{"id":236,"date":"2014-12-22T20:05:34","date_gmt":"2014-12-22T20:05:34","guid":{"rendered":"http:\/\/cabana-on.com\/Poemas\/?p=236"},"modified":"2023-07-22T08:38:05","modified_gmt":"2023-07-22T11:38:05","slug":"fernando-pessoa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cabana-on.com\/Poemas\/?p=236","title":{"rendered":"Fernando Pessoa"},"content":{"rendered":"<p><del><a href=\"http:\/\/cabana-on.com\/Poemas\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/flower006.gif\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-1049\" src=\"http:\/\/cabana-on.com\/Poemas\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/flower006.gif\" alt=\"flower006\" width=\"143\" height=\"211\" \/><\/a><\/del><\/p>\n<article id=\"post-231\" class=\"post-231 post type-post status-publish format-standard hentry category-fernando category-consagrados tag-fernando-pessoa\">\n<header class=\"entry-header\">\n<h1 class=\"entry-title\"><a href=\"https:\/\/cabana-on.com\/Poemas\/?p=231\" rel=\"bookmark\">ODE MAR\u00cdTIMA<\/a><\/h1>\n<div class=\"entry-meta\"><span class=\"sep\">Publicado em\u00a0<\/span><a title=\"19:40\" href=\"https:\/\/cabana-on.com\/Poemas\/?p=231\" rel=\"bookmark\"><time class=\"entry-date\" datetime=\"2014-12-22T19:40:26-02:00\">22\/12\/2014<\/time><\/a><\/div>\n<\/header>\n<div class=\"entry-content\">\n<p>Sozinho, no cais deserto, a esta manh\u00e3 de Ver\u00e3o,<br \/>\nOlho pr\u00f3 lado da barra, olho pr\u00f3 Indefinido,<br \/>\nOlho e contenta-me ver,<br \/>\nPequeno, negro e claro, um paquete entrando.<br \/>\nVem muito longe, n\u00edtido, cl\u00e1ssico \u00e0 sua maneira.<br \/>\nDeixa no ar distante atr\u00e1s de si a orla v\u00e3 do seu fumo.<br \/>\nVem entrando, e a manh\u00e3 entra com ele, e no rio,<br \/>\nAqui, acol\u00e1, acorda a vida mar\u00edtima,<br \/>\nErguem-se velas, avan\u00e7am rebocadores,<br \/>\nSurgem barcos pequenos detr\u00e1s dos navios que est\u00e3o no porto.<br \/>\nH\u00e1 uma vaga brisa.<br \/>\nMas a minh\u2019alma est\u00e1 com o que vejo menos.<br \/>\nCom o paquete que entra,<br \/>\nPorque ele est\u00e1 com a Dist\u00e2ncia, com a Manh\u00e3,<br \/>\nCom o sentido mar\u00edtimo desta Hora,<br \/>\nCom a do\u00e7ura dolorosa que sobe em mim como uma n\u00e1usea,<br \/>\nComo um come\u00e7ar a enjoar, mas no esp\u00edrito.<\/p>\n<p>Olho de longe o paquete, com uma grande independ\u00eancia de alma,<br \/>\nE dentro de mim um volante come\u00e7a a girar, lentamente.<\/p>\n<p>Os paquetes que entram de manh\u00e3 na barra<br \/>\nTrazem aos meus olhos consigo<br \/>\nO mist\u00e9rio alegre e triste de quem chega e parte.<br \/>\nTrazem mem\u00f3rias de cais afastados e doutros momentos<br \/>\nDoutro modo da mesma humanidade noutros pontos.<br \/>\nTodo o atracar, todo o largar de navio,<br \/>\n\u00c9 \u2014 sinto-o em mim como o meu sangue \u2014<br \/>\nInconscientemente simb\u00f3lico, terrivelmente<br \/>\nAmea\u00e7ador de significa\u00e7\u00f5es metaf\u00edsicas<br \/>\nQue perturbam em mim quem eu fui\u2026<\/p>\n<p>Ah, todo o cais \u00e9 uma saudade de pedra!<br \/>\nE quando o navio larga do cais<br \/>\nE se repara de repente que se abriu um espa\u00e7o<br \/>\nEntre o cais e o navio,<br \/>\nVem-me, n\u00e3o sei porqu\u00ea, uma ang\u00fastia recente,<br \/>\nUma n\u00e9voa de sentimentos de tristeza<br \/>\nQue brilha ao sol das minhas ang\u00fastias relvadas<br \/>\nComo a primeira janela onde a madrugada bate,<br \/>\nE me envolve com uma recorda\u00e7\u00e3o duma outra pessoa<br \/>\nQue fosse misteriosamente minha.<\/p>\n<\/div>\n<\/article>\n<article id=\"post-229\" class=\"post-229 post type-post status-publish format-standard hentry category-fernando category-consagrados tag-fernando-pessoa\">\n<header class=\"entry-header\">\n<h1 class=\"entry-title\"><a href=\"https:\/\/cabana-on.com\/Poemas\/?p=229\" rel=\"bookmark\">POEMA EM LINHA RETA<\/a><\/h1>\n<div class=\"entry-meta\"><span class=\"sep\">Publicado em\u00a0<\/span><a title=\"19:36\" href=\"https:\/\/cabana-on.com\/Poemas\/?p=229\" rel=\"bookmark\"><time class=\"entry-date\" datetime=\"2014-12-22T19:36:53-02:00\">22\/12\/2014<\/time><\/a><\/div>\n<\/header>\n<div class=\"entry-content\">\n<p>Nunca conheci quem tivesse levado porrada.<br \/>\nTodos os meus conhecidos t\u00eam sido campe\u00f5es em tudo.<\/p>\n<p>E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,<br \/>\nEu tantas vezes irrespondivelmente parasita,<br \/>\nIndesculpavelmente sujo.<br \/>\nEu, que tantas vezes n\u00e3o tenho tido paci\u00eancia para tomar banho,<br \/>\nEu, que tantas vezes tenho sido rid\u00edculo, absurdo,<br \/>\nQue tenho enrolado os p\u00e9s publicamente nos tapetes das etiquetas,<br \/>\nQue tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,<br \/>\nQue tenho sofrido enxovalhos e calado,<br \/>\nQue quando n\u00e3o tenho calado, tenho sido mais rid\u00edculo ainda;<br \/>\nEu, que tenho sido c\u00f4mico \u00e0s criadas de hotel,<br \/>\nEu, que tenho sentido o piscar de olhos dos mo\u00e7os de fretes,<br \/>\nEu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado<br \/>\n[sem pagar,<br \/>\nEu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado<br \/>\nPara fora da possibilidade do soco;<br \/>\nEu, que tenho sofrido a ang\u00fastia das pequenas coisas rid\u00edculas,<br \/>\nEu verifico que n\u00e3o tenho par nisto tudo neste mundo.<\/p>\n<p>Toda a gente que eu conhe\u00e7o e que fala comigo<br \/>\nNunca teve um ato rid\u00edculo, nunca sofreu enxovalho,<br \/>\nNunca foi sen\u00e3o pr\u00edncipe \u2014 todos eles pr\u00edncipes \u2014 na vida\u2026<\/p>\n<p>Quem me dera ouvir de algu\u00e9m a voz humana<br \/>\nQue confessasse n\u00e3o um pecado, mas uma inf\u00e2mia;<br \/>\nQue contasse, n\u00e3o uma viol\u00eancia, mas uma cobardia!<br \/>\nN\u00e3o, s\u00e3o todos o Ideal, se os oi\u00e7o e me falam.<br \/>\nQuem h\u00e1 neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?<br \/>\n\u00d3 pr\u00edncipes, meus irm\u00e3os,<\/p>\n<p>Arre, estou farto de semideuses!<br \/>\nOnde \u00e9 que h\u00e1 gente no mundo?<\/p>\n<p>Ent\u00e3o sou s\u00f3 eu que \u00e9 vil e err\u00f4neo nesta terra?<\/p>\n<p>Poder\u00e3o as mulheres n\u00e3o os terem amado,<br \/>\nPodem ter sido tra\u00eddos \u2014 mas rid\u00edculos nunca!<br \/>\nE eu, que tenho sido rid\u00edculo sem ter sido tra\u00eddo,<br \/>\nComo posso eu falar com os meus superiores sem titubear?<br \/>\nEu, que venho sido vil, literalmente vil,<br \/>\nVil no sentido mesquinho e infame da vileza.<\/p>\n<\/div>\n<\/article>\n<article id=\"post-227\" class=\"post-227 post type-post status-publish format-standard hentry category-fernando category-consagrados tag-fernando-pessoa\">\n<header class=\"entry-header\">\n<h1 class=\"entry-title\"><a href=\"https:\/\/cabana-on.com\/Poemas\/?p=227\" rel=\"bookmark\">TABACARIA<\/a><\/h1>\n<div class=\"entry-meta\"><span class=\"sep\">Publicado em\u00a0<\/span><a title=\"19:32\" href=\"https:\/\/cabana-on.com\/Poemas\/?p=227\" rel=\"bookmark\"><time class=\"entry-date\" datetime=\"2014-12-22T19:32:34-02:00\">22\/12\/2014<\/time><\/a><\/div>\n<\/header>\n<div class=\"entry-content\">\n<p>N\u00e3o sou nada.<br \/>\nNunca serei nada.<br \/>\nN\u00e3o posso querer ser nada.<br \/>\n\u00c0 parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.<\/p>\n<p>Janelas do meu quarto,<br \/>\nDo meu quarto de um dos milh\u00f5es do mundo.<br \/>\nque ningu\u00e9m sabe quem \u00e9<br \/>\n( E se soubessem quem \u00e9, o que saberiam?),<br \/>\nDais para o mist\u00e9rio de uma rua cruzada constantemente por gente,<br \/>\nPara uma rua inacess\u00edvel a todos os pensamentos,<br \/>\nReal, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,<br \/>\nCom o mist\u00e9rio das coisas por baixo das pedras e dos seres,<br \/>\nCom a morte a por umidade nas paredes<br \/>\ne cabelos brancos nos homens,<br \/>\nCom o Destino a conduzir a carro\u00e7a de tudo pela estrada de nada.<\/p>\n<p>Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.<br \/>\nEstou hoje l\u00facido, como se estivesse para morrer,<br \/>\nE n\u00e3o tivesse mais irmandade com as coisas<br \/>\nSen\u00e3o uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua<br \/>\nA fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada<br \/>\nDe dentro da minha cabe\u00e7a,<br \/>\nE uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.<\/p>\n<p>Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.<br \/>\nEstou hoje dividido entre a lealdade que devo<br \/>\n\u00c0 Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,<br \/>\nE \u00e0 sensa\u00e7\u00e3o de que tudo \u00e9 sonho, como coisa real por dentro.<\/p>\n<p>Falhei em tudo.<br \/>\nComo n\u00e3o fiz prop\u00f3sito nenhum, talvez tudo fosse nada.<br \/>\nA aprendizagem que me deram,<br \/>\nDesci dela pela janela das traseiras da casa.<\/p>\n<\/div>\n<\/article>\n<article id=\"post-224\" class=\"post-224 post type-post status-publish format-standard hentry category-fernando category-consagrados tag-fernando-pessoa\">\n<header class=\"entry-header\">\n<h1 class=\"entry-title\"><a href=\"https:\/\/cabana-on.com\/Poemas\/?p=224\" rel=\"bookmark\">TODAS AS CARTAS DE AMOR\u2026<\/a><\/h1>\n<div class=\"entry-meta\"><span class=\"sep\">Publicado em\u00a0<\/span><a title=\"19:30\" href=\"https:\/\/cabana-on.com\/Poemas\/?p=224\" rel=\"bookmark\"><time class=\"entry-date\" datetime=\"2014-12-22T19:30:08-02:00\">22\/12\/2014<\/time><\/a><\/div>\n<\/header>\n<div class=\"entry-content\">\n<p>Todas as cartas de amor s\u00e3o<br \/>\nRid\u00edculas.<br \/>\nN\u00e3o seriam cartas de amor se n\u00e3o fossem<br \/>\nRid\u00edculas.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m escrevi em meu tempo cartas de amor,<br \/>\nComo as outras,<br \/>\nRid\u00edculas.<\/p>\n<p>As cartas de amor, se h\u00e1 amor,<br \/>\nT\u00eam de ser<br \/>\nRid\u00edculas.<\/p>\n<p>Mas, afinal,<br \/>\nS\u00f3 as criaturas que nunca escreveram<br \/>\nCartas de amor<br \/>\n\u00c9 que s\u00e3o<br \/>\nRid\u00edculas.<\/p>\n<p>Quem me dera no tempo em que escrevia<br \/>\nSem dar por isso<br \/>\nCartas de amor<br \/>\nRid\u00edculas.<\/p>\n<p>A verdade \u00e9 que hoje<br \/>\nAs minhas mem\u00f3rias<br \/>\nDessas cartas de amor<br \/>\n\u00c9 que s\u00e3o<br \/>\nRid\u00edculas.<\/p>\n<p>(Todas as palavras esdr\u00faxulas,<br \/>\nComo os sentimentos esdr\u00faxulos,<br \/>\nS\u00e3o naturalmente<br \/>\nRid\u00edculas.)<\/p>\n<\/div>\n<\/article>\n<article id=\"post-221\" class=\"post-221 post type-post status-publish format-standard hentry category-fernando category-consagrados tag-fernando-pessoa\">\n<header class=\"entry-header\">\n<h1 class=\"entry-title\"><a href=\"https:\/\/cabana-on.com\/Poemas\/?p=221\" rel=\"bookmark\">TENHO TANTO SENTIMENTO<\/a><\/h1>\n<div class=\"entry-meta\"><span class=\"sep\">Publicado em\u00a0<\/span><a title=\"18:43\" href=\"https:\/\/cabana-on.com\/Poemas\/?p=221\" rel=\"bookmark\"><time class=\"entry-date\" datetime=\"2014-12-22T18:43:17-02:00\">22\/12\/2014<\/time><\/a><\/div>\n<\/header>\n<div class=\"entry-content\">\n<p>Tenho tanto sentimento<br \/>\nQue \u00e9 freq\u00fcente persuadir-me<br \/>\nDe que sou sentimental,<br \/>\nMas reconhe\u00e7o, ao medir-me,<br \/>\nQue tudo isso \u00e9 pensamento,<br \/>\nQue n\u00e3o senti afinal.<br \/>\nTemos, todos que vivemos,<br \/>\nUma vida que \u00e9 vivida<br \/>\nE outra vida que \u00e9 pensada,<br \/>\nE a \u00fanica vida que temos<br \/>\n\u00c9 essa que \u00e9 dividida<br \/>\nEntre a verdadeira e a errada.<br \/>\nQual por\u00e9m \u00e9 a verdadeira<br \/>\nE qual errada, ningu\u00e9m<br \/>\nNos saber\u00e1 explicar;<br \/>\nE vivemos de maneira<br \/>\nQue a vida que a gente tem<br \/>\n\u00c9 a que tem que pensar.<\/p>\n<\/div>\n<\/article>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>ODE MAR\u00cdTIMA Publicado em\u00a022\/12\/2014 Sozinho, no cais deserto, a esta manh\u00e3 de Ver\u00e3o, 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