mestre.

Ele foi para um canto, agachou-se, o rosto entre as mãos, as lágrimas escorrendo-lhe.

– Aproxime-se. Do. Alto. Falante. E. Diga. Claramente. Sua. Ordem. – ouviu-a dizer, num sussurro metálico.

– ME AME! – ele gritou, enlouquecido. – EU SÓ QUERO QUE VOCÊ ME AME!

– Comando. Não. Identificado. Por. Favor. Tente. Novamente.

Era inútil.

Enraivecido, pegou a cadeira do computador, e, segurando-a no ar, jogou-a com toda a força no corpo da máquina. A cadeira quebrou-se com estrépito, fazendo voar pedaços de madeira podre para todos os lados, mas o aço continuou inoxidável. Com um pequeno arranhão na lataria, talvez, mas nada que comprometesse sua beleza ou estrutura interna.

Chorou mais, enquanto o robô mandava-lhe dizer claramente a ordem no alto-falante.

Arrastou-se até ela, as lágrimas ainda molhando seu rosto. Mas não chorava mais de tristeza. Ao invés disso, um sorriso sádico estampara-lhe o rosto. Se fosse visto pelos antigos padres e pastores, diria que estava possuído por alguma entidade demoníaca. Mas ele não acreditava em demônios que não os de seu RPG. Aquele sorriso era de lucidez, de brilhantismo. Uma grande idéia lhe viera, e ele a usaria.

Chegou perto da máquina, e, rasgando-lhe toda a roupa e tirando a sua própria, penetrou-a. Estava estuprando-a, tomando o controle. Não importava o quanto ela falasse ou ordenasse algo. Ele estava sobre ela, enquanto ela estava murmurando o mesmo som entediante. Mas ele não se importava. Parecia não ouvir nada. Não ouvia nada.

Com o tempo, o estupro pareceu-lhe menos interessante. Frivolidade por parte dela, talvez. Tudo o que ele sabia era que o bom e velho senhor Pênis resolvera hibernar. Novamente. Tentou reanimá-lo de alguma forma. Não conseguiu.

Desesperado, jogou toda a culpa em sua parceira. Gritou-lhe insultos, enquanto ela, pacientemente, dizia que o comando não fora identificado.

Tentou de todas as formas convencer-se de que todas eram o problema. Ele era normal, perfeitamente normal. Era culpa delas. Elas nunca lhe deram prazer.

Ele faria outra. Sim, melhor do que essa. Dedicaria mais tempo e atenção à nova, daria todo o amor que ela merecia e que não dera à primeira. Faria com que tudo fosse diferente. Seria amado como merecia.

Depois, a lucidez tomou conta dele.

Não adiantava tentar. Seria a mesma coisa. O mesmo círculo vicioso. Nem mil anos de trabalho lhe dariam amor verdadeiro. Ele não sabia o que era aquilo. E morreria sem saber.

Quando se jogou da janela do seu apartamento, caiu abraçado à sua criação imperfeita. O mergulho vertiginoso fê-lo morrer instantaneamente, quebrando seu crânio e despejando pedaços de cérebro e sangue na rua chuvosa e poluída.

A máquina teve apenas um amasso na lataria, e, quando os primeiros policiais chegaram, ela ainda sussurrava.

– Comando. Não. Identificado. Por. Favor. Tente. Novamente.

Autor: Lucas L Rocha

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Matadouro (conto de ficção)

Primeiro levaram-nos a um miradouro, de onde podíamos ver o panorama todo. Depois admirámos o pátio renascentista do palácio presidencial, de onde fomos conduzidos a uma nascente de águas termais, onde, encorajados pelo guia, provámos a água um pouco ácida, mas revitalizante da fonte. Entrámos outra vez para o autocarro. O altifalante louvava agora a beleza do Centro da Cidade, e de seguida parámos na Galeria Nacional. Vi a colecção de esculturas até ao fim, mas depois fiquei com dores, e parei. Os outros viram uns belos Breughels e Rembrandts.

“E agora”, anunciou o altifalante, “vamos visitar uma das instituições mais modernas da cidade, o matadouro. Os animais são abatidos de forma tão humana, com base em princípios tão nobres, que não só senhoras sensíveis, mas também crianças o podem ver sem problemas.”

Conduziram-nos por pátios imensos. Tudo estava inundado de luz, e música suave tocava entre paredes de mármore, que não era perturbada nem por um mugido, nem por um guincho. O circuito levava-nos da zona de pesagem até ao fumeiro dos presuntos, e tudo estava longe daquilo que esperara. Não vi animais a empacar, a recuar, a resfolegar, nem jovens carniceiros robustos de pernas afastadas a baixar os pesados cutelos. As vacas, os porcos e as ovelhas saíam de corredores brancos como a neve para uma grande sala onde, sem quaisquer choques eléctricos, nem drogas ou gases venenosos, começavam por ficar sonolentos, se deitavam, e assim passavam do sono para a morte, tão suavemente como um barco deslizando do estuário de um rio para as águas paradas de um lago.

Chamei de lado o nosso guia.

– Queria pedir-lhe um favor – disse.
– Infelizmente não pode ser – respondeu.
– Tenho boas razões – disse eu.
– Todos têm boas razões – disse ele.
– Recompensaria o seu favor – disse eu.
– Já me ofereceram fortunas – disse ele.
– Mas o gado tem direito? – perguntei.
– Lamento – disse – é expressamente proibido

Autor: István Örkény

Tradução de Ágnes Jancsó C. Lopes

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Fabulas Mortas (conto de ficção)

Conheça O Resumo dos Relatórios do Experimento ‘Fábulas Mortas’:

Olá, senhores. Meu nome é Akheofis Tutthokh. Sou um Ekimmu – um ser da noite. Um vampiro. Eu fui criado por Alazzos, meu mestre e senhor, o qual me incubiu de receber e ser o anfitrião de seus convidados em nosso mundo, o qual chamamos carinhosamente de Terra. Eles foram conjurados pelos poderes de meu mestre de seu mundo, chamado Arcádia. Esta conjuração foi feita unicamente para fins de estudo do comportamento destas raças em nosso Plano, em vista que Alazzos já reconheceu, em seus 352 anos sobre o mundo, duas dessas criaturas e uma delas – cuja qual despertou o interesse deste por esse estudo – estava “vampirizada”. Desde então, Alazzos começou á procurar rituais para conjurar tais seres, até que conseguiu o ritual correto.

O ritual foi um sucesso, como o previsto. As criaturas conjuradas vieram em número de três: um ser humanóide, de pele branca, esguio, de orelhas pontudas, que poderia ser categorizado – e será feito de agora em diante nesse estudo – como um “elfo”; o segundo era a antítese do primeiro, um ser baixo, feio, de pele verde, orelhas pontiagudas, olhos rubros, dentes afiados e rosto rude, o qual categorizamos como um “goblin”; e o terceiro era um ser bastante diminuto, de 26cm, humanóide, de traços raciais semelhantes àos do elfo, mas com um par de antenas esverdeadas, como as de um inseto, e seis pares de asas insetóides. Nós categorizamos a última criatura como um “pixie”. Inicialmente, o contato com essas criaturas foi estranho, mas não demais; Alazzos conhecia um pouco do mundo e da natureza desses seres. Eles estavam assustados (o goblin estava especialmente irritadiço), mas meu mestre pôde comunicar-se com eles utilizando-se de meios mágicos. Demoramos dois meses para aprender a “língua feérica”.

É interessante como passamos, com os anos, a descobrir fatos interessantes sobre essas criaturas. Por exemplo, elas eram especialmente ingênuas sobre as nuances do mundo: todos acreditaram piamente em meu mestre quando este disse que a conjuração deles foi um acidente mágico. Normalmente, ele alegou também que não conhecia meios para que estes retornassem, mas “deu sua palavra” que iria pesquisar para tal, e seria prudente que eles se mantivessem por perto – e assim meu mestre ganhou seus experimentos interdimensionais. Outro fato interessante sobre eles é que, com o passar dos anos, descobrimos que essas criaturas possuem uma longevidade não-natural.

2067. Dois anos se passaram com os experimentos por perto. O elfo, antes sempre feliz e irreverente, adquiriu um certo… silêncio. Já notei ele passar horas sozinho. Também tornou-se solitário (inicialmente ele desejou conhecer nosso mundo, mas depois de seis viajens pelo ‘mundo exterior’, ele decidiu que não queria mais conhecer nada). Acredito que ele percebeu que estamos enganando-o, e nunca os levaremos de volta para seu lar. Ele, porém, nunca disse uma palavra sobre o assunto – seu olhar, porém, falava por si. O goblin foi um tanto diferente: ele não só gostou de conhecer nosso mundo, como se ambientou bastante facilmente, e aprimorou suas técnicas de disfarce, fingindo ser anão, ou ter alguma deformidade física em momentos muito inoportunos. O pixie parece ser o que menos se encaixa por seu tamanho, e vive a maior parte do tempo observando as pessoas. tentei algumas sessões psiquiátricas com ele, mas ele recusa-se á falar dos problemas que lhe afligem. Um acidente infeliz também ocorreu: o elfo foi estuprado. Ocorreu um incidente de comunicação entre o elfo e um cyberpunk em sua primeira saída sozinho pela cidade, e este foi atacado por um gigolô, cujo qual acreditava que o elfo estava vendendo-se para o cyberpunk na área de atuação e controle da prostituição deste. O gigolô o estuprou e o espancou. Passamos meses tratando sua psiquê. O evento serviu para modificar ainda mais a psiquê da criatura.

2077. Dez anos se passaram. Eu mesmo continuo aqui, em meus próprios estudos, e continuando a experiência de meu mestre Alazzos. Continuamente, como sempre fiz, envio relatórios para este em sua mansão na Inglaterra. O elfo adquiriu certos costumes noturnos, e passou á misturar-se àos humanos jovens. Parece que o excesso de alegria destes alimenta o espírito da criatura feérica, deixando-o mais próximo de seu lar. O goblin regrediu; antigamente, esperto e alegre (embora um tanto sanguinolento e sádico), agora passou à exibir alguns graus de tristeza. Eu tento remediar isso medicando-lhe com antidepressivos. O pixie continua o mesmo, embora tenha tornado-se mais violento. Recentemente ele perdeu o braço após ter sido atacado por um gato de rua.

2127. Cinqüenta anos se passaram. Continuo os estudos de meu mestre, enviando relatórios sagradamente. Eu mesmo comecei meus próprios estudos. A raça feérica parece impressionante e o trabalho para vidas inteiras. Não parece haver fim para a infinidade de conhecimentos que pode-se extrair desses seres. Encontrei muitos tomos falando sobre eles, mas meu – digo, nosso – estudo parece único em todas as eras. Encontrei também informações sobre os vampiros chamados de “Arcádios”, que são exatamente humanos que foram vampirizados por criaturas ou outros vampiros que possuem o vampirismo e o sangue feérico em um mesmo corpo, e passam essa “mistura” adiante, causando alterações no corpo do humano vampirizado por último, além das mudanças para seu status de morto vivo. Essa condição deu à parecer que os seres de Arcádia conseguem suportar bem melhor o peso da “vida” na Terra – a situação de morto-vivo parece influenciar na mente do ser feérico, e parece eliminar – ou diminuir bastante – a necessidade de um “mundo mágico”. O elfo passou à demonstrar sinais paranóides e compulsivos, como lavar as mãos e trancar a porta de seu aposento, mantendo-se lá por horas à fio. Passou também à consumir cocaína, crack e LSD com freqüência. Acredito que ele já matou e roubou também (a primeira vez, creio que foi quando este chorou por uma noite inteira). O goblin sumiu há 5 anos atrás, e o encontrei dois meses depois num esgoto. Aparentemente ele passou à morar com mendigos (creio que imitando os costumes de seu povo em sua terra natal), e dormir nos esgotos. Seu corpo apresentou sinais avançados de varíola. O pixie morreu de depressão (os medicamentos não foram suficientes).

2132. Creio que após cinqüenta e cinco anos de estudos, esse experimento está concluído. O elfo (cujo qual não direi, nem disse, seu nome em todos os anos de testes, pois prefiro mantê-lo aqui como uma cobaia e objeto de experimentação) fugiu. Ele deixou uma longa carta despedindo-se de mim. Um tanto melodramática… mas isso parece ser natural de sua raça. Ela diz que ele partiu em busca de uma saída de nosso mundo e um retorno para o seu. Algo me diz que ele nunca encontrará…

Dito isso em minhas últimas palavras sobre os meus relatórios, faço oficial o término de minha vigília e a conclusão de que os seres do Plano de Arcádia não conseguem sobreviver em nosso mundo por muito tempo, pois aqui não é o lugar para seres de tamanho espírito, ingenuidade e magia. O mundo consumirá suas mentes e definhará seus espíritos até que eles morram.

Akheofis Tutthokh, Ekimmu

Cria de Alazzos

Cria de Efeu

Cria de Enkil

Cria de Akasha

Autor:H.P.Almeida

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Eu já vi esse filme!! (conto de ficção)

A sala de reunião estava cheia. Era a primeira vez que todos os lugares estavam ocupados pois a Gerente Geral Doutora Dana fora específica e informal na convocacão: “Nem pensem em faltar, senão as cartas de crédito dos senhores serão cortadas, sem rodeios”. No momento todos estavam se acomodando em seus lugares quando o impaciente Chefe dos Mineiros disse ainda em pé. 

– Desculpe Doutora, mas espero que esta reunião seja realmente importante. Os rapazes lá embaixo estão assustados com aquelas “coisas” e a minha presença é necessária lá. 

– Senhor Tomaz, sente- se. Essa reunião foi convocada justamente por causa daquelas “coisas” lá embaixo. 

– Permita- me, mas o que eu tenho a ver com problemas relacionados à mineração? Perguntou o representante e advogado da MacroHard Mineração, senhor Gates que nunca se separava de sua maleta negra. 

– Isso pode influir nos lucros da Empresa. Por isso o senhor foi chamado. Disse secamente a Gerente Geral. 

– Boa Noite Senhores! Disse o Chefe da Segurança, senhor Philip assim enquanto chegava para a reunião. 

– “Influir nos lucros da Empresa”? Êpa!! Isso é sério!! Disse o irreverente Engenheiro Chefe. 

– Sim, é muito sério mesmo senhor Delgado. Nós encontramos “coisas” muito estranhas lá embaixo. Disse o senhor Tomaz. 

– Mas afinal de contas, o que são essas “coisas”? Perguntou o jovem Geólogo Chefe, senhor Palmer. 

– Não sabemos ainda, só sabemos que é orgânico. Ainda não tivemos oportunidade de estudá- las adequadamente. Respondeu o Médico e Biólogo, senhor Cat. 

– E como o senhor acha que vai poder “estudar adequadamente” sem que os rapazes lá embaixo fiquem desconfiados? Perguntou o Chefe dos Mineiros. 

– Senhores!!! Não estamos indo a lugar algum. Vamos primeiro deixar todos os presentes nessa sala tomarem conhecimento do problema.

A Doutora Dana esperou que o silêncio voltasse a sala, pegou o relatório resumido do que havia ocorrido a 400 metros de pronfundidade e começou a ler em voz alta:

“Relatório preliminar sobre anormalidades encontradas na Cratera de Asimov, na lua Joviana de Ganimedes no ano de 2209. Técnico responsável: Dr. Tomaz Sinclair, Engenheiro de Minas e Chefe da Equipe de Mineiros da MacroHard CO. na Mineração Ganimedes. 

Na última jornada de trabalho, nossa equipe atingiu a profundidade prevista de 400 metros dentro de uma área rica em minério de ferro. Os sonares das perfuratrizes de front acusaram uma região de “ecos”, o que mostra uma grande possibilidade de haver cavernas na região. Paramos a escavação com as perfuratrizes de 8 eixos para evitar desabamentos e enviamos uma equipe de mineiros com perfuradoras elétricas para quebrar a “parede” que seperava o tunel escavado e a possível camara. A hipótese estava certa, havia uma grande camara depois de uma camada de rocha de apenas 5 metros. A camara, que tem estranhamente a forma de uma abóbada quase prefeita, não era muito grande, com um diametro de 12 metros por 6 de altura. Outro fato intrigante é que o piso é bastante plano e…” 

– Espere um minuto! Você está querendo dizer que essa camara não é natural? Perguntou o advogado. 

– Por favor senhor Gates! Deixe- me terminar a leitura do relatório do senhor Tomaz. Ainda não entrei na parte estranha. Disse a Doutora Dana com um pouco de temor na voz. 

“… bastante plano e limpo. Os mineiros, que eram de uma equipe de 7 homens, afirmaram terem visto coisas que parecem “botões de rosas” espalhadas eqüidistantemente pela camara. Sem saber qual procedimento tomar, o rapazes investigaram a afirmam ter visto também uma pequena camada gelatinosa de cor verde sobre os “botões”, que chegam ao número de 36. Ao se comunicarem comigo pelo rádio, dei ordens de que tirassem algumas fotos e que a camara fosse abandonada. Mandei também a retirada das perfuratrizes e o senhor Philip, Ofcial Chefe da Segurança que estava comigo na superfície mandou que a entrada da Caverna fosse selada. Por conselho do senhor Cat, Médico e Biólogo da Mineradora MacroHard, eu disse aos rapazes que aquilo se tratava de uma espécie de fungo e que o procedimento “padrão” exigia que parássemos as escavações até que uma contra- ordem fosse expedida.” 

Todos na sala ficaram em um silêncio sepulcral e desviando os olhares para os cantos da sala. Enquanto isso, a Doutora Dana distribuía as fotografias aos presentes. Todos olhavam com o máximo de interesse. O jovem geólogo mordia os lábios enquanto estudava a formação da caverna, o advogado olhava com um rosto grave para as fotos enquanto o Enhegeiro Chefe mordia vigorosamente sua caneta. O Doutor Cat já havia visto as fotos mas ainda olhava na esperança de encontar mais algum detelhe que lhe tenha escapado.

A Doutora esperou alguns minutos e quebrando o silêncio disse: 

– Bem senhores, agora que todos já sabem o motivo dessa reunião. 

– Mas o que nós iremos fazer agora? Perguntou o trunculento Chefe dos Mineiros. 

– Qual é o procedimento pra esse tipo de acontecimento? Perguntou o Engenheiro Chefe. 

– Eu não gosto disso, digo que deveríamos continuar a escavação e ignorar essas coisas. Nós somos mineiros e não cientístas. Disse senhor Tomaz. 

– O senhor está brincado? O senhor tem idéia do que isso representa? Isso pode ser o primeiro contato com alguma forma de vida extraterrestre! Disse o advogado. 

– Eu também não gosto dessa história de “botões”. Sou responsável pela Segurança da Mineradora. Isso não é trabalho de mineiros. Disse o senhor Philip. 

– Concordo!! Não me importa essa história de “homenzinhos verdes”. Esse não é o nosso trabalho! 

– Lamento senhor Tomaz, mas nós enviamos uma mensagem para a sede na Terra e logo teremos a resposta. Para sermos mais exato, daqui a uma hora a mensagem chegará. 

–  Ora bolas! Nós estamos numa lua de Júpiter! Milhões de milhões de quilômetros de distância! Porque devemos obedecer um bando de “engravatados” da Terra? Disse isso olhando com desdém para o senhor Gates. 

– Mas esses “engravatados” é que pagam o nosso salário. Disse o Geólogo. 

– Posso saber o que é engraçado senhor Delgado? Disse a Doutora Dana ao flagar o Engenheiro com um sorriso no rosto. 

– Hã.. Não é nada. Queiram de desculpar, mas é que eu já vi isso antes. 

– Como é??? O senhor já viu isso antes? Perguntou em sobressalto o Doutor Cat. 

– Espere um pouco! Senhor Delgado, isso não é brincadeira! Queira se explicar! Disse a Gerente Geral. 

– Calma! Deixe- me explicar! Como eu disse, não é nada sério. Vocês conhecem aquele antigo meio de entretenimento? O Cinema? É que existe um clássico do cinema do século XX que retrata uma situação parecida, até os “botões de rosas” são parecidos. 

– Século XX? Puxa vida! Você desenterrou essa hein? Disse o jovem Geólogo. 

– Ora! Isso é vida real. Por favor senhor Delgado, se não puder ajudar, não atrapalhe. Eu sou o advogado e representante da diretoria aqui. Digo que vocês devem esperar as ordens da Terra antes de tomar qualquer atitude mais precipitada. 

– Eu concordo com ele. Disse o médico. 

– Pois eu não! É a nossa vida que pode correr perigo e não a vida da “diretoria”. Disse o Oficial de Segurança. 

– O que os personagens do filme fizeram Delgado? Perguntou Palmer. 

– Eles seguiram o conselho do representante da “Companhia”… 

– Viram? Eu não disse?? Disse Gates triunfante. 

– … e dos sete tripulantes, apenas um sobreviveu. Ele e uma gato. 

A sala ficou em silêncio novamante. 

– … e nós não temos nenhum gato.

A sala virou uma balbúrdia, todos falando ao mesmo tempo, gesticulando e gritando. Apenas a Doutora é que ficou imóvel pensando naquilo que acabara de ouvir. 

– Senhores!! Por favor!! Senhor Delgado, foi muito divertido a sua participação, mas isso aqui não é esse tal de Cinema e aqui nós seguimos ordens. Nós somos empregados e… 

– Desculpe! Meu rádio está tocando. Disse Tomaz enquanto pegava o pequeno aparelho no bolso. 

– Eu já disse que não podem interromper uma reunião! Mande ligar mais tarde! Disse impacientemente a Gerente. 

– Desculpe doutora, mas é um dos meus homens lá embaixo quer falar comigo urgente. 

– Não interessa agora! Mande- o esperar. A reunião ainda não acabou. 

– Ok! A senhora é quem manda.. Disse o Mineiro enquanto desligava o rádio. 

– Bem… Acho que podemos continuar a… O que foi agora?? 

– Agora é o meu rádio que está tocando. Disse o Oficial de Segurança. 

– É melhor esperarmos para saber o que está acontecendo lá embaixo. Disse o Engenheiro. 

– Quem dá as ordens aqui sou eu e além do mais… 

– Desculpe senhores, mas algo de errado está acontecendo lá embaixo. O meu tenente estava falando comigo quando a comunicação foi cortada bruscamente. Peço licença para me retirar. 

– Meu Deus! Será que não podemos terminar a reunião? Disse o advogado. 

Uma grande explosão e alguns gritos foram ouvidos pelos presentes na sala. Todos se levantaram assustados tentando imaginar o que teria acontecido. Havia muita correria lá embaixo e a sirene de emergência começava a tocar. 

– Eu tenho que ir lá embaixo agora! Disse o Oficial de Segurança sacando da pistola laser do coldre. Todos sentiam uma pontada de pânico pois os gritos estavam por toda parte. O advogado pegou a pasta preta e a colcou na cabeça quando se escondia por sob a mesa. O senhor Philip se dirigiu até a porta da sala com a pistola na mão e saiu pelo corredor. De repente um grito no corredor foi ouvido e o barulho de disparos de pistola foram nítidos. Naquele momento, todos dentro da sala já sabiam que algo horrível havia acontecido e olhavam para a porta na espera do pior. 

O susto foi geral quando o corpo do Oficial foi jogado pela porta como se fosse atingido por um aríete. O corpo caiu no meio da mesa de reuniões e quando os presentes olharam para o corpo imóvel, uma onda de náuseas e medo tomou conta de todos. 

Algo parecido com uma grande mão amarela de sete dedos muito alongados e fortes havia se fixado no rosto do Oficial que estava inerte. Todos não souberam o que dizer daquela cena horripilante. O Mais apavorado de todos era o Engenheiro Chefe que olhava para o corpo sobre a mesa e gritava sem parar: 

– Eu já vi esse filme!! Eu já vi esse filme!!

Autor: M.P.D.

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Escolhas (conto de ficção)

O radio relógio marca 03:30. Ouço a esposa ressonando ao meu lado. Que bom! Pelo menos ela está conseguindo relaxar. A inconsciência do sono me é negada. Os pensamentos fervilhando na mente não me permitem dormir. São tantos os problemas financeiros… O pior é que amanhã será mais um dia difícil. Preciso decidir o que fazer da empresa e não me sinto capaz de qualquer escolha. Todas parecem péssimas.

Levanto silenciosamente. Quem sabe um pouco de água para aplacar esse inferno. Noto que a luz da cozinha foi esquecida acesa. Ainda mais isto para aumentar a conta. O estranho é que a luz está muito azulada. Vai ver está dando curto. Estou ferrado mesmo. Empurro a porta e quase caio de costas. Tem um cara dentro da minha cozinha olhando para mim. Mas, que sensação mais esquisita. O cara sou eu mesmo. Mas diferente. Quer dizer…

-Olá! Não se assuste! Está tudo bem!

– É fácil falar! respondo. Olhando desconfiado para um outro eu que tenta me acalmar.

Que sensação maluca. Sei que aquele sujeito na minha frente sou eu mesmo, apesar de ter algumas características diferentes. Está bem elegante, nada de barriga, mas o cabelo… Nunca me imaginei usando um cabelo tão ridículo. Além de tê-lo tingido ainda está usando um litro de gel.

– Acalme-se que eu explico tudo. Sorriu meu outro eu.

-Lembra de quando queria descobrir como viajar no tempo? Que prometeu voltar para dizer a si mesmo quando conseguisse?

– Quer dizer que eu consegui? Eu sou você no futuro?

– Sim e não para as duas perguntas!

– Que raio de resposta é essa?

– Explico :Sim eu sou você, pelo menos de certa forma, mas não sou você no futuro. E não descobrimos a viagem no tempo. Isto é uma viagem entre possibilidades existenciais.

– Que? Que diabo é isso?

– Vou tentar falar em linguagem simples afinal você não é físico.

– Quase fui!

– Sim, mas decidiu não ser, e é aí que entra o que eu quero te explicar. Eu continuei na física e na tentativa de descobrir a possibilidade da viagem no tempo acabei descobrindo outra coisa.

– O que?

– Descobri que cada decisão que tomamos em nossas vidas é como se criasse uma “esquina”, que dobramos ou seguimos em frente, conforme a nossa escolha. Isso gera a possibilidade de dois mundos distintos, um onde fomos em frente e outro onde escolhemos virar para uma outra direção.

– Quer dizer que quando escolhemos dividimos o nosso universo em dois? Criando duas possibilidades?

– Você entendeu rápido! Devia ter feito física! Exatamente! E a cada decisão isso se multiplica. Vivemos num universo existencial que é resultado de nossas escolhas e decisões, que faz parte de um multiverso que se estende ao infinito. Eu sou o eu que continuou na física você o eu que desistiu.

– Devo estar sonhando!

– Quer outro exemplo? Lembra que pensamos em nos tornarmos padre quando éramos adolescentes?

– Eu decidi ser? Virei padre?

– Bem, você não, um outro você, um outro nós, decidiu. Hoje é papa no universo existencial dele?

– Papa?

– É! O primeiro papa de origem americana!

– Que loucura!

– Cada decisão tomada por um de nós, cria mais um de nós.

– E qual o limite?

– Sem limites!

– Se as coisas são do modo como diz, falta me explicar por que você veio?

– Bem, você não está muito feliz com as decisões que andou tomando, certo?!

– Não, mesmo!

– Pois é! Outra coisa que descobri nas minhas pesquisas é que apesar de nos dividirmos ao infinito entre os universos existenciais ainda assim continuamos ligados uns aos outros.

– Como é? Ligados?

– Sim, e nossas decisões e estados existenciais continuam tendo influência em todos os nossos eus. Por exemplo: Já sentiu vontade de se matar alguma vez?

– Não! Credo!

– Mas a idéia já te passou pela cabeça, não?

– Bem, já algumas vezes, mas afastei como uma tremenda besteira.

– Pois é, alguns de nós, não mudaram de idéia!

– Quer dizer que…

… alguns de nós se mataram!

– Deus do céu!

– A coisa se estende ao infinito, lembre-se. Todas as possibilidades existenciais estão disponíveis, basta que decidamos.

– Mas, porque você veio? Eu não vou me matar! Estou cheio de dívidas, mas não faço isso nunca!

– Não, é provável que não. Neste universo existencial nossas opções geraram valores que diminuem as chances de cometermos tal ato.

– Então, por que?

-Como eu estava dizendo, nossos estados existenciais continuam reverberando nos demais Eus e isso cria uma certa instabilidade em todos. Além de ter descoberto a existência e funcionamento destes universos existenciais pude construir equipamentos que nos permitem fazer a viagem entre estes universos como estou fazendo agora. Enquanto estivermos dentro deste campo de não-existência tudo estará bem.

– Esta luz azulada? E se sairmos?

– Bem, você simplesmente vai voltar a sua vidinha normal. Em poucos minutos acabará esquecendo tudo o que conversamos aqui. Quanto a mim, se sair, deixando você aqui vou em poucos minutos assumir a sua existência. Vou esquecer tudo o que se passou comigo e passar a lembrar tudo o que se passou com você. Torno-me você.

– E se sairmos os dois?

– Essa seria a pior das opções. Pense bem. Você poderia, ao mesmo tempo, ter feito uma escolha e não tê-la feito? Virar à direita e ao mesmo tempo à esquerda numa encruzilhada?

– Não, claro que não, isso é uma impossibilidade lógica, isso não existe!

– Exatamente! Duas opções opostas se anulam. Deixaríamos de existir. Nossos universos existenciais se anulariam.

-Credo!

– Mas, voltando ao que eu dizia. Construí equipamentos como este meu bracelete, que permitem a criação de um campo de não-existência. É baseado numa lógica não formal. Aqui dentro é possível alem de verdadeiro e falso, um talvez…Dentro deste campo podemos coexistir como um talvez, ou com um quem sabe…

– Que coisa de doido!

– Alguns de nós ficaram mesmo!

– Você está me deixando assustado!

– Não precisa ficar. Aqui você é filosofo, não físico, mas não somos tão diferentes assim. Você é tão pirado quanto eu, quantas pessoas conhece que já te disseram isso por gostar de filosofia? Tenho certeza que empata comigo com a física.

– E verdade!

– Mas, voltamos a divagar. É difícil conversar com você, hein?

– Deve ser por causa da filosofia!

– Bem, retomando. Com essas minhas invenções foi possível criar equipamentos para explorarmos Terras alternativas onde o homem nunca se desenvolveu, isto resolveu muitos problemas energéticos e alimentares do meu universo existencial. Ganhei muito dinheiro com as patentes de minhas invenções. Sou um dos homens mais ricos de lá.

– Caramba! Isso abre muitas possibilidades!

– Realmente. E uma das que fazem maior sucesso é a troca de existências.

– Como é que é?

– Isso mesmo, troca de existências. Se um sujeito não está satisfeito com as opções que fez, pode trocar com outro que também não esteja e isso tem um reflexo positivo em todos os Eus existenciais dele. Aquela instabilidade de que eu falava diminui. Deste modo estamos tentando minimizar os problemas gerados pelas insatisfações e suicídios.

– Bela idéia! Assim ficam todos felizes e o todo fica mais feliz ainda, certo?

– Pegou a idéia!

– Tá, mas e o que eu tenho com isso?

– Ora, você não estava agora mesmo se remoendo na cama com os problemas que estão te impedindo de viver feliz? Com as decisões que terá que tomar? Então? Estava gerando o maior ruído nos equipamentos. Mais do que você só o Eu Papa, que parece estar em crise de fé, logo agora que assumiu.

– Eu não pensei que estava prejudicando a nós… quer dizer mim… sei lá , você entendeu.

– Calma, não precisa se desculpar! Eu vim para ver se você quer fazer uma troca.

– Troca? Trocar o que?

– Trocar de lugar comigo!

– Com você? Mas você é o cara que descobriu tudo isso. O cara que ficou rico com tudo. E quer trocar comigo que estou na maior pindaíba? Você é um dos meus Eus malucos?

– Não, apenas não estou satisfeito com algumas das minhas escolhas, também, e gostaria de mudá-las.

– Mas porque não escolheu outro?

– Porque as possibilidades não são muitas para a troca que almejo. Você fez algumas escolhas que eu não fiz e que gostaria de ter feito.

– Que escolhas? Não continuar com a física?

– Essa, também, mas foi só uma conseqüência. Antes você fez uma escolha mais importante.

– Qual?

– Ir ao baile!

– Que baile? Acho que viajar entre existências está te deixando maluco!

– O baile em que conheceu sua mulher!

– Ah! Esse baile. Você não foi?

– Não! E por isso não me casei. E por causa disso não parei de estudar física, pois não tinha mais nada a que me dedicar.

– Quer dizer que você ficou solteiro e sem…

– … filhos! Isso mesmo!

– E com isso descobriu tudo o que descobriu e ficou milionário.

-Exato! Por essa razão quero tocar com você! Eu tenho o dinheiro que você deseja, já que está falido e você tem o que eu mais desejo…

– Que é?

– Uma família!

– ….

– Acho que para você fica difícil entender. Você tem uma. Você tem esposa e filha. Pode estar passando por problemas financeiros, mas não está só.

– Quer dizer que apesar de tudo o que conseguiu, preferia não ter feito aquela escolha? Preferia ter ido ao baile, namorado, casado, tido filhos, e por aí a fora? Mesmo ficando falido?

– Sem dúvida!

– Mas devem existir outros Eus por aí que também se casaram, por que não os escolhe?

– Não estão tão insatisfeitos com a vida que levam. Meus instrumentos registraram apenas quatro de nós com um alto índice de insatisfação: Eu, você, o Papa e mais um de nós que fez muitas escolhas erradas e está preso aguardando execução.

– E pelo que parece você não quer nem ser Papa nem candidato a defunto, certo?

– Certo! E além disso o Papa não se casou. Só sobra o outro para os meus objetivos.

– Legal, mas quem disse que eu quero trocar de lugar com você?

– E uma possibilidade! Se você aceitar eu lhe passo meu bracelete e saio da cozinha. Basta você apertar este botão e voltará ao meu universo existencial e em poucos minutos tudo terá acabado. Fácil!

– Entendi! Eu fico com a grana e uma vida de tranqüilidade financeira, seu cabelinho pintado e empastado de gel, e você vai para a minha cama e assume minha família e as minhas dívidas?

– Muito obrigado, mas não!

– Não?

– Não! Não quero fazer troca nenhuma!

– Mas…

– Sem mas. Tem coisas que dinheiro nenhum compra. E a sua vinda aqui é uma prova disso. Prefiro lutar com minhas dívidas a abrir mão do meu maior tesouro. Acho melhor você procurar algum outro.

– Teria que esperar um outro de nós que tenha feito a mesma opção ficar com um nível de insatisfação maior. Ou então pegar o nosso Eu criminoso. Tem certeza que não quer trocar?

– Tenho!

– Está bem! Eu posso compreender. Afinal você já havia feito a escolha antes, não é mesmo? Dificilmente mudaria. Creio que vou tentar o prisioneiro. Ele deve ter motivos fortes para desejar a troca.

– Mas e se você for condenado? Vai jogar tudo fora?

– Acho que você ainda não pegou toda a idéia. Assim que eu trocar com ele, as nossas existências serão permutadas. Para todos os efeitos eu terei vivido tudo o que ele viveu. Eu terei uma família, mesmo que seja como uma lembrança de dias melhores. Mesmo que eu esteja no corredor da morte terei toda uma existência, com a qual sempre sonhei, para me sustentar.

– Te desejo boa sorte!

– Obrigado e continue fazendo boas escolhas!

A luz azulada se foi e estou em pé e sozinho na cozinha escura.

Volto para o quarto, mas antes paro no corredor e dou uma olhada no quarto de minha filha adormecida. Uma sensação de bem estar me invade a alma.

Aconchego-me à esposa adormecida e dou-lhe um beijo.

– Que houve? Não consegue dormir? me pergunta sonolenta.

– Nada, parece que eu queria te contar alguma coisa, mas… não consigo lembrar o que é!

– É melhor você dormir, pela manhã vai ter que tomar uma decisão muito importante.

– Engraçado, não sei porque, mas acho que já tomei. Acho que já tomei!

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Esmé (conto de ficção)

– Todas as histórias de caça são iguais – disse Clovis. – E todas as histórias de corridas de cavalos também são iguais, e todas as…

– A minha história de caça não se parece em nada com qualquer outra que tenha ouvido – disse a Baronesa. – Passou-se já há bastante tempo, tinha eu vinte e três anos. Nessa altura não estava separada do meu marido; está a ver, nenhum de nós se podia dar ao luxo de pagar ao outro uma pensão. Digam o que disserem os provérbios, são mais os lares que a pobreza mantém unidos do que aqueles que destrói. Mas caçávamos sempre com matilhas diferentes. Nada disto tem a ver com a história.

– Ainda não chegámos ao ponto da concentração. Suponho que houve uma concentração dos caçadores – disse Clovis.

– Claro que houve uma concentração – disse a Baronesa. – Estava lá toda a gente do costume, e em particular Constance Broddle.

Constance é uma daquelas raparigaças de boas cores que combinam às mil maravilhas com um cenário de Outono ou com as decorações de Natal na igreja. “Pressinto que está para acontecer alguma coisa horrível”, disse-me ela, “Estou pálida?”

Estava tão pálida como uma beterraba que tivesse recebido más notícias de repente.

“Está mais bonita do que o normal”, disse eu, “mas isso para si é tão fácil.” Antes de ela ter atingido o exacto alcance do comentário, já começara a função; os cães tinham descoberto uma raposa escondida no meio de umas giestas.

– Eu já sabia – disse Clovis. – Em todas as histórias de caça à raposa que ouvi havia sempre uma raposa e moitas de giesta.

– Constance e eu tínhamos belas montadas – continuou a Baronesa serenamente – e não tivemos dificuldade em nos mantermos na primeira leva, embora fosse uma corrida bastante puxada. Mas lá para o fim devemos ter seguido um caminho um pouco independente, porque nos perdemos dos cães, e vimo-nos a andar à toa aos tropeções a milhas de qualquer sítio. Era uma coisa exasperante, e a minha boa disposição começava a ceder aos poucos, quando ao abrir caminho por uma sebe complacente deparámos com o alegre espectáculo dos cães em grande berraria num valado mais abaixo.

“Lá vão eles – gritou Constance, e acrescentou num sobressalto: – Mas que diabo de caça será aquela?”

Não era, de certeza, nenhuma raposa deste mundo. Tinha o dobro do tamanho, tinha uma cabeça curta e feia, e um pescoço grosso enorme.

“É uma hiena – gritei. – Deve ter fugido do Parque de Lord Pabham.”

Nesse momento o bicho perseguido virou-se e enfrentou os perseguidores, e os cães (eram só uns seis pares) ficaram em semicírculo e com um ar aparvalhado. Era evidente que se tinham separado do resto da matilha na pista daquele cheiro estranho, e não estavam muito certos de como lidar com a presa agora que a tinham apanhado.

A hiena saudou a nossa chegada com inequívoco alívio e manifestações de amizade. Provavelmente estava habituada a uma invariável amabilidade por parte dos humanos, ao passo que a primeira experiência com cães lhe deixara uma má impressão. Os cães pareciam mais embaraçados do que nunca enquanto a presa exibia a sua súbita intimidade connosco, e o ténue ressoar de uma trompa ao longe foi tomado como o desejado sinal para uma partida discreta. Constance, eu e a hiena ficámos sós no crepúsculo que descia.

“Que vamos fazer?”, perguntou Constance.

“Não há como você para fazer perguntas”, disse eu.

“Bem, não podemos ficar aqui a noite toda com uma hiena”, replicou ela.

“Não sei qual é a sua ideia de conforto,” disse eu, “mas não tenciono passar aqui a noite toda, mesmo sem uma hiena. Pode não ser um lar feliz, o meu, mas pelo menos tem água quente e fria, e serviço doméstico, e outras comodidades que não encontraríamos aqui. O melhor que temos a fazer é seguir para aquele renque de árvores à direita; tenho a impressão de que a estrada de Crowley fica logo a seguir.”

Trotámos devagar seguindo o trilho apagado de uma carroça, com o bicho seguindo alegremente atrás de nós.

“Que raio havemos de fazer com a hiena”, veio a pergunta inevitável.

“Que é que se costuma fazer com as hienas?”, perguntei mal-humorada.

“Nunca tive nada a ver com nenhuma até agora”, disse Constance.

“Bem, eu também não. Se ao menos soubéssemos de que sexo é podíamos pôr-lhe um nome. Talvez lhe pudéssemos chamar Esmé. Dá para as duas hipóteses.

Ainda havia luz suficiente para distinguirmos as coisas à beira do caminho, e a nossa atenção entorpecida teve um sobressalto de alerta quando deparámos com um miúdo cigano seminu que andava a apanhar amoras numas moitas rasteiras. A súbita aparição de duas amazonas e uma hiena puseram-no em fuga aos berros, mas seja como for dificilmente poderíamos obter qualquer informação geográfica útil de tal fonte; mas havia uma probabilidade de virmos a encontrar um acampamento de ciganos pelo caminho. Esperançadas, seguimos caminho, mas sem que nada acontecesse por mais quilómetro e meio uma milha ou coisa assim.

“Pergunto-me o que andaria uma criança a fazer ali”, disse Constance passados instantes.

“A apanhar amoras. Obviamente.”

“Não me agradou o modo como berrava”, continuou Constance, “parece que ainda tenho o choro dele nos ouvidos.”

Não trocei das fantasias mórbidas de Constance; para dizer a verdade, a mesma sensação de ser perseguida por um persistente gemido aflito, tinha-se insinuado nos meus nervos já exaustos. A precisar de companhia, chamei por Esmé, que tinha ficado algures para trás. Com uns quantos saltos enérgicos pôs-se a par de nós, e depois desapareceu à nossa frente.

O acompanhamento de gemidos estava explicado. O ciganito ia firmemente, e imagino que dolorosamente, aferrado pelas presas da hiena.

“Santo nome de Deus!” gritou Constance, “que raio havemos de fazer? Que vamos fazer?”

Estou perfeitamente convencida de que no Juízo Final Constance há-de fazer mais perguntas do que qualquer dos Serafins jurados.

“Não podemos fazer nada?”, insistia ela lacrimejante, enquanto Esmé trotava ligeira à frente dos nossos cavalos cansados.

Pelo meu lado fazia tudo o que me ocorria no momento. Vociferava, ralhava, adulava, em inglês, francês e em linguagem de couteiro; fazia gestos inúteis no ar com a minha chibata esfiapada; atirei ao animal a caixa das sanduíches; realmente, não sei que mais poderia ter feito. E lá continuámos a arrastar-nos no crepúsculo que se adensava, com a silhueta desengonçada arrastando-se à nossa frente, e a toada de uma música lúgubre pairando nos ouvidos. Subitamente Esmé mergulhou numas moitas espessas ao lado do caminho, onde não a podíamos seguir; o gemido cresceu para um guincho e depois calou-se completamente. Passo sempre depressa esta parte da história, porque realmente é bastante horrível. Quando o bicho se juntou de novo a nós, depois de uma ausência de alguns minutos, havia nele um ar de compreensão resignada, como se soubesse que tinha feito uma coisa que desaprovávamos, mas que sentia como perfeitamente justificável.

“Como pode permitir que essa fera esfaimada trote a seu lado?”, perguntou Constance. Parecia-se mais do que nunca com uma beterraba albina.

“Em primeiro lugar, não posso impedi-lo”, disse eu. “E em segundo lugar, pode ser muitas coisas, mas esfaimada duvido que seja neste momento.”

Constance estremeceu. “Acha que o pobrezinho sofreu muito?”, veio mais uma das perguntas desnecessárias dela.

“Tudo indica que sim”, disse eu. “Por outro lado, é certo que pode ter estado a chorar por pura birra. As crianças às vezes são assim.”

Era quase noite cerrada quando de repente emergimos em plena estrada. O clarão de uns faróis e o chiar de um motor passaram por nós simultaneamente a uma proximidade inquietante. Um baque e o som agudo de um guincho seguiram-se um segundo depois. O carro parou, e quando dirigi a montada para o local deparei com um homem novo curvado sobre uma massa escura imóvel estendida na berma.

“Matou a minha Esmé”, exclamei azeda.

“Lamento imenso”, disse o jovem. “Sou criador de cães, e compreendo como se deve sentir. Farei o que puder para a compensar.”

“Faz favor de a enterrar imediatamente”, disse eu. Acho que tenho o direito de lhe pedir isso.”

“Traz a pá, William”, ordenou ao chauffeur. Via-se que funerais improvisados nas bermas das estradas eram contingências que estavam previstas.

Levou algum tempo a cavar uma campa suficientemente grande. “Sim senhor, um sujeito respeitável”, disse o cavalheiro, ao mesmo tempo que o cadáver era rolado para a vala. “Dá a impressão que devia ser um animal de bastante valor.”

“Ficou em segundo lugar, em Birmingham, na categoria de cachorros o ano passado”, disse eu com desembaraço.

Constance fungou ruidosamente.

“Não chore, querida”, disse eu numa voz entrecortada. “Foi tudo rapidíssimo. Não deve ter sofrido muito.”

“Por favor”, disse o jovem num tom sentido, “tem de me deixar fazer alguma coisa como forma de a compensar.”

Recusei delicadamente, mas como ele insistia acabei por lhe dar a minha morada.

Naturalmente, não dissemos palavra sobre os episódios do princípio da noite. Lord Pabham nunca anunciou o desaparecimento da sua hiena; há um ano ou dois um animal estritamente frutívoro saíra do parque dele e vira-se obrigado a pagar indemnizações em onze casos de acidentes com ovelhas e praticamente repovoara as capoeiras dos vizinhos; por isso, uma hiena à solta era capaz de equivaler a qualquer coisa à escala de um subsídio do Governo. Os ciganos mostraram-se igualmente discretos quanto ao desaparecimento do filhote; não me parece que nos grandes acampamentos eles saibam, mais filho menos filho, quantos têm ao certo.

A Baronesa fez uma pausa com ar pensativo, e depois continuou:

Mas a aventura teve uma sequela. Recebi pelo correio um pequeno alfinete de diamantes amoroso, com o nome de Esmé gravado num raminho de alecrim. Por acaso, também, perdi a amizade de Constance Broddle. Está a ver, quando vendi o alfinete recusei-me com toda a razão a dar-lhe qualquer parte do lucro. Fiz notar que a parte Esmé do caso tinha sido inventada por mim, e que a parte hiena pertencia a Lord Pabham, se realmente a hiena era a dele, coisa de que, evidentemente, não tenho nenhuma prova.

Autor: Saki

Tradução de José Lima

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Ele e Ela (conto de ficção)

A Júlio César Machado 

Meu velho amigo: – Aqui tens a história que ontem me contou, ao  separarmo-nos de ti depois de jantarmos juntos, aquele sujeito que tu  conheces.

 Eu  tinha  chegado  de  um porto de França em companhia de uma alemã, que  entrevira em Paris, e com quem me encontrei depois a bordo do paquete que  tinha  de  nos trazer ao Tejo. Era uma senhora de maneiras muito graves e  de  fisionomia perfeitamente distinta, sincera e despresumida, como quasi  toda  a  gente dessa bela raça germânica, que floresce em todos os climas  como na sua pátria, e aceita toda a convivência como a da sua família.

Desembarcámos  no  Terreiro  do  Paço. Ela vinha tão abatida e alquebrada  pelos  efeitos  de  uma viagem tempestuosa no grosso mar da Gasconha e da  Mancha, que eu determinei-me, contra os usos do país a que me recolhia, a  oferecer-lhe  o  meu  braço  para  passearmos  por  um  momento  à réstea  vivificadora do sol de Lisboa no mês de Janeiro.

Soube  então  que  a  minha simpática dama se encontrava só na capital, e  tinha de partir para o Porto, assim como eu, no dia imediato. Falámos por  algum  tempo, ela das suas saudades, eu das minhas recordações, até que a  acompanhei   numa  carruagem  ao  hotel  de  Bragança,  onde  ficámos  de  reunir-nos  na  manhã  seguinte,  para  seguir no caminho de ferro para a  cidade das camélias.

 À  hora  aprazada fui encontrar-me efectivamente com ela e achei-a pronta  para  partir, radiante de saúde, vestida com um trajo de primavera, tendo  um  ramo  de  flores  junto  do  rolo  do  seu  édredon,  e  mostrando-se  maravilhada  da  suave  brandura  do  clima  e da engenhosa convenção que  levava os habitantes a usarem paletot, com o fim de fazerem acreditar uns  aos outros e a quem viesse de fora que também por cá se tinha inverno.

Saímos  a  pé  pelo braço um do outro, e fomos almoçar a um café, fazendo  horas para chegar a Santa Apolónia a tempo de entrar no trem e partir.

Achámo-nos  no vagão, acompanhados unicamente de um respeitável ancião, o  sr.  S.  M.,  que  lia filosoficamente um número do Diário de Notícias no  canto  do  compartimento  oposto àquele em que nós ficámos um defronte do  outro.

Estava  com efeito uma bela e donosa manhã sem calor nem frio, sem nuvens  no céu, sem lama na terra e sem pó no ar.

De  um  lado a frescura das laranjeiras e o reluzente viço das hortas que  bordam a estrada até o Carregado, e do outro o límpido cristal do Tejo em  plena  majestade  iam-nos  acompanhando  como  um  sorriso  e um afago da  natureza em hora de bom humor.

A  minha  companheira de viagem tinha remoçado cinco anos com este brando  acolhimento  do  amorável  país  do  seu  exílio. Estava buliçosa como um  estudantinho, tinha desemolhado o seu ramalhete à força de o respirar com  frenesi,  até  deixar  ver toda a alvura dos seus pequeninos dentes com a  infantil  alegria de uma felicidade inteiramente desanuviada, e era muito  bonita, assim contente e alegre.

Pelas  quatro  horas  da  tarde estávamos perto de Aveiro e principiava a  desenrolar-se  aos  nossos  olhos  a  esplêndida  paisagem  do  norte  de   Portugal. As campinas estavam virentes e viçosas como em plena primavera,  o  sol  inclinava-se  para o ocaso entre uns ténues vapores de opala e de  ouro,  respirava-se  a  brisa  fragrante  das ondas e havia no ar como um  fluido  de melancolia e de saudade. Era a plácida morbidez de uma tela de  Correggio.

A  jovem  alemã,  que  eu  tinha defronte de mim, havia tirado o chapéu e  recostado  para trás a sua bela cabeça, aureolada por uma espécie de vaga  irradiação  proveniente  do  azul  dos seus olhos e da expressão dos seus  lábios  arqueados num sorriso triste como o dos sonhadores, dos namorados e dos poetas.

Eu  atirei  fora um charuto que ela me permitira acender, e preguntei-lhe  como lhe parecia a paisagem que íamos vendo.

– Ideal murmurou ela, quasi num suspiro.

Este   laconismo   deixou-me  entender  que  estava  com  uma  verdadeira apreciadora  do  belo,  uma  dessas  criaturas  privilegiadas  em  quem a  contemplação  dos  grandes  espectáculos da natureza entumece o coração e  supita  a  palavra  fazendo bailar as lágrimas nos olhos. Entendi que não  devia  perturbar  o seu pensamento, a sua ilusão talvez, ou por ventura o  seu êxtase, e pus-me a olhar silenciosamente para ela.

Ao cabo porém de meia hora não pude resistir à tentação de lhe dizer:

– Que horas estas para dois entes que se amassem!

– É verdade, confirmou ela.

–  Como  deve ser bom, nestes momentos em que a saudade vaga e indefinida  nos  inunda como um banho de recordações, de esperanças e de afectos, ter  junto de nós um honrado e leal coração que nos entenda e nos ame, e poder  a  gente  casar  ternamente com o hino do crepúsculo, o hino da sua alma!  Dá-me licença que a ame…

Ela  fitou-me  com um olhar penetrante. – … por cinco minutos? terminei  eu  –  ou  por um quarto de hora?… daqui até se pôr o sol? No fim desse  prazo  recebe cada um os protestos que adiantou, retira as juras que fez,  e fica senhor de si como dantes. É como quem joga a tentos.

–  Assim, pode ser, disse-me ela rindo, mas verá que se aborrece antes de   chegar ao meio da partida…

– Porquê?

– Porque não faz uma vasa.

– Quem sabe? Conforme o lado para que ficarem os trunfos.

– Demos então as cartas.

–  Eu  principio. Conto trinta anos de idade, sou pobre e tenho o coração  ocupado, mas deu-me Deus um génio apaixonado. . . sincero! Entendo eu que  uns  dedos fininhos, cor-de-rosa, elegantemente tratados e perfumados são  feitos  para  receber  de  quando  em  quando  um  beijo;  que  um  olhar  inteligente  e suave deve descer ao fundo da nossa alma, se nós temos uma  alma  pura,  e  dessedentar-se  nela  como  uma  pomba  em um lago; que a  elegância,  o  espírito e a educação de uma mulher amável devem em todo o tempo  receber  o  culto  da admiração e do reconhecimento de um homem de  bem,  porque  é  certamente  para  os  homens  de bem que Deus permitiu a  amabilidade às mulheres honestas…

–  Mas  é  amizade o que me está dizendo e o que eu mais prezo! E a única  pessoa que conheço em Portugal, e já ninguém poderá agora evitar que seja  o  meu  primeiro  amigo…  Vou-lhe  fazer também as minhas confidências.  Tenho  contraído  grandes encargos de coração. Acredita que seja possível  amar-se por cartas muito tempo?

–  O  amor  em  cartas,  objectei-lhe eu, é como um jantar de que não nos  oferecem senão a lista. Nada obsta a que seja o mais sumptuoso, mas não é  por  certo  o  mais nutriente … No entanto como em tais banquetes dizem   que é a imaginação quem prepara as iguarias mais delicadas…

– Eu creio que sou amada…

–  Por  alguém  que  está  longe! a quem escreveu esta manhã uma carta de  consolação,  de resignação e de esperança… uma carta que dentro de oito  dias  o  há-de fazer chorar, e que ele há-de trazer por muito tempo junto  do  coração  como  uma  santa  relíquia…  E  em troca desta carta há-de  mandar-lhe  outra escrita ardentemente com as lágrimas do coração e com o sangue  das veias, a qual, antes e depois de se saber de cor, será lida e  relida todos os dias entre a oração da manhã e o piedoso beijo deposto no  retrato  de  sua mãe. Veja que ideal ventura! o prazer de amar sem ter do  amor o que há nele mais impertinente e mais prosaico: as imperfeições que  a  convivência  descobre  e  multiplica!  E, depois, dentro de um ou dois  anos,  o  prazer  de  tornarem a ver-se! Aparecer-lhe mais bela, porque a  saudade  e  a  esperança  poetizam,  melancolizam, tresdobram a beleza; e  encontrá-lo  mais  velho,  e  portanto  mais expressivamente homem e mais  expressivamente simpático! tê-lo finalmente ao seu lado…

(E,  nisto, passei para o lado dela, e sentei-me no mesmo sofá em que ela se achava.)

– Ouvi-lo, continuei eu, ouvi-lo falar-lhe da ausência e do futuro comum,  pondo-lhe  aos  pés  o seu amor, o seu nome e a sua liberdade! Possa Deus  reuni-los cedo e não o matar a ele de felicidade na hora suprema em que a  vir,  sendo-lhe  permitido,  em  paga  do seu amor constante, beijá-la na  fronte  longamente  e  inebriar-se com a certeza de ser amado pela mulher  mais adoraveImente meiga, mais terna e mais simpática!

Chegado  a  este ponto, e falando-lhe já, insensivelmente, com muito mais veemência e afogo do que se emprega para conversar, peguei-lhe nas pontas  dos  dedos,  levantei  a  mão  que  ela tinha caída no regaço e pousei os  lábios no debrum da luva.

Ela  então  levantou o cabazinho de viagem, que estava colocado entre nós  ambos,  segurou-o  nos  joelhos, desafivelou a correia que lhe segurava a   tampa,  e  dando-me  uma  laranja  que  tirou  de  dentro, disse-me com a   gravidade indulgente e bondosa de um enfermeiro ou de um médico:

– Prescrevo-lhe o regime refrigerante.

–  Por  Deus,  me parece que estava precisando da receita! tornei-lhe eu,  pondo-me a rir.

E,  voltando  para  o  lugar  que  primeiramente  ocupava  defronte dela,  principiei  a descascar a laranja e a morder com apetite nesse fruto, que  não era por certo o fruto proibido.

–  Sim,  senhor?  ia-me  dizendo no entanto a minha graciosa companheira,  baralhou bem as cartas e arranjou bom jogo!

– Ah! então confessa . . .

– Confesso-lhe que sim.

–  Posso  oferecer-lhe  da minha dieta? preguntei eu, dando-lhe metade da  laranja.

Ela separou um gomo.

– Quando acabar, podemos continuar.

–  Continuo  imediatamente,  cortei  eu logo, debruçando-me na portinhola para cuspir uma pevide que tinha nos beiços.

Senão  quando a corrente do ar cortado pela locomotiva levou-me da cabeça  o meu chapéu.

Preciso  abrir para este objecto perdido um parêntese, de cuja substância  Deus  me  livre que se soubesse! Tinha sido feito em Paris por – Pinaud &  Amour  –  esse  bonito  chapéu  tão flexível, que se meteria dentro de um  sobrescrito! Era de casimira azul como a minha jaqueta de viagem, forrado  de  azul-claro  com  debrum  pespontado de seda preta. O próprio Amour me  tinha  dito ao vender-mo por vinte francos – Cela vous coiffc à merveille

–  e eu tinha tido a criminosa fraqueza de o acreditar! Aquele chapéu não  era  para  mim  somente  um  chapéu,  era  um  elmo  e  um  arnês. Não me  considerava  simplesmente  coberto  quando o punha, considerava-me também  armado.  Queres que te confesse a verdade? Eu não me teria nunca atrevido  a  apertar  os  dedos  da minha alemã, nem a beijar-lhe apaixonadamente a  luva,  se  o  não  trouxesse  na cabeça, e era realmente muito mais com o  talento  dos  srs.  Pinaud  &  Arnour,  do  que com o meu próprio, que eu  contava para me fazer passar junto dela por um homem de espírito !

Os  cabelos  despenteados pelo vento tinham-me caído para cima dos olhos;  compreendi  que  estava  ridículo, não podendo esconder este ar sumamente  tolo  de  todo o homem a quem de repente desaparece o chapéu na asa de um  tufão.

Ela  ria  às  gargalhadas, as quais me caíam na cabeça… na cabeça não –  pelas costas abaixo! – como torrentes de água nevada.

O sr. S. M., de quem confesso que me tinha completamente esquecido, e que  continuava sempre a sua viagem no nosso compartimento, apiedou-se de mim,  e,  lançando  generosamente  a  mão  à rede da carruagem, baixou nos seus  braços uma caixa de chapéu do tamanho de um gasómetro, e disse-me assim:

– Tenho aqui com que lhe valer!…

Entendi  que rabearia um castor inteiro para fora daquela toca ambulante,  e  ia  conter  com  um  gesto a benevolência do meu delicado companheiro,  quando ele me observou, rebatendo o meu susto com um sorriso:

– Não é o que cuida! Está cá dentro o objecto que lhe convém.

E  dizendo isto, sacou da chapeleira, suspenso por uma aparatosa borla de  retrós  preto, um barrete de veludo ornado de amores-perfeitos bordados a  matiz.

Hesitei  por  um  instante entre aceitar o barrete, o que era hediondo, e   confessar-lhe medo, o que era pueril. Revesti-me finalmente de todo o meu  valor  e  estendi  a dextra para o inocente carapuço, que estava sendo na  mão do sr. S. M. gládio da suprema justiça, alfange exterminador da minha  pecadora  vaidade.  Fechei em seguida os olhos como quem vai lançar-se em  um  abismo,  peguei  no barrete com ambas as mãos, levantei-o à altura do  rosto,  deixando-lhe  a borla pendente, entreabri os olhos e vi o monstro  boquiaberto…  Tornei logo a cerrar as pálpebras, e meti a minha infeliz cabeça no seu novo envólucro!

Estava consumado.

A  minha  gentil companheira deu-me o golpe de misericórdia inclinando-se  para   mim,   pegando-me  em  ambas  as  mãos  e  dizendo-me  entre  duas  gargalhadas:

Valor! acredite… que o amo.

Respondeu-lhe  o  silêncio  da  morte. O barrete de veludo, circundado do  matiz  dos amores-perfeitos, cuja borla me caía como o crepe funerário de uma  lança  ao  longo  da  orelha esquerda, era o túmulo e o epitáfio das  minhas ilusões dêsse formoso dia!

Ser  amado, tendo na cabeça um barretinho de veludo com sua borlazinha ao  lado,  pedindo  para  cima  da  outra  orelha  a pena de pato ramalhuda e  majestosa,  insígnia  burocrática  do  guarda-mor  pontual  e do tabelião  zeloso!  Ser  amado,  e ouvi-lo assim dizer nessa hora tremenda pela boca  mais   engraçadamente   zombeteira  a  que  Deus  permitiu  a  momice  da  provocação!  Que  havia  de  retorquir  eu  em  tão horrorosa conjuutura?  Mover-me  para  fazer  bambolear  sobranceira ao meu coração aquela borla  fatal como o espanador dos meus afectos juvenis? ajoelhar-me aos pés dela  e  pôr-lhe  nojosamente no regaço aquela cabeça do feitio e da fazenda de  uma  afrontosa  almofada  de  costura,  ou  de  uma ignóbil pregadeira de  alfinêtes?!?

Assim  os  perdi  pois,  para todo sempre, a ambos: a ela e a ele; a mais  encantadora  alemã que meus olhos têm visto e o mais bonito chapéu que em  minha cabeça tenho pôsto!

Encerra esta pequena história a imagem da felicidade e por isso ta dedico  a ti, meu querido Júlio, a quem a desejo mais completa e mais perfeita. O  que  é  desgraçadamente  a  fortuna  senão esse chapéu que um pé-de-vento  arrebata, e esse amor que a presença de um barrete extingue?

Autor: Ramalho Ortigão

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Daqui Só Saio Quando Morrer (conto de ficção)

1. O cão gemia tanto que miava. Pendurou-o debaixo do braço, pegou-lhe pela cauda pendular, volteou uma corda de ponto cruzado na sua ponta e uma lata destapada de querosene na outra, e soltou-o no chão. Balançou a perna bruscamente de um lado até ao rabo do cão, que ganiu num salto e solto fugiu regando óleo pela lata. Araújo soltou então um fósforo aceso no riacho de combustível. Num só fôlego, o fogo galopou até ao cão, perseguindo-o através da floresta. Os pinheiros e os eucaliptos acenderam-se como lâmpadas.

Aquele tipo de vida tinha começado um dia meio ano atrás, quando Araújo Monteiro-Silvas recebeu a visita de três homens vestidos de branco na sua casa vaga de desempregado, no bairro social das Ajudas Perenes. Era tarde, os três senhores apinhados na porta suavam, devia ser do calor. Araújo perguntou quem eram do outro lado da porta, vendo-os desfocados e distorcidos pelo olho-de-boi.

De porta aberta, os três homens sorriram ao de leve, bafientos e gordos. Um era parecido com uma cara espalhada pelas ruas na altura das eleições, mas Araújo não fez conta, outro era polícia em paisana, e o terceiro era o ex-patrão que o tinha desempregado.

– Como vai, Aráujo? -disse-lhe o ex-patrão e Araújo pensou com os diabos que vem agora este aqui. Fez cara de sujeito empancado com a conversa, enquanto afagava o bigode hirsuto e tenso, mas não rogado o ex-patrão desatou zumbindo ladainhas -…sabe que eram tempos difíceis, razões de racionalização e multi-tasking, mas olhe: […]

Aráujo ouviu e não gostou, ficou com o cartão de visita e adiou uma resposta, mas de noite e de barriga roncada e vazia, pensou que remédio tinha senão aquilo ou ser encontrado pendurado, pendurado como roupa velha apodrecendo, encontrado por qualquer vizinha cigana que teria duvidado da razão de tanto cheiro roto, um Araújo morto na corda curta pelo desespero de nada ter e nada lhe darem. 

Fez uns trabalhos e foi rendendo. Era já Verão alto e a própria terra tinha piromania, ardendo calor através dos poros de musgo. Um dia chegou mais um telefonema. – Ora mais um trabalhinho para o Araújo! – disse-lhe da linha o retomado patrão com voz irritante e adunca, nasal e criminosa. Segundo ele existiam interesses por terrenos na serra frondosa do Rochedo Milenar, paraíso na terra protegido de Araújos que Araújo deveria tornar inferno. A madeira ia render na proporção da queimada, e uma empresa de combate aéreo aos incêndios florestais estava pronta e de contrato assinado com o governo local.

A Araújo empestava-lhe aquele calor devasso, da chama que lhe vinha das mãos a troco de pouco, mas suficiente.

– A serra do Rochedo Milenar -pensou -,que raios ia lá com o pai pescar quando era puto, as primeiras trutas e sardas, todos os fins de semana de Verão e bom tempo. Mas pouco disse, como era hábito feito.

– E olha – disse-lhe mais o patrão -,desta vez sê esperto e põe um rafeiro a fazer o mais difícil -e desligou.

Horas mais tarde, já o cão fugia com a chama atrás, espalhando fogo e fumo pelo verde.

– Felizmente as árvores não gritam por socorro – imaginava Araújo o arvoredo a ulular de pânico, sacudindo os pés presos no cimento da terra, brandindo os ramos como nas ventanias bruscas. Apesar da deambulação, ateou um último fogo numa clareira seca, e sentou-se no chão, desafogado com algum sofrimento desconhecido. As árvores começaram a morrer como bruxas na estaca. 

Já o cão não se via, repentinamente Aráujo sentiu o peito queimar-se-lhe, como se por acidente se tivesse ateado a si próprio. Sentia como que pedaços de vidro espetados na carne que se atingiam por pedaços quentes de sol e bigode ardia-lhe na pele, como se tivesse tornado numa pequena labareda. Intimidado, sabia que não era acidente, haviam coisas dentro de si que ardiam, fogo posto na alma que ardia sem se ver.

Araújo pensou – Tenho de sair daqui! – mas sentou-se novamente, esgotado e exposto – Puta de vida.

Viu ao longe o rio onde pescava com o seu pai, as suas primeiras trutas e sardas, e entre os ramos revoluteantes da chama imaginou ver o seu pai, pescando suavemente com uma cana longa que baloiçava para tirar os peixes da água. Sem reparar, Araújo estava cercado de labareda e tinha-se tornado árvore, com ramos, folhas, tronco duro até ao centro da terra, e sentindo o peso das estrias centenárias por onde sangrava seiva verde, queimou-se até à terra que o vira nascer.

2. Nas fraldas do Rochedo Milenar vivia Armindo Cabra-Leite. Nessa mesma tarde, Armindo, velho velhinho, estava no quarto quando a chama, vinda de longe, invadiu tudo num só momento, apanhando-o na desprevenção de um sono.

Apanhado assim, repetia em soluços -Que desta morro! Que desta morro! – Com pouco cálcio nos ossos rangidos e pouca força nos músculos vazios, tentou levantar-se e procurar saída. Andou um pouco contra o nevoeiro do fumo mas sentiu tonturas imediatas no peito que o obrigaram a recolher-se novamente. Armindo estava cercado e intransigente a labareda subtil consumia as paredes à sua volta.

Os parcos móveis, mesinhas de cabeceira, estantes e guarda-fatos armário faziam barulhos estaladiços e faziam cinzas. O retrato de uma mulher antiga derretia, e o caixilho estalava e fazia cinzas mortas. Com um olhar sempre vago, com um ligeiro sorriso de sofrimento – o fotógrafo tinha-lhe dito que sorrisse mas Eugénia Cabra-Leite não tinha jeito para aquelas coisas tão preparadas e tão formais – Eugénia derretia aos poucos, firme e tensa e vaga. Armindo olhando-a assim decidira que morreria da mesma maneira. Olhou em frente, e firmou os pés no chão de estacas que saltitavam de calor, e cerrou os lábios com firmeza ainda que tremesse. Firmou também os olhos, baixando as pálpebras velhas, ainda que chorasse um pouco. No retrato, Eugénia Cabra-Leite, amarrotando-se toda numa convulsão derretida, dizia-lhe com sussurros – Vem comigo, sai da solidão. Através do turbilhão da chama, agora só Armindo e Eugénia partilhavam coisas.

As paredes continuavam a estalar e as chamas cada vez mais circunscreviam Armindo firme na sua cama. Armindo fala alto para si, pede-se calma, retesa as lágrimas, não dá voz a pânico. Pensa que não vai chegar a sentir o fogo na pele, que o fumo já vai ser demais para os seus pulmões sem ar. Olha os comprimidos para dormir, e pensa se tentasse uma dose para dormir demais, ali na mesinha de cabeceira, talvez todos de uma vez, talvez passasse a dormir imenso e teria sonhos sem calor.

Tarde demais, a mesinha começou também a arder, agarrada por uma chama que caiu de uma trave do tecto com escarcéu – pam – os comprimidos derretem-se na fornaça, polvilhando o ar de soporíferos que se dissolvem nas restantes cinzas e Armindo cai inconsciente de fumo.

Contudo nem duas labaredas ameaçam e já uma mão puxa finalmente Armindo para fora do quarto, arrastando-o através das estacas do chão que estalavam. Na rua, aplicam-lhe oxigénio, dá-se o refolgo. Não havia ar em lado nenhum como se o sol se tivesse sentado na atmosfera esmagando-a contra a superfície da terra. Armindo sofre, faz de peixinho dourado em aquário sem água durante uns minutos, boqueando ar para dentro, aflito.

De onde estou vejo-o de longe, esgotado e prostrado na cama da ambulância. Perguntam-lhe – como se chama? Sente dores? Está queimado? – Apalpam e oscultam Armindo que chorava ou pelo menos parecia que chorava, talvez de comoção. Ao longe via-se a sua pequena estrutura sacudindo-se lentamente, os ombros vacilando. 

Eu, entretanto, esbaforia com frenesim, não só eu mas todos, bombeiros de mangueiras esticadas bombeando água contra as alturas e locais regateando metros poucos ao fogo com ramos de árvore e baldes de areia. A cinza pespegava-se no meu rosto, alvo da brisa ácida das chamas. Já lutavam todos dois e três dias assim desta maneira, sem sono ou recompensa. As chamas abraçavam-se às árvores rompendo até às suas alturas, lançando-nos um mural de calor que nos suava a humidade do corpo, ameaçando-nos como um exército de gigantes que sacudia as casas por gozo.

Chamam-me então para evacuar Armindo da área com urgência e corro para a ambulância onde ele está nas mãos de um bombeiro. O velho pede para ficar, quer lutar contra o fogo, mas o meu colega olha-o com calma – O senhor agora tem de ir, para descansar e ver se não tem problemas sérios, estas coisas ás vezes queimam-nos onde não conseguimos ver.
No hospital, Armindo é visto por um médico, jovem, que lhe diz que parece estar tudo bem, depois de ter ouvido o peito implodido e fraco de Armindo. O médico tomou-lhe então o braço fino e caminhou-o para um dos colchões de cama.

– Descanse um pouco, sr. Armindo, e se se sentir mal é só chamar uns dos enfermeiros que vagueiam por ali -disse-lhe. Armindo olhou o corredor e viu enfermeiros vestidos de branco circulando em silêncio, de olhos atentos a quem tinha deixado arder a casa como ele.

Abatido por tudo, Armindo fechou então os olhos cansados. Com a vinda do sonho sentiu tremuras na pele e os seus olhos lançaram-se numa montanha-russa de movimentos debaixo das pálpebras cerradas. Numa floresta longíqua africana, viu-se vestido com farda miliciana e empunhando uma metralhadora a tira-colo. Cercando a vista estavam grandes árvores de copa oval amarela, nas quais chamas verdes deslizavam entre as folhas como se fossem liquidas, caindo para o chão fazendo cascatas tépidas. Na queda faziam faúlhas com o atrito, queimando as moléculas de ar que se transformavam em carvões flutuantes. Ao caírem no chão, as labaredas líquidas esfolavam a terra e largavam sangue. No sangue telúrico e castanho que alagava toda a floresta estava o reflexo de Armindo de arma empunhada, de cara encorpada traçada com um bigode hirsuto e tenso. Fazia calor de incêndio. Em todo o lado cheirava a animais livres, cheiros tépidos e frescos, cheios de ilusão como miragens de desertos quentes. Armindo então ajoelhou-se e levou a mão à terra inundada. Ao tocar Armindo sentiu com horror os dedos queimados e o ardor rapidamente se espalhou pelos braços, peito, cabeça, como um miasma. Gritou forte e começou a disparar para o céu até acordar esbaforido de suor. Acalmou-se e deu-se com uma certeza, não devia ter abandonado a sua casa. Que antes tivesse morrido.

Veio de novo ter consigo o médico, ao que Armindo lhe contou o mau sonho. O enfermeiro fez pouco caso e sem delongas disse-lhe que estavam ali uns senhores que queriam falar com ele a propósito do que tinha visto antes do incêndio.

Dirigiram Armindo para um pequeno escritório na companhia de um policia, jovem, enquanto o enfermeiro veria então Armindo mais logo e o ia deixando por um corredor afluente. No espaço de entrada contíguo ao escritório, três homens bafientos e gordos, vestidos de branco, conversavam em tom inaudível. Um era policia, outro o presidente da Câmara, e o terceiro era um homem-mistério. Armindo aproximou-se com o jovem policia e eles emergiram um pouco os seus rostos inclinados, parando de falar. Pareceu que sorriram respeitosamente para Armindo quando o viram aproximar, mas Armindo não faz disso certeza. Os três homens suavam copiosamente, devia ser do calor.

O policia encaminha então Armindo para a porta e no interior sentou Armindo.

– Se não se importa espera um pouco que o comissário já vem. -disse-lhe e saiu. Está fresco e suave e Armindo sentiu-se um pouco melhor. Os três homens entram varrendo o chão com os seus passos de enigma e sentam-se em três cadeiras encostadas à parede, incomodando Armindo com um silêncio-fátuo. O comissário entrou pouco depois.

– Sr. Armindo, como se sente?

Armindo acenou que bem, usando as palavras habituais.

– Sr. Armindo, montamos um posto policial de urgência no hospital para estabelecer contactos imediatos e eficientes com as testemunhas visuais dos epicentros de incêndio.

Armindo aí pestanejou da forma mais nula possível.


-Sr. Armindo, estamos por isso aqui ao ataque contra as pessoas que lhe fizeram esta tragédia. O senhor viu, sentiu ou ouviu alguma coisa de suspeita na tarde da tragédia?

O comissário então reclinou-se na cadeira e ele próprio produziu um silêncio em que Armindo parecia não poder ainda penetrar com palavras. ainda que lhe tivesse sido feita uma pergunta. Estranho. De perto, sentia os olhos rompidos dos três homens nele depositados. Fugazmente tossiram os três em paralelo como se para testar a consistência daquele silêncio e mantê-lo cerrado contra Armindo.

– Sr.Armindo não viu nada então?

-Vi – Armindo soltou.

-O quê?

-Coisas.

-Que coisas, sr. Armindo? – o inspector fez zoomido com os seus olhos em Armindo, inclinando o tronco sobre a secretária. Armindo abandonou então a contenção e gritou – QUEM SÃO ESTES SENHORES?

Com o dedo apontado varre na direcção dos três e num salto rude Armindo rompe contra os que encostados na parede se entreolham pela surpresa. Armindo tem raiva no coração porque sabia a que farsa aquilo cheirava, porque sabia o que estas pessoas não sabiam, que pensavam que se podem fintar assim setenta ou oitenta anos de vida. Armindo levantou-se então sentindo de novo a memória vívida dos seus vinte anos idos, anos de trabalhos duros nas alfândegas marítimas e pancadarias nas tascas. O comissário pinchou alertado, pequeno e insignificante, e correu para o corredor alarmando que se busque rápido um enfermeiro rápido enquanto Armindo já ameaçava torcer cabeças e os gordos tentavam em vão subir pelas paredes, ganindo como eunucos.

Ainda conseguiu esfarelar uma canela branca com um pontapé de esquina ia Armindo já nos braços de um enfermeiro que o arrastava pelos corredores – Vá Sr. Armindo, vá, com calma -até longe do tumulto.

Amarrado por braços fortes, Armindo foi levado por labirintos de escadas e elevadores consecutivos até perder o sentido de direcção. Nos corredores, sobre a triste cor das paredes desinfectadas, lívidas do hospital, as dezenas de pessoas que Armindo tinha encontrado durante a sua chegada, tinham-se multiplicado por outras tantas. Eram crianças e avós, pais e crianças, encolhidos entre os colchões distribuídos no chão e nas macas. Nas sombras das luzes desligadas dos pavilhões do hospital, entre os cobertores emaranhados e as mantas de vultos que dormiam, havia um choro de fundo, havia um sussurro ecoado e lúgubre. Tinha faltado a luz e fazia calor sob a luz da lua nas janelas largas dos quartos e dizia-se entre as paredes e os corredores e as macas e os pavilhões que tudo que tinha ido tudo tinha ido tudo tinha ido tudo tudo tudo.

Já Armindo estava decididamente perdido no percurso que estavam fazendo quando o enfermeiro largou o seu braço velho e ia já seguindo por um corredor afluente, desta vez sem se despedir.

Armindo reclinou-se sobre o estômago, levando as mãos aos joelhos. Cansado, vê então no corredor adjacente, sentada numa pequena cadeira repousada defronte de uma maca nua, a sua vizinha Idalina Boa-Nova. Mancou até ela, como uma sombra, e acercou-se pondo-lhe a mão no regaço de mãos cruzadas. Idalina arregalou os olhos na direcção de Armindo até o discernir dos contornos circundantes. Vendo-o finalmente, soltou um pequeno grito e suspirando agarrou-o.

– Oh Armindo, ardeu tudo, Armindo, ardeu tudo.

Armindo Cabra-Leite olhou-se com vagar pensando nas vítimas que eram. Tomando uma decisão, vergou-se então até ao peso dos seus joelhos estragados e deu-lhe um beijo seco na face de rugas:

– Vou fugir, Idalina. Vou para casa que de lá não deveria ter saído. De lá só saio quando morrer.

Surpresa, Idalina alteou o peito descido, abafando-o depois um pouco e expelindo o ar das bochechas disse – Oh Armindo! Não vás que isso é toleira! Ainda te acontece outra!

Olhando-a Armindo pensou -Não me contradigas, Idalina Boas-Novas, que minhas mãos estão nas tuas, e a meus olhos restam já poucos dias de claridade. Mas não tinha forças para falar, Armindo sorriu somente, de maneira frágil como que insistindo e lamentando aquela condição. Idalina bocejou novamente o ar que tinha nas bochechas, rendendo a sua preocupação à fé no seu amigo.

E Armindo partiu, pelos corredores, pelas saídas do hospital sem que ninguém lhe confiscasse a liberdade, pelas ruas, até aos cimos da serra que o chamavam, deixando Idalina Boa-Nova sentada defronte do corredor enquanto desaparecia.

Na noite, Armindo foi caminhando os caminhos da serra, caminhos de um asfalto esquecido. Isto com os seus pequenos passos, perguntando-se ali e além, quais eram as diferenças entre os pequenos focos de chamas no céu e nas serras. A todo o comprido do vale e das cercanias, via-se sem distância os filamentos de chamas entre as árvores. Os bombeiros, em baixo, no seguimento das estradas, atravancavam os seus carros sapadores nas fileiras de alcatrão e corriam com desaforo, mangueiras esguias na mão, fugindo contra as chamas, batendo-lhes com águas de jactos murchos, capando-lhes a raiz com alvoroço de formiga. As chamas elevavam-se assim à vista cansada de Armindo cansado, os incêndios lavrando tudo.

– Talvez seja assim o Inferno. Morremo-nos, fardam-nos de bombeiros e somos enviados para combater chamas até à eternidade. – disse em voz baixa para consigo.

Em volta, era tudo rescaldo, a terra esfumando como se estivesse a evaporar. As árvores queimadas esperando já novas árvores, espécies alienígenas daqueles montes, fungos gigantescos que iriam sugar as mantas de água velha dos poços da terra, como cangurus sedentos num deserto árctico, comendo todo o gelo. E com as árvores iriam as aldeias, e com as árvores novas viriam as cidades e com isto tudo, iriam os velhos. Iriam os velhos com a força da chama, iriam os velhos com sua solidão, iriam os velhos extraídos com a dissensão de um machado que atalha a força das raízes cortando no tronco. Os velhos que gritam – daqui não saio – ,e já os tinham arrancado com a labareda, levados em braços pelas autoridades, deixando-lhes para trás a raiz apodrecida no chão.

Armindo suspirou com o pensamento e olhou novamente o céu. Subitamente, fez-se silêncio denso, como tivesse caído um pano feito de noite, cometendo todo o vale à falta de luz e à falta de som. Os barulhos distantes foram remetidos a tocas abismais, e as estrelas piscaram como lâmpadas de néon até se apagarem. Uma claridade fusca surgiu então no fundo de todos os montes como um palco de teatro iluminado a partir do chão. Tudo parecia quieto, todos os montes e colinas erguidos como sombras tremendas de fúria silenciosa. 

Sentindo uma tremura repentina pelas veias, o sangue puxando-lhe com velocidade até aos pulmões, Armindo involuntariamente soltou um grito retinente, relinchando como um cavalo-totem. De longe, de montes acercados, soaram outros gritos, fortes, retinidos e prolongados. Dos fundos, a noite gritava em congregação. E então fez-se madrugada.

Foi já sobre a luz de um sol que sublinhava o horizonte, que Armindo viu a sua aldeia, no fim da estrada de asfalto. A geometria e a localização eram as mesmas de sua memória mas no lugar das casas da aldeia, erguiam-se agora bases curtas de tijolo queimado. Móveis obscuros e tortos, completamente inúteis padeciam de pé nas ruínas como múmias. A aldeia tinha implodido naquela guerra atómica de fogueiras como uma citânia escurecida da antiguidade, cheia de artefactos puídos.

– Que maldade a do fogo – disse e sabia agora bem de repente de que se tratava tudo isto, este acidente de humanidade tão subtil.

No fim da sua rua empedredada de ladrilhos em granito, a casa de Armindo, outrora cercada do arvoredo que tinha trazido a chama. Sobre a luz fraca matinal que faz o ar azul escuro, Armindo calcorreou o chão, arrastando as calças pelo pó vivo das cinzas e pelos quartos contíguos sem tecto.

– Não devia ter saído daqui. – Armindo desceu até ao pátio, o alpendre estava abatido, como o resto do telhado. O quintal havia-se tornado um lugarejo de cinzas e tijolos e bidões cheios da água estagnada que tinha sido atirada contra o fogo. Armindo soergueu-se então na ombreira da porta exterior, olhando tudo com vagar. Olhou em frente, cambaleado mas rígido, posando para a escuridão com intento, focando os olhos como alguém se estivesse pronto a tirar-lhe uma fotografia. É pequeno, atarrecado, de tronco curto. As calças estão presas acima na linha do umbigo com um cinto de fivela. As botas são botas botas botas, esgotadas pelo uso rude que lhes dá Armindo. A cobrir o peito implodido e fraco, uma camisa interior branca, daquelas que se compravam nas antigas retrosarias. Cobre-lhe o calvície uma boina de tecido.

Foi assim que o reconheceu o vizinho que por ali andava como Armindo. Os escombros ainda fumegavam quando a vizinho se aproximou.

– Então o tio Armindo não vê que ainda se queima ou lhe cai o resto do telhado em cima?

Vagueando pelo nevoeiro dos escombros, Armindo olhava as telhas no chão, procurando as telhas boas, e soltando as más para um contentor de lixo.

– Pronto, nesse caso como preciso do tractor e ele tem o selim queimado, vou primeiro arranjar o tractor.
E lá foi Armindo irredutível á procura de material para refazer o assento.

– E se deixasse isso para os da câmara? Talvez venham cá dar uma ajudinha…

– Vou agora incomodá-los. Eu cá me desenrasco. A minha filha de França vem cá com o meu genro, e ele ajuda me, oh.

Armindo sabia que precisava de continuar a andar, a passarinhar atrás de telhas partidas, telhas boas, pedaços de colchão para fazer bancos de tractor, tijolos secos para refazer as paredes partidas. O vizinho deixou Armindo assim nas suas sortes. Nesse momento, uma brisa castanha e esfumada oscilou no ar, escorregando nas fossas nasais e impregnando Armindo: cheiro de cadáver.

E assim passou um dia naquele vagar de cinzas até à queda da noite, sem comer, sem repousar, sem ninguém por perto. Cansado finalmente, Armindo aplanou no chão uma coberta que tinha no armazém dos fundos, e deitou-se de frente para o tecto tolhido. Entre frechas viam-se estrelas e universo, metidos entre as telhas suspensas e aquela escuridão intrigante entre os espaços de pequenas luzes solares. 

– É para ali que vão os velhos quando morrem. – aponta Armindo para o espaço entre duas estrelas anónimas.


De repente, uma língua varre as rugas de Armindo. Um nariz preto e quadrado ofega junto ao de Armindo, e a língua varre novamente as rugas e os olhos de Armindo. Buga tinha regressado, chiando ao dono, que amarrou o cão preto com força incrédula. Armindo sorri, este regresso é uma alegria, e chora enquanto esfrega o pêlo de Buga nos seus dedos.

– Meu cão, vieste meu lindo cão. – Atada na cauda estava uma lata vazia, que Armindo desfez, afagando o rafeiro.

Mas a vizinhança tinha razão, as debilidades das vigas ainda estavam vivas e Armindo não estava seguro. De repente, silenciosamente, parte do tecto quebrou. Telhas, vigas, paredes rompem num desmaio sobre Armindo e sobre Buga, soltando pó no ar num tumulto de cinzas frias. O barulho é um estrondo que incomoda a serenidade da noite mas é efémero na duração do impulso que a gravidade dá as coisas para cair como bem lhe apetecerem, e na vizinhança não se acendem luzes em janelas sobressaltadas com o alarme.

A noite recompõe-se e vê-se um velho em andrajos, Armindo com idade, tombado no chão como se fosse vagabundo em esquina de rua com um cão longo e rafeiro atravessado no seu colo. Buga tinha vindo avisar Armindo do perigo. Tanto o velho como o cão continuavam olhares rectos de olhos fechados pelas linhas do céu, não oscilando de forma perceptível, de aspecto quedado e mortificado. A poeira da queda suspendia o ar com a tensão lívida do acidente.

Mas Armindo abriu então os olhos, e dá-se consciente, abre novamente os olhos, ofega Buga no seu colo, que pronto faz com a cauda em concordância, e estavam bem. A queda dos escombros tinha sido amparada pela dinâmica das traves do telhado que se entrechocaram e afunilaram à chegada do chão com Armindo deitado com Buga precisamente no intervalo das traves tombadas.

– Anjos na terra -rezou Armindo enquanto se esgueirou do emaranhado de pó, seguido pela cauda oscilante do cão até ao relento do quintal sem tectos. As estrelas sossegam novamente, dono e cão deitam-se e descansam as pálpebras na relva acizentada.

Autor:João Medeiros

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Bandolo e Montoeira (conto de ficção)

A sensação de estar voando é espetacular. Nunca na vida sentiu tanta leveza, tanta soltura, tanta liberdade. Nem sentiu a decolagem, só se dá conta do enquanto, do mágico, do encanto, do mato lá embaixo, do movimento dos jogadores no campinho, a charanga da torcida, Margarida segurando com as duas mãos o vestido amarelo que o vento ameaça suspender.

Na verdade, não era totalmente por sua vontade que agora ali estava, experimentando a ausência de peso, a musculatura toda solta, apreciando o ônibus vermelho da empresa Rei que passava lá no asfalto, crianças na janela. Dormira mal, preocupado com Margarida. O namoro até que ia bem, falavam em noivado, gostava dela, mas a turma tomava tempo demais, o time exigia muito. Era uma crise.

Mas tinha cedido a pressões. Os amigos namoravam amigas de Margarida que passavam pela mesma situação. De manhã, Alzira, noiva de Gasparzinho, tinha passado na casa de Margarida pra conversar. O time ia bem no campeonato da cidade, todo mundo contava com Bedurri. Logo chegou Dinalva, já de casamento marcado com Samurai Baiano, zagueiro central do Caju Amigo Futebol Clube.

E Bedurri se admirava da rapidez com que as imagens iam pipocando em flashes na sua cabeça. Nunca tinha voado, seria comum aquilo? Noite de domingo, bermuda, o joelho enfaixado, dormindo no colo de Margarida, o pai dela doido de ciúme, o cinema cancelado pela décima vez. Bedurri, apaixonado, achava lindo até o bico que Margarida fazia, mas a situação começava a se complicar demais.

Procurou concentrar-se no vôo, arranjar uma posição mais confortável. Logo recordou o sofá da sala de Margarida. O velho dela, na outra sala, de vez em quando esticava o pescoço, tossia cada vez que o silêncio dos namorados acionava um alarme em sua cabeça. Mãos furtivas escapavam do flagrante anunciado. Só depois das dez o coroa deixava a cadeira de balanço e ia tomar banho, preparar-se pra dormir. Margarida e Bedurri tinham então vinte, trinta minutos de maior intimidade. Às dez e meia o despertador do velho tocava. Não havia o que dizer, era se ajeitar, despedir-se e sair.

E na véspera daquele vôo a situação enferrujara. Quando soou o despertador, a discussão entre os namorados pegava fogo. Em dois anos de namoro, Margarida contabilizava quatro finais de semana em que tivera o namorado só pra si. Duas festas de suas amigas de colégio, uma excursão a uma praia com muitas dunas, e um domingo inteiro na piscina de um clube campestre onde o velho dela era sócio. No mais era a bola, o samba. Uma vez por mês, a macumba.

Bedurri reconhecia as razões de Margarida, mas não conseguia alterar o curso das coisas. Sabia que precisava dar mais atenção à namorada, gostava dela sinceramente, mas não via como fazer de outro jeito. Trabalhava muito, ganhava pouco, era doido com bola. Não tinha família na cidade, a turma do time ocupava um espaço em sua vida que Margarida sozinha não conseguia preencher.

Era difícil pra ela. Enfurecida em meio a tantas discussões motivadas pelo mesmo problema, já o mandara casar-se com a bola, chamara-o de imaturo muitas vezes, interrompera beijos ardentes pra perguntar se algum colega do time beijava assim tão bem. Me chama de sua bolinha, pedia, pura malícia e sedução. A coisa tava apertando.

As imagens durante o vôo eram como um filme onde a velocidade às vezes aumentava até complicar sua percepção e depois se desenrolavam lentamente, com clareza e detalhamento maiores que a das telas de cinema e TV. E Margarida sempre lá, inicialmente vibrando, na beira do campo, junto com as colegas, incentivando o namorado, vibrando com suas fintas de corpo, gritando quando ele disparava com a bola dominada, com seus longos e precisos lançamentos, seus freqüentes gols de falta com barreira, da entrada da área. Tinha todas as suas medalhas, seus troféus de artilheiro. Era pra ela que corria, na comemoração do gol.

Só mesmo por muita pressão dos amigos e de suas namoradas foi que Margarida concordara com a ida de Bedurri ao jogo, naquele dia, e também resolvera acompanhá-lo mais uma vez. A última, dissera. A situação tava ficando tão difícil que Bedurri pela primeira vez pensou em deixar de jogar futebol aos domingos. Assustou-se, de tão novo que o pensamento era. Precisava pensar muito naquilo.

A visão de um urubu em vôo tranqüilo a uns cem metros de distância disparou outro filme na cabeça de Bedurri. Lembrou-se do dia em que Nuvem Negra, que todos na sua turma tinham como a pessoa mais carregada, pessimista e mal-humorada do mundo, lhes perguntara se sabiam por que aquelas aves não se contaminavam com tanta porcaria que comiam. Reviu-se numa roda, no bar da esquina, onde o amigo explicava que os urubus voavam alto para que o ar rarefeito lá de cima matasse os microorganismos ingeridos junto com a carniça. Urubu planando lá no alto acabou de comer, garantia o amigo, professoral. Geralmente Nuvem Negra o irritava, com seu astral sempre pra baixo, mas naquele dia Bedurri gostou da conversa, ficou um tempão imaginando o funcionamento do sistema imunológico dos urubus.

Mas o filme principal era outro. Naquele dia, quando Paletó Velho lhe atirou a 10, no vestiário, Bedurri, o mais fominha do grupo, sentiu vontade, pela primeira vez, de pedir pra não ir pro jogo. O time tava bem, sobrando na tabela, e no banco tinha uma meninada precisando pegar ritmo de jogo. Acabou desistindo, já sabia o que o velho treinador ia dizer. É importante ganhar bem, disputar artilharia, manter a noção de conjunto. Em time que tá ganhando não se mexe. Sem contar que entre o treineiro e as namoradas dos jogadores o clima também já tava perto de derramar. Melhor ir pro jogo. Pegou o material, caladão, e foi se vestir num canto do vestiário.

Naquele dia, até o cheiro do ungüento do massagista aborreceu Bedurri. Normalmente, era um de seus odores preferidos, lembrava a erva-de-santa-maria que a Vó Normélia de vez em quando lhe aplicava num emplastro, misturada com saião e sal, pra ajudar a curar algum inchaço mais renitente na coxa, na panturrilha, no tornozelo. Então era como se a imagem da Vó que tanto amava e de quem recebia tantos conselhos importantes entrasse com ele em campo. Menos naquele dia.

Paletó Velho terminou sua preleção, que Bedurri conhecia quase de cor: futebol é a arte de ocupar espaços e de tirar espaços; marca a saída da bola; quero o time gritando, cantando o jogo; time calado não ganha de ninguém; roubou a bola, sai em velocidade, tocando; quem tem de correr é a bola; ataca em bloco e defende em bloco; chupa-sangue vai pro banco; falta perto da área, bate Bedurri; média distância, Cocô-de-Cabra; o jogo é no campo do adversário, não começa a dar porrada; se eles começarem, não quero ver ninguém afinar. Vamo pro jogo.

Outra seqüência nas imagens no vôo-filme que passava na cabeça de Bedurri, em sua primeira experiência aérea, era da entrada do Poca e Rasga em campo. Camisas, calções e meias azuis, uma faixa branca em diagonal na camisa. Uniforme estalando de novo. Um foguetório medonho, a charanga. No fim da fila, os dois zagueiros. Dois armários, um ruço e outro negro, logo identificados por Gasparzinho, que já tinha morado na localidade: Bandolo e Montoeira. Bedurri não conseguiu evitar um friozinho na barriga.

Bandolo era o ruço, quase dois metros. Parecia um gorila, as mãos batendo abaixo dos joelhos. Tinha de coxa quase o que Bedurri tinha de tórax. E Montoeira era ainda mais forte que seu parceiro de zaga.

Com cinco minutos de jogo, os dois já tavam na pele de Bedurri. Gracinha, boneca, puxão no cabelo comprido, valia tudo. Bandolo deu-lhe uma pisada no pé, com a bola lá na outra área. Dói demais, os olhos se enchem d´água. Pezinho de moça vai levar pra casa hoje, de presente, um lindo par de muletas.

Nada mal, pra começar.

O Poca e Rasga, jogando em casa, começou matando. Tinha um camisa 8 que onde punha os olhos punha a bola. Morfético, lazarento, Bedurri xingava baixinho, secando a canhotinha infalível do malandro. Logo fizeram um a zero e quase que o mundo veio abaixo, de tanto foguete, boa parte atirada pra cima do time visitante enquanto a equipe da casa comemorava junto à sua torcida. A dupla de zaga infernizando Bedurri, a camisa já rasgada, cuspidas na cara, mão na bunda. Gostosa, delícia. O juiz, na dele. Os bandeiras não viam nada.

– Juizão, tu não tá vendo isso não?

– Cala a boca e joga sua bolinha, senão vai mais cedo pro chuveiro.

No vestiário, no intervalo, Bedurri quase pede pra sair, mas aí já era outra situação. Tinha fama de manhoso, catimbeiro, não havia como escapar daquela, levar nome de pipoqueiro. O jeito era voltar. Paletó Velho orientava: é segurar, esperar a chance de empatar num contra-ataque; não recua demais, senão vamos tomar de muito;. Bedurri faz o limpador de pára-brisa, aparece na direita, na esquerda; a zaga deles é pesada; se ficar no mano a mano com um dos dois, é sair na cara do guapo e ir pro abraço; recebeu de costas, não deu pra virar, segura até o meio-de-campo encostar.

Segurar até o meio-de-campo encostar. Bedurri voava pensando se alguma vez na vida Paletó Velho tinha precisado encarar dois armários daqueles, malandros e carniceiros, um na cola e outro na sobra. Melhor não discutir. O juiz já chamava pro segundo tempo e Bedurri achou melhor pensar que só faltavam quarenta e cinco minutos pro fim do jogo e que se conseguissem segurar aquele um a zero a coisa tava até de bom tamanho.

Aos quinze, conseguiu chamar Bandolo pra dançar, na intermediária, e meteu-lhe uma por entre as canas, mansamente. Partiu. Montoeira, na cobertura, veio feito uma fera. Também levou no meio das canas. Inevitável: mão direita no cabelo, esquerda na camisa, fez que tropeçou e desabou seus quase cem quilos em cima de Bedurri, o joelhão no meio das costas. Falta, juntinho da meia-lua. Bedurri leva quase cinco minutos pra se recuperar. A dor nas costas é insuportável. Vou meter essa, de presente pra vocês, desafia, quase sem voz. Tu tá querendo é sair morto daqui, veadinho, rosna Bandôlo.

Barreira colocada, o goleiro do outro lado, a súbita intuição mandou bater do jeito mais difícil. Uma ginga de corpo e o goleiro partiu pro canto, na certeza de que a bola ia por cima da barreira. Imobilizado, sem condição de inverter o movimento e voltar, ficou estático, pregado no chão, torcendo, enquanto ela descrevia um largo arco, como se fosse sair. O efeito tinha pegado de jeito. Foi fechando, fechando. Entrou lá no outro canto, depois de bater na junção dos dois paus da trave, na orelha da girafa, lá onde a coruja dorme. Um a um.

Pra quê. O clima esquentou. Nos 10 minutos seguintes, Bedurri tomou três cachações, um de Bandolo e dois de Montoeira. Vou te matar, seu escroto, prometiam. Bedurri na dele, fingindo coragem. Quero ver se tu é valente é na pequena área, seu merda, tentava encarar. Vou te meter outra debaixo da saia.

Mas a crise com Margarida, a pressão, tudo conspirava contra e acabou contribuindo para que Bedurri esquecesse a mais primária das lições que um atacante tem de saber: sempre entre os dois zagueiros, nunca deixar dois atrás de si. Se o armador conseguir fazer a bola chegar a ele já de frente pro último homem, é meio gol. Mas aquele não era o dia.

Quase quarenta minutos. A torcida urra, xinga, joga pedras, ameaça invadir o campo, promete porrada. O adversário sufoca, sufoca. Paletó Velho, lá fora, já quase sem voz, continua gritando e gesticulando o tempo todo.

A defesa alivia, o goleiro tira de soco. Quatro escanteios seguidos. Lá na frente, Bedurri e seus carrascos. De repente, o goleiro intercepta um cruzamento. Bedurri chama o jogo pra si. Abre os braços, berra o mais alto que pode e dispara da ponta direita para a esquerda. O goleiro enxerga, mete de pé, pelo alto, na ponta. Vem com força, periga sair pela lateral. Bedurri acelera o que dá, o pulmão ardendo. Se chegar primeiro, decide o jogo.

Chega. Um palmo da linha lateral esquerda. Não pode parar. Negaceia, troca de pé, gira o corpo sem tocar na bola. Sente a respiração, o deslocamento de ar, o tremor de terra, e Montoeira já ficou, passou lotado, deslocado pela finta de corpo. Agora é travar a bola e cortar pra dentro, pra tirar do Bandolo. Vai ter então uns 50 metros até o gol.

A sombra cresce, é imensa, cobre o sol. A sensação de estar voando é espetacular. Nunca na vida sentiu tanta leveza, tanta soltura, tanta liberdade. Nem sentiu a decolagem, só se dá conta do enquanto, do mágico, do encanto, do mato lá embaixo, do movimento dos jogadores no campinho, a charanga do adversário, Margarida segurando com as duas mãos o vestido amarelo que o vento ameaça suspender.

Então as imagens se aceleram ainda mais, muito mais. Parado no ar, vê o chão partir em sua direção. A rápida aterrissagem é precedida de luzes, sons de sinos e pios de pássaros tão comuns em desenhos e quadrinhos mas que Bedurri nunca acreditou que um dia pudesse ver ou sentir. O filme acaba e é só o chão chegando, a razão inversa do quadrado das distâncias. Alguém apaga a luz.

Abre os olhos, lentamente. Sente frio. Paredes brancas, uniformes verdes, luzes difusas, um braço amarrado, agulha. Soro. Força a vista, foca parcialmente. O rosto de Margarida, os olhos marejados. Vão surgindo os amigos mais chegados. Paletó, Gasparzinho, Três Oreia, Cascobreu.

– Voltou da anestesia – ouve a voz embargada de Margarida.

Busca na memória, quer se situar no tempo. Tenta falar, não querem que fale. Precisa saber, insiste, pede o inventário dos estragos. O médico relata, devagar, profissional.

Cabeça: cinco pontos no supercílio, hematoma na fronte, lado direito. Braço direito luxado, fraturas em duas costelas. Edema no adutor da coxa. Gentilezas da cabeça de Bandolo, dos cotovelos de Bandolo, do joelho de Bandolo. Contusões e escoriações generalizadas, da infeliz aterrissagem. Todo cortado de mato. Considerando a altura do vôo relatado pelos amigos, até que não está mal. Se fosse mais pesado, um pouco mais velho ou tivesse caído de cabeça, sim, poderia ter morrido. Teve muita sorte.

A fala do médico desata o choro miúdo da namorada, abraçada com Alzira, apoiada em Dinalva. Bedurri tem um nó na garganta.

Aperta a mão de Margarida, ganha um beijo na testa enfaixada, vai se acalmando. Sono, torpor. A visão se turva. A mentira escorrega fácil, rola redondinha:

– Nunca mais jogo bola, amor.

Autor:Tavares Dias

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