{"id":433,"date":"2014-12-24T00:31:26","date_gmt":"2014-12-24T02:31:26","guid":{"rendered":"http:\/\/cabana-on.com\/Poemas\/?p=433"},"modified":"2023-07-22T07:14:08","modified_gmt":"2023-07-22T10:14:08","slug":"alberto-caeiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cabana-on.com\/Poemas\/?p=433","title":{"rendered":"Alberto Caeiro"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/cabana-on.com\/Poemas\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/9kptGkeDZD.gif\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-1046\" src=\"http:\/\/cabana-on.com\/Poemas\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/9kptGkeDZD.gif\" alt=\"9kptGkeDZD\" width=\"356\" height=\"353\" \/><\/a><\/p>\n<header class=\"entry-header\">\n<article id=\"post-431\" class=\"post-431 post type-post status-publish format-standard hentry category-albertocaeiro category-home category-consagrados tag-alberto-caeiro\">\n<header class=\"entry-header\">\n<h1 class=\"entry-title\"><a href=\"https:\/\/cabana-on.com\/Poemas\/?p=431\" rel=\"bookmark\">A ESPANTOSA REALIDADE DAS COUSAS<\/a><\/h1>\n<div class=\"entry-meta\"><span class=\"sep\">Publicado em\u00a0<\/span><a title=\"00:25\" href=\"https:\/\/cabana-on.com\/Poemas\/?p=431\" rel=\"bookmark\"><time class=\"entry-date\" datetime=\"2014-12-24T00:25:59-02:00\">24\/12\/2014<\/time><\/a><\/div>\n<\/header>\n<div class=\"entry-content\">\n<p>A espantosa realidade das cousas<br \/>\n\u00c9 a minha descoberta de todos os dias.<br \/>\nCada cousa \u00e9 o que \u00e9,<br \/>\nE \u00e9 dif\u00edcil explicar a algu\u00e9m quanto isso me alegra,<br \/>\nE quanto isso me basta.<br \/>\nBasta existir para se ser completo.<\/p>\n<p>Tenho escrito bastantes poemas.<br \/>\nHei de escrever muitos mais. naturalmente.<\/p>\n<p>Cada poema meu diz isto,<br \/>\nE todos os meus poemas s\u00e3o diferentes,<br \/>\nPorque cada cousa que h\u00e1 \u00e9 uma maneira de dizer isto.<\/p>\n<p>\u00c0s vezes ponho-me a olhar para uma pedra.<br \/>\nN\u00e3o me ponho a pensar se ela sente.<br \/>\nN\u00e3o me perco a chamar-lhe minha irm\u00e3.<br \/>\nMas gosto dela por ela ser uma pedra,<br \/>\nGosto dela porque ela n\u00e3o sente nada.<br \/>\nGosto dela porque ela n\u00e3o tem parentesco nenhum comigo.<\/p>\n<p>Outras vezes oi\u00e7o passar o vento,<br \/>\nE acho que s\u00f3 para ouvir passar o vento vale a pena ter nascido.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o sei o que \u00e9 que os outros pensar\u00e3o lendo isto;<br \/>\nMas acho que isto deve estar bem porque o penso sem estorvo,<br \/>\nNem id\u00e9ia de outras pessoas a ouvir-me pensar;<br \/>\nPorque o penso sem pensamentos<br \/>\nPorque o digo como as minhas palavras o dizem.<\/p>\n<p>Uma vez chamaram-me poeta materialista,<br \/>\nE eu admirei-me, porque n\u00e3o julgava<br \/>\nQue se me pudesse chamar qualquer cousa.<br \/>\nEu nem sequer sou poeta: vejo.<br \/>\nSe o que escrevo tem valor, n\u00e3o sou eu que o tenho:<br \/>\nO valor est\u00e1 ali, nos meus versos.<br \/>\nTudo isso \u00e9 absolutamente independente da minha vontade.<\/p>\n<\/div>\n<\/article>\n<article id=\"post-428\" class=\"post-428 post type-post status-publish format-standard hentry category-albertocaeiro category-home category-consagrados tag-alberto-caeiro\">\n<header class=\"entry-header\">\n<h1 class=\"entry-title\"><a href=\"https:\/\/cabana-on.com\/Poemas\/?p=428\" rel=\"bookmark\">DIZES-ME<\/a><\/h1>\n<div class=\"entry-meta\"><span class=\"sep\">Publicado em\u00a0<\/span><a title=\"00:22\" href=\"https:\/\/cabana-on.com\/Poemas\/?p=428\" rel=\"bookmark\"><time class=\"entry-date\" datetime=\"2014-12-24T00:22:32-02:00\">24\/12\/2014<\/time><\/a><\/div>\n<\/header>\n<div class=\"entry-content\">\n<p>Dizes-me: tu \u00e9s mais alguma cousa<br \/>\nQue uma pedra ou uma planta.<br \/>\nDizes-me: sentes, pensas e sabes<br \/>\nQue pensas e sentes.<br \/>\nEnt\u00e3o as pedras escrevem versos?<br \/>\nEnt\u00e3o as plantas t\u00eam id\u00e9ias sobre o mundo?<br \/>\nSim: h\u00e1 diferen\u00e7a.<br \/>\nMas n\u00e3o \u00e9 a diferen\u00e7a que encontras;<br \/>\nPorque o ter consci\u00eancia n\u00e3o me obriga a ter teorias sobre as cousas:<br \/>\nS\u00f3 me obriga a ser consciente.<\/p>\n<p>Se sou mais que uma pedra ou uma planta? N\u00e3o sei.<br \/>\nSou diferente. N\u00e3o sei o que \u00e9 mais ou menos.<\/p>\n<p>Ter consci\u00eancia \u00e9 mais que ter cor?<br \/>\nPode ser e pode n\u00e3o ser.<br \/>\nSei que \u00e9 diferente apenas.<br \/>\nNingu\u00e9m pode provar que \u00e9 mais que s\u00f3 diferente.<\/p>\n<p>Sei que a pedra \u00e9 a real, e que a planta existe.<br \/>\nSei isto porque elas existem.<br \/>\nSei isto porque os meus sentidos mo mostram.<br \/>\nSei que sou real tamb\u00e9m.<br \/>\nSei isto porque os meus sentidos mo mostram,<br \/>\nEmbora com menos clareza que me mostram a pedra e a planta.<br \/>\nN\u00e3o sei mais nada.<\/p>\n<p>Sim, escrevo versos, e a pedra n\u00e3o escreve versos.<br \/>\nSim, fa\u00e7o id\u00e9ias sobre o mundo, e a planta nenhumas.<br \/>\nMas \u00e9 que as pedras n\u00e3o s\u00e3o poetas, s\u00e3o pedras;<br \/>\nE as plantas s\u00e3o plantas s\u00f3, e n\u00e3o pensadores.<br \/>\nTanto posso dizer que sou superior a elas por isto,<\/p>\n<p>Como que sou inferior.<br \/>\nMas n\u00e3o digo isso: digo da pedra, \u201c\u00e9 uma pedra\u201d,<br \/>\nDigo da planta, \u201c\u00e9 uma planta\u201d,<br \/>\nDigo de mim, \u201csou eu\u201d.<br \/>\nE n\u00e3o digo mais nada. Que mais h\u00e1 a dizer?<\/p>\n<\/div>\n<\/article>\n<article id=\"post-426\" class=\"post-426 post type-post status-publish format-standard hentry category-albertocaeiro category-home category-consagrados tag-alberto-caeiro\">\n<header class=\"entry-header\">\n<h1 class=\"entry-title\"><a href=\"https:\/\/cabana-on.com\/Poemas\/?p=426\" rel=\"bookmark\">\u00c9 NOITE<\/a><\/h1>\n<div class=\"entry-meta\"><span class=\"sep\">Publicado em\u00a0<\/span><a title=\"00:20\" href=\"https:\/\/cabana-on.com\/Poemas\/?p=426\" rel=\"bookmark\"><time class=\"entry-date\" datetime=\"2014-12-24T00:20:16-02:00\">24\/12\/2014<\/time><\/a><\/div>\n<\/header>\n<div class=\"entry-content\">\n<p>\u00c9 noite. A noite \u00e9 muito escura. Numa casa a uma grande dist\u00e2ncia<br \/>\nBrilha a luz duma janela.<br \/>\nVejo-a, e sinto-me humano dos p\u00e9s \u00e0 cabe\u00e7a.<br \/>\n\u00c9 curioso que toda a vida do indiv\u00edduo que ali mora, e que n\u00e3o sei quem \u00e9,<br \/>\nAtrai-me s\u00f3 por essa luz vista de longe.<br \/>\nSem d\u00favida que a vida dele \u00e9 real e ele tem cara, gestos, fam\u00edlia e profiss\u00e3o.<br \/>\nMas agora s\u00f3 me importa a luz da janela dele.<br \/>\nApesar de a luz estar ali por ele a ter acendido,<br \/>\nA luz \u00e9 a realidade imediata para mim.<br \/>\nEu nunca passo para al\u00e9m da realidade imediata.<br \/>\nPara al\u00e9m da realidade imediata n\u00e3o h\u00e1 nada.<br \/>\nSe eu, de onde estou, s\u00f3 veio aquela luz,<br \/>\nEm rela\u00e7\u00e3o \u00e0 dist\u00e2ncia onde estou h\u00e1 s\u00f3 aquela luz.<br \/>\nO homem e a fam\u00edlia dele s\u00e3o reais do lado de l\u00e1 da janela.<br \/>\nEu estou do lado de c\u00e1, a uma grande dist\u00e2ncia.<br \/>\nA luz apagou-se.<br \/>\nQue me importa que o homem continue a existir?<\/p>\n<\/div>\n<\/article>\n<article id=\"post-424\" class=\"post-424 post type-post status-publish format-standard hentry category-albertocaeiro category-home tag-alberto-caeiro\">\n<header class=\"entry-header\">\n<h1 class=\"entry-title\"><a href=\"https:\/\/cabana-on.com\/Poemas\/?p=424\" rel=\"bookmark\">GOZO OS CAMPOS<\/a><\/h1>\n<div class=\"entry-meta\"><span class=\"sep\">Publicado em\u00a0<\/span><a title=\"00:16\" href=\"https:\/\/cabana-on.com\/Poemas\/?p=424\" rel=\"bookmark\"><time class=\"entry-date\" datetime=\"2014-12-24T00:16:55-02:00\">24\/12\/2014<\/time><\/a><\/div>\n<\/header>\n<div class=\"entry-content\">\n<p>Gozo os campos sem reparar para eles.<br \/>\nPerguntas-me por que os gozo.<br \/>\nPorque os gozo, respondo.<br \/>\nGozar uma flor \u00e9 estar ao p\u00e9 dela inconscientemente<br \/>\nE ter uma no\u00e7\u00e3o do seu perfume nas nossas id\u00e9ias mais apagadas.<br \/>\nQuando reparo, n\u00e3o gozo: vejo.<br \/>\nFecho os olhos, e o meu corpo, que est\u00e1 entre a erva,<br \/>\nPertence inteiramente ao exterior de quem fecha os olhos<br \/>\n\u00c0 dureza fresca da terra cheirosa e irregular;<br \/>\nE alguma cousa dos ru\u00eddos indistintos das cousas a existir,<br \/>\nE s\u00f3 uma sombra encarnada de luz me carrega levemente nas \u00f3rbitas,<br \/>\nE s\u00f3 um resto de vida ouve.<\/p>\n<\/div>\n<\/article>\n<article id=\"post-422\" class=\"post-422 post type-post status-publish format-standard hentry category-albertocaeiro category-home category-consagrados tag-alberto-caeiro\">\n<header class=\"entry-header\">\n<h1 class=\"entry-title\"><a href=\"https:\/\/cabana-on.com\/Poemas\/?p=422\" rel=\"bookmark\">SE DEPOIS DE EU MORRER<\/a><\/h1>\n<div class=\"entry-meta\"><span class=\"sep\">Publicado em\u00a0<\/span><a title=\"00:11\" href=\"https:\/\/cabana-on.com\/Poemas\/?p=422\" rel=\"bookmark\"><time class=\"entry-date\" datetime=\"2014-12-24T00:11:22-02:00\">24\/12\/2014<\/time><\/a><\/div>\n<\/header>\n<div class=\"entry-content\">\n<p>Se depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia,<br \/>\nN\u00e3o h\u00e1 nada mais simples<br \/>\nTem s\u00f3 duas datas \u2014 a da minha nascen\u00e7a e a da minha morte.<br \/>\nEntre uma e outra cousa todos os dias s\u00e3o meus.<br \/>\nSou f\u00e1cil de definir.<br \/>\nVi como um danado.<br \/>\nAmei as cousas sem sentimentalidade nenhuma.<br \/>\nNunca tive um desejo que n\u00e3o pudesse realizar, porque nunca ceguei.<br \/>\nMesmo ouvir nunca foi para mim sen\u00e3o um acompanhamento de ver.<br \/>\nCompreendi que as cousas s\u00e3o reais e todas diferentes umas das outras;<br \/>\nCompreendi isto com os olhos, nunca com o pensamento.<br \/>\nCompreender isto corri o pensamento seria ach\u00e1-las todas iguais.<\/p>\n<p>Um dia deu-me o sono como a qualquer crian\u00e7a.<br \/>\nFechei os olhos e dormi.<br \/>\nAl\u00e9m disso, fui o \u00fanico poeta da Natureza.<\/p>\n<\/div>\n<\/article>\n<article id=\"post-420\" class=\"post-420 post type-post status-publish format-standard hentry category-albertocaeiro category-home category-consagrados tag-alberto-caeiro\">\n<header class=\"entry-header\">\n<h1 class=\"entry-title\"><a href=\"https:\/\/cabana-on.com\/Poemas\/?p=420\" rel=\"bookmark\">VIVE<\/a><\/h1>\n<div class=\"entry-meta\"><span class=\"sep\">Publicado em\u00a0<\/span><a title=\"00:05\" href=\"https:\/\/cabana-on.com\/Poemas\/?p=420\" rel=\"bookmark\"><time class=\"entry-date\" datetime=\"2014-12-24T00:05:32-02:00\">24\/12\/2014<\/time><\/a><\/div>\n<\/header>\n<div class=\"entry-content\">\n<p>Vive, dizes, no presente,<br \/>\nVive s\u00f3 no presente.<br \/>\nMas eu n\u00e3o quero o presente, quero a realidade;<br \/>\nQuero as cousas que existem, n\u00e3o o tempo que as mede.<\/p>\n<p>O que \u00e9 o presente?<br \/>\n\u00c9 uma cousa relativa ao passado e ao futuro.<br \/>\n\u00c9 uma cousa que existe em virtude de outras cousas existirem.<br \/>\nEu quero s\u00f3 a realidade, as cousas sem presente.<\/p>\n<p>N\u00e3o quero incluir o tempo no meu esquema.<br \/>\nN\u00e3o quero pensar nas cousas como presentes; quero pensar nelas<br \/>\ncomo cousas.<br \/>\nN\u00e3o quero separ\u00e1-las de si-pr\u00f3prias, tratando-as por presentes.<\/p>\n<p>Eu nem por reais as devia tratar.<br \/>\nEu n\u00e3o as devia tratar por nada.<\/p>\n<p>Eu devia v\u00ea-las, apenas v\u00ea-las;<br \/>\nV\u00ea-las at\u00e9 n\u00e3o poder pensar nelas,<br \/>\nV\u00ea-las sem tempo, nem espa\u00e7o,<br \/>\nVer podendo dispensar tudo menos o que se v\u00ea.<br \/>\n\u00c9 esta a ci\u00eancia de ver, que n\u00e3o \u00e9 nenhuma.<\/p>\n<\/div>\n<\/article>\n<\/header>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A ESPANTOSA REALIDADE DAS COUSAS Publicado em\u00a024\/12\/2014 A espantosa realidade das cousas \u00c9 a minha descoberta de todos os dias. 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